terça-feira, 31 de março de 2009

O ressentimento em Nietzsche

O ressentimento tem um papel fundamental para compreensão do pensamento de Nietzsche - vale dizer: para a compreensão de Nietzsche. Sem dúvida, é um grande psicólogo, como ele mesmo se intitulava - creio que até com certa dose de ironia. 

Acredito que Nietzsche percebeu que o ressentimento é a matriz de toda reação humana. É preciso relê-lo com atenção. Se é assim, mais uma vez, ele estaria muito próximo do melhor do budismo, de uma "psicologia budista". Seja como for, parece certo que Freud seria impossível sem Nietzsche.

Juntando as pontas: todo pensamento seria o sintoma de algum ressentimento? Todo? Seria possível um "pensamento puro", isto é, livre de ressentimento? E assim, voltamos a uma "psicologia budista". Não será de estranhar então que o "eu" contra o qual Nietzsche se bate coincida com o "ego" dos budistas.

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Das entidades abstratas: o Trabalhador

Um carro de som passa anunciando uma palestra ou algo assim onde estarão presentes o delegado Protógenes Queiroz e a senadora Heloísa Helena, do PSOL. E em seguida afirma: "O trabalhador não pode perder com a crise", ou algo assim - ao menos essa é a idéia...

Fico pensando: se "o Trabalhador" não pode perder com a crise, terá o direito de usufrir da prosperidade? Seria então "o Trabalhador" um... escravo? Ou estaria "o Trabalhador" inteiramente "fora do mundo", com direito a gozar da prosperidade, mas jamais sofrer com a crise? Seria então "o Trabalhador" uma espécie de... anjo? Mas, se é assim, por que trabalha?

É mais do que oportuno que o delegado Protógenes investigue "o Trabalhador" - essa entidade tão abstrata, tão suspeita...

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Ainda Nietzsche

O texto de Nietzsche está carregado de negação e ressentimento - e que o próprio Nietzsche não se dê conta disso é prova de sua honestidade, mais do que de sua demência. Nietzsche restitui a filosofia da honestidade perdida desde Kant. Em Nietzsche é muito claro que quem filosofa é Nietzsche e apenas Nietzsche e não um Espírito ou a Verdade Inacessível ou alguma entidade abstrata somente vísivel sob as lentes de uma dada filosofia. Mesmo demente, Nietzsche é mais lúcido que todos os seus antecessores. Uma lucidez que o ultrapassa e o denuncia - que pode ser até involuntária muitas vezes, ou mero delírio de vaidade - mas está lá e diz: "Aqui é um homem quem filosofa contra todos os outros homens que o antecederam".

Essa referência ao passado, a tudo que o antecede ou lhe é contemporâneo, é a perdição de Nietzsche. É onde ancora todo seu ressentimento e exerce toda sua negação. Nesse sentido, Nietzsche não é nietzscheano, não consegue produzir uma filosofia genuinamente nova, desvinculada de todo o passado. Uma filosofia que não fosse mera verborragia acadêmica, mas uma prática de autoconhecimento - conforme o esboçado na máxima: "Todo pensamento é sintoma". Uma filosofia do corpo, com o corpo - eu ouso dizer: uma ioga, uma meditação. 

E uso o termo "meditação" aqui também como uma referência a Descartes que pretendo explorar em outra ocasião. Sim: Descartes, Nietzsche. Para as mentes acadêmicas, para os epígonos do nitzschismo, o binômio soará como "Paris, Texas" - ou algo assim, mais do que estranho: um contrassenso. É bom que seja assim...

* * * 

"Todo pensamento é sintoma". É certo quea máxima não é assim tão abrangente. Nietzsche refere-se apenas as "juízos morais". Mas, sejamos nitzscheanos: que juízo não é moral? E que pensamento não é juízo - nem que seja sob a forma da adesão a uma "verdade consagrada"? Enfim, pretendo apenas ressaltar que a generalização aqui não é absurda ou descabida.

"Sintoma de quê?" se pergunta aquele que pensa em face de seus pensamentos. E isso, nesse caso, é o mesmo que perguntar: "Quem sou eu?" - eterna pergunta que Nietzsche recoloca numa linguagem nova. 

(E aqui os meditadores que praticam Vipassana - ao menos aqueles que seguem a interpretação de S.N. Goenka, pois de outros eu não poderia falar - irão reconhecer uma semelhança com a permanente remetência às sensações do corpo; com a idéia de que todo pensamento produz uma sensação física)

Ao aproximar pensamento e sintoma Nietzsche restabelece a relação de simetria entre corpo e mente que fora rompida por Kant, que opunha explicitamente entendimento e sensibilidade. E o faz de um modo novo, radical, "problemático": sob o ponto de vista da "doença". 

Explorando as fronteiras dessa sugestão de Nietzsche - e novamente remetendo a meditação Vipassana - é interessante que Nietzsche fale em "sintoma" e não simplesmente  em "sensação". Por outro lado, se todo pensamento é sintoma, um corpo sem sintomas seria um corpo sem pensamento? - ou dito de um modo mais ameno e menos ambíguo: haveria então um "pensamento saudável", que não deixaria traços somáticos no corpo? 

Até onde me lembro, toda "idealização da vida" que Nietzsche faz envereda por aí - eu diria: se perde por aí, porque de novo o ressentimento vem contaminar seu pensamento e tudo que ele produz são idéias de dominação do outro.

O sadomasoquismo em Nietzsche: "Vai às mulheres? Não esquece o chicote". Mas quem irá segurar o chicote? Tenho minhas dúvidas que será Nietzsche...

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domingo, 29 de março de 2009

O show do Artur

O Artur é uma figuraça! Deve ter uns três anos, mas o seu prazer não é andar nessas máquinas infantis que se espalham pelos shoppings. Não! Ele gosta é de vê-las funcionando. A mãe coloca a ficha e o Artur começa a correr em volta da máquina sob o olhar preocupado da mãe, temerosa que o menino acabe sofrendo um acidente. Mas ele parece atento aos riscos pois, ao mesmo tempo que se curva e agacha e espicha todo para acompanhar os detalhes do movimento da nave espacial que sobe e desce e vai e vem, esquerda e direita, para cima e pra baixo, olhando-a por todos os ângulos possíveis, o Artur também foge dela e se desvia e esquiva, enquanto comenta com a mãe numa linguagem muito expressiva, cheia de exclamações de surpresa e êxtase, mas que só eles dois entendem.

Quem passa e calha de prestar atenção na cena ou não entende nada ou pára discretamente para assistir o show do Artur.

Outro guri chega com o pai e os dois parecem dispostos a esperar pacientemente a sua vez, mas a mãe do Artur logo oferece:

- Se você quiser, pode colocar o seu filho no brinquedo... O que o meu gosta mesmo é de ficar olhando...

Penso sentir certo tom de resignada estranheza na voz da mãe de Artur, como se o gosto do menino fosse de uma bizarrice incompreensível... Talvez seja só um pouco de enfado por ter de novamente repetir a mesma oferta e a mesma explicação, o espírito já pronto para responder a alguma réplica cheia de ironia ou espanto.

Mas o pai do outro menino simplesmente atende a sugestão da mãe do Artur e coloca o filho na cabine da nave - para alegria redobrada do Artur que agora também se dirige ao piloto em sua linguagem alienígena! O outro menino está visivelmente constrangido com a quebra da ordem previsível e olha para o pai com a expressão universal de quem não está entendendo nada.

E eu, ali ao lado, tirando uma xerox, encantado por ter o privilégio de testemunhar os primeiros passos de um gênio. Porque é claro que o Artur tem tudo para ser um engenheiro, um inventor de máquinas ao melhor estilo de um Nicolai Tesla - esse gênio tão injustamente esquecido. Ou um diretor de cinema. Ou... Enfim, o Artur desde os três anos é esse genial atormentado que quer ver as coisas por dentro, que só fora delas se sente dentro delas, numa contradição apenas aparente, porque indescritível como método.

Ah! Meu queridíssimo Artur, rezo para que você logo cedo aprender a lidar com essa curiosidade insaciável, essa insatisfação com o que existe, essa ânsia de êxtase que vão acompanhar você por toda vida. Que você logo aprenda a suportar sua genialidade e o olhar cheio de descrédito ou inveja dos outros homens. E se um dia precisar, conte com este seu, desde muito cedo, sincero admirador.

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Como vejo Nietzsche

Por sugestão da Rose, reuni num único post uma série de comentários que fui fazendo hoje de manhã sobre minha leitura de Nietzsche estes dias... 

* * *

"Juízos, juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas." (...) "Em si, tais juízos são imbecilidades. É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte, mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão."
Frederich Nietzsche, em O Crepúsculo dos Ídolos

* * *

Tenho com Nietzsche uma relação ambígua. Acabo de reler O Crepúsculo dos Ídolos, meu preferido. A idéia de que "todo pensamento é sintoma" é brilhante e tem uma consequência, que Nietzsche não parece ter percebido, ao menos não nesse livro: o limite da verdade é o sujeito.

O que é demais para o meu "espírito moderno" são suas opiniões sobre democracia, moral cristã, relação homem e mulher, e por aí vai...
Nunca se ousou aplicar a Nietzsche seu próprio remédio, não que eu saiba: nunca se analisou que sintomas seu pensamento expressa.
De um modo geral e provisório, eu diria que o Nietzsche crítico ou psicólogo é genial, mas o Nietzsche formulador é ruim, demasiado ruim.

Conceitos como "vontade de potência", "eterno retorno", apolíneo e dionisíaco" me dizem muito pouco e sendo nietzscheano com Nietzsche eu diria que refletem não só o "espírito da época", como o "espírito alemão" e, claro, o espírito do próprio
 Nietzsche.
Mas, repito, "todo pensamento é sintoma" é uma intuição e tanto! E toda essa tentativa - que fica a meio caminho - de resgatar o corpo coincide com a minha busca hoje.

* * *

O Crepúsculo do Ídolos é um painel do pensamento de Nietzsche, acho. Estão lá todos os conceitos, todas as contradições, todas as ilusões e delírios, toda inconsistência argumentativa, todo o brilho intuitivo. Enfim, tudo... Nietzsche é um personagem riquíssimo, e por isso, ambíguo e contraditório.  

Em O Crepúsculo as contradições são claras. Nietzsche parece pereceber que a idealização da vontade de poder conduz a brutalização e à violência e por isso, em contrapartida, valoriza a astúcia e outras qualidades associadas aos seres inferiores, aos chandalas. 

Sua percepção algo hiperbólica da vida me encanta e está muito próxima do que eu percebo, mas acho que oculta um certo temor à vida - meu também? Talvez... Compartilho com ele o desprezo por Kant, por Hegel, (de Schopenhauer não me sinto à vontade para falar, mas desconfio que sentirei o mesmo). Também não tenho o menor saco para Platão & Sócrates.

* * *

"Este período termina brutalmente em 3 de Janeiro de 1889 com uma "crise de loucura" que, durando até à sua morte, coloca-o sob a tutela da sua mãe e sua irmã. No início desta loucura, Nietzsche encarna alternativamente as figuras míticas de Dionísio e Cristo, expressa em bizarras cartas, afundando depois em um silêncio quase completo até a sua morte."

Queria ler essas cartas... Essa divisão entre Cristo e Dionísio, talvez seja a expressão mais exata de "o que é" Nietzsche.

Sua idealização da dor pretende ter algo de "aritocrático e guerreiro", algo de vital, mas me parece reproduzir o pior do cristianismo - e de todas as religiões: o masoquismo histriônico. O estoicismo nietzscheano é enfatuado e autopiedoso e pouco tem de "romano", acho eu.

E, apesar de tudo, Nietzsche não escapa à tentação alemã, à tentação de seu tempo, de chegar a "filosofia final e definitiva", ao "sistema geral" que explique tudo. Enfim, a chegar a uma religião - como Kant, com Hegel, como talvez Schopenhauer. Nietzsceh sei diz um imoralista - mas um imoralista é sempre também um moralista (um moralista dos tempos futuros?).

É disso que quero distância. Ao menos neste momento acho que há verdade em tudo - até na fraude! Ou que qualquer das vastas avenidas que se abrem à nossa frente - os grandes sistemas de pensamento (ou de crença, dá no mesmo) - servem, a depender apenas de quem cada um de fato é. Mas nenhum deles nos eximirá de, se queremos mesmo alcançar algo de "mais profundo", algo de "verdadeiramente verdadeiro", nenhum deles nos eximirá de em algum momento abandonar a estrada e abrir nosso próprio caminho, o atalho pessoal que ninguém pode prever onde dará, através da densa mata, do árido deserto, do árduo oceano.

* * *

Ainda "o que me aproxima e a fasta de Nietzsche": "além de bem e mal" pouco me diz, porque esses conceitos me parecem pra lá de naturais, de "instintivos" (para usar a terminologia nietzscheana): todo mundo sabe o que é bom e mau, bem e mal - e a chave desse saber é a aversão à violência e à dor. Não tanto aversão de praticá-la, mas de sofrê-la.

A maioria concorda em abrir mão da violência por uma questão meramente probabilística: é mais provável que venha a ser vítima dela do que seu perpetrador. Abrem mão de um prazer em troca de segurança (eis uma "interpretação bastante nietzscheana dos homens e suas motivações!).

"Minha busca" tem sido ir "além do prazer e da dor" - não no sentido de recusar a dor ou o prazer, mas de aceitá-los sem apego. Aceitá-los como fatos da vida: ambíguos e impermanentes como todos os fatos da vida. Porque eu quero a vida - no sentido em que eu não sou um monge - mas não quero estar submetido à vida e suas "exigências de continuidade" - no sentido em que não quero ser mundano, "fútil, cotdiano e tributável".

Minha intuição mais clara nesse sentido está numa crônica chamada "Numa esquina de Ipanema".
Ali de repente entendi a relação entre sexo e vida, ou porque o apelo sexual é tão forte, tão essencial, tão primário. E, por outro, exatamente por isso, porque as filosofias todas ou quase todas exigem que o discípulo se distancie do sexo (ou da vida, dá no mesmo). 

Não há nada de moral nisso - ao menos não no primeiro momento. Claro, quando as filosofias se "vulgarizam", quando se tornam "acessíveis às massas", fica-se com a síntese da conclusão (ou o "resumo do resumo") e deixa-se para trás todo o resto. Enfim, ao final resta apenas a regra sem argumento.

Pode-se refutar: "Nada há além da carne". Mas pode-se objetar em seguida: "É você quem diz. É você que não vê". Nesse âmbito, prefiro cauteloso Wittgenstein...

Porque, primeiro, essa renuncia genuína não é, nem pode ser, "para todos". Esse outro aspecto em que me aproximo de Nietzsche: a ditadura da igualdade é abominável porque logo se reduz à tirania pura e simples.

Mas exatamente por isso não se pode recusar nada, nenhuma filosofia, nenhuma religião - cada uma será sempre adequada a alguém. Ou perecerá. Mas com eu disse, ninguém escapará de em algum momento ter de se afastar da grande via e se embrenhar em si mesmo.

* * *

Ainda sobre as contradições de Nietzsche - ou sua falta de percepção das consequências de suas afirmações - veja-se, por exemplo, a máxima: "A verdade é sempre subjetiva". A afirmação não pode, portanto, excluir a possibilidade de um sujeito ser capaz de alcançar uma "verdade objetiva" subjetivamente. 

Acho que"para além" da simples oposição (insolúvel) entre "objetivo" e "subjetivo" o que se pode extrair dessa máxima - "para além" do próprio Nietzsche - é:
1) Toda verdade é a verdade de um sujeito. O sujeito é o limite da verdade, que permanece assim ilimitada...

2) A verdade é uma experiência. Uma experiência obviamente subjetiva, pessoal, intrasmissível. Ela pode ser narrada talvez, descrita, mas seu alcance total está "para além" das palavras. Ela só pode ser - em sua totalidade - experimentada.

3) Todo verdade só pode ser experimentada por um corpo, porque toda experiência é física e mental. Mas não podemos como homens admitir uma mente sem corpo, não NESTA vida - que é a única que nos importa, que deve nos importar, NO MOMENTO.

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sábado, 28 de março de 2009

Arte e política

"Todos os grandes tempos da cultura são tempos de decadência política: o que é grande no sentido da cultura sempre foi apolítico, mesmo antipolítico."
Friedrich Nietzsche, O Crepúsculo do Ídolos
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Idéias geniais

Achei esta imagem por acaso num site chamado Instructables. Eles ensinam com fazer uma porção de coisas, entre elas essa bicicleta própria para ir às compras. clique aqui 

Ou melhor ainda: entregá-las! Imagine quanto não ganharia alguém que resolvesse industrializar essa idéia? Seria o fim daqueles triciclos jurássicos...

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quinta-feira, 26 de março de 2009

Sobre o conhecer-se

"Juízos, juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas."  
Frederich Nietzsche, em O Crepúsculo dos Ídolos

E continua:

"Em si, tais juízos são imbecilidades. É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte, mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão."

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A busca

"O que eu busco?", interrogava-se enquanto avançava lentamente no trânsito engarrafado do fim da tarde. Filosofia, física, metafísica, teatro, poesia, meditação, capoeira: o que buscava, afinal? "Uma ciência do singular", foi o que lhe ocorreu responder para si mesmo.

Ultimamente, reparara que, em contraste com as inúmeras tentativas de uma "teoria geral  e definitiva do homem e do mundo", havia os homens, os seres. Era como se todos os pensadores buscassem chegar ao Ser para depois descer aos seres.

No entanto, todas as teorias e práticas lhe pareciam verdadeiras e proveitosas, como se cada uma se adequasse a um tipo exato de homem numa escala de muitos degraus. "Tudo é bom", lembrou mais uma vez o que lhe dissera um amigo muito querido. 

Então, consciente ou inconscientemente, todas as teorias e práticas seriam como modelos de autoconhecimento próprios para cada ser, em cada época e cultura, em cada degrau. Teorias e práticas para conduzir cada um ao conhecimento singular de si mesmo. Um conhecimento minucioso que abarcaria desde o extremo imponderável de supostas encarnações passadas ou futuras a um diálogo permanente com o próprio corpo, órgão por órgão. 

De posse desse conhecimento, dessa prática contínua, cada um estaria então habilitado a olhar o outro de fato em sua singularidade, a olhar o outro tal qual ele é e se mostra. Uma teoria que será tanto mais precisa quanto o autoconhecimento o for. Isto é, a medida do conhecimento do mundo possível a cada um é a extensão do autoconhecimento que alcançou.

Só sabendo quem se é, pode-se humildemente tentar conhecer o mundo, os seres, um outro homem.

E como medir a extensão desse autoconhecimento? Como não nos iludirmos a esse respeito? A resposta parecia simples: pelo tamanho do ego. Quanto mais se acredita que se é um nome com uma ascendência precisa, uma coleção de gostos e aversões, um ser espirituoso e cheio de personalidade, menos de fato se conhece de si. "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus", era essa a máxima de Jesus, tão mal interpretada e às vezes retraduzida para não afrontar com a expressão "pobres de espírito" a dominante "cultura do ego".

Ao contrário, se havia algo em comum a todas as teorias e práticas era esse apelo ao esvaziamento do espírito, à destruição do ego. "Destruição" talvez fosse uma palavra forte demais: o ego deve ser ultrapassado como quem deixa para trás uma roupa velha que nos foi muito útil, mas que o crescimento tornou inadequada. Lembrou de outra passagem do Evangelho em que Jesus diz: "Se quiserem levar tua túnica, deixa que levem também o manto".

Só depois que se deixa cair essa "máscara" - não por acaso, "persona" em grego - se está apto ao autoconhecimento que conduziria a tal "ciência do singular" que, em resumo, seria simplesmente ter um olhar despido e atento para cada ser. Só assim seria possível "Amar o próximo como a si mesmo".

A física quântica, ao abordar o mundo sob uma perspectiva probalística, dera um passo importante na direção dessa "singularização do conhecimento", mas o que lhe parecia claro era que a matriz de todo o conhecimento possível a cada um estava dentro de cada um.

"Conhece-te a ti mesmo" era o caminho. Um estranho caminho, no entanto. Porque há várias estradas largas e bem pavimentadas, várias... Mas cada um deve em algum ponto abrir o seu próprio caminho na densa mata, no árido deserto ou no mar ambíguo que circundam essas estradas. A imagem, a despeito de parecer vulgar, traduzia com exatidão o que agora percebia.

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quarta-feira, 25 de março de 2009

Da solidão

"Só na solidão se geraram as grandes coisas".
Pedro Nava

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segunda-feira, 23 de março de 2009

An Arab-Made Misery

Noni Darwish, The Wall Street Journal Europe, 18.03.2009

International donors pledged almost $4.5 billion in aid for Gaza earlier this month. It has been very painful for me to witness over the past few years the deteriorating humanitarian situation in that narrow strip where I lived as a child in the 1950s.

The media tend to attribute Gaza's decline solely to Israeli military and economic actions against Hamas. But such a myopic analysis ignores the problem's root cause: 60 years of Arab policy aimed at cementing the Palestinian people's status as stateless refugees in order to use their suffering as a weapon against Israel.

As a child in Gaza in the 1950s, I experienced the early results of this policy. Egypt, which then controlled the territory, conducted guerrilla-style operations against Israel from Gaza. My father commanded these operations, carried out by Palestinian fedayeen, Arabic for "self-sacrifice." Back then, Gaza was already the front line of the Arab jihad against Israel. My father was assassinated by Israeli forces in 1956.

It was in those years that the Arab League started its Palestinian refugee policy. Arab countries implemented special laws designed to make it impossible to integrate the Palestinian refugees from the 1948 Arab war against Israel. Even descendants of Palestinian refugees who are born in another Arab country and live there their entire lives can never gain that country's passport. Even if they marry a citizen of an Arab country, they cannot become citizens of their spouse's country. They must remain "Palestinian" even though they may have never set foot in the West Bank or Gaza.

This policy of forcing a Palestinian identity on these people for eternity and condemning them to a miserable life in a refugee camp was designed to perpetuate and exacerbate the Palestinian refugee crisis.

So was the Arab policy of overpopulating Gaza. The United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East, whose main political support comes from Arab countries, encourages high birth rates by rewarding families with many children. Yasser Arafat said the Palestinian woman's womb was his best weapon.

Arab countries always push for classifying as many Palestinians as possible as "refugees." As a result, about one-third of the Palestinians in Gaza still live in refugee camps. For 60 years, Palestinians have been used and abused by Arab regimes and Palestinian terrorists in their fight against Israel.

Now it is Hamas, an Islamist terror organization supported by Iran, which is using and abusing Palestinians for this purpose. While Hamas leaders hid in the well-stocked bunkers and tunnels they prepared before they provoked Israel into attacking them, Palestinian civilians were exposed and caught in the deadly crossfire between Hamas and Israeli soldiers.

As a result of 60 years of this Arab policy, Gaza has become a prison camp for 1.5 million Palestinians. Both Israel and Egypt are fearful of terrorist infiltration from Gaza -- all the more so since Hamas took over -- and have always maintained tight controls over their borders with Gaza. The Palestinians continue to endure hardships because Gaza continues to serve as the launching pad for terror attacks against Israeli citizens. Those attacks come in the form of Hamas missiles that indiscriminately target Israeli kindergartens, homes and businesses.

And Hamas continued these attacks more than two years after Israel withdrew from Gaza in the hope that this step would begin the process of building a Palestinian state, eventually leading to a peaceful, two-state solution to the Israeli-Palestinian conflict. There was no "cycle of violence" then, no justification for anything other than peace and prosperity. But instead, Hamas chose Islamic jihad. Gazans' and Israelis' hopes have been met with misery for Palestinians and missiles for Israelis.

Hamas, an Iran proxy, has become a danger not only to Israel, but also to Palestinians as well as to neighboring Arab states, who fear the spread of radical Islam could destabilize their countries.

Arabs claim they love the Palestinian people, but they seem more interested in sacrificing them. If they really loved their Palestinian brethren, they'd pressure Hamas to stop firing missiles at Israel. In the longer term, the Arab world must end the Palestinians' refugee status and thereby their desire to harm Israel. It's time for the 22 Arab countries to open their borders and absorb the Palestinians of Gaza who wish to start a new life. It is time for the Arab world to truly help the Palestinians, not use them.

Mrs. Darwish, who grew up in Gaza City and Cairo, is the author, most recently, of "Cruel and Usual Punishment," (Thomas Nelson, 2009).
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domingo, 22 de março de 2009

Domingo

Começou por abrir as janelas, todas, para que o ar circulasse, úmido, impregnando a casa do cheiro da chuvinha delicada que caía lá fora desde cedo. A vizinhança aconchegara-se ao domingo, mansa e quase silenciosa; era preciso apurar os ouvidos para capturar o rumor longínquo de uma balada triste, o alarido de vozes mais animadas ou o barulho de ônibus e carros que às vezes passavam, ora longe, ora perto. Mas todos esses sons vinham aos pedaços, sem que nada chegasse a fazer algum sentido. No céu, as fragatas rondavam à espera de ventos mais promissores, como ele mesmo espreitando palavras que lhe inspirassem uma crônica.

Ela lhe ensinara que não era "gaivota", mas "fragata" o nome certo daquelas aves marinhas que diariamente passavam sobre seu prédio de manhã cedo e no final da tarde, planando em bandos, indo e vindo na direção do mar, tão conhecidas suas, mas tão pouco íntimas. Resignava-se a acompanhar seu vôo com o olhar encantado e displicente e prometer-se um dia saber tudo sobre seus hábitos. Riu-se: promessas adiadas o faziam sentir-se ao mesmo tempo mais humano e carioca...

Enquanto escrevia, as fragatas encontraram o rumo do vento e sumiram da paisagem, lhe deixando um céu vazio e cinza, monótono e igual, mas nem por isso menos belo. De madrugada, pensara ler o que lhe pareceu um recado muito claro de um vento calígrafo, escrito com a tinta branca das nuvens no azul noturno do céu: "De manhã, prometo sol. À tarde, já não sei...". E assim, voltou para cama animado com a idéia de ir à praia bem cedo. Mas o vento, sempre tão volúvel e plural, desmentiu-se e o dia amanheceu nublado. Viu nisso um pretexto para sentir-se sem assunto e relaxou... Procurou algum texto inacabado e andou mesmo relendo outros bem antigos, que pensava nunca ter publicado... Mas, a verdade é que o passado não lhe apetecia. Ainda que nada tivesse a dizer, haveria a modesta riqueza do silêncio, esta simples narrativa de um domingo gostosamente sem cor e quase mudo vivido na solidão sem abandono de quem se descobre incompleto, mas satisfeito - modestamente satisfeito por sentir o que sente e pensar o que pensa. "Tenho meu corpo e o meu silêncio; tenho o amor ambíguo de uma mulher (porque assim é o amor); tenho a vaga amizade de uns e a profunda amizade de poucos (porque assim é a amizade)". Bastava.

O céu engrossou-se de nuvens em sutis variações de cinza e outras fragatas voltaram a rondar aflitas. Não se perguntou de onde vinha o inconfundível cheiro de rosas que pensou sentir no ar mais frio da chuva que se anunciava, vinda do sul.

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domingo, 15 de março de 2009

Haicais

1. Contraste (Anicca)
A borboleta azul
passa e beija o pé
do homem de branco

2. Tom sobre tom (Anicca)
No ar suspenso,
o colibri esmeralda
contempla o cacho.

3. Formas (Maya)
A cobra sonsa
sonha-se um galho
à beira do caminho.

4. Deuses (Maya)
A formiga admira-se
Da chuva monumental
Escada abaixo.

5. Sentidos (Vedana)
Ao sabor da trilha,
Escuto cheiros, dou cor ao vento
Sinto: quem?

6. Instante (Anicca)
Súbito, o sapo
Nem sabe quem saltou:
ele ou a lata?

7. Método (Magga)
O eucalipto ao vento:
As sensações são o vento;
Eu, o eucalipto. 

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Voltei...

No Rio desde sexta à noite, mas ainda reticente, colocando com calma as coisas em dia... Sinto uma intensa e calma felicidade, como o mar em certos dias em que água está transparente, fria e sem ondas.
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quinta-feira, 5 de março de 2009

Meditação


Estou indo para mais um curso de meditação e só volto dia 14 de março.
A sensação é sempre de estar saindo para uma longa viagem por um lugar distante e inóspito.

Para saber mais sobre a técnica de meditação que pratico, clique aqui

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domingo, 1 de março de 2009

Um barco no ar

"Recuperação da adolescência: é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço." 

Um dia, há muito, muito tempo - quase outra vida - quando ele se sentia irremediavelmente perdido, condenado a um fim que jamais se consumava, se arrastando sem dor nem ênfase, falso fim de uma falsa vida, avesso de si, sonso moribundo confinado em si mesmo, esse poema de Ana Cristina César lhe grudara na alma feito tatuagem, gotejando a ironia que era seu único alimento, resumo-enigma ressoando feito koan em seu deserto de monge sem mestre, delirante e lúcida miragem...

A mesa do bar ao ar livre estava cheia de garrafas de vidro escuro, que contrastavam com o céu muito claro e sem nuvens da tarde quente, e o lado em branco da folha de uma propaganda qualquer era para ele um desafio - como tudo mais, afinal. Como tudo mais, exigia uma resposta, um rabisco ao menos que lhe maculasse a brancura interrogante, um ruído qualquer que quebrasse esse silêncio deserto - ou outra dose que o arrastasse para mais além...

"Ancorar um navio no espaço". Gostava dessa imagem... Pegou a folha e bem devagar, com minucioso cuidado, a foi dobrando - primeiro, pela metade; depois, de novo, fazendo com que as extremidades superiores se encontrassem bem no meio da folha; em seguida, cobriu as dobras com o resto de papel que sobrara livre. A folha ganhou a forma de um chapéu, desses que as crianças aprendiam a fazer para brincar de soldado. Desde muito menino, desenvolvera a arte da dobradura e nunca a perdera, apesar de tudo. Agora, um calor invadira seu coração gelado: sabia exatamente onde queria chegar.

Mais duas dobras e algumas manobras hábeis e sutis e a folha ganhou a inesperada forma de um barco. Um barquinho de papel todo branco! Com a reverência ritual de quem se dirige ao íntimo Deus que cada um trás dentro de si, encaixou com delicada precisão o barquinho no gargalo de uma garrafa. E lá ele ficou a tarde toda, pousado no ar, imune ao vento e a indiferença dos passantes.

***

Então, mesmo agora quando já não há mais desertos - e o silêncio que há é o dela deitada ao seu lado vendo as gaivotas (que ela chama de fragatas) cruzarem o céu muito claro e sem nuvens da tarde quente - se de repente a negação de novo lhe ameaça comprimir o coração (que ainda se assusta às vezes por saber que sua força reside em sua delicadeza) ele lembra que é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço...

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