domingo, 31 de agosto de 2008

Meditações improvisadas

Filipe reclama da monotonia da vida. Juliana também. Eu, nem tão sábio nem tão feio quanto Sócrates, respondo: é assim mesmo. E explico. A vida sabe-se finita. E por isso, esforça-se para durar. Eu costumo dizer que perguntar pelo sentido da vida é tolice. Viver é o sentido da vida. Ou a vida é seu próprio sentido. Ou, em outras palavras: o sentido da vida é durar. A vida só quer sobreviver.

E qual a fórmula para fazer durar a vida - ou qualquer coisa? Poupar. Dito de um modo mais extenso: produzir o máximo com o mínimo de esforço. Isso explica tudo: da órbita elíptica dos planetas à escravidão humana, passando pela crueldade da natureza (ou você acha que o leão vai atacar um macho adulto se é mais fácil vencer uma cria desgarrada?). Por isso, a primeira - e talvez a única - lei universal é a lei do menor esforço - que nos parece simpática até se manifestar na sua forma mais hedionda: a lei do mais forte.

Ora, quando encontramos uma forma, um modo, que nos pareça o melhor, o mais prático e econômico de alcançar algo, o que naturalmente fazemos? Adotamos esse modo como padrão. Eis, portanto, porque a vida nos parece monótona: ela naturalmente busca padrões.

Isso explica também a dupla face aparentemente contraditória da vida: sua extraordinária capacidade de se adaptar a situações novas, a quebras súbitas de padrão, exibe um lado altamente criativo. No entanto, a busca incessante por padrões mostra o quanto ela é conservadora. Enfim, como já assinalara Descartes, criação e conservação são as duas forças que concorrem para a vida - ainda que todo esforço de criação busque estabelecer um novo padrão a ser posteriormente conservado.

Mas alguma coisa em uns mais do que outros - mais talvez no Antonio, no Filipe, na Juliana - nos faz tender mais para a criação do que para a conservação. Alguma coisa nos força a buscar o singular onde todos procuram o geral, a solidão em vez do grupo, o silêncio em vez da música. Alguma coisa. Essa alguma coisa eu desconfio que seja a alma.

Aí alguém talvez nos perguntasse - a mim, ao Filipe e a Juliana - num tom de incômoda ironia: "Então alguns têm mais alma do que outros?" Não sei... Creio que os espíritas diriam que sim, mas de um outro modo, falando em espíritos mais evoluídos do que outros. Por outro lado, é lugar comum se falar em "pessoas mais sensíveis" do que outras... Enfim, deixemos indefinida essa "alguma coisa". Talvez mais simplesmente, a natureza exija que se mantenha sempre a mão uma cota extra de "seres mais criativos" para eventuais emergências. Gente que, em momentos de maior estabilidade, tenderá a padecer de um tédio quase infinito... Falei de infinito? De onde tirei essa idéia? E aí recomeça a meditação: de onde vem essa idéia de infinito num mundo onde tudo à nossa volta é finito? E de novo, retornamos a Descartes...

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sábado, 23 de agosto de 2008

Margaridas

Você chegou com elas de surpresa, numa tarde ensolarada de sábado. Uma braçada de margaridas amarelas muito vistosas, acomodadas num vasinho de barro. Rimavam, luminosas, com você e a tarde. E assim passamos as horas, nós dois e as margaridas, até o sol se pôr preguiçosamente, levando você. Ficaram as margaridas.

Nos primeiros dias, as tratei com um carinho formal, quase burocrático. Era simples: bastava alimentar de água o pratinho improvisado sob o vaso e só, você dissera. Mas, numa manhã, achei as margaridas um pouco pálidas e resolvi colocá-las próximas do sol, que nesta época do ano inunda meu quarto quase o dia todo. Subi a persiana e as deixei lá, tomando luz, mantendo o pratinho sempre abastecido de água. O resultado foi imediato: me emocionou o vigor com que elas reagiram a essa simples combinação de água e luz, a beleza que me devolviam em troca dessa atenção tão fácil que eu lhes dava, o poderoso amarelo que irradiavam pela casa.

Passei a repetir esse ritual todos os dias e então aconteceu o imprevisto: quase sem me dar conta, fui me afeiçoando a elas. Não foram poucas as vezes que me peguei as admirando de longe, com ar de distraído encantamento. Elas me lembravam você, é verdade. Mas o que não me lembra você, afinal? A felicidade é sempre comovente e as margaridas estavam felizes, amarelamente felizes.

Acredito que, por tudo isso, só agora, quase vinte dias depois de você trazê-las, é que elas começam a dar sinal de que irão morrer. Ou melhor, fenecer - porque flores não morrem, fenecem. Por quase vinte inacreditáveis dias, as margaridas reinaram solares em minha casa. E eu me afeiçoei a elas. E acredito piamente que elas se afeiçoaram a mim - ou não teriam durado tanto. Agora, mal começam a se despedir e eu sinto já saudade delas.

Claro, posso comprar outras - e tomar o cuidado de não tratá-las de modo a fazê-las durar tanto. Mas essas... Mesmo que haja outras, sentirei falta do seu silêncio amarelo. Sim, talvez seja isso. Sem que eu esperasse, essas margaridas que você trouxe me ensinaram o valor do silêncio luminoso das flores. Assim como você tem me ensinado - sem que nenhum de nós pudesse jamais supor - o sentido do amor - tão simples, tão exato, tão verdadeiro. Quando digo "amo você" é como se dissesse, por exemplo, "chove" - pois sinto no corpo as gotas que caem do céu e a ninguém ocorrerá perguntar "o que é chover?". Quando digo "amo você" isso não é um peso ou uma exigência. Isso não é sequer uma declaração de amor. É apenas a perplexa e humilde constatação de que algo mudou em mim minuciosa e profundamente. Então tudo que eu posso sussurrar ou escrever em letrinhas bem miúdas que só você se interessasse em ler é "obrigado" - pelo amor e pelas flores, essas duas formas do silêncio.

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domingo, 17 de agosto de 2008

O fim da farsa do aquecimento global

Pesquisadores da Universidade do México anunciaram para breve o início de uma "Pequena Era do Gelo" que irá durar pelo menos 60 anos. clique para ler

Segundo Víctor Manuel Velasco Herrera , "atualmente o mundo vive uma etapa de transição onde a atividade solar diminui consideravelmente, portanto, em dois anos aproximadamente, haverá uma pequena era de gelo que durará de 60 a 80 anos", e a conseqüência imediata disso será a seca."

Seca! O que significa, acho eu, menor área de plantio. Não me surpreenderá se, em dez anos, estejamos falando em aumentar as emissões de CO2 para... aquecer o planeta!

E reparem, ao contrário das previsões do IPCC, esta tem um prazo curto para se cumprir: dois anos.

Aos poucos, as farsas montadas sob o rótulo politicamente correto vão sendo desmontadas uma a uma.

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O país da mentira

Mente-se descaradamente no Brasil. Mente-se no atacado e no varejo. Mente o camelô e o presidente. Mente-se por amor, por preguiça e comodidade, por vingança. Mente-se sobre o passado, o presente e o futuro. Mente-se sobre as mentiras já mentidas e desmente-se com novas mentiras as mentiras já contadas. Há a mentira sorridente e a mentira indignada. A mentira arrogante e a mentira humilhada. A mentira juridicamente fundamentada e aquela dita de improviso. Mente-se sem querer, pensando-se dizer a verdade, e mente-se apesar de toda a impunidade, pelo simples prazer de mentir.

Mas eu mentiria se dissesse que nunca se mentiu tanto na história da humanidade - não sei, ninguém sabe. O que vejo e ouço é que se mente no Brasil já sem temor ou decoro, contando inclusive com a cumplicidade dos enganados. Acredito que se minta tanto porque a mentira é sempre uma expressão de desprezo pelo outro. E no Brasil, desprezar é poder.

(Olhe à volta... O que você sente pelas pessoas ao redor? O que elas sentem por você? Vamos lá, diga. Mas, não minta...)

Agora mesmo, cumpre-se o dever cívico de mentir porque é tempo de eleição. E se não mentissem os candidatos - sobre o que fizeram e não fizeram, sobre o que farão e não farão - quem votaria neles? Por isso concorrem para ver quem mente melhor, com mais graça e descaramento, com mais lógica e fervor.

Mente-se à direita e à esquerda sobre a História remota ou recente. Agora mesmo, a direita mente quando diz que precisou mergulhar o país numa ditadura para combater o terrorismo comunista. Mentira! Inglaterra, Itália, Alemanha, Israel enfrentaram grupos terroristas muito mais poderosos - IRA, Brigadas Vermelhas, Baden-Mayenhof, OLP - e nem por isso se tornaram ditaduras.

E a esquerda mente quando diz que pegou em armas para lutar pela democracia. Mentira! Lutava para implantar no Brasil outra ditadura - a ditadura do proletariado. E lutava entre si para decidir que modelo de ditadura seguiria: o cubano, o albanês, o soviético, o chinês? O futuro tinha formas incertas, mas uma coisa sabíamos: a democracia - essa que tempos agora, a tal democracia burguesa que todosjuram mentirosamente amar - era algo desprezível e superado. Isso eu - e qualquer outro garoto de ginásio - sabia. Éramos todos revolucionários - não importa se militantes heróicos ou meros simpatizantes. Só por isso a mentira que a esquerda nos conta hoje soa mais desagradável. Metiam antes ou mentem agora? Mentem sempre, como todos.

Por isso sou favorável que se revise a tal Lei da Anistia. Mas que a revisão valha para todos - terroristas e torturadores, esquerda, direita e todos que de algum modo conspiraram e atentaram contras as liberdades individuais e os direitos humanos. Vai faltar cadeia para tanto mentiroso.

* * *
Eu tenho uma tese: toda vez que os brasileiros acumulam energia para se erguer e divisar e olhar mais longe, logo aparecem os militares (com e sem farda) e os militantes (de todos os matizes) querendo impor ordem e igualdade a essas explosões de liberdade e criação. Foi assim em 64, em 85, e agora, de novo, lá estão eles disputando quem nos fará cair de quatro mais uma vez. Esquerda e direita são só nomes que eles se atribuem - porque, na essência, são todos tiranos da mesma cepa.

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sábado, 16 de agosto de 2008

Louvada seja a esquina das ruas Rainha Elizabeth com Conselheiro Lafayette, na divisa de Copacabana e Ipanema, nas imediações de onde morou o poeta Carlos Drumond de Andrade. Numa exótica espécie de palmeira dessa esquina brotou uma orquídea com cinco flores muito brancas e leitosas, com detalhes em roxo e um perfume característico que se espalha no ar perturbando a alma dos passantes

A Sociedade Espírita Brasileira ainda não se pronunciou sobre a possibilidade da floração estar relacionada com a possivel presença do espirito do poeta naquela área e tampouco deve se pronunciar porque não foi consultada e nem será uma vez que tal sociedade não existe.

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Bate um vento norte na minha janela. Norte, nordeste; frio. Entra forte, rebate na parede, acho, e vem dar na sala, bem nas minhas costas nuas.
Choverá? Acho que não. Mas vamos ver...

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

O inacreditável Pravda

É de arrepiar a versão do Pravda para a invasão da Geórgia pela Rússia. Só lendo para crer: 1 e 2

A linguagem é de panfleto bolivariano. E não há razão para duvidar que o Pravda ainda seja o porta-voz do Kremlin.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A história se repete

Se a China parece Berlim, 1936, a Rússia está parecendo Berlim, 1939.

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domingo, 10 de agosto de 2008

O Estado policial brasileiro: o caso do dr. Joaquim Ribeiro Filho

Henrique Peixoto Neto é meu primo e amigo do dr. Joaquim Ribeiro Ribeiro Filho, preso acusado de fazer "tráfico de órgãos". O médico já foi solto por ordem judicial, depois de levado preso em mais uma daquelas operações espetaculosas da polícia federal do dr. Tarso Genro.

Aí começa o problema. O dr. Joaquim até poderia ter cometido um crime hediondo - qualquer um daqueles tão comuns entre ministros do governo Lula: seqüestro, latrocínio, roubo, homicídio. Mas ainda que fosse assim por todo o seu passado ele teria direito a um tramento digno. Não se prende um homem que salvou a vida de centenas - talvez de milhares de pessoas - como se fosse um assassino, um traficante ou um terrorista.

Mas eu disse que o dr. Joaquim "poderia ter cometido um crime". Meu primo me diz que não e acrescenta: "Pelo Joaquim eu ponho minha mão no fogo.". E acredito no meu primo. Pelo pouco que li e reproduzo abaixo acredito na inocência do dr. Joaquim.

Vamos aos fatos, conforme abaixo-assinado que recebi. Mais informações sobre o o caso podem ser encontradas no blog de apoio oa dr. Joaquim:

"Em meados de julho de 2007, as equipes de transplante de Minas Gerais informaram ao Serviço Nacional de Transplantes em Brasília que havia um órgão disponível em Belo Horizonte, pois devido à greve da UFMG não havia condições de captação do mesmo.

A opção de captação do órgão foi então encaminhada para possíveis receptores no Rio de Janeiro. Entretanto, um fato novo prejudicaria a captação do órgão pelas equipes do Rio de Janeiro: Hospital Geral de Bonsucesso e Hospital Clementino Fraga da UFRJ, este último coordenado pelo Dr Joaquim. Havia acabado de ocorrer um acidente com um avião da TAM, em São Paulo, e por este motivo o SNT avisou que não haveria transporte para levar o órgão.

O Dr. Joaquim informou então ao SNT, em Brasília, que havia um paciente seu particular internado na Clínica São Vicente que teria condições de alugar um jato particular para trazer o órgão e perguntou se isso pode ria ser feito em vez de se jogar fora o órgão que poderia salvar uma vida. É preciso que fique claro que estes órgãos tem uma vida útil de curta duração e que a captação tem que ser muito rápida, sendo que em muitos casos é preciso aproveitar oportunidades únicas envolvendo doador, órgão e paciente em condições de cirurgia.

A família do Sr Carlos Augusto Arraes se mobilizou e obteve determinação judicial do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco autorizando a captação do órgão e a realização da cirurgia. Todo este processo está documentado no setor de transplantes de Minas Gerais. O procedimento cirúrgico foi realizado com sucesso na Clínica São Vicente e num encaminhamento absolutamente normal, a família do paciente pagou ao Dr Joaquim, à sua equipe e à Clínica São Vicente os honorários devidosaproximadamente R$ 90.000,00, cifra inquestionável para este tipo de intervenção cirúrgica numa das clínicas mais conceituadas e também de custos mais elevados do Rio de Janeiro.

No final de julho, a Coordenação de Transplantes do Rio de Janeiro e o então Secretario Estadual de Saúde Sergio Cortes, em função de desavenças políticas com o Dr Joaquim, fizeram denúncias ao Ministério Público de que o Dr Joaquim teria saído do Rio de Janeiro para Belo Horizonte com um ofício para buscar o órgão para o Hospital Universitário e que no caminho teria desviado o órgão para seu paciente na Clínica São Vicente. O Ministério Público Federal iniciou então as investigações. Dr Joaquim solicitou que fossem incluídas no processo as informações da Asssociação Nacional da Aviação Civil sobre planos e notas de vôos daquele dia para comprovar a falta de fundamento da acusação. Seguiram-se outros fatos e provas a favor do Dr Joaquim que tramitam na justiça. Pois, se existem denúncias, se existem processos é preciso assegurar o que reza na Constituição: o direito legítimo de que os "suspeitos" se defendam publicamente no fórum adequado do poder judiciário.

Queremos ainda chamar a atenção para alguns pontos que não estão sendo contemplados e que ajudariam a esclarecer a opinião pública a não embarcar neste ato de vandalismo e violência que consiste em trucidar um grande médico e cidadão brasileiro. Cabe indagar: A quem serve queimar o Dr Joaquim em fogueira pública? Qual o debate que efetivamente interessa à população brasileira sobre o tema dos transplantes? Que política de saúde queremos para o país? Certamente não queremos compactuar com a visão estreita e burocrática.

O tema dos transplantes é delicado e cheio de nuances. Temos que aprender a ouvir aqueles que efetivamente entendem do assunto e o Dr Joaquim é a maior eminência neste tema. Os seres humanos são singularidades delicadas e a visão da fila nestes casos não pode ser equivalente à visão da fila de um banco. Não somos cartões de crédito, cédulas bancárias, talões de cheque. Somos seres com alta complexidade. Transplantar um órgão não é o mesmo que montar um robô. Um órgão pode ser compatível com uma pessoa e não com outra por inúmeras razões, idade, tamanho, estado, enfim, razões que somente os médicos sabem apontar. Para isso eles estudam anos a fios e se dedicam à profissão."

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O FED acertou!

Li no Reinaldo Azevedo que "commodities têm queda recorde e aliviam inflação".

Lembro que o Paul Krugman disse no Roda Viva, semana passada, que Ben Bernanke, o presidente do FED, apostou exatamente na queda do preço dos alimentos e do petróleo ao escolher baixar os juros e enfrentar o que lhe parecia o problema real: a desaceleração da economia pela quebra da credibilidade (mais do que do credito em si) do sistema. E não o problema marginal, contingente que seria a inflação. Apostou - e parece ter acertado - que era uma inflação momentânea produzida por uma alta das commodities que era, no fim das contas, causada exatamente pelo deslocamento do financeiro para os futuros.

O FED acertou na mosca e venceu a queda de braço com os "credores americanos" e todos aqueles que sob o pretexto de combater a inflação - em vez da amaeaça recessiva - queriam mesmo era o aumento dos juros americanos num momento delicado. Um jogo que é também político, visto que o Estado chinês é o maior detentor de títulos americanos. se foi mesmo assim, ganhou um chega-pra-lá. Os EUA ainda são umas dez vezes maiores que a China.

Mas esse jogo duro marca também uma espécie de "prova de maturidade" chinesa. A China quer se mostrar diferente. Essa pressa, essa crença que tudo é possivel à vontade organizada - ou seja: a sociedade é tudo, o indivíduo é nada - isso tudo soa a quem conheça um pouco da história do Ocidente no século 20 a comunismo e nazismo. Na verdade, a China está cada vez mais parecida com a Alemanha de Hitler e cada vez mais ditante da URSS de Stalin.

Isso quer dizer que os EUA superaram ou estão começando a superar a tal crise imobiliária? Não faço idéia, mas eu torço que sim.

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O doping da autoridade

Vendo Phelps no pódio e Bush na arquibancada com bandeirinha e tudo - pensei que essa mais do que nunca será uma olimpiada em que o confronto entre duas concepções de mundo. Uma em que toda conquista é o resultado do esforço eletivo de um indivíduo que busca essencialmente superar a si mesmo. Outra em que a conquista não pertence a quem a realiza, mas é como uma doação dele ao grupo, ao país - ou mais pragmaticamente: ao Estado.

Pode o Estado se apropriar desse modo da vida do cidadão? a gente poderia chamar isso de doping? De manipulação da vida - uma manipulação genética feita direto na alma.

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Escreva cem vezes: "A China é um ditadura"

O queridíssimo Carlos Alexandre me envia um comentário por e-mail sobre a última crônica que é - coom sempre! - uma continuação dela, um resumo, a conclusão ordenada daquele monte de notas:

"Acho que você tocou NO ponto. E as perguntas que ficam são: como é que uma economia que pretende ser de livre mercado pode conviver com esta obsessão pelo controle? Será que o Partido Comunista chinês está disposto a abrir mão de seu poder (exercido por meio deste excesso de controle) em benefício da livre iniciativa?

Será que um país que não respeita os direitos mais fundamentais do homem tais como o direito de propriedade (material e intelectual) , o pátrio poder, o direito de expressar e de professar seus sistemas de crença (políticos e religiosos), o direito de lutar por seus interesses juntando forças com pessoas que partilham dos mesmos problemas em sindicatos ou outros tipos de associações pode construir uma sociedade justa? Enfim, será que uma sociedade sem instituições de boa qualidade pode se desenvolver?"
A questão tem um acento moral - pois, no fundo, a pergunta é se é justo que uma ditadura floresça. Ou ainda: será a liberdade de fato essencial para o desenvolvimento? Nós acreditamos que sim.

A The Economist e A Front Page têm matérias interessantes sobre o tema: 1 e 2

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Um país de filhos únicos

E esse papo da China ser um país de filhos únicos?

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sábado, 9 de agosto de 2008

Sobre o tédio olímpico

(A Marie e a Rose deixaram comentários no post abaixo que eu respondi lá mesmo, no espaço de comentários, mas achei legal registrar aqui também: vaidade, tudo é vaidade)

Acho o esporte uma das manifestações mais bem acabadas da solidão humana. Ou melhor: do confronto da solidão (do atleta) com o histérico egoísmo coletivo (do público). A solidão do atleta sempre me encantou. Sobretudo desses atletas olímpicos de esportes individuais e pouco populares. O público não tem sequer a mais relés noção do esforço deles. O público só quer VER performances e contar medalhas.

Então é, no fundo, uma chatice monumental - literalmente. Porque ninguém entende nada - ou quase nada - do que está vendo. Ninguém é capaz de compreender o grau de dificuldade e as sutilezas do performance. Não é como o futebol, por exemplo, que todo mundo joga ou já jogou e sabe portanto apreciar.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cerimônia de abertura das Olimpíadas: um resumo

A China não apenas abandonou o comunismo. Ela simplesmente o riscou de sua história. Não é que o comunismo tenha acabado. Ele agora nunca existiu! Que o comunismo não tem futuro a gente já sabia. A novidade é que ele começa a não ter nem mais passado!

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Notas de Pequim direto do sofá

Esse papo de começar as Olimpíadas no dia oito do oito de dois mil e oito, às oito e oito é mais do que superstição: evidencia a obsessão chinesa pelo controle - presente em toda parte. O Estado tenta controlar a imprensa, a internet, os turistas, o fluxo de pessoas e palavras. Os nascimentos e as mortes. Tudo. Tenta-se controlar tudo. Todos os atletas chineses estão confinados há três anos - sem ver pais, amigos, amores – obrigados a treinar.

Na abertura, o governo chinês desfilou seu samba-enredo: "China apaga o comunismo e reconta sua História". Impressionante. Queria saber a opinião da Rosa... Não a de Luxemburgo, mas a Magalhães - de outras revoluções na avenida, essas inesquecíveis - sem abrir mão do luxo de ser efêmeras...

Mas, eu dizia, impressionante esse desprezo ao comunismo. Ao contrário da Rússia de Putin, a China não quer saber de seu passado comunista. Sem cerimônia, deletaram o que chamam de "Era da Vergonha" que se estende do final do Império dominado pelo colonialismo ocidental até os últimos dias da revolução comunista. Sai Mao e entra Taiwan, aplaudidíssima. Só isso vale por tratados. Eles querem controlar também o tempo. E a História.

A China simplesmente se reapropriou diante do mundo da própria História, ocidentalizando-a. Ela hoje se conta como nós no Ocidente a aprendemos na escola: a pólvora, o papel, a bússola. Por outro lado, se apresentou - de forma sutil, mas muito clara - como o contraponto oriental da Grécia. Ou o contraponto espartano de Atenas? Só o tempo dirá.

***

(Controle e previsibilidade. Feng Shuei e I Ching. O Chão e o Céu.)

***

A tentação de atribuir essa obsessão pelo controle ao comunismo é grande, mas, me parece que verdadeiro é o inverso: o comunismo na China é apenas a manifestação contingente e histórica de uma necessidade do “Império do Centro”: a centralização e o controle. São 56 etnias apertadas em um espaço não muito maior do que o Brasil. É muita gente, muito espaço. Por isso acho que dá para dizer que a China é, há quase três mil anos, um mercado comum mais ou menos fechado segundo as contingências de sua produção.

***

Há o lado B desse samba: a juventude, a dita “geração de filhos únicos” resultante do controle (de novo a palavra!) da natalidade - desenvolveu um entusiasmo nacionalista olhado no mínimo com ceticismo por qualquer ser humano que conheça dois dedos da história do nazismo. Ao menos um amigo insistiu na a analogia com as Olimpíadas de Berlim, 1936. Olhando a abertura, faz sentido.

***

Uma conseqüência do controle da natalidade: calcula-se haver algo em torno de 400 milhões de chineses “não-contabilizados”. Qual o efeito disso na economia?

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domingo, 3 de agosto de 2008

Dos amigos

Eu sou uma invenção de meia dúzia de amigos - mais ou menos como esses sambas-enredos de carnaval. Só que, no meu caso, se o resultado não é lá essas coisas, a culpa não é deles, mas da matéria-prima que não ajuda muito. Não tive uma vida venturosa, nem tampouco santa. Nada havia que valesse a pena cantar, mas os autores conseguiram algumas rimas de efeito e aqui estou imaginando vagamente como seria um desfile de carnaval comigo de samba-enredo: as alas, a comissão de frente, os carros alegóricos, as fantasias...

Às gargalhadas, recomendo ao leitor, sempre que lhe ocorrer estar um pouco triste, lançar mão desse expediente simples: imaginar-se enredo de desfile de escola de samba. Seja minucioso e irreverente que, eu garanto, não haverá tristeza que resista. Eis o que somos: um samba-enredo cantado por uns doidos cheios de entusiasmo, sem muito sentido, mas com algumas rimas interessantes, se calha de reunirmos os autores certos.

Outro dia, escrevi no Orkut um depoimento para um dos meus amigos-autores desse samba-enredo que sou e disse que do muito que ganhou do criador, eu, a criatura, destaco duas qualidades: a generosidade e o humor. Eu poderia dizer que esses são traços comuns a todos os meus autores. A diferença é que no Bruno generosidade e humor se misturam de um modo que viram uma espécie de bondade, um modo de ver a vida, um sentimento de mundo. Ou dito mais simplesmente: um estilo. Bruno tem estilo.

Humor generoso, generosidade humorada - o que importa é que todo mundo gosta de estar perto de gente assim. Nem vou ficar listando aqui o que devo a esse meu autor-amigo em histórias e fatos que hoje são a substância de que sou feito, o lugar para onde olho quando busco um sentido, o que em mim é rima. Mas posso resumir dizendo que já ri muito com ele e que nunca o vi gritar, brigar ou reclamar. Estar com alguém assim afina a alma mais grosseira.

Sim, minha alma ficou mais fina depois que fui apresentado a Julio Cortázar (e nunca devolvi Todos os Fogos o Fogo), a Vargas Lhosa (também não me lembro de ter devolvido Tia Julia e o Escrevinhador!), a Cartola - e mais outras tantas presenças... Minha vida teria sido outra - certamente mais pobre - sem esse coração-navio, sem essa alma-livro. Obrigado, amigo!

Hoje raro vejo meus autores. Hoje os tenho como flores em minha casa.

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