sábado, 31 de janeiro de 2009

Preciso de alguém

Caio Fernando Abreu, 1987

Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar,
mas nunca encontrei você na escada.

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa? (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.) Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

* * *
Ainda que não seja assim que eu sinta ou queira sentir, ainda que o texto me soe romântico demais - quase não-lírico de tão romântico, quase niilista de tão romântico; e ainda que, por outro lado, eu saiba que isso - como tudo que se escreve com o coração, seja o que for - não é manifesto, tese ou tratado, mas impressão, apelo, retrato; e ainda que houvessem outras ressalvas, ainda assim: esse texto é lindo, genuinamente lindo e como tudo que é genuinamente lindo, é verdadeiro e eterno. E só isso importa.

* * *
E vc lendo no telefone estava genuinamente uma graça...
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da mediunidade dos livros



"...o cheiro e o sabor das coisas continuam por muito tempo, como almas, prontas a nos lembrar, aguardando e esperando pelo seu momento... Contendo na minúscula e quase impalpável gota de sua essência a vasta estrutura das lembranças..."

É Proust, mas podia ser Bowles, como chegou a pensar, vasculhando inutilmente a surrada edição de "O céu que nos protege" que comprara num sebo. Acabara por encontrar frases com marcações estranhas que não reconhecia como suas. Seriam do primeiro dono do livro, que o adquirira no longínquo ano de 1991? A vontade que fossem dela - que as teria deixado lá intencionalmente, como uma espécie de mapa onde ele a pudesse reencontrar um dia - um dia como hoje - quando tudo parecesse irremediavelmente perdido - esse desejo de que fossem dela essas marcações, talvez o fizesse não se lembrar de tê-las visto antes, quando o lera, encantado pela sóbria melancolia de Bowles.

Para seu desalento, também não lembrava se chegara a lhe emprestar o livro para que ela o lesse ou se conseguira para ela um exemplar... Sua memória era lamentável - mais própria, preferia crer, para amplificar as sensações presentes do que para guardá-las numa seqüência confiável de eventos. E ainda mais em um ano de frustração, dor e incerteza - que começara com uma promessa de união e acabara em rompimento.

"Porém nenhum saber era um saber certo; o porvir sempre dispunha de mais de uma direção possível. Não se podia sequer desistir da esperança."

Essa frase ele anotara, tocado por sua fervorosa ironia e a tinha a mão para momentos como hoje... Sabia também onde encontrar no livro alguns trechos que o haviam emocionado: "Da mesma maneira que ela era incapaz de se libertar do medo que sempre a acompanhara, ele era incapaz de escapar da jaula na qual se encerrara, a jaula que ele construíra há muito tempo para se proteger do amor".

E um pouco mais adiante, na mesma cena: "Sabe o quê? - disse ele com grande seriedade. - Acho que nós tememos a mesma coisa. E pelo mesmo motivo. Nunca conseguimos, nem eu nem você, entrar totalmente na vida. Seguramos nela pelo lado de fora, com toda força, certos de que vamos cair no primeiro safanão. Não é verdade?"

Talvez fosse... Mas quem havia marcado no livro este outro trecho? "Especialmente com frio - um frio interno e profundo que nada podia dissipar. Embora esse entorpecimento glacial fosse a base de sua infelicidade, ele sempre se agarraria a ele, porque também era o núcleo do seu ser; ele o construíra ao seu redor."

Teria sido ela? Ou ele mesmo? Que importava isso agora se, afinal, fora exatamente por se sentirem tão iguais que acabaram se afastando - ou ao menos era o que ela lhe dissera e ele aceitara sem outro pasmo senão pensar que era esse o exato motivo porque os outros se uniam. Os outros...

"... acabaram cometendo o erro fatal de negar vagamente a existência do tempo."

Fora isso? Perguntava ao livro como se ele fosse um médium intermediando o diálogo impossível com alguém distante e talvez perdido para sempre.

"E ocorreu-lhe que um passeio no campo era uma espécie de alegoria de nossa passagem pela vida. Nunca temos tempo de saborear os detalhes; dizemos num outro dia, mais sempre sabendo de maneira oculta que cada dia é único e final, que nunca haverá retorno, um outro tempo."

Um outro tempo...

"O ruído do vento na janela celebrava sua tenebrosa sensação de ter atingido um novo grau de solidão."
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Da imparcialidade jornalística

Postado no Fiel Inimigo:

"Na sequência da ofensiva do exército do Sri Lanka sobre o território controlado pelos guerrilheiros da minoria tamil, a BBC informa que “Humanitarian groups have said a major crisis is looming for 250,000 civilians with reports of hundreds killed.”

Esta notícia era um pequena chamada na primeira página da BBC ao fim da manhã. No entanto, um par de horas depois, a única forma que temos para a encontrar é por pesquisa no site. Um tratamento jornalístico completamente oposto àquele que foi dedicado ao ataque das FDI contra os terroristas do Hamas em Gaza.

Mas não é só a BBC." leia mais
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Combina com essa tarde...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Your Song

Diz um amigo meu que a melhor profissão do mundo pop é ser Bernie Taupin, o letrista quase invisível de Elton John...
O certo é que esses caras - e outros tantos - ajudaram a educar nossas emoções, nos deram chaves para que a gente pudesse ir inventando o amor do bruto caos do desejo...

De uma melodia e umas poucas palavras mal entendidas, a gente ia dando forma a isso que hoje somos, muito a custa da pedagogia simples de ouvir seguidas vezes a mesma canção do disco ou esperar com paciência e fé de monge que ela tocasse no rádio...

Mesmo eu, que por artimanhas dessa minha vida estranha nunca fui pop (até parece título de livro: nunca fui pop), me emociono ouvindo músicas que nem sabia impressas tão a fogo em mim, tão fundo...

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A disseminação da obesidade

Drausio Varela

Todos os ventos sopram a favor da disseminação de uma epidemia de obesidade de consequências trágicas. Vejamos:

1) Ganhar peso é bom para a agropecuária.
Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes na história da agricultura. A modernização das técnicas de plantio, da infraestrutura de transporte e de armazenamento aumentou a produtividade, reduziu o desperdício e fez cair os preços. Jamais a população brasileira experimentou tamanha fartura ou teve acesso a tantos alimentos de qualidade.
Quanto perderia a agropecuária se a população selecionasse com mais critério e reduzisse a quantidade de alimentos consumidos?

2) Ganhar peso é bom para a atividade industrial.
A tecnologia levou à produção em massa de biscoitos, refrigerantes, queijos, embutidos, sorvetes, pães, doces e chocolates que superlotam as estantes dos supermercados. Existe vendinha no lugarejo mais remoto, em que não seja possível encontrar refrigerantes e pacotes de salgadinho?
Atenta à progressão da epidemia, a indústria alimentícia investiu pesado nos alimentos e refrigerantes "light". Quem os consumiria se todos fossem magros?
No passado as mulheres cozinhavam e as refeições aconteciam em casa. Hoje, quem pode ter esse privilégio? As refeições são feitas em bares, restaurantes "por quilo", lanchonetes de fast food. Quantos ficariam desempregados se fossem adotadas dietas mais frugais?
A indústria que produz medicamentos para diabetes, hipertensão, doenças cardiológicas e as três ou quatro drogas indicadas para combater (sofrivelmente) a obesidade ganharia se as pessoas comessem menos e fizessem mais exercício?
Os fabricantes de televisores, automóveis, escadas rolantes, computadores e jogos eletrônicos: quanto perderiam se crianças e adultos abandonassem a vida sedentária?

3) Ganhar peso é bom para a publicidade e os meio de comunicação.
As campanhas publicitárias de alimentos industrializados movimentam bilhões. Vivemos bombardeados por comerciais de cervejas, refrigerantes e de alimentos que nada mais são do que gorduras e carboidratos em embalagens atraentes.
Quando um fabricante anuncia um novo salgadinho em forma de elefante, sabe que a criança pedirá aos pais para comprar exatamente aquele. Que produtor investiria para exaltar as vantagens da laranja em vez da torta de chocolate na sobremesa, sem nenhuma segurança de que o consumidor compraria a laranja produzida por ele?
Sinceramente, não consigo pensar num único setor importante da economia que se beneficiasse com o combate às forças que incentivam a obesidade.

4) A medicina pouco pode ajudar.
Descontada a possibilidade de receitar os três ou quatro medicamentos citados, limitamo-nos a recomendar ao obeso o que ele está farto de saber: "Coma menos e ande mais". Convenhamos, leitor, é tão ridículo quanto dizer ao alcoólatra para beber com moderação. Se o gordo conseguisse ser mais ativo fisicamente e parcimonioso à mesa, não estaria diante do médico pedindo ajuda para emagrecer.
Quanto mais estudamos os genes, os mediadores hormonais e os neurotransmissores envolvidos nos mecanismos de fome e saciedade, mais complexos e interligados eles revelam ser, maior nossa dificuldade em compreendê-los e de interferir com eles.
É pouco provável que surja um remédio eficaz indicado para todos os casos. O tratamento da obesidade exigirá o emprego de múltiplas drogas administradas por longos períodos de tempo ou até pela vida inteira, eventualmente.

5) Perder peso é lutar contra a natureza humana.
Assim que o cérebro detecta diminuição dos depósitos de gordura, a energia que o corpo gasta para exercer suas funções básicas em repouso (metabolismo basal) cai dramaticamente, ao mesmo tempo em que são enviadas mensagens bioquímicas irresistíveis para irmos atrás de alimentos.
Infelizmente, quando ocorre aumento de peso, os sinais opostos são quase imperceptíveis: não há aumento substancial da energia gasta em repouso, a fome não diminui nem surge estímulo para aumentar a atividade física.
O corpo humano tende a defender o peso mais alto que já atingiu. O organismo protege as reservas de gordura mesmo quando estocadas em quantidades excessivas. A mais insignificante tentativa de reduzi-las é interpretada pelo cérebro como ameaça à integridade física.
É ignorância imaginar que emagrecer seja simples questão de força de vontade.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Das artes da chuva



Não podia estar vestido de modo mais inadequado: calça clara, camiseta branca, tênis de corrida. Também não podia dizer que a chuva o surpreendera. Há dias que o céu permanecia pesado de nuvens, ameaçador e volúvel. A qualquer momento e por razões incertas, desatava, ora brutal, ora quase um afago.

Simplesmente se vestira errado, distraído sabe-se lá por que pensamentos, e não precisou andar muito para percebê-lo. Começara a chuviscar, mas por preguiça decidiu seguir assim mesmo até o metrô. Quando chegou à estação, já chovia forte. Despreocupou-se. Saltaria no Centro e não precisaria caminhar muito para chegar onde queria. Haveria marquises e guarda-chuvas de sobra.

Há duas artes essenciais na existência: a arte de andar de guarda-chuva e a arte de andar sem guarda-chuva entre guarda-chuvas. São dois modos de fazer a mesma coisa - andar na chuva. No entanto, o ritmo, a atenção, o passo que cada arte exige mais do que distintos, são inversos.

Os céticos costumam duvidar da eficácia com que essas artes extremas se combinam e se completam na tarde banal para formar uma coreografia de improvisos coordenada por ninguém. Mas assim é quase sempre - e um ou outro incidente é como a nota cômica dessa dança.

Há que se dominar as duas artes porque, com vendedores de guarda-chuva a cinco reais brotando de repente do chão é fácil escolher que arte vestir. Naquela tarde, a roupa inadequada não combinava com guarda-chuva. Mas os tênis combinavam com correr. Espreitou o sinal fechar e saiu em disparada. Do outro lado pode comemorar que se molhara bem menos do que imaginara.

A tarde passou e a chuva voltou a ser uma seca ameaça, pesada e cinza. Tinha ainda compras a fazer. Havia tempo. Sempre há tempo. Quando finalmente chegou ao metrô já chuviscava. Só não esperava o temporal na estação de casa. Chovia tão forte que água descia pelos degraus da escadaria.

Há ainda uma terceira arte, síntese quase esotérica das outras duas: a arte de andar na chuva.

A arte de andar na chuva é uma festa para os sentidos. O gosto da chuva, o cheiro mineral que o concreto exala, o efervescer do chão, o espetáculo exuberante da água correndo, o corpo inteiro a flor da pele, desperto, alegremente alerta.

Arte praticada por poucos e geralmente quando estão próximos de casa, não temem gripes, resfriados e outras constipações, trazem no coração uma sede às vezes inexplicável e sentem-se um pouco loucos, embriagados da nobilíssima solidão de andar lentamente sob a chuva pelas largas calçadas vazias, indiferente às poças de água. Lentamente, cada vez mais devagar, enquanto pensava se valeria a pena passar de sua rua distraidamente apenas para alongar o passeio...

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Sobre os mortos em Gaza

Excelente matéria do Corriere della Sera em Gaza, ouvindo jornalistas, médicos e cidadãos locais. Como eu disse desde o início, é impossível confiar nas cifras divulgadas pelo Hamas - e sempre atribuídas a "autoridades médicas palestinas" - sobre o número de mortos e feridos.

"E c’è un altro dato che sta emergendo sempre più evidente visitando cliniche, ospedali e le famiglie delle vittime del fuoco israeliano. In verità il loro numero appare molto più basso dei quasi 1.300 morti, oltre a circa 5.000 feriti, riportati dagli uomini di Hamas e ripetuti da ufficiali Onu e della Croce Rossa locale. «I morti potrebbero essere non più di 500 o 600. Per lo più ragazzi tra i 17 e 23 anni reclutati tra le fila di Hamas che li ha mandati letteralmente al massacro», ci dice un medico dell’ospedale Shifah che non vuole assolutamente essere citato, è a rischio la sua vita. Un dato però confermato anche dai giornalisti locali: «Lo abbiamo già segnalato ai capi di Hamas. Perché insistono nel gonfiare le cifre delle vittime? Strano tra l’altro che le organizzazioni non governative, anche occidentali, le riportino senza verifica. Alla fine la verità potrebbe venire a galla. E potrebbe essere come a Jenin nel 2002. Inizialmente si parlò di 1.500 morti. Poi venne fuori che erano solo 54, di cui almeno 45 guerriglieri caduti combattendo»." leia mais
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sábado, 24 de janeiro de 2009

L'étranger

Baudelaire: Petits poèmes en prose, I (1869)

- Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
-Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!
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No Regrets

Why I'm not sorry that George W. Bush beat Al Gore and John Kerry.

Christopher Hitchens

Yes, yes, I was on the downtown streets of Washington bright and early, mingling with the bright-eyed and the wide-eyed. Yes, by all means I was there on the Mall Sunday afternoon, feeling no more moist than the next person but not much less moist, either (and getting a strange lump in the throat at the rendition of—funny how these things work—"American Pie"). And yes, that was me at the ball given by The Root, making a mild fool of myself as I boogied chubbily on down to the strains of Biz Markie, DJ to the capital's black elite.

I wouldn't reconsider my vote for Barack Hussein Obama, in other words, and when he takes the oath, I hope to have a ringside seat. I already know something about "the speech" and its Lincolnian tropes. (If you want your own understated preview, take a look at what he said to the crowd in Baltimore Saturday, as his whistle-stop train made its way from Philadelphia to D.C.'s Union Station.) But, on the last day of his presidency, I want to say why I still do not wish that Al Gore had beaten George W. Bush in 2000 or that John Kerry had emerged the victor in 2004.

In Oliver Stone's not very good but surprisingly well-received film W., there is an unnoticed omission, or rather there is an event that does not occur on-screen. The crashing of two airliners into two large skyscrapers isn't shown (and is only once and very indirectly referred to). This cannot be because it wouldn't have been of any help in making Bush look bad; it's pretty generally agreed that he acted erratically that day and made the worst speech of his presidency in the evening, and why would Stone miss the chance of restaging My Pet Goat?

The answer, I am reasonably certain, is that it is the events of Sept. 11, 2001, that explain the transformation of George Bush from a rather lazy small-government conservative into an interventionist, in almost every sense, politician. The unfortunate thing about this analysis, from the liberal point of view, is that it leaves such little room for speculation about his Oedipal relationship with his father, his thwarted revenge fantasies about Saddam Hussein, his dry-drunk alcoholism, and all the rest of it. (And, since Laura Bush in the film is even more desirable than the lovely first lady in person, we are left yet again to wonder how such a dolt was able to woo and to win such a honey.)

We are never invited to ask ourselves what would have happened if the Democrats had been in power that fall. But it might be worth speculating for a second. The Effective Death Penalty and Anti-Terrorism Act, rushed through both Houses by Bill Clinton after the relative pin prick of the Oklahoma City bombing, was correctly described by the American Civil Liberties Union as the worst possible setback for the cause of citizens' rights. Given that precedent and multiplying it for the sake of proportion, I think we can be pretty sure that wiretapping and water-boarding would have become household words, perhaps even more quickly than they did, and that we might even have heard a few more liberal defenses of the practice. I don't know if Gore-Lieberman would have thought of using Guantanamo Bay, but that, of course, raises the interesting question—now to be faced by a new administration—of where exactly you do keep such actually or potentially dangerous customers, especially since you are not supposed to "rendition" them. There would have been a nasty prison somewhere or a lot of prisoners un-taken on the battlefield, you can depend on that.

We might have avoided the Iraq war, even though both Bill Clinton and Al Gore had repeatedly and publicly said that another and conclusive round with Saddam Hussein was, given his flagrant defiance of all the relevant U.N. resolutions, unavoidably in our future. And the inconvenient downside to avoiding the Iraq intervention is that a choke point of the world economy would still be controlled by a psychopathic crime family that kept a staff of WMD experts on hand and that paid for jihadist suicide bombers around the region. In his farewell interviews, President Bush hasn't been able to find much to say for himself on this point, but I think it's a certainty that historians will not conclude that the removal of Saddam Hussein was something that the international community ought to have postponed any further. (Indeed, if there is a disgrace, it is that previous administrations left the responsibility undischarged.)

The obvious failures—in particular the increasing arrogance and insanity of the dictatorships of Iran and North Korea—are at least failures in their own terms: failure to live up to the original rhetoric and failure to mesh human rights imperatives with geo-strategic and security ones. Again, it's not clear to me how any alternative administration would have behaved. And the collapse of our financial system has its roots in a long-ago attempt, not disgraceful in and of itself, to put home ownership within reach even of the least affluent. So the old question "compared to what?" does not allow too much glibness.

Inescapable as it is, "compared to what?" isn't much of a defense. And nor has this column been intended exactly as a defense, either. It's just that there's an element of hubris in all this current hope-mongering and that I am beginning to be a little bit afraid to think of what Wednesday morning will feel like.
* * *
A tradução desse texto saiu na revista Época desta semana. Tentarei publicar a tradução na segunda-feira. Mas decidi publicar logo de uma vez porque se trata de um dos textos mais lúcidos que li sobre a troca Bush/Obama - e certamente o bem escrito.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A farsa do aquecimento global

Pouco a pouco, a tese do "aquecimento global" vai se derretendo...

Primeiro, foi ruindo a "causa antropogênica", que relacionava emissão de CO2 e elevação continuada da temperatura. Agora, é o próprio aquecimento global que vem sendo desmentido - e mesmo desqualificado - por conta da queda continuada das temperaturas desde de 2001.

Por isso, as defecções já começaram:
"David Evans faz parte daquele grupo de cientistas que desmente o propalado consenso acerca da teoria do aquecimento global de natureza antropogénica.

Para os alarmistas, David Evans representa o pior que lhes pode acontecer. Depois de trabalhar seis anos ao lado dos crentes mudou de posição, passando decididamente para o campo dos cépticos." leia mais
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Sobre Lincoln

A propósito das analogias entre Abraham Lincoln e Barack Obama - sem dúvida, incentivadas pela competentíssima assessoria de marketing do novo presidente americano - vale a pena ler o artigo biográfico de Christopher Hitchens para a Newsweek sobre Lincoln.
"If given a blind test and asked which "tyrannical" president had suspended the writ of habeas corpus, closed the most newspapers, arrested the most political rivals, opened and censored the most mail and executed the most American citizens without trial, few students would mention the "Great Emancipator" as the original supremo of big government. But the facts must be faced, as Lincoln faced them." leia mais
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Nota cômica

"A Sociedade Islâmica de Estudantes da Universidade de Teerã convidou os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales, para comemorar a retirada das tropas israelenses da faixa de Gaza, fato que o grupo considerou uma "vitória"." leia mais

Que lástima! Não convidaram o Lula...
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Enquanto isso...

No Irã
"Iran has finally confirmed the arrest of Hossein Derakhshan.

From the Associated Press via the International Herald Tribune:
Iran confirmed on Tuesday that a well-known Iranian-Canadian blogger, who had made trips to Israel, was in detention.

Judiciary spokesman Ali Reza Jamshidi told reporters that Hossein Derakhshan was detained under order from the revolutionary court.

Derakshan, described as the “father” of Iran’s vigorous blogging scene, had been rumored to be in prison for the last two months according to international human rights groups, before Tuesday’s confirmation.

He was detained in November, few weeks after he returned to Iran.

Jamshidi says Derakhshan was charged with insulting religious figures. He did not elaborate." leia mais
* * *
Em Gaza
"A Fatah official in Ramallah told the Post that at least 100 of his men had been killed or wounded as a result of the massive Hamas crackdown. Some had been brutally tortured, he added.

The official said that the perpetrators belonged to Hamas's armed wing, Izaddin Kassam, and to the movement's Internal Security Force.

According to the official, at least three of the detainees had their eyes put out by their interrogators, who accused them of providing Israel with wartime information about the location of Hamas militiamen and officials." leia mais

"Since the operation began on December 27, Hamas operatives have executed several people it classified as collaborators. (...) Independent sources said that among the dead were those not known publicly to have been collaborators, as well as others long suspected of cooperation with Israel, or those arrested and later released.

Estimates of the number of suspects executed range from 40 to 80, but amid the prevailing conditions shelling, fear of walking the streets and media blackouts it is virtually impossible to verify the numbers or identities of the dead." leia mais

* * *
Na Rússia
"Um advogado de direitos humanos que lutava contra a libertação de um coronel que havia matado uma mulher tchechena foi assassinado no centro de Moscou por um homem armado com uma pistola com silenciador, segundo autoridades. Uma jornalista que tentou intervir no momento do ataque também morreu." leia mais

* * *
Na Venezuela
"Sob a alegação de que não tinham autorização, o governo Hugo Chávez dissolveu ontem uma marcha estudantil no centro de Caracas com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Foi o mais grave de vários incidentes registrados desde sábado, quando o mandatário venezuelano lançou oficialmente a campanha pela reeleição indefinida ordenando "jogar gás do bom e meter preso" em caso de distúrbios de oposicionistas."

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Oba-Oba

"Obama tem estado a agir com um pragmatismo e uma cautela notáveis o que, para mim, significa que podemos estar na presença de um indivíduo cerebral e inteligente, a milhas dos fumos ideológicos que apodrecem as cabeças de muitos daqueles que se babam e se urinam na sua presença.

As suas primeiras medidas em matéria ambiental revelam uma eficácia absolutamente fantástica. Tem estado um frio do caraças, na Europa, na América e em quase todo o Hemisfério Norte. Não sei o que Barack Obama terá feito, desconheço as medidas em concreto, mas nesta matéria a mudança é visível.

O aquecimento global cessou completamente, graças a Barack Obama
."
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A chave

"History is humanity's contribution to aid God behold God.

Each of us is an organ of perception by which Adam Kadmon can see the Absolute's reflection through our experience. With the Resurrection at the End of Time will come the recognition that all that has ever happened was planned.

The key is to find out what one's particular part is."
Z'ev ben Shimon Halevi
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Os benefícios da Lua

Charles Baudelaire

"A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo, mesma: "Esta criança me agrada."

E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com o desejo de chorar.

Entretanto, na expansão da sua alegria, a lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:

- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.

Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
Não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desmaiam sobre os pianos e gemem que nem as mulheres, com
Uma doce voz enrouquecida!

"E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
Carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da sua loucura.

E é por isso, maldita e querida criança mimada, que estou agora prosternado a teus pés, buscando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha, da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos.

* * *
A tradução é do Aurélio Buarque de Holanda - ele mesmo, o do dicionário.
As traduções de Baudelaire para o português são um luxo.

Experimentem "As Flores do Mal' por Ivan Junqueira.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Falsos humanistas

Denis Lerrer Rosenfield, in O Globo, 19.01.09

Martin Luther King já dizia que o antissionismo é o novo disfarce do antissemitismo.
Em vez da pessoa se dizer antissemita, o que seria politicamente incorreto, ela se diz antissionista, como se, assim, as aparências fossem salvas. O Hamas ancora todo o seu discurso contra a “entidade sionista”, dizendo, com isso, procurar a “libertação da Palestina”.

O problema, contudo, está no sentido conferido à expressão “libertação da Palestina”, pois, na verdade, ele quer dizer a destruição do Estado de Israel, segundo consta de sua “Carta”, de 1988: “Israel existirá até o Islã o apagar do mapa, exatamente como fez com outros no passado.” Aliás, nesta mesma “Carta”, ele se posiciona contra toda reunião internacional: “As iniciativas de paz, ou soluções pacíficas, ou conferências internacionais são contrárias aos princípios do Hamas... Não há outra solução para o problema palestino a não ser a Jihad.” Libertação significa aqui morte do outro: “O dia do julgamento não virá até que os muçulmanos matem todos os judeus.” Surpreendente, no entanto, é o eco desse discurso entre certos setores do jornalismo e da intelectualidade (que certamente não usa o intelecto), que reproduzem os mesmos termos, acrescentando outros, como se as ações de autodefesa do Estado de Israel fossem “terrorismo de Estado”, “genocídio” e “práticas nazistas”. O PT, em particular, mais uma vez se mostrou à altura de sua falsificação da história, o que é coerente com sua linha de maltrato da moralidade, da ética na política, com o “mensalão”, os “aloprados”, as “cuecas” e outras formas de afirmação de seus “princípios”. Digno de nota, porém, é o fato de ele, agora, abraçar a causa do “terrorismo islâmico”, dentro, certamente, de sua luta contra o “sionismo” e o “imperialismo”. Seu perfil totalitário fica ainda mais nítido. Evidentemente, não precisa mais se dar o trabalho de distinguir entre a “causa palestina” e o “terror”.

O Hamas é uma criatura da Fraternidade Muçulmana, grupo religioso de oposição ao governo egípcio. Dentre os seus feitos, destaca-se o assassinato de Anuar El Sadat, o presidente que fez a paz com Israel. Cometeu, aos olhos dos fundamentalistas islâmicos, um pecado capital: reconheceu o Estado hebreu. Pagou com a sua própria vida. Israel retirou-se dos territórios ocupados e, desde então, reina a paz entre Estados que, no passado, foram inimigos. A paz, porém, é inaceitável para o terror. A ideologia deste grupo teológicopolítico é fortemente impregnada de posições antiocidentais, abominando, principalmente, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade dos costumes, a democracia e a tolerância. Não é casual que o segundo homem na hierarquia da alQuaeda seja egresso da Fraternidade Muçulmana.
Afinidades eletivas! São certamente impactantes e condenáveis as cenas de crianças mortas. Aliás, o Hamas conseguiu, nesse sentido, bem instrumentalizar a opinião pública internacional e nacional. O que não se diz, todavia, é que o Hamas utiliza mulheres e crianças como “escudos humanos”. Israel tem poucas vítimas civis. Por quê? Porque se preocupa com os seus cidadãos, construindo abrigos e criando sistemas de alerta. O que fez o Hamas? Criou passagens e túneis subterrâneos para os seus militantes, colocando, na frente de batalha, crianças e mulheres, de modo que elas pudessem se tornar vítimas para a opinião pública. Claro que, assim, as baixas civis só poderiam ter aumentado.

Baixas civis, aliás, que são intencionalmente infladas, pois os “combatentes” do Hamas, agora, estão lutando com trajes civis, abandonando os seus uniformes, de tal maneira que as suas mortes não apareçam como as de militantes.

No Brasil, temos intelectuais (sic!) que fazem manifesto contra a agressão israelense a universidades e mesquitas. Ora, não conseguem compreender — deve ser muito difícil! — que mesquita não é mesquita, escola não é escola, universidade não é universidade, da mesma forma que libertação não é libertação. São centros de armazenamento de armas, foguetes, refúgios de terroristas, além de locais de endoutrinação e treinamento. É o que foi mostrado, recentemente, no Paquistão, onde uma mesquita cumpria precisamente essa função.

O drama palestino reside na ausência de líderes e partidos políticos efetivamente comprometidos com a criação de um Estado. Arafat não esteve distante disso quando, em Camp David, esteve próximo de aceitar a proposta do então primeiroministro de Israel, Ehud Barak, hoje ministro da Defesa. A proposta consistia no reconhecimento recíproco, na criação de dois Estados, na retirada de Israel de mais de 92% dos territórios ocupados e na divisão de Jerusalém, que seria a capital compartilhada dos dois Estados. O problema, contudo, não foi a partilha territorial, nem a divisão de Jerusalém, mas o que as lideranças palestinas chamam de “direito de retorno”, de em torno de 4,5 milhões de pessoas. Retorno para onde? Para dentro do Estado de Israel e não para a nova pátria palestina! Israel teria de abrigar em seu território pessoas criadas no ódio aos judeus, que equivaleriam quase à sua população. Trata-se, na verdade, da destruição de Israel por outros meios. Por que não um acordo envolvendo esse retorno ao novo Estado? Ademais, esses refugiados foram os que acreditaram nas lideranças árabes da época que, seguindo o Mufti de Jerusalém, pregavam atirar os judeus ao mar. Os palestinos que não os seguiram são, hoje, cidadãos israelenses e desfrutam melhores condições de vida do que em qualquer outro Estado da região. Qualquer solução definitiva só poderá se fazer tendo como pressuposto o reconhecimento recíproco, a retirada de Israel dos territórios ocupados e a renúncia à violência enquanto meio de resolução de conflitos políticos.

Não podemos, porém, seguir os cantos dos falsos humanistas, que encobrem os seus preconceitos com belas palavras!
_________
Denis Lerrer Rosenfield é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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domingo, 18 de janeiro de 2009

Do bem viver


Havia tempo para um mergulho. Havia tempo. Sempre há. Trazia uma calção por debaixo da calça, uma toalha na mochila e depois tomaria um banho de água doce num dos chuveiros na saída da praia. Nada do que tinha a fazer exigia mais do que uma aparência limpa e arrumada. Pecado era recusar-se o mergulho a pretexto do compromisso inadiável e comum. Deixou-se ir. Nada se perderia, ao contrário, o amor que o mar lhe devolveria em troca de sua devoção deixaria na cor da pele sua assinatura nada discreta.

Despiu-se, arrumou as roupas na mochila e desceu para a praia num passo lento e reverente, meio malandro, meio beato: a praia era seu templo porque Deus ali era mais visível.

O violento contraste entre o calor do sol e a água gélida, lhe produziu primeiro um choque, depois uma sensação de êxtase.

Deixou-se ficar na água calma e transparente, movimentando-se apenas o bastante para flutuar, só a cabeça do lado de fora, como se estivesse vestido de mar. As ondas deslizavam macias, redondas, torcendo-se cuidadosamente sobre si mesmas até alcançar a beira numa explosão de espuma. Desceu em duas ou três até finalmente decidir-se por sair para secar ao sol. Só então percebeu a brisa leve que parecia soprar do Leste. Fechou os olhos e desfrutou dela com de uma carícia humana e amorosa. Assim de olhos fechados podia sentir com mais intimidade o próprio corpo, seu lugar no mundo. Estava feliz - daquela felicidade simples feita da satisfação com o que se tem: nada lhe faltava.

Sentou-se na areia e pôs-se a observar a singela quase nudez dos passantes, seus irmãos de praia. Divertia-se amando cada um deles simplesmente por caminharem seminus entre estranhos. A beleza é rara, raríssima, mas cada um tem sua graça singular impressa no corpo que se move no ar como se fossemos todos mímicos contando com discrição e clareza uma história, sempre única e comovente. Como falam os corpos aos olhos amorosos! Crianças, adultos, velhos, homens, mulheres, negros, brancos, amarelos, mulatos: a humanidade toda e toda sua história sem fim desfilavam ante seus olhos. Sempre tudo aí, ao alcance dos olhos e das mãos. E no entanto... Adão regurgita a maçã indigesta e não vê.

Tinha tempo para mais um mergulho. Tinha tempo. Cada vez mais tempo.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Para começar bem o dia....

Fazia tempo que eu não passava no Arrastão da Janaína Leite. Além dos textos, ela tem sempre seleções musicais imperdíveis. "Roubei" esta, prontinha, que ela criou no MyFlashFetish.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Os assassinos do espírito

Lido no contexto da "guerra de informação" travada em Gaza, o artigo de Christopher Hitchens na Vanity Fair ganha uma dimensão ainda mais ponderável - assustadora ou preocupante, segundo os nervos de cada um.

Traduzi o título "Assassins of the mind" para "Assassinos do espírito" porque, no contexto, 'espírito" me parece mais adequado do que "mente". Quanto ao tema, a abertura é inequívoca:

"When Iran’s Ayatollah Khomeini issued a fatwa on novelist Salman Rushdie for The Satanic Verses, it was the opening shot in a war on cultural freedom. Two decades later, the violence continues, and Muslim fundamentalists have gained a new advantage: media self-censorship."

Ou como afirma Hitchens a certa altura:

"We live now in a climate where every publisher and editor and politician has to weigh in advance the possibility of violent Muslim reprisal. In consequence, there are a number of things that have not happened."

Em parte, a cobertura que a imprensa mundial vem dando ao conflito entre Israel e o Hamas reflete com incômoda clareza o que Hitchens chama simplesmente de medo. Um medo que "sometimes (...) comes dressed up in the guise of good manners and multiculturalism."
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

I know...

Clique duas vezes na tela para acessar direto no You Tube...
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Extremismo é o pior inimigo palestino

Bernard Henri-Lévy

Por não ser especialista em assuntos militares, me absterei de julgar se o bombardeio israelense a Gaza poderia ter sido mais direcionado, menos intenso. E depois de décadas em que não me vi capaz de distinguir entre os bons mortos e os maus mortos ou, como Camus costumava dizer, entre as “vítimas suspeitas” e os “executores privilegiados”, sinto-me também profundamente perturbado pelas imagens de crianças palestinas que foram mortas. Isso posto, e levando em conta que certos veículos de mídia se deixaram outra vez carregar pelos ventos da sandice -como costuma ser o caso sempre que Israel está envolvido-, gostaria de lembrar a todos alguns fatos:

1. Nenhum outro governo, nenhum país -a não ser o vilipendiado Israel, sempre demonizado- toleraria ter suas cidades como alvo de milhares de obuses a cada ano. A coisa mais notável nisso tudo, a verdadeira surpresa, não é a “brutalidade” de Israel, mas sim, literalmente, sua paciência.

2. O fato de que os mísseis Qassam e agora Grad do Hamas tenham causado tão poucas mortes não prova que são artesanais, inofensivos nem nada assim, mas sim que os israelenses se protegem, que vivem emparedados nas cavernas de seus edifícios, em abrigos: uma experiência fantasmagórica, suspensa, em meio ao som das sirenes e explosões. Já estive em Sderot; sei do que falo.

3. O fato de que, inversamente, o bombardeio israelense tenha causado tantas vítimas não significa, como proclamam zangadamente os oponentes, que Israel esteja envolvido em um “massacre” deliberado, mas que os líderes de Gaza optaram pela atitude oposta e estão expondo sua população, confiando na velha tática do “escudo humano”. O que significa que o Hamas, como o Hizbollah dois anos atrás, está instalando seus postos de comando, suas casamatas, seus arsenais, nos porões de edifícios residenciais, hospitais, escolas, mesquitas. Eficiente, mas repugnante.

4. Há uma diferença crucial entre os combatentes que aqueles que desejam ter uma ideia “correta” sobre a tragédia e sobre as maneiras de pôr fim a ela precisam admitir. Os palestinos abrem fogo contra cidades, ou, em outras palavras contra civis (o que a lei internacional define como “crime de guerra”); os israelenses tomam por alvo objetivos militares e causam, sem que o desejem, baixas civis horríveis (o que a linguagem da guerra define como “dano colateral” e, embora terrível, indica uma verdadeira assimetria estratégica e moral).

5. Porque precisamos colocar os pingos nos is, recordemos uma vez mais um fato que a imprensa pouco citou e do qual não conheço precedente em qualquer outra guerra ou da parte de qualquer outro exército. Durante a ofensiva aérea, o Exército israelense apelou constantemente a moradores de Gaza que vivem perto de alvos militares para que deixassem essas áreas. Um ministro israelense disse que 100 mil pessoas foram contatadas. Isso não altera o desespero de famílias cujas vidas foram dilaceradas pela carnificina, mas não se trata de um detalhe totalmente desprovido de sentido.

6. Por fim, quanto ao famoso bloqueio total imposto a um povo faminto ao qual falta tudo nesta crise humanitária “sem precedentes”: uma vez mais, a definição não é factualmente correta. Desde o começo da ofensiva terrestre, os comboios de assistência humanitária vêm cruzando incessantemente a passagem de Kerem Shalom. Segundo o “New York Times”, em 31 de dezembro cerca de cem caminhões transportando suprimentos de comida e remédios entraram no território. E aproveito para invocar, nem que seja apenas para preservar a lembrança dessa verdade (pois creio que seria desnecessário dizê-lo, ou talvez seja melhor dizê-lo de vez), o fato de que os hospitais israelenses continuam a receber e tratar palestinos feridos, a cada dia.

Nossa esperança deve ser a de que os combates se encerrem rapidamente. E que, ainda mais rápido, esperemos igualmente, os comentaristas recuperem o bom senso. Eles descobrirão, quando isso acontecer, que Israel cometeu muitos erros ao longo de muitos anos (oportunidades perdidas, a longa negação quanto às aspirações nacionais palestinas, unilateralismo), mas que os piores inimigos dos palestinos são os líderes extremistas que jamais quiseram a paz, jamais quiseram um Estado e jamais pensaram em criar um país para o seu povo, ao qual preferem ver como instrumento e como refém. (Considerem a sinistra imagem do líder supremo do Hamas, Khaled Meshaal, que, quando a escala da resposta israelense tão ardentemente desejada ficava clara, limitou-se a declarar uma retomada das missões suicidas -e isso de seu confortável exílio e sua sinecura generosa em Damasco.)

Restará uma de duas opções. Ou os líderes do Hamas restabelecem a trégua que violaram, e aproveitam para declarar nula uma agenda que se baseia na pura rejeição à “entidade sionista” -e ao fazê-lo se reintegrem ao vasto partido que favorece um compromisso e que (Deus seja louvado) jamais deixou de avançar na região-, permitindo que a paz seja estabelecida; ou eles continuarão a encarar o sofrimento dos civis palestinos apenas em termos das paixões que isso acalenta, de seu ódio insano, niilista, além das palavras. Se for este o caso, serão não apenas os israelenses, mas os palestinos, que precisarão ser liberados da escura sombra do Hamas.

* * *
De tudo que li sobre a questão, este artigo é o que melhor resume o que penso a respeito. Aproveito e recomendo a leitura de "O Século de Sartre", de Lévy. Não li o livro inteiro, me limitei à crìtica que faz a Heidegger, bastante condescendente e amistosa, mas essencial: toca nas questões principais, mas amigavelmente evita aprofundá-las.

* * *
Este artigo saiu na Folha de domingo, dia 12/01/09, se não me engano. Mas eu o obtive no blog Liberdade de Pensamento.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Aniversário de Rubem Braga

Procurando um jeito de comemorar o aniversário de Rubem Braga, descobri esta matéria que cita trechos de uma crônica que achei inteira neste blog, onde aproveite para deixar o seguinte comentário:

"Hoje é aniversário de Rubem Braga. Ele faz 96 anos. Se você olhar bem e os ventos ajudarem, pode ser que veja no céu o rosto dele desenhado. Mas não garanto nada..."

Na verdade, uma referência a um texto meu, que comemorava os 90 anos dele.

Recomendo a leitura da crônica do Rubem, citando apenas uma frase, só uma: "A vida bem poderia ser mais simples."

E de presente para vocês no aniversário dele, que tal baixar as 200 Crônicas Escolhidas em pdf?
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Do muito morrer



Eram copos-de-leite - lírios e vieram para anunciar o Ano Novo. Ele os lia como um crente há de ler o Evangelho, admirado e cheio de esperança. Mas os dias foram passando, o ano instalou-se e então os lírios começaram a desabar mortos um a um. Não murchavam lentamente com é próprio das flores: morriam de repente com se fulminados por um mau presságio, um pensamento ruim. Ele fingia indiferença, mas por dentro o corpo todo se amofinava; trazia o coração na mão, aprisionado como um pássaro indefeso e incerto da intenção da mão que o acolhia, se piedosa ou assassina.

Então uma das begônias morreu quase do mesmo jeito, tombada seca de um momento para o outro.

Foi quando ele entendeu. Entendeu a ira que lhe fervia lenta lá bem no fundo do coração assustado. Entendeu a ausência e o silêncio seco de palavras. Entendeu - como o moribundo deve entender que finalmente morrera, ainda que de resto tudo lhe pareça familiar.

Entendeu o que era a paz dos mortos: nada mais havia a esperar. E onde não há espera não há também esperança. E sem uma e outra, não há apego: a mão se abriu e o coração sumiu no vento, como se nem existisse, num passe de mágica.

Pediu a confirmação do silêncio: não foram poucos os velórios que acabaram em festa porque o morto desistira de morrer. Mas o silêncio permaneceu imutável por toda noite. Entendeu o que ainda lhe faltava entender: morrer pode ser um alívio. Pôde então sentir compaixão pelo morto e pelo silêncio que o matara. E rezar para que o morto reencontrasse a vida e o silêncio reencontrasse a voz.

E só então dormiu - exausto, morto.

(Morrer é tanta coisa. É dormir, sonhar e esquecer. É acordar sem chão, como pedra que flutuasse no ar. É ter a consciência inventariante e minuciosa de tudo que se teve e de tudo que se perdeu. É conhecer o definitivo e descobrir que nada há de definitivo. É morrer de novo muitas vezes a mesma morte ansiando morrê-la para sempre porque morrer é tudo que lhe resta. É morrer de novo muitas vezes a mesma morte ansiando não morrê-la nunca mais. E nunca mais é morrer sempre. Morrer é morrer infindavelmente até aprender que não se morre e descobrir que morrer é apenas não saber que se está vivo.)

* * *

Resta ainda um lírio que cumpre com dignidade o destino das flores de murchar aos poucos até secar. A outra begônia segue vivíssima, dona de si.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Try and Catch the Wind

Eis a letra da adorável balada que embala a inocência e a fé do menino do filme aí embaixo.
Uns atribuem a autoria a Donovan e outros a Bob Dylan. No filme, a voz parece de Dylan e achei no You Tube uma interpretação do Donovan muito sigela:

In the chilly hours and minutes,
Of uncertainty, I want to be,
In the warm hold of your loving mind.

To feel you all around me,
And to take your hand, along the sand,
Ah, but I may as well try and catch the wind.

When sundown pales the sky,
I wanna hide a while, behind your smile,
And everywhere I'd look, your eyes I'd find.

For me to love you now,
Would be the sweetest thing, 'twould make me sing,
Ah, but I may as well, try and catch the wind.

When rain has hung the leaves with tears,
I want you near, to kill my fears
To help me to leave all my blues behind.

For standin' in your heart,
Is where I want to be, and I long to be,
Ah, but I may as well, try and catch the wind.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Inocência e fé

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domingo, 4 de janeiro de 2009

Das espécies de origem



Tenho acompanhado a polêmica entre Evolucionismo e Criacionismo há algum tempo. Ainda que ambas as teorias me pareçam igualmente improváveis, o Criacionismo me é esteticamente mais agradável. Não que ter como parente distante um macaco me pareça mais humilhante do que ser da mesma espécie que Hitler ou Stalin. Mas ter descido dos céus e não das árvores me é muito mais reconfortante.

Acresce que em matérias filosóficas, abracei o Crepusculismo, corrente de pensamento fundada por mim mesmo e que tem apenas a mim como discípulo - o que tem me evitado muita polêmica, ainda que não me poupe de dúvidas e contradições. O pilar dos pilares do Crepusculismo é a preguiça - ou dito de modo mais filosófico: a lei do menor esforço - o que neste exato momento me libera de novamente apresentar os rudimentos do Crepusculismo ao leitores mais novos, coisa que já fiz em crônicas passadas.

Sendo a preguiça um suposto essencial dessa Escola, me causa também horror pensar que o Homem seria resultado de um lento arrastar de mutações mais ou menos casuais. Que tédio!

Por outro lado, um dos corolários da preguiça é, sem dúvida, a concórdia. Por preguiça somos capazes até de vencer nosso natural egoísmo, origem de todos os nossos desvios de caráter. Por isso, à luz do Crepusculismo , há muito meditava para encontrar uma fórmula que conciliasse as duas teorias sobre a origem do Homem. Teorias aparentemente inconciliáveis, perceberá imediatamente o leitor preguiçoso.

Mas não seria eu o fundador do Crepusculismo e seu mais fervoroso adepto se não me dedicasse com afinco ao desenvolvimento das ciências e das artes em geral. Assim, depois de muito refletir, finalmente nesta noite da passagem do ano fui tomado de inspiração tamanha que a nova teoria me veio ao espírito inteira, pronta .

Terá sido a observação pela TV de milhões de seres humanos comprimidos em multidões à espera de ver os mesmo fogos de sempre, vestindo as mesmas roupas de sempre, repetindo os mesmos gestos de sempre a pretexto de comemorar (sem nenhuma novidade) o ano novo que me estimulou a intuição? Não sei, talvez. Importa mais a teoria que finalmente alcança o impossível: a conciliação do Evolucionismo e do Criacionismo. Chamei-a de Involucionismo.

Em linhas gerais, o Involucionismo guarda o que de melhor ou de mais caro há nas duas correntes. Do Criacionismo, preserva a idéia de que o Homem foi criado de uma vez - ainda que evite dizer por quem ou de que modo exatamente. E do Evolucionismo mantém a idéia de progressão temporal, apenas invertendo a direção da seta do tempo.

Assim, poderíamos dizer que, no princípio, era o Homem. Lentamente, a espécie foi se espalhando pelo mundo e se organizando em culturas e civilizações. E então, por força da preguiça, do egoísmo e de todos os vícios a eles correlatos e conseqüentes, algumas culturas e civilizações foram se degradando, se degradando até dar origem aos macacos!

Não creio que seja difícil derivar daí todas as espécies, das mais complexas às mais simples. A mera observação dos seres humanos nos mostra que uns se parecem mesmo com cães, outros com cavalos, havendo também os que se parecem com peixes, pássaros , répteis - e assim infindavelmente. Com o perdão do trocadilho, as provas do Involucionismo estão na cara!

A vantagem da nova teoria é exatamente essa: permite explicar todo o mundo animal, preservando o historicismo evolucionista, mas sem agredir a lógica clássica, segundo a qual não é possível derivar do menos o mais, só o mais do menos. Isto é, se é impossível pensar como de macaco se passa a homem, é muito fácil imaginar como de homem se passa a macaco. E, mais uma vez, não nos faltam exemplos em nossa vida cotidiana que o demonstre de maneira quase cabal.

Creio que, a partir do Involucionismo, nunca mais veremos a Humanidade do mesmo modo. Uma simples viagem de metrô será como um mergulho no mistério original e uma visita ao Zoológico uma oportunidade para pesadas reflexões. Pois, diante da jaula dos macacos, nós, os involucionistas, não nos perderemos em consolações sobre nosso progresso desde o passado remoto, mas nas inquietantes possibilidades do nosso futuro mais ou menos imediato: ao involucionista, preocupa menos de onde viemos e muito mais onde ainda podemos chegar.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sobre a origem dos refugiados palestinos

Retirei este extenso comentário de um polêmica entre um dos autores de um site que frequento, o Fiel Inimigo, e um outro, o 5dias.net, onde se dá a discussão, que recomendo porque exemplar do confronto entre a informação e a mistificação que caracteriza a abordagem da questão judaico-palestina.

Como os sites são portugueses, há algumas estranhezas de linguagem facilmente contornáveis.

O comentário tem como ponto de partida uma afirmação de Carlos Vidal (CV), do 5dias.net: “sei apenas que para existir estado de Israel em 1947, cerca de 5 000 000 de árabes perderam tudo”.

A resposta é implacável, equilibrada em fatos e ironia:

"Mais uma vez a mentira cavalga com o freio nos dentes, ao sabor de slogans e estribilhos em que o diabo é judeu e o anjo é árabe, ou, em versão infantil-marxista, o judeu é “opressor” e o árabe “oprimido”

Os factos, esses, são algo mais complexos:

1-Os refugiados árabes, cerca de 725 000 pessoas, fugiram à frente da guerra desencadeada em 1948 pelos Estados Árabes vizinhos. Sem invasão árabe não só não haveria refugiados, como existiria desde 1948 um estado palestiniano na Margem Ocidental e em Gaza.

2- Após a vitória, Israel legislou (Haq el-Auda) no sentido de permitir o regresso dos árabes, desde que assinassem uma declaração de renúncia à violência e de assumpção da cidadania israelita. 150 000 árabes fizeram-no, juntando-se aos 170 000 que tinham ficado e que hoje são cerca de 1,4 milhões de cidadãos israelitas, com deputados, governantes, juízes no Supremo Tribunal, professores, militares,etc.

Como é que isto se passou?

No Outono de 1947, antes sequer do Plano de Partilha, ao árabes já haviam decidido ir para a guerra, pelo que os ricos (effendi), cerca de 70 000, fecharam as suas casas e retiram-se para Damasco e Beirute, tencionando regressar logo que os judeus fossem lançados ao mar, desfecho de que não duvidavam, dada a desproporção de forças.
Atrás dos effendi foram cerca de 100 000 árabes pobres, (felas) assustados com o que lhes diziam que aí vinha. Foram instalados em campos de refugiados.

“ A evacuação em massa instigada pelo medo e em parte por ordens dos lideres árabes, ….”
(Time Magazine, 3 de Maio de 1948)

“ O factor mais importante na fuga dos palestinianos foi o anuncio do Executivo Árabe Palestiniano instando todos os árabes de Haifa a partirem…Estava claramente implícito que os árabes que ficassem seriam considerados renegados”
(The Economist, 2 de Outubro de 1948)

Ou seja, esta primeira vaga partiu na antevisão de uma guerra. Na altura não havia guerra, não havia Israel e quem mandava era o Exército Britânico.

Em Dezembro de 1947, logo após o Plano de Partilha (29 de Novembro) começou a guerra e nesta fase a Haganah, à semelhança dos paramilitares árabes, utilizou de facto tácticas intimidatórias para obrigar à fuga de populações árabes hostis nas proximidades de alguns kibbutz, Jaffa e partes de Jerusalém.

Ao mesmo tempo, os líderes árabes exortavam os árabes a abandonar as suas áreas para que os exércitos árabes tivessem caminho livre, garantindo que, assim que a guerra acabasse, poderiam regressar e ocupar as propriedades dos judeus.

“ O Secretário-geral da Liga Árabe, Azzam Pasha, garantiu aos árabes que a ocupação seria um passeio militar…Foi dados aos árabes da Palestina o conselho fraterno de deixarem as suas terras, casas e propriedades, para que não fossem trucidados pelos exércitos árabes”
(Al Hoda, NewYork, 8JUn1951)

“Os árabes conduzirão as suas mulheres e crianças para locais seguros até a luta ter terminado”
(Nuri Said, 1º Ministro iraquiano)

“ O êxodo deveu-se em parte à convicção dos arabes de que seria apenas uma questão de semanas até que os judeus fossem derrotados “
(Edward Atiyah, Secretario da Liga Árabe, in “Os Árabes”, 1955)

Foram postos a circular na imprensa árabe notícias de massacres, cometidos pelos judeus, violações em massa, matanças de fetos e judeus sanguinários a beberem o sangue das crianças.
Arafat, na sua biografia autorizada da autoria de Alan Hart, confessada que as notícias sobre os “massacres”, espalhadas pelos egípcios, funcionaram “como uma bandeira vermelha agitada em frente de um toiro”.

Centenas de milhares de árabes partiram em pânico para os campos de refugiados, mesmo de cidades protegidas e controladas pelo exército britânico.

Em Março de 1948, os britânicos retiraram e 8 exércitos árabes, passaram ao ataque. Face à derrota árabe, mais árabes fugiram.

Em Fevereiro de 1949, em Rodes, Israel prontificou-se a devolver as terras da Partilha que tinha ocupado na batalha, se os árabes assinassem um tratado de paz. Os refugiados regressariam e o problema terminaria aí.
Os árabes rejeitaram a proposta porque isso equivaleria a reconhecer Israel.

Em Lausana, em Setembro de 1949, Israel ofereceu-se para receber 100 000 refugiados, mesmo sem tratado de paz. Os árabes recusaram pela mesma razão.
Os refugiados eram agora apenas uma arma de arremesso e os porta-vozes egípcios diziam-no claramente:

“ Manteremos os refugiados nos seu campos até a bandeira palestiniana flutuar em toda a região. Só regressarão a casa como vencedores, sobre as sepulturas e os corpos dos judeus”.

É pois evidente que o problema dos refugiados foi criado sobretudo pelos estados árabes que desafiaram a ONU, invadiram Israel, encorajaram os árabes a fugir e os mantiveram deliberadamente num estado de miséria para fins propagandísticos, usando-os como alavanca moral na batalha pelos corações e pelas mentes, tendo em vista a perpetuação do estado de guerra contra Israel.
O diminuto papel de Israel restringiu-se a contextos militares específicos e a actos isolados que infelizmente acontecem em todas as guerras.

Até 1967, tanto a faixa de Gaza como a Margem Ocidental estiveram sob ocupação egípcia e jordana, sem que esses países permitissem a criação do estado palestiniano, mantendo os refugiados encerrados nos campos.

Em 1967, na sequência de uma nova guerra desencadeada contra Israel, este país assumiu a autoridade nesses territórios tendo o nível de vida dos árabes aí residentes triplicado até 1992. Foram também acolhidos milhares de refugiados vindos da Jordânia, ao abrigo da política de “pontes abertas” ao longo do Rio Jordão, tendo sido criados na Margem Ocidental mais de 250 novos colonatos árabes, cuja população subiu de 650 000 em 1967, para 2 milhões em 1994.
Em 1993, os territórios foram transferidos para a AP e o nível de vida degradou-se, sendo hoje o seu PIB quase 15 vezes mais baixo do que era.

Hoje em dia, quando aos palestinianos exigem o “direito de regresso”, não se referem aos sobreviventes dos 725 000, mas aos seus descendentes, ou seja, cerca de 5 milhões de pessoas, exigência descabida e inaceitável para Israel, porque nenhuma lei internacional a sustenta. Mesmo que venha a ser estabelecida a paz entre Israel e quem representa os palestinianos, o estatuto legal de refugiados só se poderá aplicar aos que restam dos 725 000.

A História ajuda-nos todavia a relativizar este problema:

-Entre 1949 e 1954, como vingança pela derrota de 1948, 800 000 judeus foram expulsos do Iraque, Marrocos, Tunísia, Jordânia, Irão, etc, tendo sido despojados de tudo o que tinham. Muitos deles foram para Israel e integraram-se na sociedade, sem o apoio da ONU, sem choradinhos vitimizadores e sem exigência de “direito de regresso”
Não constam sequer no horizonte mental dos “apoiantes da causa palestiniana”.

-Em1922, a guerra greco-turca provocou o deslocamento de 1,8 milhões de pessoas. Não há campos de refugiados.

-Após a 2ª Grande Guerra, mais de 3 milhões de alemães foram expulsos de países eslavos. Não há campos de refugiados na Alemanha.

-Na sequência da descolonização exemplar, centenas de milhares de portugueses foram expulsos dos territórios africanos. Não há campos de refugiados em Portugal.

Ou seja, todos os casos foram resolvidos excepto o dos 725 00 árabes que deixaram Israel em 1948 e que foram mantidos em campos de refugiados de propósito, com o objectivo de manter vivo o conflito e avivar o poster da vitimização.

“Os estados árabes conseguiram disseminar o povo palestiniano e destruir a sua unidade”
(Abu Mazen, actual Presidente da AP, Falastin el-Thawra, Beirute, Março de 1976)

“Desde 1948 os líderes árabes usaram, o povo palestiniano parar fins políticos”
(Rei Hussein, da Jordânia, 1996)

“Abu Mazen acusa os estados árabes de serem a causa do problema dos refugiados palestinianos….o antigo director da UNRWA… Ralph Galloway, declarou em 1958 que os estados árabes não querem resolver o problema dos refugiados. Querem mantê-lo como ferida aberta”
(Wall Street Journal, 5Jun2003)Os refugiados árabes."

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A parcialidade da imprensa

Por que este tipo de informação que vai abaixo não sai na grande impresna, tipo O Globo, Folha, Estadão? Preguiça, desconhecimento das fontes, compromisso ideiológico - ou uma combinação de tudo isso?

"During the meeting, security officials said that the IDF had given telephone warnings to some 90,000 Gazans living near Hamas facilities targeted by the IAF. They stressed that the sites were only bombed after civilians had left their homes."

Em compensação, repete-se a exaustão o argumento da "força desproporcional" da realção israelense ou das "baixas civis". Hamas e Hesbolá usam o próprio povo como escudo e não duvido que os civis tenham sido impedidos de deixar suas casas ao redor dos arsenais do grupo terrorista.

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