sexta-feira, 19 de junho de 2009

De "O Livro do Desassossego"

[58]

O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e essa expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a interseção de três linhas, e essas três linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser transcrever, terá que ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se refletem, nela se inserem, e a transformam, os objetos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem – tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.

Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir alma às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objeto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio “corre”, que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa. Igual erro é atribuir cor, forma, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células – mais, é uma relojoaria de movimentos subatômicos, estranha conglomeração elétrica de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.

Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.

Nestas considerações está porventura toda uma filosofia, para quem pudesse ter a força de tirar conclusões. Não a tenho eu, surgem-me atentos pensamentos vagos, de possibilidades lógicas, e tudo se me esbate numa visão de um raio de sol dourando estrume como palha escura umidamente amachucada, no chão quase negro ao pé de um muro de pedregulhos.

Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.

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terça-feira, 16 de junho de 2009

Notícias sobre o futuro do jornalismo

Artigo de Ali Kamel (ali.kamel@oglobo.com.br) publicado hoje, na página de Opinião de O Globo e reproduzido sem a autorização do autor.

Copyright

Em setembro de 2008, quando a candidata a vice-presidente Sarah Palin fazia grande sucesso entre os republicanos, ela foi entrevistada por Katie Couric, âncora do CBS Evening News. Os americanos puderam saber, então, que Palin não entendia nada de nada, era apenas um golpe de marketing. Segundo um estudo da Nielsen, a entrevista foi vista naquela noite por seis milhões de telespectadores. Imediatamente, a conversa já estava na internet, e ali foi vista por mais de três milhões de pessoas.

A humorista Tina Fey fez uma sátira da entrevista no “Saturday Night Live”, da ABC, que atraiu a audiência de nove milhões de telespectadores.

Novamente, o esquete foi posto nos sites da internet e visto por 25 milhões de pessoas. Fenômeno parecido ocorreu com “Britains Got Talent”, programa de televisão da ITV1, emissora do Reino Unido. O programa de estreia da terceira temporada foi visto por 10,3 milhões de britânicos. A grande atração foi a escocesa Susan Boyle, que se tornou uma celebridade instantânea. A apresentação de Boyle foi posta em sites da internet, e foi acessada 220 milhões de vezes, segundo dados de Visible Measures, uma empresa que mede o sucesso on-line de vídeos. O seriado “Lost”, um megassucesso da rede americana ABC, estreou em 2004 com 15 milhões de telespectadores.

Com o tempo, disseminou-se a prática de colocar na internet o episódio inteiro, para que telespectadores façam download quando desejarem (no Brasil, ele fica disponível no mesmo dia da exibição nos EUA, já legendado). E, um último exemplo, no fim de semana, jornais do mundo inteiro mandaram para Teerã equipes completas de repórteres para cobrir as eleições iranianas (o “The New York Times” enviou até mesmo o seu diretor de redação, Bill Keller).

Imediatamente, milhares de blogs usaram o material produzido pelos jornais, reproduzindo íntegras e gerando debates e mais debates.

Detalhe: em todos os casos, os conteúdos foram parar em sites alheios ao de seus produtores, sem autorização, num fenômeno tido até aqui como “natural”, contra o qual nada se pode fazer.

Os exemplos podem ser infinitos, e o leitor pode escolher os seus próprios.

Deixando de lado o fato de que é um poderosíssimo e insubstituível instrumento de intercomunicação (e-mail, mensagens instantâneas com imagem e voz, sites de relacionamento etc.), a grande riqueza da internet, em termos de conteúdo, é produzida pelas chamadas mídias tradicionais: jornais, revistas, rádio e televisão. Com um porém: tais mídias não recebem recurso financeiro algum em troca. Num fenômeno bem esquisito, dão o seu conteúdo de graça em seus próprios sites e são pirateadas sem constrangimentos por outros tantos sites.

Tem isso chance de dar certo? Para ficar em dois exemplos, cada episódio de “Lost” custa US$ 4 milhões, segundo a agência Reuters, e cada hora do “Britains Got Talent”, US$ 1,3 milhão, segundo o “Daily Telegraph”.

Com a pirataria, a repercussão de “Lost” é cada vez maior, mas sua audiência na TV tem sido declinante: na quarta temporada caiu para 13 milhões de telespectadores e, na mais recente, para 11 milhões.

Audiência declinante significa menos anunciantes, o que provocará inexoravelmente uma perda de qualidade no futuro: sem conseguir cobrar dos espectadores que assistem à série na internet, ficará cada vez mais difícil fazer episódios tão caros. Com Susan Boyle, muitos dirão que a internet só fez ajudar a audiência, e isso, embora seja verdade, não é toda a verdade. Na final, a primeira temporada em 2007 alcançou 10,6 milhões de telespectadores, a segunda, em 2008, 13,1 milhões (aumento de 23,5%) e a terceira, em 2009, estimulada pela internet, 17,3 milhões (aumento de 32%). O programa, portanto, vinha crescendo mesmo sem a internet, e a pergunta que fica é: quanto a audiência teria crescido se os telespectadores não tivessem outro jeito de ver a final, senão na televisão? Pode-se imaginar que, na quarta temporada, alguns milhões de telespectadores se inclinarão a deixar de ver o programa na hora em que é exibido para vê-lo depois, na internet. Se o efeito na audiência de TV for declinante, até quando os produtores admitirão pagar US$ 1,3 milhão por hora de programa? O mesmo tipo de questionamento cabe nos exemplos da entrevista de Sarah Palin, do “Saturday Night Live” e da cobertura das eleições iranianas. Um telejornal, um humorístico e uma cobertura internacional são altamente caros. Se não se consegue impedir a pirataria ou cobrar pelo que é reproduzido na internet, se este uso significar audiências menores nas mídias tradicionais, até quando seus custos poderão ser bancados? Se não puderem, o declínio na qualidade será geral.

Com o advento da interface gráfica da internet, em 1994, a mídia tradicional nunca temeu o novo meio.

Acreditou que, se morresse ou declinasse no velho mundo, continuaria vigorosa e com saúde no novo mundo.

Apostou em acesso gratuito, tentando reproduzir o modelo das televisões comerciais: atrair larga audiência e vender anúncio. Até aqui, a estratégia não deu certo. Contribuiu largamente para isso a crença de que a internet, por natureza, é um espaço sem dono, livre, democrático. Não é verdade: não existem terras de ninguém.

O que tem prevalecido é uma terra com novos donos que, até aqui, têm tido êxito em chamar de liberdade o que é puro roubo.

Ninguém sabe como a mídia tradicional conseguirá fazer a travessia para o futuro. A defesa do copyright me parece um caminho essencial.

PS: Este artigo só foi possível porque acessei, gratuitamente, os sites da Nielsen, Reuters, Daily Telegraph, ABC, CBS, ITV1, The New York Times e Broadcast Magazine, a maior parte deles encontrada pelo Google.

* * *

E-mail a Ali Kamel sobre o artigo:
Adorei a ironia final!

Discordo q a reprodução de uma materia em blogues chegue a ser um problema. Não é. É divulgação mesmo. O problema é que tudo ainda mal começou e ninguém sabe bem o que fazer.

Da parte das empresas de comunicação o erro está em manter dois veículos distintos. Ninguém até agora soube integrar os dois meios. Mais: a "velha" mentalidade impressa resiste a ceder o lugar principal ao "novo" jornalismo digital. Talvez por isso um jornal como O Globo sustente essa maluquice perdulária e contraditória de ter dois jornais, um impresso e outro digital, que não raras vezes batem de frente (a cobertura internacional chega a ser cômica, com os "garotos" bolivarianos do online vendo um mundo bem distinto da "internacional" impressa). Em algum momento os custos e a aposentadoria dos "velhos" jornalistas (quando então todos terão "nascido" no mundo do jornalismo digital) obrigará a integração. Eu acredito que o o próximo passo será fazer da versão digital a "cozinha" em tempo real da versão impressa. Esta, por sua vez, será cada vez mais "magra", sempre mais reflexiva - talvez distribuída gratuitamente no formato meio tablóide pelas ruas da cidade na saída para o trabalho e na volta para casa... Quase um folder de propaganda... Isso até que o papel se torne tão politicamente incorreto quanto a fumaça das chaminés.

A mentalidade do leitor/ consumidor tb precisa ser transformada. Ele precisa ser levado a aderir às coisas que gosta com o claro e determinado sentido de mantê-las - seja seu jornal, seus musicos preferidos, seus escritores. Há uma "virada ética" aí que precisa começar a ser trabalhada. "A gratuidade é a doença infantil do consumismo". O que o mundo digital permite é diluir custos na escala de milhões, reduzindo o preço a centavo. Mas cadê a máquina online capaz de arrecadar centavos? Cadê a "moeda digital"? Eu já cheguei a imaginar q essa moeda será "credito telefonico", valor cada mais vez mais "cambiável". Enfim, veremos... Um banco de centavos é urgente, mas o pay pal é um modelo rudimentar do futuro.

Da parte dos jornais isso vai exigir mais clareza "ideológica" (com o perdão do termo tão... bolivariano! É a influência do Globo Online que acabo lendo mais do que O Glbo impresso, de que sou assinante). Não será mais possível fazer essa pizza portuguesa de hoje. Acho que os jornais voltarão a ser claramente políticos e partidários, abandonando a fantasia da isenção. O que vai ser otimo!

Enfim, hoje eu certamente pagaria 15 reais para ler um jornal online que fosse a minha cara, mas 35 pelo Globo Online é muito caro. Aliás, só leio o Online pq para mim é de graça. Como todos são muito ruins - o que parece por em risco o futuro do jornalismo não é a evolução dos meios, mas a decandência dos textos, cada vez piores - na exatas proporção da proliferação das faculdades de jornalismo. Acabem com o diploma de jornalismo, antes q o diploma acabe com o jornalismo!
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Madrugada

Há um silencio que só se ouve na solidão da noite. É preciso ser noite, madrugada alta, e se estar só, inteiramente só, despido até de pensamentos. E se mover pouco e lento, sem ruido, sem esforço, com a exata precisão dos gatos. E então se ouve a vida gestando a si mesma nesse imenso utero que é a noite. Só então se entende o quanto é novo, profunda e inteiramente novo o dia que virá em poucas horas. Pode-se ouvir esse silencio pleno, denso, da vida de novo se engendrando - e os ouvidos atentos são também parte desse feto que logo saltará da noite, solar, exuberante, centrífugo: Govinda, Menino Jesus, qualquer criança.

Mas agora ainda é o mistério de Maria, da vida brotando de si mesma pela força do Divino Espirito Santo, sob os cuidados do Arcanjo Gabriel. Antonio se acomoda nesse silencio e apenas ouve, grato por essa dádiva tão inesperada quanto desejada: Antonio nada pede porque não há nada a querer além de estar aqui simplemente, ouvindo.

Novo, novo, novo tão profunda e misteriosamente novo. E tão simples que mal se pode dizer: Corpus Christi!

Mas se ouve.. E então tudo é templo.

(Escrevo, mas o teclado novo é tão macio e silencioso que mais parece uma extensão do meu pensamento que assim nem se pensa quase, escreve-se direto - e de novo tudo é milagre)

Sim, tudo reveste-se dessa aura de milagre que é não haver nenhuma necessidade ou causa, do hoje que se vai cria nada ter a ver com o ontem que se vai (ainda que aparentemente haja um cerne que perdure...). E entre um e outro, sem que o fluxo jamais se interrompa, há esse silencio profundo e delicado que só as mães podem saber na intimidade. Por isso a mulher (cada mulher, toda mulher) é gloriosa e toda mãe deve ser amada e venerada por seu filho. "Obrigado, minha mãe por ter-me pacientemente feito como a noite engendra o dia. Obrigado por me trazer da densa treva até a luz".

Antonio se surpreende por se sentir transbordante de amor minucioso e comovido. Paz, alegria, plenitude. Logo, logo será dia.Que estas palavras sejam como o pão quente, cujo cheiro antecipa os dias antes mesmo dos primeiros raios da aurora.

* * *

Amanheceu. A mente começa a tagarelar feito criança.

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Meu pai

O que se perde e o que se ganha nesta vida, meu pai? O que se aprende, o que se leva? Você que já está morto, talvez saiba melhor do que qualquer um aqui. Morto ou mais vivo agora? Pois o que sabemos afinal do que seja a vida?

Um dia de felicidade genuína valerá toda a vida? E o que é isso: "felicidade genuína"? A aceitação ativa de todos os fatos, o sentimento de compreensão de que "Tudo é bom"? Enfim, de onde vem essa consciência que afronta a vida e a interroga com perguntas que talvez não façam sentido para ela? Talvez? Nada! Certamente não há sentido em perguntar à vida qual o sentido dela.

Você está cansado, Antonio. Vá dormir e aceite que amanhã será de novo outro dia, de novo novo, igual e único. Aceite que enquanto a consciência (esse outro nome que se dá à alma) não se reconciliar com a vida, não haverá paz. Não essa paz que agora, exausto, você deseja, de eterno domingo sem vozes nem horas, vazio e igual. Não essa paz, e sim a paz de haver um corpo disposto ao amor e à guerra.

A consciência brota da vida, lá do fundo dela. E por estar mais perto da origem, se insurge contra a vida, contra o fim presumido, a sucessão previsível, a repetição entediante. "A doença, qualquer doença, é a resposta da vida aos apelos da imaginação febril de uma alma em revolta". Será?

Vá dormir, Antonio. A vida prosseguirá, incessante.

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