Carta ao sr. Molina
Caro sr. Antonio Muñoz Molina:
Por artimanhas de um destino que não compreendo bem, me acontece ser um leitor que pode se dar ao luxo da inatualidade. Um luxo, sim. Eu diria mesmo o maior deles. E, por isso, o mais caro de todos.
Não estranhe, portanto, que eu o trate, sr. Molina, como uma descoberta pessoal - quando certamente o senhor é já escritor consagrado, não só na Espanha, sua terra natal, como decerto no mundo todo. Ao menos faz por merecê-lo. Mas nem por isso renunciarei ao prazer que meu luxo acarreta: o de, a cada dia ou sempre que me dá na cabeça, reinventar o mundo como novidade.
Foi esse exatamente o efeito de encontrar na banca de saldos do sebo que freqüento o seu "Sefarad", título tão sugestivo para quem, como eu, tem pelos judeus um afeto curioso e admirado.
Gosto de repetir que se costumamos pensar Deus como ordem e necessidade, (como conservação, enfim), é na surpresa do acaso que sentimos encontrá-Lo. Então foi assim como um presente que do livro aberto a esmo se me derramaram sobre o dia que perseverava amargo as palavras que se seguem:
"Você é qualquer um e não é ninguém, é quem você inventa ou recorda ou quem outros inventam e recordam, os que o conheceram há tempos, em outra cidade e em outra vida, e guardaram de você uma imagem congelada de quem você era na época, uma dessas fotos esquecidas que achamos estranhas e até rejeitamos quando voltamos a vê-las ao fim dos anos. Você é quem imaginava futuros quiméricos que agora lhe parecem pueris, e quem tanto amou mulheres das quais agora nem se lembra, e quem se envergonha de ter sido, e quem foi às vezes sem que ninguém soubesse. Você é o que os outros, agora mesmo, em algum lugar, contam a seu respeito, o que alguém que não o conheceu conta que lhe contaram, e o que alguém que o odeia imagina que você é. Muda de quarto, de cidade, de vida, mas há sombras e duplos seus que continuam morando nos lugares de onde você partiu, que não deixaram de existir porque você já não vive neles. "
A sucessão dessas letras em mim se convertia de luz em sons que intimamente me despertavam o sentido da grandeza de minha humana insignificância: a finita eternidade que se realiza a cada instante. (Sim, é preciso ser um náufrago no oceano tenebroso para perceber a eternidade de cada instante)
Por isso, sr. Molina, gostaria de agradecer-lhe. Pois, se hoje nada mais restasse do mundo que a página 365 da tradução brasileira de "Sefarad", ainda assim eu estaria salvo.
Dez reais me custou seu livro - outro luxo da inatualidade: o preço dos saldos! - e o estou lendo com o mesmo prazer de conversar com um amigo. Acredite, quem escreveu aquelas palavras não precisaria escrever mais nada. Mas, por favor, não pare!
Atenciosamente,
Antonio Caetano
Por artimanhas de um destino que não compreendo bem, me acontece ser um leitor que pode se dar ao luxo da inatualidade. Um luxo, sim. Eu diria mesmo o maior deles. E, por isso, o mais caro de todos.
Não estranhe, portanto, que eu o trate, sr. Molina, como uma descoberta pessoal - quando certamente o senhor é já escritor consagrado, não só na Espanha, sua terra natal, como decerto no mundo todo. Ao menos faz por merecê-lo. Mas nem por isso renunciarei ao prazer que meu luxo acarreta: o de, a cada dia ou sempre que me dá na cabeça, reinventar o mundo como novidade.
Foi esse exatamente o efeito de encontrar na banca de saldos do sebo que freqüento o seu "Sefarad", título tão sugestivo para quem, como eu, tem pelos judeus um afeto curioso e admirado.
Gosto de repetir que se costumamos pensar Deus como ordem e necessidade, (como conservação, enfim), é na surpresa do acaso que sentimos encontrá-Lo. Então foi assim como um presente que do livro aberto a esmo se me derramaram sobre o dia que perseverava amargo as palavras que se seguem:
"Você é qualquer um e não é ninguém, é quem você inventa ou recorda ou quem outros inventam e recordam, os que o conheceram há tempos, em outra cidade e em outra vida, e guardaram de você uma imagem congelada de quem você era na época, uma dessas fotos esquecidas que achamos estranhas e até rejeitamos quando voltamos a vê-las ao fim dos anos. Você é quem imaginava futuros quiméricos que agora lhe parecem pueris, e quem tanto amou mulheres das quais agora nem se lembra, e quem se envergonha de ter sido, e quem foi às vezes sem que ninguém soubesse. Você é o que os outros, agora mesmo, em algum lugar, contam a seu respeito, o que alguém que não o conheceu conta que lhe contaram, e o que alguém que o odeia imagina que você é. Muda de quarto, de cidade, de vida, mas há sombras e duplos seus que continuam morando nos lugares de onde você partiu, que não deixaram de existir porque você já não vive neles. "
A sucessão dessas letras em mim se convertia de luz em sons que intimamente me despertavam o sentido da grandeza de minha humana insignificância: a finita eternidade que se realiza a cada instante. (Sim, é preciso ser um náufrago no oceano tenebroso para perceber a eternidade de cada instante)
Por isso, sr. Molina, gostaria de agradecer-lhe. Pois, se hoje nada mais restasse do mundo que a página 365 da tradução brasileira de "Sefarad", ainda assim eu estaria salvo.
Dez reais me custou seu livro - outro luxo da inatualidade: o preço dos saldos! - e o estou lendo com o mesmo prazer de conversar com um amigo. Acredite, quem escreveu aquelas palavras não precisaria escrever mais nada. Mas, por favor, não pare!
Atenciosamente,
Antonio Caetano
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