domingo, 29 de junho de 2008

Chocolates

São quase dez da manhã de uma quinta-feira e a rua está que parece um domingo. É o frio. Estava com saudade desse frio. Frio carioca. Quanto mais eu sinto que posso viver em qualquer lugar, mais carioca me percebo. Adoro esse frio que só tem aqui - feito de pedra, mar e mato. Gosto de sentir esse frio, sem camisa, na janela, tomando sol. Gosto de sentir esse frio, cada fez mais cortante a medida que o tempo avança até que a noite vem como uma lâmina.

Finalmente, já quase em julho, é junho-junho. Digo assim porque no começo do mês andou fazendo os dias que não fizera em maio. Dias de praias magníficas. Eram dias de Rubem Braga como agora são dias de Manuel Bandeira.

Sim, junho começou muito maio e só agora enjulhece maravilhosamente. Tem feitos noites dignas das festas juninas. São João, Santo Antonio e São Pedro são santos muito simpáticos. Engraçado que não me lembro de nenhum clássico onde haja três irmãos - Antonio, João e Pedro - como há o Pedro e Paulo de Esaú e Jacó, de Machado de Assis...

Os morangos muito maduros - e baratos nesta época - contrastam com o céu nublado. Merecia uma foto: a cozinha branca, o céu nublado, os morangos. Morangos com creme de leite batido. E chocolate. Eu não devia contar, mas, sim, chocolate. Para ser honesto: chocolates.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Pensar, Fernando, será mesmo isso: saber que o papel de prata é, na verdade, de folha de estanho? É duro. Será isso pensar, Fernando, essa desilusão? Não sei... Ainda assim, que a desilusão não se torne então desencantamento. Ao contrário, que ela revele algo menos óbvio, mais singular.

Em um parque de Pequim, todos os dias um velho munido de um balde d'água e um grande pincel, escreve poemas no chão. Os ideogramas perfeitos secam devagar até desaparecer no ar. Todos os dias. No momento em que a repórter Ruth de Aquino o abordou ele escrevera: "É fim de outono, está escuro, mas ainda trabalho duro à luz da lanterna". Aqui, agora, já é quase noite. "Amo em você a vasta solidão por onde vagas toda só vestida de véus", eu escrevo.

Espero você sem esperar que venha. Na verdade, não sou navio nem porto. Sou bote e cais precário. Frio. Faz frio. A noite será cortante.

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Fórmula simples

"O mercado, ao contrário da roubalheira e do aparelhamento do Estado, é uma coisa essencialmente boa. Os países que seguiram sua dinâmica prosperaram. Os que tiveram idéia melhor arruinaram-se."
Elio Gaspari, O Globo, 29/06/2008

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domingo, 22 de junho de 2008

O que é o que é?

Eu olho o mundo com um olhar talvez distraído, muito mais concentrado na minha vida, nas minhas dúvidas. Então acho espantoso que ninguém veja relação entre a afirmação do vice-primeiro-ministro de Israel que um ataque ao Irã é inevitável caso o país não interrompa seu programa nuclear - e todo mundo sabe que eles não vão interromper - e a alta dos preços de petróleo e alimentos. Está bem, a alta veio bem antes da declaração do ministro, mas ele apenas vocalizou o que era já uma possibilidade do conhecimento de todos há muito tempo. Enfim, estaria o mundo fazendo estoques, se preparando para uma guerra?

Não é uma hipótese absurda. As conseqüências de um ataque israelense ao Irã são imprevisíveis, mas é provável que não seja só "mais uma guerra no Oriente Médio". Como reagirá a Rússia principal aliado dos iranianos? Se, no caso de uma guerra, o Irã fechar a saída do Golfo Pérsico, a Rússia, de maior produtor e exportador de petróleo, pode de repente se tornar também o único fornecedor.

Fiquei pasmo porque, depois da declaração do ministro israelense, não li em lugar nenhum uma projeção dos cenários que poderiam se desdobrar do ataque. Era como se ninguém quisesse tocar no assunto - sei lá, para não atrair energia ruim. Nem falo da hipótese de uma relação entre iminência de guerra e alta dos preços porque ela, nesse contexto supersticioso, até soa "conspiratória" demais.

Pior é ouvir a tese obtusa que Al Gore em algum segundo da vida tenha "se afastado da política" e agora, quase por acaso, cai de pára-quedas na candidatura de Barack Obama para formar a chapa dos sonhos do marketing politicamente correto: "o primeiro negro presidente americano" e "o salvador da Natureza". O papo ambientalista de Gore é uma mistura de inconsistência, erro e mentira pura e simples - mas ele levou um Oscar e um Nobel por conta dele. E agora quer ser vice de Obama. O que isso significa, afinal?

Duvido muito que Obama aceite Gore como vice. Seria assinar sua sentença de morte - no sentido figurado e, se bobear, no literal também. Pois, se Obama terminasse como mártir, Gore se tornaria o primeiro "presidente do mundo".

Não sei, às vezes acho que é puro delírio de uma mente distraída. Outras, me parece claro que estão tentando ocultar a realidade com uma rede de significados que diz que as coisas são distintas do que nos aparecem, certos de que a custo de tanto repetir, acabaremos crendo que é de fato como eles contam e não como vemos.

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Depois de 15 anos...

Bela corrida a do Trulli. manteve corajosamente o traçado e deixou claro para o Kovalainen que o terceiro lugar já tinha dono. Uma vitória cheia de tempero do Felipe Massa: há 15 anos um brasileiro não liderava o campeonato mundial, insistia o Galvão Bueno.

Supreendente é o desempenho do polonês Kubica no campeonato.

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O inferno são os outros

Até Dunga culpa a imprensa por seus fracassos.

Esse o sentido da célebre frase de Sartre em Hui Clos "o inferno são os outros". O personagem que vocaliza a fórmula nada tem de sartreano - ao contrário: é exatamente a figura do ressentido que não reconhece sua exclusiva responsabilidade sobre tudo que lhe acontece.

O existencialismo como todo idealismo recusa o real, mas tem esse apego moral que é, vamos dizer assim, seu corolário mais honesto: a solidão do sujeito. A despeito de sua evidente socialbilidade há um cerne de solidão inacessível em cada individuo, visto não ter ele uma comunicação direta com o mundo - ou ao menos uma comunicação comunicável.

O idealismo não é necessariamente o único - e muito menos o melhor - caminho para se chega a essa conclusão. Essa "incomunicabilidade" aponta para cima (Descartes) e não para baixo (Kant).

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Brasil x Argentina

Adriano estaria melhor na Festa do Peão Boaideiro.

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domingo, 15 de junho de 2008

Dias e dias

- Sabe que dia é hoje?
- Quinta-feira.

Que mico! Também como é que pode Dia dos Namorados cair numa quinta-feira? Não combina nada! Primeiro de tudo: Dia dos Namorados tinha de ser domingo. Porque Dia dos Namorados é para passar namorando. E numa quinta não tem como: é luxo a que só podem se dar os muito ricos - de espírito ou de grana. Aos demais, lembrar já basta. Até porque a propaganda é tanta há tanto tempo que chega a ser uma gafe esquecer.

Escolheram a data porque é véspera de Santo Antonio. E véspera de casamento é namoro. Ou era assim. Hoje eu tenho a impressão que as pessoas namoram tanto que quando se dão conta já estão casadas. Ou seja: a distância que separa o namoro do casamento não é mais de um dia, mas de um mês, quem sabe, um ano... Para simplificar, poderia ser o segundo domingo de junho. Sempre estaria perto de Santo Antonio, mas a distância seria incerta, com anos mais casamenteiros e outros menos.

Porque não adianta: Dia dos Namorados tem cara de domingo. E já há tantos domingos: há o domingo de Ramos, o domingo das mães, o domingo dos pais, o domingo de carnaval, o domingo de Páscoa... Por que não o domingo dos namorados? Comercialmente seria muito melhor, porque é óbvio que o Domingo dos Namorados começará na sexta à noite e se estenderá até domingo à noite em secreto carnaval, discreta lua de mel, um fim de semana inteiro só para os dois.

O que podia ter dia certo era o Dia dos Ex-Namorados. Podia ser um dia qualquer de liquidação numa virada de estação, porque presente de ex-namorado tem que ser baratinho, claro, ou vai provocar ciúmes em vez de riso. Muita graça e nenhuma ostentação - esse é o espírito. Também tem ser entregue por outro, como as flores - para evitar constrangimentos.

E já que estamos inventando dias, que tal o Dia dos Amores? Nesse dia a gente daria um presente só - bom, bem escolhido e pensado - para alguém da nossa família íntima, um desses que dão a substância da nossa vida, que são o nosso céu e o nosso chão. Não precisava ser um dia exato, mas uma semana, a Semana dos Amores, pra ficar mais casual e inesperado.

Mas se fosse para reivindicar mesmo, transformar em lei, direito adquirido, princípio constitucional, eu queria que todo cidadão tivesse o direito de decretar uma vez por ano feriado íntimo - e assim poder faltar ao trabalho sem dar explicações nem ser descontado. Ou melhor, se chamado a explicar-se, bastaria dizer simplesmente: "Feriado íntimo" - e nada mais lhe seria cobrado.

Que o cidadão pudesse, por exemplo, decidir namorar uma quinta-feira inteirinha e chegar ao trabalho na sexta e dizer: "feriado íntimo" para espanto, prazer e inveja dos ocasionais ouvintes.

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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Presidente do mundo

Al Gore já está flertando para ser vice de Obama.
Só um idiota acredita que em algum momento Al Gore tinha se "desiludido" com a política. Ao contrário, eu sempre disse que esse cara era candidato a presidente do mundo.

O mais engraçado é que existe outro candidato negro, um conservador que se afastou do Partido republicano para se lançar como independente. Clique aqui para conhecer Alan Keyes.
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sábado, 7 de junho de 2008

Noite americana

E então inventamos a noite. A gente precisava sussurrar abraçados no escuro. Era urgente. Por isso inventamos uma noite no meio da tarde. Bastou abaixar a persiana e fechar as portas. Junho fez o resto com seu céu nublado ameaçando chuva.
Há coisas que só se dizem assim, sussurrando abraçados no escuro.

E são essas coisas tão íntimas que vão sendo deixadas para trás - porque nos falta tempo, porque nos falta coragem, porque nos faltam palavras. E então acabamos sufocados de silêncio, desse silêncio duro feito do que não se sabe dizer.

É árduo esculpir palavras nesse silêncio. O que nos sai não vem cheio de decisão e clareza. São vagas confissões de um amor temeroso de não ser bastante - ou mesmo digno do amor que sente. Porque é muito fácil sentir-se fraco neste mundo. Muito fácil sentir-se um fardo ou uma fraude que mais tira do que dá, mãos de ferro sob luvas de pelica.

Por isso era urgente a noite - e mais legítima ela foi porque inventada. Bem aconchegados um no outro sob a colcha de piquê, as palavras nos foram saindo sussurradas, poucas, até que no ar não houvesse nada além de nossa respiração pausada e calma. Só então me dei conta que você adormecera em meus braços. Pequenos espasmos foram percorrendo seu corpo, sinal de que a tensão se dissolvia nessa outra maneira (tão singela) de me dizer "Eu te amo": você dormia.

Minha respiração fez-se brisa, meu peito era o mar subindo e descendo compassado, meus olhos, estrelas atentas e eu todo era areia. E assim fiquei, uma praia na noite que inventamos, imóvel, a ponta de meus dedos deslizando pela sua testa, às vezes acompanhando o risco da sobrancelha, outras se embrenhando devagar entre os cabelos. Você dormia, eu estava em paz. Dois modos de dizer "eu te amo".
Quanto tempo terá durado essa noite? É fácil calcular com calendários e relógios. Mas quanto tempo terá durado em mim essa noite, inesperada como um presente?

* * *
- Sonhei...
- Você lembra?
- Não... Quanto tempo eu dormi?
- Quase a noite toda...

Riram. Logo seria dia.

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