sábado, 31 de maio de 2008

Palavras escritas a mão

Perdera o hábito de escrever a mão. Nada além de bilhetinhos e lembretes, palavras esparsas numa letra apressada, quase ilegível, mais código taquigráfico do que exercício de caligrafia. Mas a esta hora, tinha de escrever a mão. Não poderia sujar o silêncio com o ruído regular do teclado.

A caneta deslizava pelo papel sem pautas. E em cada variação de letra, lia a presença de alguém. "Este é meu pai", pensou, ao olhar o arremedo da letra bem talhada de escriba, redonda e calma, igual. Seu pai. Haviam feito em sonho um acerto de contas sentimental, de modo que podiam lembrar um do outro sem apuros ou culpas. Estranho mundo este, repleto e intenso, em que há coisas que se resolvem em sonho.

Outro dia, tentara lembrar o verso de um poema e escrevera "caos sangrento" em vez de "cosmos sangrento", como no original: "Não conseguiu firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura". Não demorou a perceber o quanto lhe custava admitir essa proximidade de sangue e ordem. Pensava a ordem como um princípio de simplicidade e economia que associava à paz. Mas era evidente que a indubitável beleza da vida e do mundo estava permeada de violência. Uma violência vital, sangrenta de seres devorando seres - que à alma pura talvez chocasse menos do que a violência premeditada dos homens. Mas ainda assim, violência. "Que ao menos não seja em vão o sangue que corre sobre o cosmos: a isso chamaremos de justiça.".

Era o correr desse sangue cósmico que fazia o silêncio imenso da madrugada: raros carros passando, o rumor longínquo de máquinas invisíveis, o estalar das coisas, uma ou outra voz, fiapos de música, passos ocasionais de alguém na rua, o vento. Até o frio do vento era som nesse silêncio. "O ressoar da vida em repouso velo como se a amada dormindo fosse" era um verso que só poderia ser escrito a mão. "Minha cama é o mundo e nela você é a vida que repousa sob a luz ambígua da Lua", diria a ela, a amada, quando acordasse.

Em francês, o mar é feminino: La mer. Não sei se todos, mas ao menos este silêncio é feminino.

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Sobre a questão indígena

As tiriricas

Luciano Pires
www.lucianopires.com.br

Cerca de vinte anos atrás tive o privilégio de conviver com Orlando Villas Boas enquanto trabalhei num livro sobre ele e seu irmão Cláudio. Passei muitas horas em sua casa, abrindo caixas e envelopes, revendo fotos e documentos e ouvindo histórias e mais histórias de um dos brasileiros mais importantes de todos os tempos.

Orlando era uma figura fascinante. Seu delicioso senso de humor e memória prodigiosa hipnotizavam a todos com as histórias dos anos em que permaneceu nas selvas brasileiras como indigenista. Os irmãos Villas Boas tornaram-se respeitados no mundo todo e deixaram um legado precioso para o Brasil. Quando Orlando faleceu os índios perderam um pai. E ganharam dezenas de padrastos.

Escrevo estas linhas no calor das discussões sobre a demarcação das terras indígenas na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. E em meio ao bate-boca, me lembrei especialmente de uma das conversas com Orlando, quando lhe perguntei do interesse que estrangeiros teriam sobre as regiões demarcadas para os índios.

O velho sertanista contou que havia muitos anos o fluxo de estrangeiros na região era intenso. Que dezenas de “pastores”, com a desculpa de realizar trabalhos humanitários, estavam mapeando nossas riquezas. Em determinado momento ele disse mais ou menos assim: “Luciano, sabe o que vai acontecer? Esses ‘pastores’ vão levar jovens índios para o exterior. Vão educá-los e formá-los para que sejam os novos líderes em suas tribos. E quando retornarem ao Brasil esses líderes começarão a requisitar novas terras e a se organizar. Conseguirão demarcar reservas gigantescas e logo formarão uma ‘nação’ que pedirá sua independência. E a ONU reconhecerá essa independência. E então eles terão toda facilidade para negociar as riquezas com os ‘pastores’ que os educaram.”

Ouvi isso mais de vinte anos atrás, mas fiquei tranqüilo. Afinal, quem me contava era Orlando Villas Boas. Alguém haveria de ouvi-lo. Ele tinha trânsito no governo, respeitabilidade e credibilidade. Jamais passou por minha cabeça que Orlando, como tantos outros, era considerado por quem detinha poder como “apenas um técnico”. Não tinha mais força política para se fazer ouvir e provocar mudanças reais. Não estava incluído nos círculos “estratégicos”do poder. Quem o ouvia, quem o respeitava, quem o admirava não tinha poder. Orlando era apenas um conselheiro...

Mais de duas décadas depois suas previsões chegam perigosamente próximas da realidade. Um grupo de pessoas contaminado por uma perigosíssima mistura de ideologia com comércio – não se sabe bem qual a serviço de qual - está mudando o Brasil. Nas mãos desse grupo temas como ecologia, pesquisas com células-tronco, controle populacional, erradicação da miséria, educação, energia alternativa, liberdade religiosa, integração racial e tantos outros assuntos importantes são ferramentas para conquista ou manutenção do poder.

Esse grupo tem voz ativa. Pauta a mídia. Manipula a opinião pública. E quando isso acontece, dá no que dá: os técnicos, como Orlando Villas Boas, só são ouvidos se servirem aos objetivos do tal grupo. Então são exibidos como ícones, como os sábios que tranqüilizam e mostram o acerto das políticas e estratégias adotadas. Mas se não servirem, são tratados com falsa reverência, homenageados, aparentemente respeitados e isolados. A sabedoria de suas palavras vai-se com Pôlo, o deus indígena do vento. E ficam as Tiriricas, as deusas indígenas da raiva, do ódio e da vingança. E aí é isso que você está assistindo.
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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Boca Juniors e Fluminense: jogaço!

Tem personalidade esse time do Fluminense - a personalidade do Renato? Certamente o técnico colocou seu tempero nesse time coeso e calmo que enfreta o Boca na célebre Bombonera? Não sei, mas a torcida não pára de cantar incentivando um time de craques: Riquelme, Palacios e cia. E que companhia! Um timaço que o Fluminense honra jogando de igual para igual, limpamente.
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terça-feira, 27 de maio de 2008

Dançando no Escuro e Dogville: a estética do abuso

Depois de Dogville, acabo de assistir Dancing in the Dark (Dançando no Escuro), um filme anterior a Dogville. Por isso, é difícil não ceder à tentação de buscar entre eles semelhanças e diferenças que definam uma trajetória, digamos assim. A primeira coisa que salta aos olhos: Lars von Trier é mesmo um excelente diretor de atores. As performances que ele arranca de seus atores - especialmente de Bjork e Nicole Kidman - são soberbas. Tensas e delicadas, suas protagonistas enfrentam com vigor estóico a perplexidade quase paralisante em que parecem mergulhadas. Essa tensão se espalha por todos os personagens ao redor como se as protagonistas fossem o centro de um mistério, ou melhor, de um segredo que, por sua vez, ao menos nesses dois filmes, têm o abuso como cerne.

Apesar de todo seu sofrimento, ambas se mantêm fiéis a seus abusadores - mesmo Grace, em Dogville, porque só no fim intuímos que, no caso dela, o abusador supremo era o próprio pai.

É interessante notar que nos dois filmes as mulheres são protagonistas e são elas as personagens mais fortes. Os homens são sempre fracos, mesquinhos, falsos. Em nossa subcultura pós-freudiana a gente não escapa do desejo de fuçar a biografia do autor para buscar nas relações familiares indícios que sustentem nossas impressões. Deixo a outros essa tarefa, mas me parece nítida a desconfiança de von Trier em relação aos homens, que parecem sempre oscilar entre a fraqueza e a violência, aparentemente porque dominados pelo desejo. Em contrapartida, não há nos dois filmes a figura da "mulher fatal': as mulheres de von Trier são fortes poque parecem ter aberto mão do sexo.

Então temos aí já duas características da "metafísica" de von Trier: a atração por semelhança, criando um microcosmo que busca escapar do mundo; o abuso como o fato definidor das relações humanas, algo que se poderia traduzir numa fórmula: "O egoísmo atávico do ser humano o conduz inevitavelmente ao abuso", numa versão mais elaborada da versão hobbesiana "O homem é o lobo do homem". Duas palavras condensam essa metafísica: isolamento e cegueira.

Não é por acas que os filmes se passam em pequenas cidades. Por sua vez, os protagonistas formam, como já disse, um grupo à parte, unidos pela semelhança. Mas, ao contrário de um grupo de mútua ajuda, essa unidade não busca "iluminar" o problema para transcendê-lo, mas simplesmente criar um ambiente onde ele pareça não existir. Até que uma "falha" precipita o problema e todo o aparente afeto que os unia, desanda em agressão e abuso. Sob um ponto de vista antropológico ou sociológico, eu diria que von Trier tem especial interesse pelas relações de poder entre oprimidos. Nesse sentido, seu cinema é de um ceticismo ideológico bastante incomum: não há salvação pela pobreza. Ao contrário, ela brutaliza as pessoas, como uma espécie de obstáculo natural à generosidade e ao desenvolvimento pessoal. A pobreza, enfim, intensifica o isolamento e a cegueira.

Em Dançando no Escuro, isso fica evidente porque só o dinheiro pode salvar o menino da cegueira. Por outro lado, é o dinheiro que "cega" o policial e o leva a trair Selma. Em Dogville, tudo também gira em torno da questão do dinheiro, seja indiretamente, na forma do trabalho não-remunerado que é cobrado de Grace, seja na forma direta da recompensa que, por fim, eles decidem aceitar em troca dela. Basicamente, a impressão que me dá é que von Trier inverte a mão e nos diz que, se o dinheiro é mau, melhor tê-lo do que não, porque ele corrompe mais justamente aqueles que não o possuem.

Ainda sobre o tema "cegueira" - tão intimamente ligado ao tema "isolamento" - reparem que em Dogville, a ausência de paredes intensifica o isolamento e a mútua indiferença dos personagens. No mesmo sentido, em Dançando no Escuro, os óculos de Selma são - ou melhor, tornam-se - o signo da sua cegueira. A ponto de, em todas as vezes que ela sonha e o filme se transforma em um musical hipercolorido - Selma está sem óculos. Ou seja: são os óculos que lhe ocultam a visão de si mesma, digamos assim. Os óculos são sua "prisão", o símbolo de sua submissão à "herança genética".

Selma, como Grace, permanece fiel ao pai ainda que, como ela, também tenha feito um esforço para escapar. Um pai que ela não conhece ou despreza - a ponto de inventar outro (Joel Grey, magnífico!). Ao mesmo tempo, ela se mantém fiel ao segredo do homem que abusou de sua confiança, roubou seu dinheiro e praticamente a induziu a matá-lo - o que para mim tem uma clara conotação sexual, de cumplicidade, muito presente nas relações de abuso.

Como em Dogville, arrisco dizer que o ódio ao pai se desloca para outro objeto, depois de todo um processo que a gente poderia chamar de "indução ao abuso": Grace consente em trabalhar de graça cada vez mais e vai suportando os abusos sexuais que sofre; Selma conta a um homem endividado prestes a perder a casa, que guarda dinheiro escondido em casa. Quando acabam "traídas", seu ódio ao pai encontra finalmente um objeto justificado para se dirigir. Bingo!

Eis, portanto a minha tese sobre Dançando no Escuro: da mesma forma que intuo que Grace foi vítima de incesto, acredito que Selma também foi. Mais, diria que o menino é filho do avô! A marca genética do incesto - a cegueira - é tão forte que exige dinheiro, uma cirurgia e uma dupla morte: da mãe, quase voluntariamente condenada, e a do policial que "substitui" o pai incestuoso como o "bode expiatório" dos rituais de sacrifício.

Lars von Trier é muito mais louco do que eu mesmo imaginava... Agora quero ver Maderlay para saber o quanto minhas teses se confirmam. Mas estou adorando descobrir Lars von Trier.

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Comentários sobre a crônica da semana

"Tenho trabalhado com jovens em várias favelas (que nossa cúmplice academia aceitou maquiar, nomeando-as de comunidades) do Rio e, na área da educação, só se vêem mulheres. Estive, inclusive, na secretaria de educação há duas semanas e, num andar inteiro, com mais de quinze salas, os únicos homens eram os guardas municipais que faziam a segurança. Na assistência social também só há mulheres. Os únicos homens, frequentemente são gays.
Discordo de você quanto à idéia de uma instituição somente com mulheres cuidando dos meninos. Como imagem alternativa à dura realidade, é bonita, porém só como imagem. Acho que tem que ter as duas formas de cuidado, masculina e feminina, que são diferentes e complementares. Não dá pra inverter o sinal somente, tem que oferecer os dois. Frequentemente, eles não os têm. Inclusive, geralmente têm a mãe e não o pai. Mas acho que o essencial é a forma, é o jeito, tem que ter amor, se não, não dá. E o amor fica embrutecido em situações de privação. E a imagem do homem é sempre bruta. Por experiência pessoal, quando eles se deparam com homens doces, afetuosos, gentis - mesmo que fortes - eles se surpreendem e buscam se identificar. Suas referências identitárias masculinas são os bandidos, infelizmente. " Henrique P.

* * *
"Suas observações são psicanalíticas. E também românticas -- mas eu também acho que se crianças e adolescentes puderem ser cuidados por mulheres; e se um homem tivesse uma namorada, a violência seria menor. Mulheres, mães acolhedoras e namoradas amorosas – tudo isso contribui para diminuir o mal estar na civilização. Na falta, há dor e barbárie. Onde falta colo, beijo, gente para ajudar na lição, falta tudo." Deborah S.
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domingo, 25 de maio de 2008

Dois filmes

Fico tão entretido com a leitura de livros e textos na internet que acabo vendo os filmes com um atraso às vezes de anos. A inatualidade é uma forma de ceticismo, Borges poderia ter dito . Ele, na verdade, disse que ser conservador é uma forma de ceticismo. Deixarei ao leitor a tarefa de pensar as diferenças e semelhanças entre inatualidade e conservadorismo, mas confesso enxergar no inatual um charme que o conservador não tem. Porque o conservador se agarra à tradição, enquanto o inatual não se apega a nada além da oportunidade e do gosto. Enfim, se o conservador é um aristocrata, o inatual é um dândi à maneira de Baudelaire - para encerrar este parágrafo com mais uma citação vistosa.

Disse tudo isso porque só agora assisti "Dogville". Aliás, na mesma noite assisti "Dogville" e "Ônibus 174". Uma programação aparentemente sem sentido se não houvesse um nexo comum a dois filmes tão díspares: o abuso.

Não li as críticas sobre "Dogville", mas me parece impossível que a alguém tenha escapado tratar-se de um filme sobre o abuso. Talvez eu deva ser mais explícito: sobre o abuso sexual. Ou ainda melhor: da conotação sexual de todo abuso.

Nicole Kidman no papel de Grace está soberba. Ela conseguiu encarnar toda a perversa indiferença que costuma envolver as vítimas de abuso e as faz retornar incansavelmente à situações de abuso - talvez sem gozo, mas não sem prazer. "Os culpados perdoam; os inocentes, se vingam". Ouvi essa frase num filme de Bresson e nunca a esqueci. Vítima de incesto, Grace sentia-se de algum modo culpada pelos atos do pai, como se ela o tivesse seduzido e, no fundo, desejado o abuso; como se fosse ela a responsável pelo incesto - sentimento comum às vítimas de abuso sexual familiar. Repulsa e desejo, ódio e amor. Essa tensão paralisava Grace. A solução foi deslocar todo o ódio e repulsa para outro objeto, liberando o desejo e o amor para realizar-se sem culpa. Sob esse ponto de vista, a saga de sofrimentos de Grace, longe de ser fruto do acaso e da vontade doente dos habitantes de Dogville, aparece como um roteiro minuciosamente elaborado para alcançar um fim muito preciso: a liberação justificada de todo o ódio guardado dentro de si. O desfecho do filme não poderia, portanto, ser mais brilhante e revelador.

Relações de abuso por definição carecem de limites e por isso tendem ao absurdo. O diretor e roteirista Lars von Trier conduz o espectador a um estado de perplexidade e revolta que o torna inteiramente simpático a Grace. Purgamos junto com ela todas as humilhações e abusos - reais ou imaginários - do passado e não é surpreendente se nos tornamos seus cúmplices no final.

No mais, trata-se de um filme perfeito: cenário, figurinos, fotografia, direção, montagem. Tudo. Uma coisa me chamou especialmente a atenção: como a ausência de paredes ressalta o isolamento e a "cegueira" das pessoas.

* * *

A história de Sandro, o seqüestrador quase involuntário de um ônibus repleto de pobres anônimos, é um "Dogville" real e cru, despido das sutilezas da representação. Como ele gritou repetidas vezes, aquilo não era cinema - ainda que ele tenha encenado o assassinato de uma refém. Sandro e Grace padecem de um ódio semelhante na extensão e profundidade. Vê-lo cercado de mulheres dentro do ônibus e depois as cenas do Instituto Padre Severino me provocou um insight que se tornou uma certeza provisória: essas crianças e adolescentes precisam de carinho de mulher e não de autoridade de homem. Fico imaginando uma instituição só de mulheres que os acolhesse - e já ouço um coro de vozes acusando: "Absurdo!".

Enfim, muito bom o filme do José Padilha que só cometeu um pecado: não ter lembrado que naquele dia era Dia dos Namorados - detalhe quase insignificante, mas altamente simbólico.

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domingo, 18 de maio de 2008

Encontro

Imagine, leitor, que estamos juntos, finalmente juntos. Porque é próprio de quem escreve desejar conhecer quem o lê e é próprio de quem lê desejar conhecer quem escreve o que lhe agrada. Estamos sentados os dois num terraço aconchegado na sombra de árvores altas e de onde se avista o mar muito azul no dia ensolarado e sem nuvens. A brisa nos afaga e cada um saboreia com lento apuro a bebida de sua eleição. Quase não nos falamos porque o nosso elo de intimidade foi forjado no silêncio. Partilhamos um sentimento do mundo e queremos apenas estar juntos, mais nada.

O que sabemos e acreditamos pode se resumir numa frase: "Não há nada por trás das coisas." Com horror que não dispensa a ironia, rejeitamos todas essas filosofias que nos acenam com o conhecimento do que está "por detrás das coisas", "a verdadeira realidade" inacessível aos olhos, mas "visível" à imaginação orientada por palavras "luminosas". Rimos dessa tolice, mas sabemos que ela é a origem de todas as tiranias.

Falta vigor e sensualidade a essa descrença do mundo. Amargura, rancor e desprezo escorrem dessas vozes que incitam à destruição e à morte. Onde eles vêem um judeu, um burguês, um negro, um nada nós vemos um homem - e apenas um. E, se olhamos mais longamente para ele, logo começamos a enxergar um semelhante. Porque nós sabemos e acreditamos que, se não há nada por detrás das coisas, há muito dentro delas. Sabemos e acreditamos que cada coisa é um portal que se abre ao infinito.

Por isso estamos aqui, irmanados no silêncio e mergulhados na realidade, atentos a tudo, à espera de nada.

O mundo nos parece imenso e variado, mas naturalmente ordenado, segundo um critério simples de economia de forças. Não precisamos de nenhuma causa para explicá-lo. "O semelhante atrai o semelhante", resume com perfeição a homeopatia. A ordem que existe não asfixia a beleza. Ao contrário, lhe serve de moldura.

Ah, deixe-me ler para você um trecho do livro que tenho aqui e que ilustra bem o que quero dizer com isso: "Em African Genesis, Robert Ardrey conta que estava com o antropólogo L.B.S. Leakey observando uma flor de coloração coral semelhante ao lilás, quando Leakey tocou o ramo e a flor se desfez, transformando-se em um enxame de minúsculos insetos. Passados alguns minutos, os insetos se reagruparam no ramo, uns em cima dos outros e novamente se transformaram numa flor que não existe na natureza. Alguns eram verdes; alguns, metade verdes, metade róseos; outros eram de um coral escuro".

Vê? Há a beleza singular de cada inseto e há a beleza especial da flor que eles criam ao se ordenar de uma forma muito exata. Como naquelas coreografias onde cada um carrega um painel colorido e juntos vão formando desenhos variados só visíveis à distância. A beleza singular busca formas mais complexas de beleza só alcançáveis quando outros seres singulares entram em jogo. O que os atrai e convence? A economia que a forma mais complexa proporciona. Os insetinhos simulando uma flor talvez iludam seus predadores e assim alcancem aquilo que todo ser finito procura: durar.

Ordem, beleza, economia. Singularidade, complexidade. Pensemos nisso, mas pensemos com o corpo todo nesta manhã de maio tão cálida. Temos tempo e o mundo não nos é hostil. Ah, sim! O livro... É "O Oculto", de Colin Wilson.

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domingo, 11 de maio de 2008

A tentação de Adão

"A vida passa muito rápido", diz a mulher numa roda de amigas no momento em que eu cruzo com elas pensando que a única lei universal de onde tudo mais deriva é a lei do menor esforço! Obrigado, minha senhora! Exatamente porque a vida é finita, tudo que é vivente se esforça para durar. Nada nem ninguém quer acabar, morrer. Nem o sol, nem a senhora.

Lembro de ter lido que Primo Levi, o poeta italiano que esteve preso em Auschwitz, se perguntava por que os prisioneiros não se atiravam nas cercas eletrificadas do campo para assim abreviar seu sofrimento. Sim, por que não se matavam? Porque o apelo da vida é mais forte que a dor. Porque "enquanto há vida, há esperança".

E só existe uma fórmula capaz de fazer as coisas durarem: obter o máximo de rendimento com o mínimo de energia. Nisso se resume a Lei do Menor Esforço que preside desde a órbita dos planetas e o comportamento dos átomos à exploração do mais fraco pelo mais forte.

Não é, portanto, sem ironia que constato que o egoísmo é um impulso natural, demasiado natural, conseqüência direta de sermos finitos. A finitude, por outro lado, é o preço que pagamos - nós, os viventes - pela singularidade. Só Deus pode ser, ao mesmo tempo, singular e infinito. "Tudo é um" significa não só que tudo provém de uma mesma origem e partilha da mesma matéria, mas também e sobretudo que cada coisa é singularíssima e única. Há o semelhante, mas não o igual. Por mais que se assemelhem, duas coisas diferem ao menos no tempo em que cada uma surge, em sucessão. Enfim, cada coisa é só ela e ela mesma para nunca mais. E em sua inexpugnável solidão, só um desejo a anima: durar - a qualquer custo.

Por isso, a natureza é tão violenta. Por isso, o cosmos sangrento afronta a alma pura - para citar outro poeta, o brasileiro Mario Faustino, em Balada, um dos mais belos poemas que eu já li - dedicado a um amigo suicida - suicida, aliás, como o Primo Levi... Que pacto é possível entre o ímpeto de dominar e a vontade de conhecer? Quando o egoísmo cede ao amor, a essa "atenção dedicada" de que falei em outra crônica?

Minha cabeça fervilha de dúvidas e idéias enquanto caminho sob esse sol de maio que tanto amo. Dominar e conhecer. Egoísmo e amor. Nietzsche, Descartes, Primo Levi, Faustino, Bergson. Colin Wilson, Louis Pauwels, Aldous Huxley.

Experimento me manter atento, mas sem um foco definido. O silêncio e a solidão de cada coisa, esse cerne inexpugnável de que falava, seu secreto nome avesso às palavras, é o abismo onde meu olhar se precipita, voraz e ousado: cada coisa é o fruto que seduziu Adão - última pedra da criação do mundo, que a todo momento se refaz, incessante. Sigo em frente, animado de discreto júbilo: todas as respostas estão ao alcance dos meus olhos.

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domingo, 4 de maio de 2008

Dois e-mails

"O Djalma Santos, outro monstro do futebol mora lá na minha cidade em Minas, Uberaba.
Tempos atrás estava em um banco, enfrentando aquela básica fila quando vi mais à frente ele, o clássico dos clássicos...o eterno lateral direito do Palmeiras e da seleção brasileira...jogador que povoou o meu imaginário de garoto nas peladas, nem tão peladas assim, pois eram campeonatos organizados...exemplo de ser humano...Achei uma ingratidão ele estar alí na fila...não podia...ele que já fez tanto pelas nossas alegrias e não era reconhecido por um mísero gerente ou caixa de banco. Mas ele lá, firme na sua humildade...esperou a sua vez, foi atendido...e saiu. Quando passou perto de mim não pude me conter, sai da fila...me aproximei dele e falei para ele da minha alegria em poder encontrá-lo, ficar perto de um mito, e contei rapidamente da importância dele para mim e para a molecada que o via jogar. Ele, que já deve estar acostumado com isso, me ouviu com paciência, falou um pouco sobre o futebol atual, me deu um autógrafo, e partiu...seguindo anônimo pelas ruas de Minas...Senti uma alegria em seus olhos em ser reconhecido..."

* * *

"Só lamento que você não vá mais cruzar com a Enciclopédia, porque ele agora está morando na Clínica da Gávea, na parte dedicada a idosos, onde o flagrei mês passado."
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Os deuses do futebol

Um dia com cara de outono: nublado, com uma brisa quase fria soprando do leste e uma luz sem calor nem sombras que envolve a praia vazia de banhistas. Só o pessoal das redes de vôlei e os peladeiros se espalham pela areia, numa manhã deliciosa para a prática dos esportes e da vagabundagem.

Pessoas passeiam pelo calçadão com jeito de turistas. Eu mesmo, vestido como estou, bem poderia ser tomado por turista ou boêmio daqueles que emendam a madrugada com a manhã e encerram a noite tomando a saideira nos quiosques à beira-mar.

Na verdade, estava trabalhando e depois de encerrada a tarefa programada resolvi de súbito visitar essa paisagem que tanto amo. Sim, visitar como se visita um amigo que não vemos há algum tempo e de quem sentimos a falta do abraço, do riso, das palavras, do silêncio.

Encostei num coqueiro e fiquei observando a finura de uns moleques no trato com a bola enquanto saboreava uma água gelada na medida. A bola escorria pelos pés daqueles meninos com a mesma facilidade com que água me descia pela garganta e me inundava o corpo de um prazer revigorante. Quem sabe um desses guris, aquele menor é o que mais se destaca, venha a ser um craque desses que nos enchem de alegria com seus gols? Daqui a uns dez anos, no mínimo - e então eu já nem mais me lembrarei deste dia. Haverá, claro, esta crônica quase esquecida, pontinho invisível na memória digital do computador. Mas nem eu poderei afirmar que o garoto e o craque são a mesma pessoa. Mal lhe distingo o rosto na distância e a elegância com que ele lida com a bola é herança de uma tradição que nele ainda não chega a ser estilo.

O menino será o pai do craque? Talvez, respondem os deuses do futebol - na verdade, uma legião de anjos perdidos entre o céu e o inferno, meio humanos, meio divinos. Às vezes, um despenca dessas nuvens e vira Garrincha. Outros, como Didi, quando morrem conquistam por merecimento o direito de virar um desses anjos tortos que velam pelo futebol, dos campos de pelada aos estádios mais majestosos. Estão de olho no moleque, pressinto. E o moleque nem sabe deles, apenas se diverte com as firulas que aprendeu de olho: chutes de sem-pulo, bolas colocadas de primeira no ângulo do gol, cabeçadas de peixinho...

Às vezes aqui pelas ruas do bairro cruzo com Nilton Santos. Eu e o mitológico Nilton Santos somos vizinhos! Só isso já me confere uma certa aura. Nunca lhe dirijo a palavra - ainda que sempre tenha a vontade de gritar à sua passagem um ridículo "Salve, campeão" ou algo assim. Em vez disso, lhe dedico meu melhor olhar de brasileiro e botafoguense. Mesmo os heróis precisam desse carinho.

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Misty

Coloquei essa música para você...
Esse cd todo é lindo e combina com essa noite de stormy weather - com etta james, claro...
Na luz calorosa dessas lâmpadas incandescentes, com essa chuva efervecente lá fora... tudo é possível porque tudo é eterno como no poema de blake que li ontem... Tão delicado é tudo... So tenderly...
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