quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

StartClock, um programinha genial

Eu vivo procurando programas gratuitos de computador que resolvam problemas às vezes muito específicos meus. Por exemplo, sempre me aborreceu que a barra de tarefas do Windows perdesse um espaço enorme com a palavra "iniciar" inutilmente escrita. Se trocamos a posição da barra de horizontal (o mais comum) para vertical, a palavra "iniciar" some, restando apenas o logo do Windoes - um ganho enorme de espaço. Acontece que eu não gosto de usar a barra na posição vertical...

Durante anos (sim, anos!), procurei um programa que me resolvesse o problema. Finalmente, encontrei, num site chamado 1 Hour Software, o genial StartClock. O programa foi abandonado pelo autor, mas ainda pode ser baixado.

O que ele faz? Simplesmente substitui a palavra "iniciar" por um relógio! "Ora!", perguntará o leitor arguto, mas afoito, "Não é o mesmo que trocar seis por meia dúzia? Afinal, o espaço continua ocupado do mesmo jeito". Terá razão o leitor. Mas, além de ganhar um relógio muito mais legível, ele agora poderá desabilitar aquele outro, tradicionalmente colocado na extremidade oposta da barra, ganhando o espaço pretendido! Para mim, que trabalho com muitos programas abertos ao mesmo tempo - uns dez, em média - esse espaço da barra é vital.

Por isso, mais uma dica: você pode personalizar a "área de notificação" - aquele espaço no canto direito da barra onde aparecem os ícones de serviços e programas em uso, reduzindo ao mínimo necessário aqueles que irão de fato aparecer.

Simples: clique com o botão direito sobre a barra, escolha "Propriedades", depois a aba "Barra de tarefas". Na parte inferior da janela que se abrirá, você verá a indicação "Área de notificação". Clique no botão "Personalizar". Uma nova janela é aberta e nela estão relacionados os ícones e serviços autorizados a aparecer na área de notificação. Ao lado de cada um, numa coluina intitulada "Comportamento" estão indicadas as opções de uso. Por padrão, a opção é "Ocultar quando inativo". Mas se você clicar sobre a alternativa, um pequeno menu se abrirá com mais duas opcões: "Sempre mostrar" e "Sempre ocultar". Escolha "Sempre mostrar" e livre-se de todos os ícones que considerar incômodos.

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Encontro do BookCrossing

Cheguei quase no fim do encontro inaugural da primeira zona de BookCrossing do Rio, mas gostei muito. O Lunático Café é um lugar interessante e apropriado - porque tem um perfil intelectual, digamos assim, preocupado em oferecer cursos e, presumo, palestras e encontros desse tipo - e as pessoas muito bacanas. Gente que gosta de livro é outra coisa...

Ficou mais ou menos combinado que faremos encontros mensais lá no Lunático e confio no senso de organização da Cris Wolff. Eu levei um Rubem Fonseca, "Ela e outras mulheres" e peguei um Paul Auster, "Timbuktu".

Mas paras os novos em BookCrossing, um esclarecimento: não se trata de uma troca. Os livros uma vez lidos, devem "voltar para o mundo" para alcançar novos leitores. Devem, enfim, circular, como se pertencessem a uma imensa biblioteca, a "biblioteca de Babel", idealizada por Borges.

Conheci o Paul Auster num domingo, em 98 ou 99, quando passei por um camelô de livros usados e um título me capturou o olhar: "O inventor da solidão". Achei a minha cara... O autor era até aquele momento um desconhecido para mim (não por ele, mas por meu permanente anacronismo): um tal de Paul Auster. Comprei o livro e o achei apaixonante a ponto de incluí-lo entre os meus 20 melhores livros lidos.

Ainda não passei das primeiras páginas de Timbuktu, mas o texto já me pegou. Gosto do tom de fábula que Auster dá aos seus textos, ao mesmo tempo, onírico e íntimo. Acho q a palavra que melhor resume o sentimento que ele me provoca é "singeleza".

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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Minínimo

Você acena para mim do alto de sua torre e em meu corpo se instala um sentimento sinuoso que se espalha e me entorpece. Fico ali, sob o sol amornado pelo vento que farfalha nas folhas secas dos velhos oitis, acenando de volta, discreto e comovido como se me despedisse de alguém prestes a partir num improvável zepelim. Falamos pelo celular, mas os celulares de modo algum substituem a telepatia. Talvez os gestos, que na distância mais adivinhamos do que vemos, sejam o que restou dessa forma esquecida de intimidade. As palavras, tão triviais, vão com o vento, mas o que importa é a indisfarçavel emoção que as colore. As minhas são azuis. Quisera poder pintá-las de laranja, mas lido tão mal com essas tintas que é melhor nem tentar. Azuis... E meus dedos dedilham no ar mais um aceno como se estupidamente quisessem tocar no vento uma melodia doce e triste como eu parado ali, sem querer ir embora, sem saber ficar.

Sim, se fosse tudo isso um sonho, seria um zepelim e não o prédio a abrigar sua varanda no último andar. E eu ficaria ali, no cais imaginário onde ancorei talvez para sempre minha alma, a acenar as infinitas despedidas a que me sinto condenado. Feliz por você, porque serão sempre mais felizes os que partem - e essa é a felicidade dos que ficam, saber que são mais felizes os que partem. Aceno para você e ficaria ali acenando até você sumir no horizonte, diminuindo lentamente até ser engolida pelo céu e restar em mim como algo tão incerto como um sonho. E ainda assim ficaria ali depois, imóvel cais que sou, à espera e hesitante.

Mas, as palavras, sempre elas, me despertam de volta para a vida, incessante e breve: há que seguir em frente rumo a desimportância inadiável das tarefas que me aguardam. "Que nos aguardam", eu gostaria de dizer, mas como posso falar por você? E alguma vez terei podido? Aceno de novo, timidamente, como quem tenta agarrar-se ao vento e deixo-me ir, levado pelas minhas próprias pernas.

Você entrará de volta para aconchegante penumbra de sua casa e eu retomarei meu passo apressado avenida adentro. E o quadro (você no alto, magnífica, e eu, lá embaixo, tão pequeno, tão minínimo) se desfará no ar como um zepelim tragado pelo céu. Circulos, perfeitas espirais, vida que segue... E esta crônica, devo confessar, é só a tentativa ingênua e torpe de comover você e parar o vento.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O mito da ditadura benigna

Demétrio Magnoli para o caderno especial de O Globo sobre a renúncia de Fidel

“Acho que a grande tragédia da Revolução Cubana foi que ela se tornou dependente da URSS (...). Isso afetou a cultura e a política cubanas e converteu sua imprensa na mais tediosa e previsível em toda a América Latina. Escritores foram perseguidos. Eu nunca defendi nada disso.” O escritor paquistanês Tariq Ali, uma estrela da “nova esquerda”, não está entre os que aplaudem fuzilamentos sumários, censura ou repressão política.

Mas ele reproduz, como tanta gente, o mito nuclear da propaganda castrista: “Penso que a Revolução Cubana realizou proezas incrivelmente importantes (...). É o país mais educado no continente, prova vel men te em todo o terceiro mundo. Numa população de 12 milhões , Cuba produz entre 800 mil e um milhão de gradua dos a cada ano. É capital humano, na forma de médicos que ajudam a África e a América Latina.” Tariq Ali sintetiza os dois termos da equação que seduz até mesmo alguns espíritos avessos ao totalitarismo. A ditadura cubana é deplorável, no plano político, mas socialmente benigna. Não é melhor isso que uma democracia maligna?

Nenhuma pessoa informada escapou da máquina de propaganda que seleciona e difunde as estatísticas preferidas pelo regime cubano. A regra de ouro da manipulação estatística é segmentar eficazmente uma curva. Quase ninguém conhece os indicadores sociais da Cuba pré-revolucionária. Mas eles indicam — surpresa! — que Cuba ostentava excelentes índices de saúde e educação antes que Fidel pudesse salvar seu povo da inanição, da doença e do analfabetismo.

Dois anos antes de Fidel tomar o poder, a taxa de mortalidade infantil cubana era não só a mais baixa da América Latina como a 13amenor do globo. Em 2000, continuava a ser a menor da América Latina, seguida de perto por Chile, Costa Rica e Porto Rico, mas já não estava entre as 25 menores do globo. A informação deve ainda ser contextualizada: Cuba permite aborto legal e exibe uma das maiores relações aborto/gravidez do mundo, em torno de 60%, o que contribui decisivamente para reduzir a mortalidade infantil.

Toda a população cubana, atualmente, está alfabetizada. Mas essa conquista não evidencia poderes milagrosos do castrismo. Quase uma década antes de Castro tomar o poder, Cuba estava entre as nações com maior taxa de alfabetização da América Latina e a velocidade de seu avanço não é espantosa quando comparada a de países como Colômbia, Equador e mesmo Brasil. A Cuba de 1957 tinha 128 médicos e dentistas por cada grupo de 100 mil habitantes, o que a colocava no mesmo patamar da Holanda e à frente da GrãBretanha. Porém eles não desempenhavam missões de política externa na América Latina ou na África, como acontece hoje...

A ditadura de Fulgêncio Batista, derrubada por Castro, também não era benigna. Os invejáveis indicadores sociais do país refletiam uma trajetória iniciada nos tempos coloniais, quando Cuba havia sido um dos mais dinâmicos centros hispanoamericanos, atraindo colonos prósperos e constituindo uma elite numerosa. Os revolucionários cubanos, de José Martí a Fidel, emergiram de um meio intelectual ativo e cosmopolita, o que não é fortuito.

Sob Fidel, a economia cubana foi subordinada aos imperativos estratégicos do regime político. Os investimentos concentraram-se nas Forças Armadas, fundamento do poder interno e das aventuras externas na arena africana, e nos setores vitais para a edificação da imagem internacional do castrismo, notadamente o esporte, a saúde e a educação. Até 1990, a redoma dourada dos maciços subsídios soviéticos disfarçou o empobrecimento da ilha e evitou a dilapidação do legado histórico nas esferas da saúde e da educação.

A Cuba castrista tornou-se certamente mais igualitária, devido à transferência da elite e da classe média para os EUA, onde vivem cerca de 1,5 milhão de cubanoamericanos, o que representa 13% da população da ilha. Mas, sobretudo, o castrismo devastou o capital social acumulado pelo país, arruinando suas infra-estruturas e provocando regressão sem precedentes na produtividade do trabalho.

O regime gerou uma “economia de ruínas”, que se manifesta na paisagem extensivamente degradada das residências, na obsessiva e criativa recuperação de veículos produzidos há meio século, na permanente conversão de profissionais qualificados em motoristas clandestinos de táxi, guias de turismo e prostitutas.

A marca distintiva do sistema castrista foi sintetizada na gíria cubana pela expressão “sociolismo”, fusão de “socialismo” com “amiguismo”. Em Cuba, a economia real é a economia subterrânea, que se articula em redes de ajuda mútua voltadas para o desvio de mercadorias, rumo à troca direta no mercado negro. O “sociolismo” abrange a maior parte da população e ramifica-se na administração pública e nas empresas estatais. Sob o império pervasivo da carência, a corrupção torna-se necessidade, adquire o estatuto de norma e engolfa a nação num universo de regras viradas ao avesso. Eis a herança duradoura que Castro deixa a seus compatriotas.

DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP, é colunista do GLOBO

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Book Crossing no Rio

O Book Crossing é um site/ movimento que existe nos EUA desde de 2001 baseado em uma idéia muito simples: "esquecer" livros ao acaso pela cidade e acompanhá-los ir passando de mão em mão. O movimento nunca chegou a ser um sucesso no Brasil, mas vem ganhando adeptos aos poucos. Tanto que neste sábado, dia 23, uma galera vai se reunir no Lunático Café e Cultura, a partir das 13h, para inaugurar a primeira "zona oficial de book crossing" da cidade.

Quem estiver a fim de participar basta "desencalhar" um ou mais livros bacanas da estante e levar para o encontro para "trocá-lo" por outros.

O Lunático Café fica na rua Visconde de Carandaí/06, no Jardim Botânico (subindo a Lopes Quintas, é a primeira à esquerda). O lugar, simpaticíssimo, pertence ao João e a Adriana Falcão e oferece uma variedade de cursos - de filosofia a acrobacia aérea. Mais eclético, impossível.

Quem quiser mais detalhes é só acessar a página da Cristina Wolff, organizadora do evento, no Book Crossing.

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Às viúvas antecipadas de Fidel

Recebi o seguinte comentário anônimo sobre o post "Fidel subiu no telhado...": "Seu texto é de uma mediocridade ímpar. Desista de escrever e vá trabalhar de mascate." Deletei, claro. Mas divulgo aqui porque é um resumo do pensamento do idiota militante. O apelo ao anonimato é próprio dos covardes que agem em bando pelas sombras. O autoritarismo é o mesmo que aparece nos textos dos comissários do gosto que se fazem passar por críticos. E o texto fala por si mesmo.

Chega a ser engraçada a expressão "mediocridade ímpar". Além de ambígua, revela experiência no trato com o medíocre. Parece então que a autoritária viúva antecipada de Fidel me considera um medíocre nota dez. Será que isso significa "quase bom"? Não sei, nem quero saber.

Quero as vetustas comissárias do gosto longe daqui. Sempre que aparecerem serão devidamente deletadas. Como chegaram aqui? É fácil perceber. Através dos meus comentários no Reinaldo Azevedo. Onde mais a anônima viúva teria aprendido o termo "mascate"? Mas tanto lá como aqui não terão espaço. Com o tempo, acabarão confinadas à Cuba mental que de fato habitam.

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fidel subiu no telhado...

Eu avisei que seria cômico... Lula já correu para dizer que trata-se do "único mito vivo da humanidade". E quando ele diz "vivo" não está obviamente pretendendo ser irônico, o que só torna a frase ainda mais engraçada. Um mito? Certamente. Mas que a cada ano se revela mais e mais nefasto, por conta do volume crescente de informações sobre a ditadura que comandou.

Também é cômico - e nefasto - ouvir o tal frei Beto tratado pelo UOL como teólogo profetizando sobre a continuidade do socialismo na ilha-cárcere. "Não há nenhum setor significativo dentro da sociedade cubana hoje interessado na volta do capitalismo". É, talvez de fato não tenha mesmo restado nenhum "setor significativo" na sociedade cubana depois de 49 anos de ditadura.

Mas a pérola do frei vem a seguir. Reparem na contradição: Fidel teria renunciado "
para deixar o campo mais livre para uma possível e provável eleição do seu irmão Raúl Castro, que vai substituí-lo nas funções de presidente do Conselho de Estado, presidente do Conselho de Ministros e comandante-chefe da Revolução". A vocação democrática do frei é inegável, não? Desde que, é claro, o resultado das eleições seja acertado antes.

Eu avisei que seria cômico. Aguardo ansioso um editorial da LulaNews assinado pelo recém-saído da clandestinidade Franklin Martins.

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Tropa de mulas

Muita bobagem tem sido escrita sobre o filme "Tropa de elite". Dois exemplos de tolice empolada disfarçada de crítica são os textos de Carlos Alberto de Mattos e Marcelo Janot.

Ambos concordam que "Tropa de elite" é um filme fascista. Ambos parecem acreditar que a expressão "filme fascista" é auto-explicativa. Ou alguma senha de caráter maçônico capaz de denotar o grau de engajamento político e sofisticação intelectual sem a necessidade de maiores explicações.

Pois é, afinal, o que é um filme fascista? Seria um filme que fizesse a apologia de regimes autoritários ou dos valores que servem de fundamento ao autoritarismo? Nesse caso, o genial "O encouraçado Potemkin" seria um filme fascista? Mais simplesmente, eu diria que uma obra "fascista" seria aquela em que os personagens não existem como entidades singulares, mas como estereótipos pré-determinados. Ou seja, não uma obra de arte, mas uma peça de propaganda. Assim, é possível que haja bons filmes fascistas (Sergei Eisenstein, Leni Riefenstahl) e péssimos filmes "progressistas".


Conceitualmente, acho complicado dizer que um filme narrado em primeira pessoa seja "fascista". Porque, de imediato, o filme já se apresenta como uma visão parcial, ambígua e precária da realidade.

Mas, vejam que engraçado, se concordamos que uma "obra fascista" é aquela em os personagens perdem a sua singularidade e são reduzidos a "expressões de classe", meros estereótipos antecipadamente definidos como bons ou maus, então, neste caso, quem é fascista não é o filme, mas a crítica! E os textos citados são excelentes exemplos.

A crítica de janot é mais primária. Todo tempo ele generaliza suas conclusões e as imagina universais, comuns a todos os espectadores, consciente ou inconscientemente. Ou conscientemente concluímos o mesmo que Janot ou devemos nos deixar esclarecer por ele. A hipótese da discordância não é contemplada.

Tanto janot quanto Mattos lidam com categorias gerais: "os intelectuais", "os traficantes", "os estudantes" e a atribuem ao diretor do filme uma intenção generalizante que ele, de fato, não tem. Um dos méritos de Padilha é ligar com personagens singulares. Ninguém ali é apresentado como símbolo ou emblema de classe.

Como Janot e Mattos só enxergam o mundo sob o prisma redutor das categorias e classes, o que os incomoda é que os personagens singulares de Padilha não sejam mostrados com os sinais de positivo e negativo que sua cartilha ideológica recomenda.

O primarismo da abordagem tenta se ocultar sob a linguagem pomposa e de arrogância infantil no melhor estilo fascista dos comissários do gosto.

"Meus amigos sabem que faço severas restrições dramático-ideológicas ao filme de José Padilha. Admiro as façanhas técnicas e artísticas de equipe e elenco, mas não creio que este seja um filme para se analisar apenas desses pontos de vista. Tropa de Elite é mais que um filme - é um evento de discussão social.", diz Mattos. Ora, quem diz que Tropa de Elite é um "evento de discussão social" (seja lá o que isso quer dizer) é o Mattos, não o autor. Quem vaticina que o filme não pode ser visto apenas como um bom filme é o Mattos. Que autoridade tem Mattos para isso? Nenhuma.

"Ao construir a identificação do espectador com o policial estudioso e bem comportado, o thriller leva à condenação de intelectuais, estudantes e ativistas sociais." Novamente isso só acontece na cabecinha estratificada de Mattos. Aliás, não há intelectuais no filme. O que há são leitores de cartilha como o próprio Mattos.

"Cria todas as condições para que os sentimentos de direita se estampem, agora com o aval de um cineasta de esquerda (Costa-Gavras)." Aqui Mattos ignora o fato de que se existe um "monopólio da truculência" ele pertence não a direita, mas a esquerda de Lenin, Stalin, Mao, Fidel, Pol Pot. Aliás, a própria tentativa de identificar direita e fascismo como sinônimos é primarismo bocó ou má intenção pura e simples. Finge ignorar que historicamente fascismo e nazismo se apresentavam como ideologias revolucionárias e socialistas em franca oposição ao liberalismo conservador "de direita". Hitler por exemplo se dizia melhor intérprete de Marx do que os comunistas. É preciso ter lido Marx para entender que não se trata de uma ironia.

Seguindo o manual de sua ética de resultados, onde a opinião está sempre submetida aos seus efeitos táticos e estratégicos, Mattos se pergunta: "Será possível aplaudir o prêmio e não aplaudir o filme? O Urso traz benefícios para o cinema brasileiro e é muito bem-vindo, claro. Mas será esse um raciocínio oportunista?" Sim, Mattos, é oportunista.

Quanto a Janot, tudo que se diz de Mattos, vale para ele também. Como Mattos, janot reconhece as qualidades inegáveis do filme, mas cobra do autor "responsabilidade social". "Mas a realidade de Tropa de Elite é a da violência do Rio de Janeiro, que invade o nosso cotidiano todos os dias. Por isso, há nele uma responsabilidade social, não dá para tratá-lo meramente como um filme de ficção tecnicamente impecável."

É fácil concluir que, para Janot, o filme seria "responsável socialmente" se invertesse os sinais e apresentasse os ditos "ativistas sociais" sempre como pessoas sóbrias, intelectualmente preparadas e distantes do tráfico. Ora, sabemos todos que isso não é verdade, que uma parcela ponderável dessas Ongs está de fato envolvida direta ou indiretamente com o tráfico, sim.

De todo modo, não há a menor conexão entre as críticas de que os textos de janot e Mattos são excelentes exemplos e o filme de Padilha. Enquanto as críticas são elas mesmas exemplo do fascismo que pretendem denunciar - ao se submeterem a categorias de manual que reduzem indivíduos a meras entidades sociológicas ou históricas - o filme consegue ser, ao mesmo tempo, realista, ao retratar com precisão jornalística as causas da desordem jurídico-policial brasileira, e dramaticamente denso, ao exibir personagens ambíguos, intensos, mas absolutamente singulares.

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domingo, 17 de fevereiro de 2008

De cara nova

Vocês desculpem esta crônica tão técnica, tão pouco crônica, tão destoante do que costumo escrever, mas confesso que não saberia falar sobre outra coisa.

Como vocês podem ver, acabo de recriar todo o Café Impresso. O site existe desde 1999 e inicialmente era o que são hoje os blogs. Ou seja, era um blog no tempo em que não havia ainda blogs. Aliás, não havia nem banda larga. O que eu fazia era simplesmente aplicar o conceito mais básico da Rede: "comentar e remeter". Simples, mas árduo. Diariamente, eu entrava em cada um dos jornais disponíveis online e ia abrindo as matérias que julgava mais importantes. Desconectava, lia as matérias, comentava e criava um link no Café para o texto original. O processo se repetia para cada jornal e revista.

Fazia isso com todas as editorias, o que tornava o Café uma revista diária bastante completa. Eu costumo dizer que qualquer veículo de informação é um animal de seis patas. De um lado, as editorias de Cidade, País e Mundo. De outro, as editorias de Cultura, Esporte e Lazer. A cabeça desse animal estranho é a editoria de Opinião - que deveria ser sempre clara e evidente. Óbvio, mas raro.

Era comum eu receber e-mails parabenizando o "trabalho da equipe", o que eu achava muito engraçado e lisonjeiro porque o Café sempre foi um "bloco do eu sozinho". Quando a crônica passou a ser o centro da minha atividade literária - porque o jornalismo também é uma atividade literária, nunca esqueçam disso! - o Café passou a ser uma vitrine para as crônicas, no exato momento em que a explosão dos blogs tornava a atualização diária quase uma condição de sobrevivência na internet.

Agora decidi que o Café voltará a ser um blog; ou um site de atualização diária, como prefiro chamar. Mas, de novo, pretendo aplicar alguns conceitos que me parecem ser os novos fundamentos da internet agora movida à banda larga. Nestes quase dez anos de existência do Café, a internet não tem feito outra coisa senão mudar, mas a mudança mais essencial foi a disseminação da banda larga. Tudo mais decorre daí, das novas demandas ditadas pela maior velocidade de acesso. "Comentar e remeter" ainda é - e será sempre - o conceito definidor da Rede, mas o modo de fazer isso mudou completamente com a banda larga. É isso, enfim, que eu quero explorar.

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sábado, 16 de fevereiro de 2008

Franklin Martins e o enterro de Fidel

Li agora no Reinaldo Azevedo:
Franklin, o modesto
Esta é muito divertida: o ministro Franklin Martins (Comunicação Social) disse que vai devolver aos cofres públicos R$ 163,22 que recebeu irregularmente em 2007. É dinheiro relativo a “meia-diárias militares" por acompanhar o presidente Lula em viagens no Brasil. Ministros só têm direito a diárias em viagens internacionais. Bobagem do companheiro. Eu prefiro que ele não gaste, o que corresponde a devolver, inutilmente os R$ 350 milhões previstos no Orçamento da TV Lula — na prática, já se sabe, será muito mais.
É, o Franklin Martins, depois que saiu da clandestinidade e foi pro governo está se saindo um companheiro exemplar. Aguardo ansioso a cobertura do enterro do Fidel pela LulaNews. Será certamente de morrer de rir.

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Aos críticos do Bush, uma pergunta

Não sou nenhum fã do Bush, até implico com aquela cara dele de mico de realejo - que não me inspira nem inteligência nem coragem. Mas sempre que falam mal dele eu pergunto: qual seria a alternativa? 1) O Al Gore - que ainda não decidi se é um mentiroso mau caráter ou um simples idiota com sua pregação inteiramente falsa sobre o aquecimento global? 2) Ou aquele cruzamento de Geraldo Alckmin com Frankstein que lançaram pra concorrer contra um candidato com a reeleição já garantida - com era mesmo o nome dele?

Enfim, como se diz em Las Vegas e Brasília: façam seu jogo, senhores.
Mas eu ainda boto minhas fichinhas no Bush.

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Agora sim!

Depois de muitas idas e vindas, agora sim o Café Impresso está no ar como eu idealizei. Foram quase 20 dias trabalhando no layout e na adaptação dos arquivos antigos para o novo visual. E ainda não estou inteiramente satisfeito. Mas pelo menos já posso trabalhar.

A idéia é usar os mecanismos de atualização do Blogger para o conteúdo diário, dinâmico e o servidor contratado para o conteúdo estático, as crônicas e outros textos eventuais. Estou pensando em criar posts temáticos para cada dia da semana, além, claro, dos posts aleatórios, ao sabor dos fatos e notícias.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Finalmente...

O novo Café está no ar!
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domingo, 10 de fevereiro de 2008

O padrinho

Há 15 anos, uns amigos me convidaram para ser padrinho da filha deles. A cerimônia, marcada para às 10 da manhã de um domingo de verão, seria simples, mas festiva, porque várias crianças seriam batizadas no mesmo dia.

Eu aceitei, decidido a ser um padrinho exemplar. Fiz até curso de padrinho na igrejinha da Urca onde seria realizado o batismo. E mais: seria um padrinho de terno e gravata. No sábado de véspera, já tinha a roupa preparada, um terno leve, cinza, camisa branca e gravata bordô. Para não chegar suado, escolheria um táxi com ar condicionado. Acertei o despertador para as oito e pronto. Não havia como errar. Ah, minha afilhada, nunca subestime nossa humana vocação para o erro!

Sucede que o dia do seu batismo seria também o primeiro dia do horário de verão e eu, ao cumprir o ritual de acerto dos relógios - aquela altura da noite, já um tanto distraído pela paixão que sentia pela moça que estava comigo - ao invés de adiantar os ponteiros em uma hora, eu os atrasei!

Bom, Isadora, você pode presumir o desastre! Quando o meu relógio marcava oito, para o resto do Rio de Janeiro já eram dez horas! Tudo bem, cerimônias religiosas costumam atrasar e no fim talvez tudo se acertasse. Mas acontece que nesta vida existem muitos abismos. Para os apaixonados há, em especial, dois bastante reais, diga-se: o abismo horizontal da cama e o abismo vertical do chuveiro. Era verão. Éramos jovens. Jovens, bonitos e apaixonados. Resultado: entre um e outro abismo, gastamos todo tempo que pensávamos ter.

E então eis que toca o telefone.
- Já chegou?, me perguntou minha mãe, um tanto espantada.
Mães são assim: se esperam que o filho chegue ao meio-dia, começam a ligar às onze. E se os encontram, espantam-se.
- Como assim? O batismo é às dez.
- Mas já são onze!

Num relance, entendi tudo! Saí de casa ainda me vestindo e peguei o primeiro táxi que apareceu. Claro, um Fusca sem ar condicionado! Pra piorar, o trânsito na Urca estava impossível: num domingo de verão até a praia da Urca lota! O carrinho foi avançando devagar naquele calor e eu, a certa altura, preferi saltar e ir a pé. Entrei na igrejinha sonsamente barroca, esbaforido e suado, a gravata mal ajambrada, os punhos da camisa desiguais. Mas cheguei! E, como num filme, me posicionei do seu lado exatamente no momento em que o padre começava a batizar você. Para minha sorte, você foi a última!

Não sei se, afinal, alguma foto registrou o instante, mas eu nunca esqueci o olhar de reprovação que sua avó e madrinha lançou de soslaio para mim. Só não se surpreenda, Isadora, se o tempo - e, claro, meu paupérrimo desempenho como padrinho - tenham dado a esse olhar um tom de humorado ceticismo premonitório. Porque, neste mundo tão plástico, tudo muda. Até o passado! Não esqueça nunca, nunca, disso. E use sempre fio dental.

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domingo, 3 de fevereiro de 2008

À maneira de Alberto Caieiro

"Pensar é já não estar presente"
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Quando então estaremos salvos

Minha alma às vezes foge e o corpo vaga pelas ruas, mecânico e vazio. Faz o que é preciso, mas lhe falta a graça, aquele toque de improviso próprio de tudo que está vivo. Talvez só quem goste de mim repare. Ou só eles se importem, afinal. Para o resto, tanto faz: a eficiência e a pontualidade lhes são suficientes.

Avessos à intimidade, basta-nos o sorriso formal por baixo de uns olhos apagados. Desatar a tristeza que se adivinha ou se pressente oculta sob a máscara alheia é um risco que não quero correr. "O que eu posso fazer?", eu repito para mim mesmo nessas horas, sonsamente desconsolado por um problema de que apenas vislumbro a intensidade. Não quero ouvir, não quero saber. Não quero me envolver. Não tenho tempo, nem dinheiro. Não tenho paciência, nem vontade.

E então às vezes me ocorre ser esse outro. Aquele que está só dentro de si, agarrado ao sorriso precário que carrega. Como desaprendi a estender a mão para ajudar, também já não sei estender a mão para pedir ajuda. Estou só em meu corpo deserto. E a ironia é meu último remédio contra a amargura que ameaça me afogar no silêncio.

Se nessas horas calho de dizer ou sequer pensar "Amo você" é como se enunciasse um aviso de perigo. Gostar de mim não me parece um bom negócio, nessas horas. Um perigo, porque daqui, deste deserto, almejo prescindir do amor no exato instante em que duvido que só o amor me baste. Dividido? Não - esfacelado.

Nessas horas, onde estará minha alma? Terá me abandonado? Não. Ele está lá, como sempre, imensa e inefável. Fui eu que a esqueci. Eu? O que em mim difere às vezes tanto de mim a ponto de eu, alma e corpo já não significarem o mesmo? A tristeza é uma doença e toda doença uma cisão, um não que se instala como um vírus que devora os elos que nos mantêm unos. E de onde vem essa doença? Sempre do passado, sempre.

Mais hospitais, escolas, presídios, fuzilamentos, assassinatos, igrejas, sistemas, utopias, revoluções - nada nunca substituirá a capacidade de oferecer ao outro um banho, uma muda de roupa velha, um almoço, uns trocados; o silêncio ouvinte, umas poucas palavras, um abraço. Quando for assim, só então, estaremos salvos.

Terapias, religiões, filosofias, remédios, dinheiro, sucesso, prazeres - nada nunca substituirá o encontro consigo mesmo. Quando for assim, só então, estaremos salvos.

A compaixão é a chave que há de abrir todas as portas - as de casa, as da rua - e deixar correr o invisível vento que une tudo a tudo. Quando for assim, só então, estaremos salvos.

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