domingo, 30 de novembro de 2008

A Saramago, esse amante da Humanidade que quer matar os homens

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo.
Álvaro de Campos
AddThis Social Bookmark Button

Mais notas sobre o Pai Nosso



Semana passada falei sobre uma interpretação muito pessoal do Pai Nosso. Alguns leitores pediram que eu avançasse um pouco mais na interpretação das relações esboçadas. O mais sensato seria aprofundá-las com rigor - o que exigiria tempo. Achei mais interessante aproveitar o embalo do nosso interesse - meu e de alguns leitores, ao menos - e tentar ir o mais longe possível numa espécie de "improviso ensaiado", pois já pensei muito no tema, mas nunca o coloquei no papel. Vamos lá...

Vejo o Pai Nosso dividido em duas partes que se relacionam mutuamente. Essas duas partes, por sua vez, estão divididas em cinco instâncias, relacionadas a partes do corpo - mas não apenas. Então, a cada uma dessas cinco instâncias correspondem duas palavras-chaves, relativas a cada uma das partes da oração. Da relação entre essas palavras-chaves é possível extrair sentidos que ampliam ou esclarecem o significado da oração.

Então teríamos: Pai Nosso que estais no Céu/como no Céu; Santificado seja o Vosso Nome/o pão nosso de cada dia nos dai hoje; venha a nós o Vosso Reino/perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; seja feita a Vossa Vontade/não nos deixei cair em tentação; assim na Terra/ livrai-nos do Mal. Assim, as palavras-chaves de cada instância seriam: Céu/Céu; Vosso Nome/ Pão; Vosso Reino/ perdão; Vossa Vontade/tentação; Terra/Mal.

Escolhi "Céu" em vez de "Pai" na primeira instância, porque a combinação me parece mais reveladora. No Antigo Testamento, Deus se define como "Eu sou o que sou". No Sermão da Montanha, Jesus diz "Que o teu sim seja sim e que o teu não seja não. Tudo mais vem do maligno". Só em Deus objeto e representação coincidem: não é possível definir Deus senão recorrendo a tautologia: Deus é Deus. Por outro lado, isso projeta um critério de Verdade, claramente exposto por Jesus "O que é, é; o que não é, não é". Todo e qualquer relativismo que se afaste desse critério simples é obra do Maligno. Então, se por um lado a verdade é inesgotável, por outro ela é representável pela consciência - por aproximações cada vez mais precisas até alcançar, através da meditação e da oração, a comunhão com Deus expressa na relação "Céu/Céu" e na expressão "assim na Terra como no Céu" - a que chamei de eixo vertical de reciprocidade ou o pilar da cruz.

"Vosso Nome/ Pão" sugere, entre outras coisas que há um "alimento espiritual" que bem pode ser o nome oculto de Deus, aquele de que trata a Cabala e outras tradições exotéricas. Se a comunhão com Deus (Céu/Céu) sustenta a alma, o conhecimento do Nome de Deus alimentará o corpo.

A instância "Vosso Reino/ perdão" é a mais fácil de interpretar - e talvez a mais difícil de exercer. A chave do amor ao próximo pregado por Jesus é o perdão. A chave do desapego pregado por Buda é o perdão. O perdão, aliás, é bem definido por uma tautologia muito popular: "O que passou, passou". Logo, o perdão nos coloca inteiro no presente - sem ressentimento nem desejo de vingança. É o Reino de Deus em mim. É o que chamei de eixo horizontal de reciprocidade ou os braços da cruz - da cruz q é também a representação do Homem.

"Vossa Vontade/tentação" também não parece de difícil interpretação. Mera aparência, pois qual seria a Vontade de Deus? Mais simples é pensar o que é a tentação. Eu acredito que ela pode ser resumida em uma palavra: poder. É a vontade de se impor sobre os outros, de deixar que prevaleça a lei do mais forte - que é um corolário da única lei universal, aquela sob a qual toda a Natureza se organiza, que é a lei do menor esforço, ou lei da inércia. Há uma clara contradição aqui: se "Deus e Natureza são o mesmo", e a tentação é "natural', logo ela seria também divina? Pois é, que tentação...

Finalmente, "Terra/Mal" que é de onde partimos em nossa mínima e aparentemente contraditória condição de "animal racional" obrigado a "buscar o sustento com o suor do rosto" num ambiente hostil onde prevalece a violência, a ameaça da morte e que por isso exige um permanente estado de alerta para agir sobre os mais fracos em proveito próprio e escapar da ação dos mais fortes sobre nós. A violência é o mal. E numa "ascese negativa", ela se converte em vontade de poder, depois em tirania, a seguir em gula, avareza e cobiça e finalmente em loucura. Ao contrário, a "ascese positiva" proposta pelo Pai Nosso nos leva da Terra ao Céu pela superação desses obstáculos sob a égide do amor e do perdão.

Marcadores:

AddThis Social Bookmark Button

sábado, 22 de novembro de 2008

O Pai Nosso



Quando eu era menino, rezava. Nascido numa família católica e educado em colégio de padres era natural que desde muito cedo eu rezasse com um fervor mecânico e supersticioso: não compreendia muito bem as palavras que repetia e minha fé tinha algo de mágico. Pedia tudo, de perdão a tênis novos: Deus e Papai Noel se confundiam e a dificuldade de ser bom exigia compensações.

Os anjos me encantavam e saber que havia um encarregado de cuidar exclusivamente de mim me tornava mais ousado e confiante quando, por exemplo, me equilibrava no alto das árvores e no parapeito dos telhados. Também era reconfortante ter alguém para conversar na cama à noite, quando meu anjo virava travesseiro. E assim, fui me tornando íntimo do invisível que é onde se nutre a curiosidade mais duradoura.

Cresci, deixei de rezar, mas por mais que fizesse nunca deixei de crer e buscar, mesmo sem saber que ainda o fazia. Então um dia, num momento muito especial da minha vida, voltei a rezar.

Anos depois, aprendi uma técnica de meditação chamada Vipassana. De tanto praticá-la, passei a rezar enquanto meditava. Foi quando descobri algo que me surpreendeu: há uma correlação muito exata entre o Vipassana e o Pai Nosso.

O Vipassana é um legado de Buda e pode ser descrito resumidamente como uma técnica de meditação em que o meditador vai movendo sua atenção do alto da cabeça até a ponta dos pés, num movimento contínuo e velocidade variada, com a única intenção de sentir o mais profundamente possível cada parte do corpo.

O Pai Nosso é um legado de Jesus, uma síntese de seus ensinamentos, e de tanto rezá-lo enquanto meditava me dei conta que ele também descreve um percurso sobre o corpo!

Vejam só: "Pai nosso que estais no céu (cabeça, olhos); santificado seja o Vosso Nome (boca, nariz, garganta); venha a nós o Vosso Reino (coração, peito, braços); e seja feita a Vossa Vontade (plexo solar); assim na Terra (ventre, pernas) ...".

Nesse momento, a oração retorna à cabeça e repete o percurso: "... como no Céu (cabeça); o pão nosso de cada dia nos dai hoje (boca); perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (coração); não nos deixei cair em tentação (plexo) e livrai-nos do Mal (ventre)”.

Há muito a investigar sobre as relações conceituais entre as palavras-chaves das cinco instâncias da oração em suas duas partes: (céu/ céu), (nome/ pão), (reino/ perdão), (vontade/ tentação), (terra/ mal).

As cinco etapas percorridas no Pai Nosso (cabeça, boca, coração, plexo e ventre) também podem ser associadas às cinco principais glândulas endócrinas (hipófise, tiróide, timo, pâncreas e testículos ou ovários) e às cinco regiões da coluna (crânio, cervical, toráxica, lombar e pélvica).

Essas relações fisiológicas são interessantes porque reforçam um aspecto da meditação e da oração muito importante e funcional: elas seriam também processos de autocura.

Há também os dois eixos de reciprocidade que a oração propõe: um vertical (“assim na terra como no céu") e outro horizontal ("perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido"), formando uma cruz.

Enfim, há muito a explorar. Minha intenção ao expor essas reflexões ainda vagas e inconclusivas é motivar os leitores a buscar a meditação e a oração, percebendo o quanto os ensinamentos de Buda e Jesus se aproximam em sua essência e prática, a despeito de todas as críticas e divergências que possamos ter em relação às religiões formais e suas instituições. Rezar e meditar são o caminho mais direto para perceber a unidade de corpo e alma. E essa experiência é a única que importa.

Marcadores:

AddThis Social Bookmark Button

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Magritte é o fino


Magritte e Hopper são meus prediletos. A elegância irônica de Magritte é um ideal estético e de vida. O quadro abaixo resume o modo como me sinto neste momento da minha vida...

Quanto aos dois, eu tenho certeza que os personagens de Hopper sonham os personagens de Magritte. Ou dito de outro modo: os quadros de Magritte são sonhos dos personagens dos quadros de Hopper.

Daria uma bela tese. Mas falta ainda inventar a ciência que a tematizasse.
AddThis Social Bookmark Button

domingo, 16 de novembro de 2008

Botões



- Quer jogar botão?

Não lembro exatamente como o papo nos conduziu ao convite, mas logo depois que eu disse "Topo", João apareceu com uma caixa de botões e uma mesa. Tive de improvisar uma bola, feita com o papel laminado do maço de cigarros dos pais dele, a Denise e o Pedro. Fazia muito, muito tempo que eu não jogava botão, mas, como se diz, quem foi rei, nunca perde a majestade. Não tive dificuldade de vencer meu pequeno amigo, que é um craque no futebol digital jogado no Playstation.

Mas ficou uma saudade dos meus botões. Eu os tenho até hoje guardados numa caixa de charutos Pimentel # 2. Desencavei meu tesouro.
Eram 10 times completos, mas há muito, muito tempo, dei dois times com as cores do Botafogo para o Caiuá, quando namorava a Adriana, mãe dele, e um beque de osso com as cores do São Paulo para meu primo Eric. (Sim, já cobrei dos dois a devolução dos presentes, quase 30 anos depois, mas isso é outra história ingenuamente mesquinha, tão humana e sem grandeza, engraçada até: pedir de volta uns botões tão relutantemente presenteados há tantos anos...)

Agora restam oito times e um beque viúvo. Esses botões foram meus mais íntimos companheiros dos 7, 8 anos até quase os 14. Sei de cor (sim, de couer) a escalação de quase todos os ataques - porque as defesas seguiam as cores de cada time, segundo um padrão bem definido: os beques tinham três camadas, os laterais e o cabeça de área, duas. Só os atacantes eram coloridos, delicadamente chanfrados e boleados - e quanto mais baixos, melhor.

Este rosa quem me deu foi minha mãe. Lembro que senti vergonha porque rosa é cor de menina, mas o botão se revelou um craque, e virou o meu Garrincha, camisa sete... Este preto era o meu Pelé e com ele fiz gols memoráveis. E tem este de coco, que o Valter fez para mim - ele que também tirava com gilete a "barriga" dos botões. E há os que "roubei" do Maurício, meu primo-irmão, quando ele se desinteressou por jogar botão, um pecado que até hoje me amarga um pouco o sonso coração: só lhe roubei os melhores!

São lindos, todos de galalite - um material, Claudia me explica, precursor do plástico e que hoje não existe mais, ou ao menos não mais com a qualidade de antigamente. Eu mesmo pude acompanhar essa "decadência" dos botões, que foram ganhando camadas e as cores dos times e perdendo sua colorida e inusitada individualidade.

Fui numa lojinha no começo da rua Senador Vergueiro comprar para o João os dadinhos que se usa como bola. Fiquei vagamente triste ao descobrir que "já não se fazem botões com antigamente".

Uma curiosidade: quem criou o futebol de botão foi um brasileiro, o Geraldo Cardoso Décourt. Esse sim merecia uma estátua.

Marcadores:

AddThis Social Bookmark Button

domingo, 9 de novembro de 2008

Manifesto



O dia se acende e se apaga, se acende e se apaga, caprichoso e indiferente. Que desabe de uma vez a chuva ou o sol se firme! Essa inconstância irresoluta e frouxa aborrece mais porque imita o que há de pior nos homens. Não é nada esse dia, ora calorento e de pouca luz, ora luminoso e permeado de ventos. Afinal, como me quer esse dia? Circunspecto, de sapatos e guarda-chuva, ou jovial e confiante, de camiseta e havaianas novas - que é como me prefiro? Ah, dia! Deixe-me ser eu ou aquele que tenho de melhor. E se vier uma chuva de fato, brutal e súbita, eu a celebrarei como celebro o sol: o rosto erguido para o céu, olhos fechados e sorriso largo de puro desfrute.

Não, não... Não é para mim esse dia - que mistura hesitação e inconstância. Não combino com guarda-chuvas preventivos. Eu os perco todos. Não sou desses que saem com eles de manhã e voltam à noite para casa satisfeitos por não tê-los usado, orgulhosos de sua prudência. Ao contrário, sou dos que chegam em casa ensopados - espirrando, mas felizes. Sou daqueles que entre o guarda-chuva ou a marquise escolhe a chuva - também pelo prazer de ter as calçadas vazias de gente só para si. Não adianta, sou - e serei sempre - um desses jubilosos idiotas que acabam tragados pelos bueiros - que Deus me guie! porque eu mesmo ando sempre distraído...

Não, não... Esse dia não me merece. Melhor gastá-lo num cinema ou na casa de algum amigo que me acolha enquanto aguardo que esse dia se dissolva nas trevas que o geraram e o amanhã renasça límpido, claro - ou chuvoso, torrencial. Não deixarei que a indecisão do dia me domine. Serei eu - mesmo que isso seja muito pouco. E é - todos sabemos. Mas e daí? Pior seria merecer esse dia. "Agora não", "Hoje não posso", "Não sei...". Há quem te mereça, diazinho sem-vergonha! Eu não. Certamente, não sou nada - em todos os sentidos, não sou nada e nada tenho a oferecer. Viver comigo é se expor ao sol e à chuva, é ser um pouco pedra, um pouco flor. Não é fácil e pode nem ser bom. Mas esse dia eu não quero; não sou eu.

Então, fique quem quiser com esse dia, se gostar dele. Nada contra. Aproveite para trabalhar, para por "em dia" tantas coisas em atraso. Coisas tão urgentes que delas o tempo não guardará nem lembrança. Hoje é mesmo o dia ideal pra isso... Eu vou sair. De camiseta e chinelos, vagabundo, sem futuro, sem profissão e quase sem dinheiro, "redondo e sem arestas por onde me possam pegar". Se chover ou fizer sol, por mim, tudo bem: eu agradeço. E se ficar assim, acendendo e apagando sem muita graça, eu compreendo. Mas não mereço. Não mesmo. E só essa certeza me basta e já me faz feliz.

Marcadores:

AddThis Social Bookmark Button

sábado, 1 de novembro de 2008

A reinvenção do feriado

Nunca uma eleição se pareceu tanto com o embate entre o bem e o mal. Mas o cinema ensina que o Bem até pode perder de pouco para o Mal, mas quando vence tem de ser de goleada. A candidatura de Gabeira foi o mais ousado experimento político feito no Brasil - e quem sabe no mundo. É a primeira vez que uma campanha se constrói sem dinheiro público ou máquina partidária, apóiada em voluntarismo e doações; abre mão do meio impresso e usa intensiva a internet; e orienta-se rigorosamente por duas premissas positivas e simples: não sujar a cidade, não se antagonizar com o adversário. Que ao final, Gabeira tenha conseguido metade da cidade demonstra que o experimento foi bem sucedido e projeta um modelo a ser adotado. Pois, fica demonstrado que é possível, sim, fazer política no sentido grego do termo: é possível fazer política sem se sujar. O único cuidado é não inventar a coisa mais antiGabeira do mundo que seria o Gabeirismo. A hora é dessa galera motivada que construiu a campanha do Gabeira entrar na polítca e começar a preparar as suas candidaturas e de outros para as próximas eleições estaduais e as municpais seguintes.

A gente se acostumou a falar "nós" sem nunca saber exatamente de que tamanho éramos. Gabeira nos deu um senso de medida. A mim, ao menos, surpreendeu: não sabia que podíamos ser tantos. E "eles" também nunca estiveram tão nítidos. Fizeram de tudo para ganhar. Violência, intimidação, mentiras - mas um fato é absolutamente inédito: nunca antes ousara-se decretar feriado com a intenção explícita de esvaziar uma eleição. E ação não foi de um general ditador que tivesse tomado o poder pela força e agora teme-se o voto popular, mas por um governador eleito - e que, desse modo, garantiu seu nome para a História da República. Nunca antes se descera tanto. Realmente o Brasil está se tornando especialista em prospecção em águas profundas.

Conseguiram avacalhar até com o feriado! Aliás, nem feriado era: era ponto facultativo. O ponto facultativo, como o nome indica, e o feriado sempre estiveram (repare no tempo passado...) revestidos de uma aura de canalhice ingênua - tipo bigodinho fino e cadeiras pé-de-palito. Acabou-se. O governador profissionalizou a canalhice do feriado

E o mais fantástico é que tal recurso além de não contar com o menor sinal de desaprovação pela Justiça ainda capturou milhares de funcionários públicos em sua armadilha. É como se tivessem dito: "Ah! Quer dizer então que os senhores funcionários públicos querem votar contra a máquina? Esqueceram quem são? Pois eu vou lembrá-los quem são da maneira mais doce: vou lhes antecipar o feriado e assim vocês terão um pretexto para não traírem a si mesmos".

Mas uma metade da cidade se descobriu Gabeira. Em menos de dois anos, aposto que metade da outra metade estará arrependida do voto. Tampouco duvido que nesse meio tempo, até o prefeito eleito acabe - de novo! - Gabeira também.

Marcadores:

AddThis Social Bookmark Button