quinta-feira, 30 de abril de 2009

Filmaço! Não percam...

Está passando no Instituto Oi Futuro, aqui no Rio, na rua Dois de Dezembro, no Flamengo, uma das experiências cinematográficas mais bonitas que eu já assisti. Trata-se do longa de 76 minutos "Double Blind", da francesa Sophie Calle e do inglês Gregory Shepard, feito no longínquo ano de 1992.

Simples, comovente, original, inusitado - "Double Blind" (ou "No Sex Last Night", como também é conhecido) é o segundo filme que eu gostaria de ter feito - dos muitos que amo. O outro é Feitiço do Tempo.

Não contarei nada da história que é simplícima, quase clichê. Um road movie... Não torça o nariz dizendo "Mais um?" - afinal, não há nada mais parecido com um um filme do que uma estrada.

A beleza dos diálogos e monólogos, o uso originalíssimo das imagens - a tensão permanente entre fotografia e cinema, entre o tempo que corre e a vontade de retê-lo - o andamento falsamente lento que intensifica a poesia do texto, os muitos suspenses que sustentam a atenção - são muitas as qualidades narrativas do filme que é, ao mesmo tempo, documentário e drama, íntimo e intimista.

Depois espero falar mais sobre o filme, mas, em resumo, recomendo a todos assisti-lo - sobretudo aos interessados nas técnicas de narração, seja literária ou cinematográfica.
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domingo, 26 de abril de 2009

Fragmentos

Fiquei fascinado com a foto: acomodados num pedaço de espuma branca, estão uma pequena cabeça sem nariz em mármore branco e o resto de uma máscara mortuária em pedra negra onde se definem apenas os contornos do nariz, da boca e do lado direito do rosto. Três pequenas moedas de cobre oxidado completam o quadro. A cabeça seria de uma estátua de Cleópatra e a máscara mortuária de Marco Antonio e foram resgatadas do que pode ser a tumba perdida do casal de amantes suicidas. Mas ainda não há certeza sobre a descoberta.

Os mais curiosos podem pesquisar e descobrir detalhes tanto sobre a paixão de Cleópatra e Marco Antonio quanto sobre a descoberta da suposta tumba perdida. Vale a pena. Mas o que de fato me encanta são os despojos encontrados, pedaços de pedra sem quase nenhum valor não fosse a invisível pátina de história com que nosso olhar os recobre - e nos ilude. A mim fascina ver ali, lado a lado, esses "fragmentos amorosos" que repousavam há mais de dois mil anos embaixo da terra com a mesma singeleza como os que nós mesmos guardamos em caixas e gavetas que raramente abrimos, anônimos e sem valor, mas tão preciosos.

Há na máscara de Marco Antonio um sorriso de satisfação tão banal, tão comum que chega a ser comovente. Poderia ser de qualquer um, em qualquer tempo, esse sorriso de calma felicidade que se a gente procurar vai certamente encontrar em alguma foto - antiga ou recente, tanto faz: as fotos são nossas interinas máscaras mortuárias.

É aquele ar de felicidade que só mesmo a mágoa ou o desencanto que rondam o amor um dia poderiam chamar simplesmente de "cara de bobo". Eu acho uma graça imensa, uma graça de dois mil e tantos anos, ver a cara de bobo de Marco Antonio por sua Cleópatra estampada em pedra com precisão fotográfica.

E veja, leitor, que ao final foi o que sobrou. De toda a grandeza e fúria e êxtase e dor, de toda uma história que nem podemos bem precisar se ou o quanto dela somos devedores, de tudo isto restaram esses pedaços de pedra onde um artista delicado registrou um sorriso. De toda essa saga vaidosa e talvez inútil restou um sorriso lavrado em pedra. A quem pertence o sorriso? A qualquer um, a humanidade inteira. Porque Marco Antonio, afinal, quem terá sido? Jamais saberemos...

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sábado, 25 de abril de 2009

São Jorge e o Dragão

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Salve, Jorge!

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um dia o mundo vai ser assim...

Uma imensa e singela curtição...

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Mar de dentro

Debruçado na mureta de pedra, assistia as ondas rebentarem com violência contras as rochas lá embaixo. Tudo tremia a cada impacto e o fragor era apavorante, mas a névoa delicada de gotículas frias e salgadas que subia do mar e envolvia seu corpo o acalmava. De novo, mais uma vez, como sempre de tempos em tempos, quando menos esperava ou menos gostaria, a angústia se instalara, igual, sem novidade. Não há novidade na dor. Nem nas dores esperadas e inevitáveis da vida, nem naquela dor tão particular, tão sem palavras. Não havia aonde ir, nem a quem recorrer. Sentia-se melhor ali, entre anônimos, sob o vago risco de ser arrastado por uma onda malévola. Sentia-se melhor ali, exposto à brutalidade e à delicadeza do mar ambíguo como a vida, como ele mesmo. Havia o cheiro e o sabor do mar, o som furioso das ondas, o tremor sob seus pés, o frescor da névoa em seu rosto, os sentidos todos alinhados por força da atenção exigida pelo mar primordial e terrível. Não havia lugar ali para dor ou angústia. Sim, ali era possível morrer - por acaso ou por vontade própria. Bastava um gesto impensado, um ímpeto ou uma distração. Só ali era possível sentir o quanto de fato se quer viver. 

Ele queria viver. Ele queria muito viver. E sentia que iria querer viver até o último momento de sua vida. Até o último momento ele enfrentaria sua dor à espera que, como as ondas, ela se desfizesse numa névoa de ternura. Ele lutaria até que esse equívoco a que chamava "eu" se dissolvesse inteiramente e ele fosse então apenas vida, pleno dos poderes que apenas ao Homem foram confiados. Sagrada então se tornava sua dor - por trazê-lo até aqui, a este momento de silencioso e solitário júbilo. Pouco importava se de fato ele estivesse irremediavelmente perdido aos olhos alheios, se para ele não houvesse mais solução, condenado a para sempre repetir os mesmos erros... Melhor assim: significava que ele então já ingressara no âmbito do Milagre. 

Escurecia. Deixou-se ficar mais um pouco, os sentidos todos a prumo, a mente já quase vazia, como se meditasse. Já era noite quando sentiu que era hora de ir.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

A origem de toda a corrupção

Garrote fiscal 

Joelmir Betting, 15.04.2009

Segundo o Impostômetro, da Associação Comercial de São Paulo, a arrecadação total de tributos federais, estaduais e municipais, desde 1º de janeiro, vai alcançar R$ 300 bilhões, redondão, nesta sexta-feira, 17 de abril.

Ano passado, essa marca foi atingida dia 14, três dias antes. E em 2007, quase meio m~es depois, em 1º de maio.

Na marcha de agora, os brasileiros pagarão de impostos cerca de R$ 1 trilhão, este ano - ou R$ 2,8 bilhões por dia.

Carga tributária da ordem de 38% do PIB, para uma capacidade contributiva da economia e da sociedade de, no máximo, 24% do PIB.

É garrote puro.

* * *

As causas da corrupção podem ser várias, complexas - históricas, psicológicas, sociológicas - mas sua origem é uma só: dinheiro fácil e farto. Enquanot o brasileroacrditar na farsa que opõe ricos e pobres e elege o Estado como mediador e justiceiro desse conflito haverá corrupção. 

Ninguém que eu saiba já fez a conta, mas se juntarmos o que um pobre paga em impostos embutidos nos preços - além do bolsa-corrupção que onera o custo dos serviços para alimentar "caixinhas", isos para não falar do superfaturamento puro e simples - talvez descubramos estarrecidos que seria o suficiente para pagar u mplano de saúde básico e uma escola simples para os filhos.

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terça-feira, 14 de abril de 2009

I dreamed a dream

Susan Boyle tem 47 anos e tem um sonho: ser cantora.

I Dreamed a Dream

There was a time, when men were kind
And their voices were soft
And their words were inviting

There was a time, when love was blind
And the world was a song
And the song was exciting
There was a time it all went wrong

I dreamed a dream in time gone by
When hope was high and life worth living
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving

Then I was young and unafraid
And dreams were made and used and wasted
There was no ransom to be paid
No song unsung, no wine untasted

But the tigers come at night
With their voices soft as thunder
As they turn your hope apart
As they turn your dreams to shame

He slept a summer by my side
He filled my dreams with endless wonder
He took my childhood in his stride
But he was gone when autumn came

And still I dream he'd come to me
That we would live the years together
But there are dreams that cannot be
And there are storms we cannot weather

I had a dream my life would be
So different from the hell I'm living
So different now from what it seemed
Now life has killed the dream I dreamed

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

You've changed (Te estranho)

Há uns dez anos, eu fiz uma versão de "You've changed", um clássico que teve sua "versão definitiva" na voz da "última" Billie Holiday - a de "Lady in Satan", se não me engano seu último LP - lindíssimo, trágico, irônico, total...

Procurei manter a sonoridade das palavras e das rimas integralmente - e quase consegui. Fazia tempo que não lia esse texto e sinceramente gostei muito do resultado. Tudo bem, como dizia Mário de Andrade, "Não há pai que, sendo pai, abandone o filho corcunda que se afoga, para salvar o lindo herdeiro do vizinho".

Para que vocês possam ouvir a letra original, coloquei logo abaixo da versão, a gravação de Billie.

Te estranho

Te estranho...
Teus olhos já não tem mais brilho,
Teu riso é só um risco frio
Cortando meu coração...
Te estranho...

Te estranho...
Teus beijos tão sem cuidado,
Você chateado a meu lado, 
Eu não consigo entender...
Te estranho...

Você já não diz mais que me ama
Eu me sinto como outra qualquer
Até das estrelas você reclama
Eu não sei mais o que você quer.

Te estranho...
Mas será que esse anjo um dia existiu?
A verdade é que meu sonho ruiu:
É isso e ponto final.
Te estranho....


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domingo, 12 de abril de 2009

Dos livros velhos

Todo começo de ano faço ao menos uma promessa que, sei, não irei cumprir: 'Este ano, não vou comprar livros". Eu já tenho livros de sobra. Livros suficientes para uma vida ou duas. Livros que me teriam tornado sábio se os tivesse lido todos. Pois, como todo sujeito que adora livros, nem sempre leio os livros que compro, e quando os leio, nem sempre os termino. Posso largar um livro pela metade, começar pelo meio, ler apenas uma parte, me encantar apenas com o título... O mais comum é ler vários ao mesmo tempo e terminar, quem sabe, um ou dois. 

Logo nas primeiras semanas do ano, a promessa é atenuada: "Este ano, comprarei menos livros", e estabeleço como critério o grau de "interesse imediato" que o livro me provoca. Porque há certos encontros que são, digamos, mediúnicos: você pensa um livro ou autor e dá de cara com ele em seguida. Ou simplesmente calha dele estar intimamente relacionado com outro que estou lendo. Enfim,esse parece um critério justo. Mas, claro, ele também é facilmente manipulável, como tudo mais, se a má intenção se instala. Então o jeito é ser honesto e deixar sempre uma margem para o "irresistível".

E é nessa categoria que enquadro este livro que agora carrego para cima e para baixo, onde quer que eu vá e haja uma presumida espera. Levo-o então como quem convida um amigo para que lhe faça companhia, uma amigo que gostamos de ouvir ou de estar simplesmente junto.

 Antes, uma digressão a guisa de suspense. Há anos não compro livros novos. Para não dizer "nunca", direi "raramente", muito raramente. Porque são caros. Aliás, acho mesmo que os livros seguem uma lógica errada. Deveriam ser laçados muito baratos e, se o merecessem, ir ganhando valor com o tempo... Boa parte do que se lança são livros sem a menor importância, que quase nada têm a dizer ou, pior, propalam o erro e o engano. Ou seja, não são livros: são resmas de papel bem encapadas e cobertas de letras inúteis ou mentirosas. Desses, alguns costumam ser um sucesso! Há, claro, muita coisa boa ou ao menos tentadora. Como as editoras se obrigam a tiragens altas para baratear o custo primário do livro e permitir que a venda de apenas uma parte cubra o investimento total da produção, é certo que haverá encalhe. Prefiro então esperar e ir ao encontro deles no balcão de saldo dos sebos.

O que não significa que despreze os livros usados ou simplesmente velhos. Acontece que há maus leitores, que cuidam mal de seus livros; e há maus editores, que os imprimem em papel vagabundo e mal encadernados. Fora esses, os livros velhos e usados me comovem ainda mais. São como essas trilhas que descobrimos às vezes no meio do mato, onde se percebem os sinais da passagem de outros seres.

Então como não me encantar com esta edição de bolso de Walt Whitman que agora carrego comigo para todo canto? Foi amor à primeira vista. O livro é mais velho do que eu e está inteiro! A capa encardiu um pouco, mas as páginas do miolo continuam brancas. Apesar do formato de bolso (The Portable Walt Whitman tem exatos 18 por 11,5 cm) e das quase 700 páginas, a encadernação de qualidade permanece intacta, sem que nenhuma folha tenha se soltado. A lombada, sim, ganhou no alto um pedaço de durex e certamente merece mais outro embaixo, além de um reforço em toda a extensão, exatamente na marca onde o livro se abre. Foi editado pela americana Viking Press em 1945, mas o meu exemplar é da quarta edição, feita em janeiro de 1955, e foi comprado em um das duas lojas da Guanabara Jornais e Revistas, uma no aeroporto Santos Dumont e a outra no Galeão. Em qual das duas exatamente? Quando? Por quem? Nada é possível deduzir das poucas linhas sublinhadas e das duas palavras escritas num canto de página numa letra vagamente jovem e masculina.  

A introdução de Mark van Doren e o texto em prosa Democratic Vistas, de Whitman, são os mais vivamente assinalados, um a caneta e o outro a lápis, o que nos induz a pensar que o livro, comprado talvez para matar o tempo num saguão de aeroporto ou as muitas horas de um vôo longo, foi lido também em outras ocasiões.

Mais de 50 anos depois, ainda estará vivo o primeiro comprador do livro? Infelizmente, que tenham se desfeito dele é indício da morte de seu dono: o sebo é em geral o destino que os herdeiros dão às velhas bibliotecas. Por outro lado, se em 1956, o dono original tivesse 30 anos, estaria agora com 85 anos, uma idade nada surpreendente de se alcançar hoje e dia. O entusiasmo presumido nas linhas sublinhadas faz imaginar alguém engajado no espírito daquele momento muito exato da história brasileira que corresponde ao governo de JK - nosso momento mais whitmaniano - e talvez o único. Cinqüenta nos depois, o que pensa ou pensava ele do Brasil a que chegamos?

Veja, leitor, o quanto pode haver num livro velho... O eterno espírito de Walt Whitman, o espectro de seu antigo dono; minha imaginação a misturá-los; meu afeto a acolhe-los os dois com igual simpatia. Na fato, sou eu a novidade e é que com reverente carinho que me acerco deles, pois a jornada será longa: quem pode dizer onde estaremos eu e o livro daqui a 50 anos?

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Gran Torino

Sou fã de Clint Eastwood, de todos os Clint Eastwood que existem: o diretor, o ator, o ícone; o músico, o produtor. Uma das brincadeiras do meu repertório é fingir que não sei quem teria forjado a máxima "Never complain, never explain" ("Nunca se queixe, nunca se explique"): se Clint ou Wittgenstein (Na verdade, acho que se trata de um desses ditados anônimos que resumem o espírito de uma época, de um povo, de uma pessoa).

Foi com esse olhar que assisti "Gran Torino". Certamente não é o melhor Eastwood, mas tem sua marca autoral: a câmera bem natural, com os cortes fluindo quase invisíveis, sem firulas, sempre a serviço da narrativa, sem supresas. Gosto disso, de narrativas competentes, de estilos secos e exatos. 

Talvez seja mera obviedade ter sentido um certo clima de despedida no filme: no próximo dia 31 de maio, Clint fará 79 anos.

Há diversas interpretações sobre o filme, especialmente as sociológicas. Nesse sentido, eu ressaltaria um aspecto que parece evidente: a América é a terra dos imigrantes. E, em especial, para dar um tom mais ideológico: dos imigrantes que lutam por liberdade, "The land of opportunity". Essa é a crença que embala o filme e, creio, o próprio Eastwood.

Sob o ponto de vista individual, psicológico, ético, é um filme sobre o apego e desapego, o valor da vida, e, sobretudo, um filme sobre o amor. O consciente martírio é a fórmula de Kowalsky para sintetizar todos esses conceitos num ato único.

A iminência da morte fisiológica (Kowalsky cuspindo sangue anuncia próximidade da morte) "enfraquece" o martírio, porque sua escolha acaba por soar como mera antecipação do inevitável. Mas também pode ser visto, me ocorre agora, como uma "vitória sobre a morte" e, portanto, sobre a própria Natureza. Nesse sentido, a gang é uma "metáfora da Natureza", de sua racionalidade perversa, enquanto Kowalsky encarna o Homem e seu "dilema civilizador": produzir justiça e não vingança - isto é, não aderir, ou melhor até, renunciar à "violência natural" e impor-se a disciplina civilizatória que, ao reprimir os impulsos, instaura a liberdade (individual) e a igualdade (coletiva). 

Não é um filmaço, mas, no final,  Clint ao piano (suspeito) cantando com voz sussurrada sua balada "Gran Torino", enquanto o carro se perde na estrada que margeia "a grande água" (um lago, um rio, o mar?) é um charme comovente e inesperado.

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terça-feira, 7 de abril de 2009

Raridade livresca

Encontrei sem querer num sebo da Luis de Camões um livro que me é muito caro, porque foi o primeiro que li sobre o Tarot: "Tarô ou a máquina de imaginar", de Alberto Cousté. E, o mais interessante de tudo: tradução de Ana Cristina César, a escritora de "A teus pés".

O livro em si  é muito bom e sabê-lo traduzido por Ana C, dá a ele uma aura de intimidade, de coisa partilhada por meio de olhares, gestos e silêncios - um sentimento inevitável depois que se lê "A teus pés", um ligo em que o confessional se equilibra numa linguagem alusiva, quase cifrada.

Não cheguei a conhecer Ana, mas ela era amiga de uma grande amiga minha, o que reforçou desde sempre essa sensação de proximidade que tenho com ela. Desde a primeira leitura que fiz de seu livro, compartilho de seu "sentimento de mundo" e sua morte, lembro bem do dia, me doeu como se tivesse de fato perdido um amigo.

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A meditação e o corpo

S. N. Goenka é o professor birmanês que orienta a meditação Vipassana que pratico. Radicado na Índia desde os anos 60, Goenka espalhou centros de meditação pelo mundo todo, sempre fiel a interpretação dos ensinamentos de Buda que trouxe da Birmânia e que, segundo ele, havia se perdido na Índia.

O que me encanta nessa interpretação é sua simplicidade e coerência: nada de cânticos, mantras ou qualquer tipo de vocalização ou mentalização; nenhuma prespiração especial, nenhum "olhar" diferente. Apenas sente de penas cruzadas confortavelmente a frente do corpo, coluna reta (ainda é a melhor postura para meditar, mas se outra lhe parecer melhor, tudo bem), os olhos fechados, a respitação normal e toda a atenção da mente concentrada nas sensações do corpo. E é só. O alcance e a profundidade da técnica só vêm com a prática.

Em entrevista para a newsletter trimestral distribuída entre os alunos antigos, Goenka diz algo sobre o corpo que resolvi reproduzir aqui:

O senhor pode explicar o conceito do Buda de que o universo inteiro está contido no corpo?

De fato, dentro deste corpo gira a roda do vir a ser. Dentro deste corpo está a causa que coloca em movimento a roda do vir a ser. E, portanto, dentro deste corpo pode também ser encontrado o caminho para atingir a libertação da roda do sofrimento. Por esta razão, a investigação do corpo – a direta compreensão correta da realidade física – é de extrema importância para um meditador cujo objetivo seja a libertação de todos os condicionamentos.


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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Por que não houve outro 11/9?

A Slate publicou uma matéria longa que aborda essa pergunta de diferentes pontos de vista. Confiram...

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domingo, 5 de abril de 2009

Versos ao vento

Desde que voltara, ainda não conseguira ir à praia. Quando fazia sol, não tinha tempo; quando tinha tempo, não fazia sol. Sentia falta do mar. Gostava do mato, de sua minuciosa, sempre surpreendente e inumerável diversidade onde tudo é sempre muito, tantas são as árvores, os insetos, os pássaros, os cheiros, os ruídos. 

Mas era na aridez da praia onde se sentia ele próprio. A economia da paisagem o acalmava. Apenas mar, areia, pedra, céu, nuvens eventuais, peixes invisíveis e raras gaivotas, às vezes longinquas, às vezes quase ao alcance da mão. E, gente - gente chegando aos poucos; gente, mais gente, muita gente, gente demais: e então era hora de ir embora. Por isso, procurava chegar bem cedo, o mais cedo que pudesse, para sair assim que a praia começasse a encher além da conta. Não que não gostasse de gente, mas a essência da praia era a imensidão e o vazio.

O sábado amanhecera incerto, mas logo que o primeiro raio de sol legítimo - quente, luminoso e firme - abriu caminho pelas frestas da cortina e desenhou seu rosto redondo e vazio na parede, partiu sem vacilar para a praia. Levou consigo Walt Whitman, "The Portable Walt Whitman", a quem prometera carregar para todos os cantos da cidade. 

Sim, desde a primeira página percebera que se tornaria impossível viver sem a presença diária de Walt Whitman lhe sussurrando poemas que o enchiam de uma alegria que só Mozart era capaz até então. "Como pudera viver tanto tempo sem Walt Whitman?", ele se perguntava, enquanto lia para o vento os versos de Song to Myself. 

Imaginava as palavras se espalhando pela cidade junto com o sol até chegar à janela dela e tomar seu quarto sem cerimônia. E então ela despertará da tirania de um estranho sonho que lhe entorpecia a alma e roubava parte do vigor e da alegria. Era isso! Despertar para o sim e para o agora. Despertar o corpo sob a alma adormecida. Despertar. Como explicar que não há culpa quando se está dormindo? Como explicar que não há culpa quando se está desperto? Como explicar que não há culpa e que não importa o passado, porque o passado é sempre a precária escada que usamos para chegar até aqui, até agora - que é sempre só o que existe? Como explicar? Para que explicar? Basta esse sol na praia quase vazia e os versos de Walt Whitman. Basta acreditar que merecemos.

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Por uma filosofia do corpo

(...) e freqüentemente me perguntei se até hoje a filosofia, de modo geral, não teria sido apenas uma interpretação do corpo e uma má compreensão do corpo".

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, tradução Paulo Cézar de Souza

* * * 

Este é um trecho logo do início do prólogo tão belo quanto honesto, duas qualidades raríssimas quando se trata de textos filosóficos. A despeito de todos os seus erros e contradições, admitidos ou não, Nietzsche restitui à filosofia um senso de honestidade que me impressiona muito. A abertura desse prólogo é um exemplo dessa disposição de admitir limitações, de exercer uma orgulhosa cautela em face das próprias idéias. 

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sábado, 4 de abril de 2009

Song of Myself


I CELEBRATE myself, and sing myself, 
And what I assume you shall assume, 
For every atom belonging to me as good belongs to you. 

I loafe and invite my soul, 
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. 

My tongue, every atom of my blood, form'd from this soil, this air, 
Born here of parents born here from parents the same, and their 
parents the same, 
I, now thirty-seven years old in perfect health begin, 
Hoping to cease not till death. 

Creeds and schools in abeyance, 
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten, 
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard, 
Nature without check with original energy. 

                                           2

Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with 

perfumes, 
I breathe the fragrance myself and know it and like it, 
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it. 

The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the 
distillation, it is odorless, 
It is for my mouth forever, I am in love with it, 
I will go to the bank by the wood and become undisguised and naked, 
I am mad for it to be in contact with me. 

The smoke of my own breath, 
Echoes, ripples, buzz'd whispers, love-root, silk-thread, crotch and 
vine, 
My respiration and inspiration, the beating of my heart, the passing 
of blood and air through my lungs, 
The sniff of green leaves and dry leaves, and of the shore and 
dark-color'd sea-rocks, and of hay in the barn, 

The sound of the belch'd words of my voice loos'd to the eddies of 
the wind, 
A few light kisses, a few embraces, a reaching around of arms, 
The play of shine and shade on the trees as the supple boughs wag, 
The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields 
and hill-sides, 
The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising 
from bed and meeting the sun. 

Have you reckon'd a thousand acres much? have you reckon'd the 
earth much? 
Have you practis'd so long to learn to read? 
Have you felt so proud to get at the meaning of poems? 

Stop this day and night with me and you shall possess the origin of 
all poems, 
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions 
of suns left,) 
You shall no longer take things at second or third hand, nor look 
through the eyes of the dead, nor feed on the spectres in 
books, 
You shall not look through my eyes either, nor take things from me, 
You shall listen to all sides and filter them from your self. 

                                           3

I have heard what the talkers were talking, the talk of the 

beginning and the end, 
But I do not talk of the beginning or the end. 

There was never any more inception than there is now, 
Nor any more youth or age than there is now, 
And will never be any more perfection than there is now, 
Nor any more heaven or hell than there is now. 

Urge and urge and urge, 
Always the procreant urge of the world. 

Out of the dimness opposite equals advance, always substance and 
increase, always sex, 
Always a knit of identity, always distinction, always a breed of 
life. 
To elaborate is no avail, learn'd and unlearn'd feel that it is so. 

Sure as the most certain sure, plumb in the uprights, well 
entretied, braced in the beams, 
Stout as a horse, affectionate, haughty, electrical, 
I and this mystery here we stand. 

Clear and sweet is my soul, and clear and sweet is all that is not 
my soul. 

Lack one lacks both, and the unseen is proved by the seen, 
Till that becomes unseen and receives proof in its turn. 

Showing the best and dividing it from the worst age vexes age, 
Knowing the perfect fitness and equanimity of things, while they 
discuss I am silent, and go bathe and admire myself. 

Welcome is every organ and attribute of me, and of any man hearty 
and clean, 
Not an inch nor a particle of an inch is vile, and none shall be 
less familiar than the rest. 

I am satisfied - I see, dance, laugh, sing; 
As the hugging and loving bed-fellow sleeps at my side through the 
night, and withdraws at the peep of the day with stealthy 
tread, 
Leaving me baskets cover'd with white towels swelling the house with 
their plenty, 
Shall I postpone my acceptation and realization and scream at my 
eyes, 
That they turn from gazing after and down the road, 
And forthwith cipher and show me to a cent, 
Exactly the value of one and exactly the value of two, and which is 
ahead? 

                                           4

Trippers and askers surround me, 

People I meet, the effect upon me of my early life or the ward and 
city I live in, or the nation, 
The latest dates, discoveries, inventions, societies, authors old 
and new, 
My dinner, dress, associates, looks, compliments, dues, 
The real or fancied indifference of some man or woman I love, 
The sickness of one of my folks or of myself, or ill-doing or loss 
or lack of money, or depressions or exaltations, 
Battles, the horrors of fratricidal war, the fever of doubtful news, 
the fitful events; 
These come to me days and nights and go from me again, 
But they are not the Me myself. 

Apart from the pulling and hauling stands what I am, 
Stands amused, complacent, compassionating, idle, unitary, 
Looks down, is erect, or bends an arm on an impalpable certain rest, 
Looking with side-curved head curious what will come next, 
Both in and out of the game and watching and wondering at it. 

Backward I see in my own days where I sweated through fog with 
linguists and contenders, 
I have no mockings or arguments, I witness and wait. 

                                           5

I believe in you my soul, the other I am must not abase itself to 

you, 
And you must not be abased to the other. 

Loafe with me on the grass, loose the stop from your throat, 
Not words, not music or rhyme I want, not custom or lecture, not 
even the best, 
Only the lull I like, the hum of your valved voice. 

I mind how once we lay such a transparent summer morning, 
How you settled your head athwart my hips and gently turn'd over 
upon me, 
And parted the shirt from my bosom-bone, and plunged your tongue 
to my bare-stript heart, 
And reach'd till you felt my beard, and reach'd till you held my 
feet. 

Swiftly arose and spread around me the peace and knowledge that pass 
all the argument of the earth, 
And I know that the hand of God is the promise of my own, 
And I know that the spirit of God is the brother of my own, 
And that all the men ever born are also my brothers, and the women 
my sisters and lovers, 
And that a kelson of the creation is love, 
And limitless are leaves stiff or drooping in the fields, 
And brown ants in the little wells beneath them, 
And mossy scabs of the worm fence, heap'd stones, elder, mullein and 
poke-weed. 

                                           6

A child said What is the grass? fetching it to me with full hands; 

How could I answer the child? I do not know what it is any more 
than he. 

I guess it must be the flag of my disposition, out of hopeful green 
stuff woven. 

Or I guess it is the handkerchief of the Lord, 
A scented gift and remembrancer designedly dropt, 
Bearing the owner's name someway in the corners, that we may see 
and remark, and say Whose? 

Or I guess the grass is itself a child, the produced babe of the 
vegetation. 

Or I guess it is a uniform hieroglyphic, 
And it means, Sprouting alike in broad zones and narrow zones, 
Growing among black folks as among white, 
Kanuck, Tuckahoe, Congressman, Cuff, I give them the same, I 
receive them the same. 

And now it seems to me the beautiful uncut hair of graves. 

Tenderly will I use you curling grass, 
It may be you transpire from the breasts of young men, 
It may be if I had known them I would have loved them, 
It may be you are from old people, or from offspring taken soon out 
of their mothers' laps, 
And here you are the mothers' laps. 

This grass is very dark to be from the white heads of old mothers, 
Darker than the colorless beards of old men, 
Dark to come from under the faint red roofs of mouths. 

O I perceive after all so many uttering tongues, 
And I perceive they do not come from the roofs of mouths for 
nothing. 

I wish I could translate the hints about the dead young men and 
women, 
And the hints about old men and mothers, and the offspring taken 
soon out of their laps. 

What do you think has become of the young and old men? 
And what do you think has become of the women and children? 

They are alive and well somewhere, 
The smallest sprout shows there is really no death, 
And if ever there was it led forward life, and does not wait at the 
end to arrest it, 
And ceas'd the moment life appear'd. 

All goes onward and outward, nothing collapses, 
And to die is different from what any one supposed, and luckier. 

                                           7

Has any one supposed it lucky to be born? 

I hasten to inform him or her it is just as lucky to die, and I know 
it. 

I pass death with the dying and birth with the new-wash'd babe, and 
am not contain'd between my hat and boots, 
And peruse manifold objects, no two alike and every one good, 
The earth good and the stars good, and their adjuncts all good. 

I am not an earth nor an adjunct of an earth, 
I am the mate and companion of people, all just as immortal and 
fathomless as myself, 
(They do not know how immortal, but I know.) 

Every kind for itself and its own, for me mine male and female, 
For me those that have been boys and that love women, 
For me the man that is proud and feels how it stings to be slighted, 
For me the sweet-heart and the old maid, for me mothers and the 
mothers of mothers, 
For me lips that have smiled, eyes that have shed tears, 
For me children and the begetters of children. 

Undrape! you are not guilty to me, nor stale nor discarded, 
I see through the broadcloth and gingham whether or no, 
And am around, tenacious, acquisitive, tireless, and cannot be 
shaken away. 

                                           ***

O poema segue, imenso e cósmico, por mais não sei quantas páginas: um poema para a vida inteira clique para ler

Vale também um passeio pelo The Walt Whitman Archive de onde tirei a foto que ilustra o post.

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A verdadeira crise

"The crisis of our time is a crisis of intellectual integrity."
Jeffrey Nyquist, Speaking Truth to Power

"When we don’t know who we are, we forget the real purpose of things."
Jeffrey Nyquist, When Fortune Turns Against Us

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