"Abrindo mão das próprias convicções (se é que um dia as teve), aliando-se ao que há de mais podre no estado, gastando rios de dinheiro, jogando sujo, usando descaradamente a máquina estadual, federal e universal, beneficiando-se até de um feriado mal intencionado, enfim, com tudo isso, Eduardo Paes só conseguiu ganhar de Gabeira por 50 mil míseros votos." leia tudo
... e, no entanto, eu sigo vivendo entre júbilos extremos, fingindo - sempre em nome da justiça - não saber onde acaba a indiferença e começa o desprezo ou quando a bondade é apenas o nome que invento para minha fraqueza - pois, se me dispo dessas ilusões de autoridade e grandeza, o que resta nem nada é ainda - de tão pequeno, como qualquer coisa que de ilusões se dispa.
E é então que tudo deveria começar... Mas como suportar essa nudez? Quanto tempo até que a alma aprenda a se adequar ao corpo, a esse tempo que flui sempre para frente - até o fim? Quantas mortes ainda até a morte definitiva - suposto portal para não se sabe o que não será mais a vida - esta força que ordena a matéria dispersa e a faz durar, durar, durar...
"Que as rosas não se desfaçam em borboletas e das macieiras não brotem diamantes não é mais surpreendente que as rosas, as borboletas, a macieira e os diamantes".
Em cada semente todas as árvores, em cada cópula todos os homens. Infinidade de seres finitos que se sucedem sem cessar, a vida segue sendo "eterna enquanto dura".
Por isso o sexo pulsa - agora, sempre - em toda parte: nos insetos e nas flores, nas vitrines, nas mulheres belas e nas feias, em todos os bichos e em todos os homens, nas fotos, nas poses, em todos os olhos - seja projeto, frustração ou fato - não importa, em todas as taras e vícios, em todas as canções e poemas, em tudo que é escrito e falado - pulsa - coração da rua banhada de sol - Ipanema mítica - "só por causa do amor, só por causa do amor, só por causa do amor..."
Sexo - em tudo, por tudo: no sexo a eternidade da vida.
Brutal, selvagem, a vida desafia o homem a possuí-la porque os olhos dele parecem desvendá-la. Ela quer saber-se e o homem, cheio de vida, quer domá-la.
Por isso ao homem soa tão repugnante o apelo para que renuncie à vida. Basta-lhe o vislumbre do Deus múltiplo que há na vida. Mas ele sabe, bem lá fundo ele sabe, que se quiser a unidade terá de renunciar à vida. "Mas não ainda, Deus, não ainda...".
Por isso o homem, todo homem e cada um em sua medida, quer os dois. Tenta os dois. E sempre, cada um a seu modo, os alcança, um pouco mais a cada vida, tão íntimo é deste mundo o homem... Sim, os alcança, sim, posso ver nesses olhos, em todos esses olhos, seja como projeto, frustração ou fato, não importa: "Crescei e multiplicai-vos".
Três sacos de balas de coco por dez reais. Eu sabia que aquelas balinhas iam virar uma novela na minha vida. De cara, deixei um saco com os examinadores do DETRAN. Antes tivesse deixado os três. Mas não, fui mesquinho até na falsa generosidade do presente.
Os dois sacos restantes repousaram sobre a mesa por dias. Se eu quisesse ser honesto, diria "semanas". Não os dava, não os comia, não os jogava fora. Ficaram lá - falsamente esquecidos, como certas dores que às vezes aparecem, as ferramentas que é preciso comprar, a bainha da calça por fazer, os quadros encostados na parede. Pesavam sobre a mesa. Não se pode dar aquilo que se rejeita. Mas jogar fora as balinhas seria admitir o prejuízo, o engano, a tolice. Seria encerrar o assunto. Seria...
Dias e dias. "Ousou abrir cuidadosamente um dos sacos para provar uma balinha." Que cena! Muito doce - e nem o mais vago gosto de coco. Ah, sim! O tal vendedor passou por mim na rua: ele não é manco. E a história que contou da filha com leucemia que faria 15 anos no domingo, deve ser falsa, claro.
Pois é, as balinhas ficaram lá tantos dias também para me lembrar que todas as histórias são verdadeiras, mesmo as falsas. E sobretudo elas - ou a literatura não terá nenhum valor. Que alguém precise inventar uma biografia tão triste para viver já o torna digno de pena. "O coração é frágil...", lembrou o rapaz do DETRAN. E tem razão. Só o que nos salva - o que nos purifica - são umas gotinhas de ironia cáustica. Na hora, me faltou. Depois, foi o falso drama falso, leitor - essa coisa de querer fazer de tudo literatura, de carregar de intensidade o ínfimo para que ele passe por símbolo de algo -e assim talvez dar algum valor às balinhas.
As balinhas... Foram para o lixo no dia de São Cosme e Damião. Que as formigas tenham feito bom proveito delas.
Eu disse que a história das balinhas da semana passada ia virar novela - e vai. Mas em tempo de eleição, antes da novela tem sempre a propaganda eleitoral gratuita. Vamos lá...
Eu voto no Gabeira desde o dia em que o vi fazendo campanha sozinho de bicicleta em pleno Centro do Rio. A calma obstinação, a discreta nobreza, a delicada força me conquistaram e eu que sempre votava nulo passei a votar em Gabeira. Pra tudo - e sobretudo se ele nem fosse candidato. Eleição de síndico? Gabeira. Presidente, governador, paraninfo? Gabeira. Craque da semana, crioulo mais bonito, musa do verão? Gabeira.
Para prefeito, claro, Gabeira. Desde sempre. No começo, nem achei que desse. Agora, não tenho dúvida. Gabeira, com esse jeito um tanto Gandhi, um tanto dândi já é o maior fenômeno dessa eleição. Ele e o Kassab, azarões atropelando na reta de chegada. Difícil parar agora. Gabeira caiu no gosto do carioca. Virou moda. Não existe nada mais carioca hoje do que votar no Gabeira.
Acho que o Rio vai elegê-lo porque Gabeira emana essa combinação de delicadeza e força necessária para dar conta da insana violência do Rio. O Rio é uma cidade literalmente de cabeça pra baixo: em qualquer cidade civilizada do mundo os morros cariocas seriam os lugares mais bacanas de se morar. Aqui são o que são. Tamanha inversão não se faz sem violência e expressa bem nossa loucura.
Claro, o prefeito pode muito pouco nesse âmbito, mas é aí que a gente vê o quanto a eleição é no fundo um ato de fé: acho que o eleitor quer impregnar o Rio do espírito pacificador que o Gabeira encarna.
Na antiga China, as cidades, quando enfrentavam períodos de desequilíbrio intenso, chamavam uns sábios feiticeiros para "restabelecer o Tao". Eles curavam a cidade lhe devolvendo o equilíbrio. Pois é, eu acho que a esperança do carioca é que o Gabeira seja o Tao.
Essa esperança não é infundada. Ao contrário, é bastante lógica. Gabeira não ficou rico com a política nem fez dela um bem hereditário, passado de pai para filho. Não existe o Gabeirinha, o Gabeira Jr, a Fulaninha Gabeira. Não há uma dinastia de Gabeiras. Gabeira é primeiro e único.
Enfim, em quem mais você pensa quando quer citar um político que não precisaria mentir para explicar a origem dos seus bens?
* * *
Semana que vem, voltamos com a novela das balinhas em nossa programação normal.
A aliança PSDB-DEM pode muito bem se repetir no Rio em torno de Gabeira.
E se o Paes atrai os votos do Crivella, o Gabeira no segundo turno vai tomar muito voto dele na Zona Sul. E a parte menos ideológica dos votos da esquerda jurássica vai tb pra Gabeira.
Finalmente, deter uma candidatura ascendente é difícil, muito difícil. Não vai ser surpresa se o Gabeira acabar prefeito do Rio. Seria a redenção para quem começou o ano tendo pesadelos como Crivella na prefeitura.
"O coração é frágil...", me diz o rapaz de tranças rastafari e jeito de capoeira num tom de voz onde há malícia e há afeto, generosidade e uma pitada de melancolia.
Enquanto esperava para licenciar meu carro num posto do DETRAN aqui perto de casa, fui abordado por um desses vendedores ambulantes. Era um sujeito alto, com a pele branca de europeu muito curtida de sol, jeito esbaforido e cara de bobo. Além disso, era manco e carregava com dificuldade uma bolsa que parecia pesada de onde tirava uns pacotinhos que deviam ser balas.
Manco. O sujeito era manco. Na minha cabeça literária, o manco é gago das pernas. E eu tenho especial compaixão por gagos. Não sei se o sujeito me farejou essa fraqueza, mas quando se debruçou na minha janela havia em seu olhar um certo brilho triunfante: ele já sabia que eu iria comprar.
Eu não. Eu ainda não sabia. Ou talvez só faltasse acreditar. Caí de vez quando ele me disse que as balinhas eram de coco. Tente o leitor, se carioca, cismar de comer uma cocada de repente. Eu o desafio a encontrar uma cocada que preste, assim de cara, na urgência do desejo. Duvido. Acha-se num estalo quase tudo, mas cocada que é bom, nada.
Com fluência admirável e teatral cara suplicante, ele ainda discorreu sobre a importância da minha compra para a festa de sua filha leucêmica que faria 15 anos no próximo domingo.
Claro - comprei. Tomado por comoção lentificante abri minha carteira onde havia 22 reais na expectativa de levar um pacote por dois reais. Mas no exato momento em que estendia a nota fui informado que eram "três por dez".
E então, numa fração de segundos, eu ainda não sabia o que fazer com três pacotes de balas de coco enquanto via meus dez reais claudicarem depressa em direção ao carro seguinte. Para sempre.
Não entrarei no mérito cabalista dos números, mas senti naquele instante que fora "envolvido pelos fatos" e "me deixara conduzir" - contra a vontade, sim, mas sem resistência também - a fazer sem querer exatamente o que não queria.
Posso dizer: não existe sensação pior. Ainda bem que é mais comum em sonhos.
Com minha melhor voz desolada, comentei o caso com a banca que examinaria meu carro. E foi então que ouvi essa magnífica síntese que explica tanta coisa: "O coração é frágil...". Ou melhor: talvez explique tudo.
Acabou o espaço e a história das balinhas vai virar novela. Semana que vem continua.
Rose comenta sobre o post abaixo: "Mas então a revolução social, política, etc... não serve p nada? Só incomoda? Não entendi. E Maio de 68? Fez diferença..."
E desde quando maio de 68 foi uma revolução? não é nem exagero, é incorreção mesmo. Se fez diferença? Naquele momento, sim. Ou assim parecia. Visto de hj? Quando eu penso que depois que os americanos sairam do vietnã o kmer vermelho matou dois milhões de pessoas em nome da utopia - para mim fica claro que não há menor chance de idealizar asism tanto maio de 68 e tudo que há ao redor... Che, que odiava rock, cabeludos, drogas e tudo mais que sugerisse América é hj um ícone de consumo. Claramente, Che perdeu. A esquerda o santificou e a indústria o transformou em produto.
A matéria que segue - excelente - dá os dados suficientes para se construir uma idéia muito exata do que é a Rússia de Vladmir Putin. Quero falar mais disso depois, u massunto que me interessa muito. Tenho até uma "interpretação conspiratória" para a crise americana que envolve a Rússia, a Alemanha e a criação da Eurásia. É, minha trama é uma delícia...
Segue a matéria, publicada ontem no Globo digital, com alguns grifos meus:
Rússia reabilita Nicolau II Suprema Corte considera fuzilamento do último czar ilegal
Do New York Times, em O Globo 02.10.08
Nove décadas após sua execução, o último czar da Rússia e sua família foram reabilitados, ontem. A Suprema Corte russa declarou a reabilitação total de Nicolau II e reconheceu os Romanov como vítimas de “repressão sem justificativa”.
A decisão é o capítulo mais recente da revisão da História pela Rússia pós-soviética.
A monarquia, castigada com brutalidade na época comunista, agora é lembrada com nostalgia e recriminações às sete décadas de regime soviético.
Culpado por guerras, fome e colapso social Na antiga Rússia comunista, Nicolau II foi retratado como facínora, culpado por guerras, fome e colapso social. Mas na Rússia nacionalista surgida após a queda do comunismo, Nicolau II é tido como visionário e inspiração da fé ortodoxa russa. A Igreja Ortodoxa Russa, que canonizou os Romanov como mártires em 2000, recebeu a notícia da reabilitação com entusiasmo.
— É um passo importante para limpar a história da terrível mancha do assassinato do czar e sua família. A imagem da família real mudou — disse o portavoz da igreja, Vsevolod Chaplin.
Na decisão de ontem, a Corte reverteu um veredicto dado em novembro, segundo o qual os Romanov não poderiam ser reabilitados porque sua execução foi considerada um ato criminoso e não de repressão política. O novo veredicto reabilita todos os membros da família real.
— Essa é a decisão final — afirmou o porta-voz da Suprema Corte, Pavel Odintsov.
Em julho de 1918, sob ordens de Lenin, o czar, sua mulher Alexandra, as filhas Olga, Tatiana, Maria, Anastácia e o herdeiro do trono Alexei, de apenas 13 anos, foram executados a tiros no porão de uma casa em Yekaterinburgo, na região dos Urais.
Os corpos dos Romanov foram mergulhados em ácido para tentar impedir sua identificação e enterrados secretamente. Os restos mortais de Nicolau, Alexandre e três de seus cinco filhos foram descobertos em 1991, quando a URSS chegava ao fim. Em 1998 foram enterrados em São Petersburgo. Os corpos dos outros dois filhos continuaram desaparecidos até agosto de 2007, quando um arqueólogo de Yekaterinburgo descobriu fragmentos de ossos perto do local onde os outros Romanov tinham sido enterrados. No início de 2008, autoridades russas anunciaram que testes de DNA haviam provado se tratar de Alexei e Maria.
— A decisão mostra a supremacia da lei contra a tirania — disse German Lukyanov, advogado da grã-duquesa Maria Vladimirovna, descendente da família Romanov e que entrara com um pedido de reabilitação de seus parentes há três anos.
Lukyanov disse que entrará com pedidos de reabilitação para vários outros membros da família Romanov mortos pelo regime comunista.
Coitadinha, a moça da materia sobre a blogueira cubana deve ser muito novinha... veja o post
Escreve coisas tolinhas, típicas de quem acabou de sair do DCE, mas ainda não aprendeu a checar as informações - sempre. Exemplos:
"Viver em Cuba não é fácil. Por isso mesmo, não deixa de ser admirável que o país mantenha sinais de vitalidade mesmo após a crise dos anos 90 e de quase cinco décadas de embargo econômico. A taxa de mortalidade infantil é de 6 para cada mil nascidos vivos (contra 26 na América Latina), a esperança de vida é de 77,2 anos (72,2 no resto da região) e 99,8% da população adulta é alfabetizada. Os sistemas de saúde e de educação trazem seqüelas do período de depressão econômica, mas ainda funcionam e são gratuitos para toda a população."
Não peço a repórter que deixe de crer nesses números, mas que revele sua origem. Se me der algum dado que os conteste, melhor ainda.
Da mesma forma:
"Yoani reflete o ceticismo de muitos cubanos com idade entre 20 e 40 anos, um grupo batizado por ela de Generación Y (leia a próxima página), uma alusão aos nomes de sonoridade soviética que, como o dela, são iniciados pela letra Y. São pessoas que não viveram as mazelas de uma Cuba pré-revolução, quando a ilha era explorada por mafiosos e por uma perdulária elite estrangeira."
Terá ocorrido à repórter ao menos consultar os relatórios da ONU e de outras entidades internacionais sobre as condições de vida em Cuba antes de Fidel?
Não lhe terá ocorrido que a o trecho "as mazelas de uma Cuba pré-revolução, quando a ilha era explorada por mafiosos e por uma perdulária elite estrangeira." é de um mau gosto melodramático tão grande que até a elite é estrangeira?
Pergunto eu - ou perguntaria Yoani: e a repórter Estela Caparelli por acaso viveu essas mazelas? De onde as conhece?
Ainda assim, o texto da Estela Caparelli é bom. Ela teria conseguido driblar sua falta de independência inteletual se a cumprisse o dever básico do repórter de dar a fonte de seus dados e apurar o quanto eles são ou não contestados.
Sobre a delinqüência intelectual que assola o país
Demétrio Magnoli, no Estadão
"O historiador Boris Fausto escreveu neste espaço que "os fins não justificam os meios", mesmo porque estão entrelaçados, mas abriu uma janela de tolerância em nome do imperativo de "combater o mundo submerso". Os colunistas Fernando de Barros e Silva e Marcelo Coelho, da Folha de S.Paulo, preferiram atirar naqueles que recordam o valor de artigos exóticos como as liberdades individuais. O primeiro, em linguagem reminiscente das ditaduras salvacionistas, sugeriu que os princípios democráticos servem "para preservar privilégios e perpetuar a impunidade". O segundo, num exercício de delinqüência intelectual, decretou que "uma autoridade grampeada é uma autoridade mais transparente, mais submetida ao controle da sociedade". Os católicos buscam a salvação pelas obras e os protestantes, pela fé. Coelho propõe a salvação pela polícia, que parece figurar na sua mente como o equivalente da "sociedade"."clique para ler
Estava zapeando pelos canais de TV na segunda-feira, acompanhando o colapso de quase 800 pontos das bolsas, quando um comentarista da CNBC chamou minha atenção.
Estavam pedindo a ele que desse orientações aos telespectadores sobre o que fazer para escapar da tormenta que se abate sobre os mercados.
Sem titubear, ele respondeu: “dinheiro e posição fetal”.
Eu me encontro assim, pois sei reconhecer um momento sem precedentes quando vejo um. Só temi por meu país raras vezes em minha vida: em 1962, quando, com apenas 9 anos, acompanhei a crise dos mísseis com Cuba; em 1963, no assassinato de JFK; no 11 de Setembro de 2001; e na segundafeira passada, quando a Câmara dos Representantes rejeitou o pacote de resgate.
E, para mim, esse é o momento mais temeroso de todos, pois os três anteriores decorreram de ataques externos reais e concretos ao sistema americano. Dessa vez, nós mesmos estamos nos atacando.
Dessa vez, é a nossa incapacidade de regular o sistema financeiro e administrar o remédio necessário.
Sempre acreditei que o governo americano fosse um sistema político singular — elaborado por gênios para que pudesse funcionar administrado por idiotas. Estava errado.
Não há sistema suficientemente inteligente capaz de sobreviver a esse nível de incompetência e ao descaso das pessoas responsáveis por ele.
Isso é perigoso. Temos deputados — muitos dos quais, suspeito, não são capazes de administrar a própria conta bancária — rejeitando um complexo pacote de ajuda porque alguns eleitores os pressionaram com telefonemas.
Entendo a ira popular contra Wall Street, mas não se pode lidar com a crise assim.
Esta é uma crise de crédito.
Tem a ver com confiança. O que não se vê é que o banco A não vai mais emprestar dinheiro à companhia B ou à firma hipotecária C. Pois ninguém tem certeza sobre o estado dos ativos do outro, e é por isso que o governo precisa entrar no jogo e pôr um chão sob eles.
Do contrário, o sistema vai se engasgar no crédito da mesma forma que um corpo sem oxigênio começa a ficar azul.
Bem, você pode dizer: “não tenho ações, deixe esses monstros avaros de Wall Street sofrerem”.
Você pode não ter ações, mas seu fundo de pensão tem algumas do Lehman Brothers e seu banco local tem títulos hipotecários subprime, e foi por isso que você conseguiu refinanciar sua casa há dois anos. E seu aeroporto regional foi segurando pela AIG e sua prefeitura vendeu títulos municipais em Wall Street para financiar o novo sistema de esgoto na sua rua, e a concessionária local dependeu dos mercados de crédito para o financiamento do seu veículo.
E, agora que o mercado de crédito secou, o banco Wachovia quebrou e sua vizinha perdeu o emprego lá.
Estamos conectados. Como já destacaram, não dá para salvar a Main Street (rua principal) e punir Wall Street. O mundo está realmente mais plano. Estamos conectados.
“Desconexão” é pura fantasia.
Entendo o ressentimento contra os titãs de Wall Street, com seus bônus salariais de US$ 60 milhões. Porém, quando o sistema de crédito está em perigo, como agora, é preciso tentar salvá-lo, mesmo que isso signifique salvar pessoas que não o merecem.
Sempre pensei: nosso governo está tão quebrado que só funcionará em uma situação de grave crise. Mas agora temos uma grave crise e o sistema não parece funcionar. Nossos líderes, republicanos e democratas, mesmo neste cenário de risco sistêmico não conseguiram chegar a um acordo.
Meu rabino contou uma história durante a celebração do Rosh Hashana (o Ano Novo judaico) na terça-feira. Um frágil mãe de 80 anos está comemorando seu aniversário e cada um de seus três filhos lhe dá um presente. Harry compra uma casa nova para ela. Harvey lhe dá um carro novo com motorista. E Bernie, um grande papagaio que consegue recitar toda a Torah. Uma semana depois, ela reúne os três filhos e diz: “Harry, obrigada pela bela casa, mas apenas preciso de um quarto. Harvey, muito obrigada pelo belo carro, mas não suporto o motorista. Bernie, muito obrigado por ter dado a sua mãe algo que ela realmente pôde desfrutar. Aquela galinha estava deliciosa.” Uma mensagem para o Congresso: não seja engraçadinho.
Não nos dê algo de que não precisamos. Não nos dê algo desenhado para resolver nossos problemas políticos.
Sim, Hank Paulson e Ben Bernanke precisam aceitar supervisões e o contribuinte precisa ter garantido uma participação nos lucros dos bancos que forem ajudados pelo pacote.
Mas, por outro lado, dêem a eles o capital e a flexibilidade para apagar esse incêndio.
Essa história não pode acabar aqui. Se isso ocorrer, assuma a posição fetal.
"Tenho muito frescas na memória suas aulas, tanto as regulares como as especiais. Estou falando de 1971, de tempos rombudos. Não eram dias, sei bem, para proselitismo. Mas ela jamais se ocuparia disso. Não estava lá para nos “libertar” — a não ser da ignorância — ou nos politizar. Tinha outros propósitos: “Menino, você tem de perceber o ritmo do poema!”. Sim, Laila Nicolau se ocupava de ensinar “o ritmo do poema” a filhos de operários. Nós tínhamos esse direito.
Laila Nicolau não ensinava a bater lata. Laila Nicolau não ensinava a sambar. Laila Nicolau não ensinava a contestar. Laila Nicolau não ensinava nada que pudéssemos aprender por nossa própria conta ou que pudesse nos ser ensinado por nossos iguais. Ela estava ali para oferecer um repertório novo e nos tirar daquela forma de solidão que era o nosso mundinho. Ou não terão os pobres nem mesmo o direito à transcendência?" clique para ler
É estonteante essa proximidade de perfeição e crueldade. (leia o post abaixo: o mundo corre de trás para frente na blogolândia)
Por mais que ela pareça óbvia quando se trata de atletas - e a China levou isso ao paroxismo - não associamos essa dor auto-imposta à crueldade - no mínimo porque ela parece revestida de sentido: há um fim, uma direção, um destino - uma intenção - e nobre.
Não é da crueldade da privação e da renúncia que falo. Falo da crueldade do tirano. Arbitrária, caprichosa - sem sentido.
Em nome da perfeição futura se cometem as maiores crueldades.
A Igreja teve seu momento, mas o comunismo superou a todos com sua carnificina industrial, por atacado - baseada que está na idéia de classe.
E não há crueldade maior do que matar.
Se uma sociedade perde essa verdade simples do seu "horizonte moral" ela está a caminho da barbarie.
Essa aí é Yoani Sanchéz a blogueira que inferniza a vida de Castrolândia. A matéria de Época (clique para ler) exibe com delicada clareza o que Fidel e Cuba se tornaram.
Se existisse o troféu Simão Bacamarte ele deveria ser dado a Fidel Castro.
O mais justo seria que depois de formalmente morto ele fosse formolmente ressucitado e exposto junto com a múmia de Lênin em Moscou mesmo. Por um lado Cuba e o próprio Fidel são o exemplo material e histórico de onde a "tirania do bem" pode nos conduzir. Porque simplesmente não existe "tirania do bem".
Fidel e Cuba são de fato uma patologia, no sentido exemplar do termo.
A resposta - ou melhor "a explicação" - que Fidel dá à existência de Yoani ilustra o que eu quero dizer:
"Em um (longo) prefácio para o livro Fidel, Bolivia y Algo más… Una Visita Histórica al Corazón de América Latina, ele critica Yoani, a quem se refere como “jovem cubana”. No final do texto, publicado pelo jornal Granma, o ex-presidente reproduz sete declarações da blogueira e diz que lamenta que jovens cubanos como ela sejam “enviados especiais para fazer trabalhos secretos e de imprensa neocolonial da antiga metrópole espanhola que os premia”. É uma clara alusão ao Prêmio Ortega y Gasset, oferecido a Yoani em maio pelo jornal espanhol El País e classificado por Fidel como “um dos tantos que o imperialismo oferece para mover as águas de seu moinho”. O governo cubano impediu a blogueira de viajar para Madri e participar do evento promovido pelos espanhóis."
Eu não tenho a menor dúvida de que Fidel crê no que escreve. E também não creio que ele esteja hoje, aos 82 anos e mais morto que vivo, mais louco do que já tenha sido. Quero dizer: ele continua o mesmo lúcido assassino de sempre.
Ele vê o mundo obstinadamente pelos filtros do leninismo - que é uma doença do olhar que não produz a honesta cegueira mas uma deformação que passa por verdade que só o portador vê. É coom se os daltônicos se achassem portadores de uma leitura privilegiada do mundo apenas porque ela é rara ou "inadequada pela maioria".
E isso é um fato: toda doutrina revolucionária é necessariamente antidemocrática e golpista. Toda revolução, por definição, é conduzida por uma minoria. Essa essencialmente foi a percepção de Lênin - coerente amplificação do pensamento de Marx.
A crueldade justificada - essa é a tentação diabólica que arruína todas as utopias. A tentação da crueldade é grande. Um ímpeto quase natural ,"privação momentânea da razão", etc. Dê a ela uma justificativa, um apoio que seja onde ela possa tomar impulso ou se plantar e pronto...
Disse "quase natural" porque a crueldade não é comum na natureza. Eu arriscaria dizer que a crueldade é mesmo rara na natureza. Porque a crueldade é de fato um superfluo, um luxo, uma estetização da violência. A crueldade é o horror, é onde o poder exibe toda a sua arrogância e impunidade, todo seu arbítrio e capricho. A crueldade é, com se vê, sob o ponto de vista da economia natural da vida um desperdício. E por isso, imperdoável.
Se o nome é mesmo um destino, o Imperador de Castrolândia faz juz ao seu: mantém-se fiel ao designo de castrar em nome da Utopia.