sábado, 29 de março de 2008

O amor no trapézio

Não, não diga nada.
Nem adeus, nem perdão.
Por favor, não.
Apenas me sinalize que lá no alto do trapézio
onde sempre estivemos e estamos,
lá, bem alto,
ainda é você quem está do outro lado.

- Sim, sou eu.
Ele pensa ver na distância um sorriso cujo brilho é para ele inconfundível desenhar-se no rosto da mulher do outro lado.

Então de novo eu saltarei,
os braços abertos na certeza dos seus,
indiferente à ausência de rede lá embaixo.
Pois, de que me serviria ela
se seus braços não me alcançassem?

Diz o trapezista de si para si, certo de que ela pode ouvir seus pensamentos.

E então ele se concentra, o olhar firme no vazio que os separa. A tensa calma que lhe toma o corpo vai adensando o ar à sua volta, como se nuvens transparentes se formassem, invisíveis aos olhos, mas cada vez mais sensíveis ao tato de quem com eles partilhasse o sentimento da espera injusta e inexplicável.

O salto planejado nada tinha de original e não lhes exigiria mais sacrifício do que aquele cobrado de gerações e gerações de trapezistas antes deles. A importância do número para eles não estava na precisa geometria dos movimentos que repetiriam, sempre surpreendentes e quase inapreensíveis, mas na sensação intimíssima que teriam ao se darem as mãos em pleno ar e por um momento se sentirem um só. Tudo dependia desse gesto e para ele convergia com a volúpia caprichosa dos rios.

Movendo-se em sincronia, espelho um do outro, fecharam os olhos e se alongaram com a graça própria dos amantes, a ponta do pé experimentando o ar como se tocasse a água de uma piscina.

A hora do salto se anunciava e o coração dos dois rufava como os tambores do circo. Sabiam que seria preciso saltar. Como sempre seria preciso saltar - em honra à tradição milenar dos trapezistas e porque era esse o destino escolhido por todos que ousavam chegar tão alto. Não havia outra razão para terem com tanto esforço chegado até ali. Iriam saltar, era preciso saltar.

Uma outra certeza os animava e dela tiravam a energia extra que daria ao salto uma beleza única e fugaz: se quisessem poderiam simplesmente caminhar no vazio um em direção ao outro e se abraçar lá no alto bem no centro eqüidistante do picadeiro.

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Indícios...

... e eu, quando fico contente, a primeira vontade que me dá é de abraçar você.

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quinta-feira, 27 de março de 2008

Democracia à brasileira

Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta, disse num debate que "Glauber Rocha é uma merda!". E aproveitou para desancar o Cinema Novo e adjacências. Eu também acho o Cinema Novo uma merda, mas Glauber para mim é um gênio, na acepção ambígua da palavra, entendida aqui como definidora de alguém que vive integralmente sua obra e a conduz aos limites da experimentação sem nenhum roteiro pré-definido. Alguém que viaja sem mapas e sem bússola porque se dirige sempre rumo ao desconhecido, motivado por um impulso que não compreende nem domina inteiramente.

"Uma câmera na mão, uma idéia na cabeça", frase que Glauber consagrou, podia ser uma síntese de sua relação com a arte, intuitiva, anárquica, visceral. Mas como program estético do Cinema Novo foi um fracasso. E pior, tornou-se a justicativa estética e teórica para uma série de porcarias que passam por cinema, para não falar da picaretagem pura e simples.

Mas a frase de Marcelo Madureira repercutiu entre os bolivarianos da ABI que, na falta do que fazer, resolveram produzir um "desagravo" a Glauber. O Globo então resolveu"repercutir" a frase entre os suspeitos de sempre e alguns novos suspeitos e depois ouviu de novo o Madureira. O resultado é um barraco ideológico preocupante.

A esquerda é incorrígivel. A velha, stalinista, na impossibilidade do gulag, apela logo para o desagravo, o abaixo-assinado, essas coisas. A "mais gramsciniana", a esquerda de salão, acostumada a já se nutrir nas tetas do Estado enquanto espera a Revolução, é mais matreira e
pensa esconder seu pendor autoritário ao declarar que "Madureira pode criticar Glauber, sim. Mas com respeito.". Isso é ridículo. E vindo da boca de Cacá Diegues mais ainda. Eu queria saber o seguinte: e dizer que Cacá Diegues é uma merda, pode? Porque eu acho todos os filmes dele muito, muito ruins.

O que, afinal, é criticar com respeito? Dizer: "Eu acho os filmes de Cacá Diegues excrementiciais", pode? O problema é a palavra merda? Ou terá sido o uso metonímico do nome "Glauber Rocha", significando "os filmes de Glauber Rocha"? Ora, nada disso escapa às pessoas em questão, presumo. São farsantes, falsos artistias e falsos intelectuais, mas não são burros.

Como sempre, o que a esquerda pretende é estabelecer normas e indicar comissários que as façam cumprir. "Vigiar e punir" é o lema inconsciente dessa gente.

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terça-feira, 25 de março de 2008

Opala

Rubem Braga, janeiro/ 1953

Vieram alguns amigos. Um trouxe bebida, outros trouxeram bocas. Um trouxe cigarros, outro apenas seu pulmão. Um deitou-se na rede, e outro telefonava. E Joaquina, de mão no queixo, olhando o céu, era quem mais fazia: fazia olhos azuis.

Já do Observatório me haviam telefonado: "Vento leste, águas para o Sul, atenção, senhores cronistas distritais, o diretor avisa que Joaquina hoje está fazendo olhos azuis."


Às 19:00 enviei esta mensagem: "Confidencial para o Diretor. Neste momento uma pequena nuvem a boreste deste apartamento dá uma tonalidade levemente cinza ao azul dos olhos de Joaquina, que está meditando nessa direção. A bordo, todos distraídos, mas este Cronista Distrital mantém sua eterna vigilância. Lábios sem pintura de um rosa muito pálido combinam perfeitamente tonalidades cinza do azul referido."

A voz roufenha do Diretor: "Caso necessário, dispomos de um canteiro de hortênsias, tipo Independência Petrópolis, igualmente duas ondas de Cápri às cinco da tarde de agosto 1951, considerada uma das melhores safras de azul de onda último quarto de século."

Respondo secamente: "Desnecessário."

À meia-noite sentimos que o apartamento estava mal apoitado no bairro e derivava suavemente na direção da lua. Às seis da manhã havia uma determinada tepidez no ar quase imóvel e duas cigarras começaram a cantar em estilo vertical. Às sete da manhã seis homens vieram entelhar o edifício vizinho, e um deles assobiava uma coisa triste. Então uma terceira cigarra acordou, chororocou e ergueu seu canto alto e grave como um pensamento. Sobre o mar.

Joaquina dormia inocente dentro de seus olhos azuis; e o pecado de sua carne era perdoado por uma luminescência mansa que se filtrava nas cortinas antigas. Havia um tom de opala. Adormeci.
________________
De mim para você, desnecessário dizer.

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Revolução digital e democracia

Eu imagino que a esta altura das prateleiras vazias, haja em Cuba um policial para cada habitante. É a forma mais sensata do sujeito sustentar a família sem sair de casa: vigiando a própria mulher. Ou vice-versa.

Já li muita coisa sobre a ilha-presídio e seu carcereiro vitálicio, mas o melhor texto ainda é o livro de crônicas de Alex Castro sobre o mês que passou lá. São crônicas saborosíssimas, sem o menor ranço ideológico. Sem deixar de delcarar sua simpatia pela ilha e alguns aspectos do regime, Alex não esconde os absurdos que viveu e presenciou.

Mas isso é uma digressão. Queria falar da censura que o estado policial cubano tentou impor ao blog da corajosa Yoani Sanchez, o Geracion Y . Os jagunços de Fidel tentaram bloquear o acesso ao site, aproveitando que, claro, as telecomunicações como tudo mais também são controladas pelo Estado.

Não deu certo. Pelo que eu entendi, outros blogs pelo mundo inteiro e na própria Cuba começaram a reproduzir os posts de Yoani. Descentralização e clonagem são dois aspectos que tornam a internet praticamente incontrolável. A China também tem tentado, as apesar de ser infinitamente mais rica e contar com a cumplicidade de empresas como Cisco e Google, ainda assim a tarefa é quase impossível.

E não adianta, a natureza quase imaterial do mundo digital, a miniaturização e simplificação dos poucos objetos "reais" envolvidos, a programação cada vez mais aberta - tudo favorece muito mais o indivíduo do que o Estado.

Por isso eu faz parte do meu repertório repetir que o grande embate do século 21 será entre o indivíduo e o Estado. Venceremos, mas a guerra será árdua.
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segunda-feira, 24 de março de 2008

Versos que Maiakovski não escreveu

Não, não diga nada.
Nem adeus, nem perdão.
Por favor, não.
Apenas me sinalize que lá no alto do trapézio
onde sempre estivemos e estamos,
lá, bem alto,
ainda é você quem está do outro lado.

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Outro poema de Maiakovski

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

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O amor

Um dia, quem sabe,
Ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressuscitá-la
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravos de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.

Vladimir Mayakovsky, 1923

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domingo, 23 de março de 2008

Sem rumo

"... Mas como sempre acontece quando se trata de nós, a coisa tomou um rumo inesperado."

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sábado, 22 de março de 2008

A primeira noite de um homem

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De pernas pro ar

O sol finalmente se firma depois do amanhecer incerto, mas uma brisa fria ainda se insinua, vinda do sul e nuvens muito brancas passeiam elegantes pelo céu. O tempo se anuncia volúvel, movido por humores secretos e caprichosos: pode ser que chova, pode ser que faça sol; pode ser que o dia seja muito quente, pode ser que seja ameno. Ou pode ser que tudo isso aconteça, em alternâncias súbitas e inesperadas, nos obrigando a carregar de uma vez o guarda-chuva da cautela ou a observar de soslaio os céus em busca de presságios.

Você está viajando e eu sinto falta do seu corpo, o que às vezes pode ser muito confuso: o desejo não sabe onde acaba o meu corpo e termina o seu e sem cerimônias mistura os dois, enquanto tudo que há são telefonemas nunca suficientemente longos e mensagens de texto sempre mudas, entremeadas de esperas intermináveis. Os dias correm segundo o previsível e a única novidade não é boa: o encanamento está irremediavelmente entupido e foi preciso quebrar as paredes de novo. Tempestades de poeira, lama, desconforto e desordem talvez não cheguem a alcançar você, mas também são poucas as chances de que tudo se resolva com você ainda fora. A descrição do estado das coisas pode parecer um tanto dramática ou quase cômica, mas é assim que eu me sinto sem você e com a casa virada de pernas para o ar.

E aos leitores peço desculpas pela falta de assunto. É que nos últimos dias tudo que fiz foi interrogar as paredes com um grave acento metafísico: "Por onde passam os canos?", eu perguntava, andando de um lado para outro. Até que desisti de encontrá-los porque achei mais inteligente criar um caminho próprio para os canos novos e abandonar os velhos onde estivessem.

Para minha surpresa, quando começamos a quebrar, os canos velhos seguiam quase exatamente o mesmo percurso que eu idealizara para os novos. "Há a lógica!", concluí com júbilo também metafísico. E nisso se resumiu minha atividade intelectual na semana. Fora as contas, cálculos, hipóteses arquitetônicas e soluções improvisadas para cada problema que surge.

Não nego que me divirto também. Outro dia, em meio a canos furados jorrando de paredes esburacadas, me senti de repente nas entranhas de um navio lutando para não afundar. Todo mundo conhece a cena, tantas vezes repetida no cinema: gritaria, suor, vapores, água subindo pelas canelas, enquanto no exíguo espaço da casa de máquinas, a tripulação se esforça para estancá-la. Nada disso estava acontecendo por aqui, e os homens a bordo se resumiam a mim e meu imediato, mas um sentimento de bravura e heroísmo me inundou, ainda que não estivesse fazendo muita coisa além de me encharcar.

Porque eu, de fato, não faço nada, me limito a palpitar. O trabalho real fica por conta do Orlando, um paraibano de retidão e fibra incomparáveis, e também de um humor afiado, capaz de respostas e comentários engraçadíssimos. Além, claro, de um vocabulário arcaico e pitoresco, que me encanta. Onde ainda é possível alguém dizer que "não carece bolir na torneira"?

E assim vão passando esses dias sem você. Eu preferia uma solidão mais calma e confortável, mas talvez assim o tempo corra mais depressa.

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Teste sua fé

Fecho com o Joelmir Beting do post abaixo. Não só não acredito que a crise vá durar muito tempo, como também não acho que ela será de fato uma crise - ao menos nas proporções que se tem vaticinado. Sobretudo, penso que será uma reordenação econômica benéfica que resultará, em médio prazo, num realinhamento cambial e num novo padrão de produção, consumo e crédito.

Não é possível que ninguém saiba o nome da moeda chinesa, mantida artificialmente subvalorizada. Tampouco lembramos o nome da moeda indiana. O euro, por sua vez, não pode se manter tão valorizado em relação ao dólar. Por outro lado, um dólar baixo, nesse momento, talvez seja um bom negócio para os americanos, porque os coloca de novo no mercado produtivo: eles voltam a ser competitivos no exato momento em que a China (será por acaso ou já fará parte do marketing da coisa?) vai se tornando mais e mais antipática aos olhos do mundo.

Míriam Leitão, em sua coluna de ontem, é uma das que profetizam uma "crise longa". Ouviu o professor Dionísio Carneiro, da PUC-Rio. O professor teria dito que "uma crise estrutural como esta demora em torno de dois anos para acabar".

O problema é que nunca houve "uma crise estrutural como esta". E eu pergunto: "estrutural exatamente por quê?". E "estrutural" em que sentido? Será apenas no "sentido fraco" de que toda crise é sempre estrutural? Ou no "sentido forte" de que as bases do capitalismo - ou ao menos, do neoliberalismo - estão abaladas?

Enfim, previsão ou torcida?

Essa pergunta é mais "profunda" do que parece porque, como disse um articulista do Financial Times, esta é principalmente uma "crise de confiança". Ou seja, neste exato momento, quando as coisas ainda não parecem claras o bastante, os que torcem pela "queda do Império americano" acreditam piamente que ela nunca esteve tão próximo. Por outro lado, aqueles que crêem na economia de mercado e admiram os EUA, colocam toda sua fé na recuperação da economia americana para o bem de toda humanidade. Eu estou no segundo grupo, mas reconheço que a propaganda antiamericana nunca foi tão forte.

Exatamente por isso, esta crise será um excelente teste de credibilidade para os modelos de avaliação econômica que cada grupo abraça.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

Fim do mundo adiado

Joelmir Betting

Nos últimos 9 meses o fim do mundo já foi adiado 3 vezes. Em agosto, em janeiro e agora em março. Em agosto, no estouro da bolha hipotecária habitacional made in USA e abusa.

Em janeiro, na primeira medição dos estragos da bolha, nas contas e nos cofres dos agentes financeiros hospedados por ela, a bolha.

E agora em março, pela quebradeira de bancos e fundos de maior... - os elos da corrente que não podem quebrar e têm de ser assistidos ou socorridos. Além, claro, da ação protetora de bombeiro do Fed e dos Bancos Centrais da Europa e da Ásia.

O mundo não acabou, a recessão global continua só na ameaça, 2008 nada tem de parecido com a Grande Depressão dos anos 30, desencadeada pelo gigantesco tsunami financeiro de 1929.

A crise atual não é sistêmica e não é econômica nem comercial.

É uma crise financeira. Dentro dela, uma crise bancária. Dentro dela, uma crise hipotecária. Que pode resultar em perdas totais de US$ 1 trilhão. Pois em março de 2000, no estouro da bolha ponto.com em Wall Street, as perdas somaram US$ 13 trilhões em valor de mercado.

Pois o mundo não acabou em 15 de março de 2000, não acabou no 11 de setembro de 2001 - bem ao contrário, engatou um ciclo espetacular de 5 anos corridos de prosperidade global.

E o mundo não vai acabar nesta travessia de 2008. Vai voltar aos trilhos no mais tardar em 2009, do alto do maior estoque de liquidez do capitalismo vencedor e do maior excedente econômico da História da Humanidade.

É isso aí.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

As oportunidades da crise

A Bovespa caiu, o dólar subiu. Amanhã sobe de novo... Ou segunda. E vai ficar nesse sobe e desce malandro. Momentos de incerteza são uma oportunidade excepcional de negócio e com a velocidade com que o dinheiro muda de lugar, a expeculação come solta nessas horas.

Eu imagino q vai acontecer como eu agosto/ setembro: os BCs fizeram empréstimos de curto prazo, seis meses em média, aos bancos necessitados, houve um sobe e desce semelhante por uns dias e depois o mercado se acalmou, com os bancos, acredito, se realinhando na surdina.

Agora, seis meses depois, chegou a hora de pagar. Quem não conseguiu, quebrou. Os BCs estão injetando mais dinheiro de curto prazo, o mercado se agita um pouco, depois se estabiliza e daqui a seis meses, novo surto de quebradeira, talvez mais ameno.

E assim vamos nisso que me parece, a médio prazo, um gracde realinhamento cambial.

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terça-feira, 18 de março de 2008

Míriam Leitão e o resumo do intervencionismo bocó

Este trecho da coluna de ontem de Míriam Leitão é um resumo não de todas as sandices que li a respeito da crise, mas do espírito que as move. Nada revela melhor e mais suscintamente o que está "por trás" do pensamento da maioria dos comentaristas econômicos, se podemos mesmo chamá-los assim.

Primeiro o trecho corrido: "A bolha aconteceu porque Greenspan abaixou demais os juros, que chegaram a 1% e permaneceram assim por muito tempo. Isso fez com que os bancos fizessem empréstimos de alto risco para pessoas com mau histórico de crédito. Valia a pena emprestar dinheiro para qualquer um. As pessoas não quiseram poupar, preferiram consumir e se endividar. Isso criou a disparada dos preços no setor imobiliário, provocou decisões equivocadas dos bancos, e que agora virou crise."

Agora comentado linha por linha:
"A bolha aconteceu porque Greenspan abaixou demais os juros, que chegaram a 1% e permaneceram assim por muito tempo." Miriam quer se mostrar filiada aos intervencionistas econômicos que, erradamente a meu ver, têm se mostrado excitados com a ação do Fed e criticam Greenspan por seu "excessivo liberalismo", por sua crença no caráter auto-regulatório do mercado. É a "esquerda" do capitalismo - ou simplesmente, a esquerda envergonhada do seu passado.

"Isso fez com que os bancos fizessem empréstimos de alto risco para pessoas com mau histórico de crédito." Como a intenção é criticar o "liberalismo extremado" de Greenspan, o esquerdismo de Míriam não se curva à coerência: os banqueiros, sem a intervenção do estado, "são levados" a ações ruins, não tão pelo maldade do lucro, mas por uma ingenuidade incapaz de avaliar riscos. Mas a grande pérola do trecho é a expressão "pessoas com mau histórico de crédito." O cacoete esquerdista de Miriam não lhe permite seuqer perceber que "essa gente" são os "despossuídos" americanos e que os empréstimos subprime eram de fato um "programa social privado" que por isso talvez também esteja merecendo do governo americano tanta atenção.

"Valia a pena emprestar dinheiro para qualquer um." Qualquer um são os pobres, auqeles que em "condições normais" não teriam acesso ao crédito. Vale dizer: os imigrantes e os pobres, que o "esquerdismo intervencionista" de Míriam transforma em vilões de banqueiros incapazes de avaliar riscos. Duas coisas são omitidas aqui: quem milhões d eimigrantes e americanos pobres se alavancaram de fato com esses créditos e que a explosão de consumo financiou o ingresso da China e da Índia no capitalismo.

"As pessoas não quiseram poupar, preferiram consumir e se endividar." Oque não é necessariamente um mal. Milhões de pessoas conseguiram saltar para um novo drão de bem-estar e conseguiram saldar suas dívidas. Não é esse exatamente o problema.

"Isso criou a disparada dos preços no setor imobiliário,". Essa me parece a única frase coerente de todo trecho.

"... provocou decisões equivocadas dos bancos,". Mais uma vez: tadinhos dos banqueiros americanos...

"...
e que agora virou crise.". Pronto! Eis o resumo de todo uma maneira de interpretar os fatos que tenta se passar pela mais fiel. A mim, soa como uma imensa tolice.

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Estamos sós

Roberta Jansen, em O Globo

Na contramão da idéia popularizada por importantes cientistas de que a existência de formas de vida em outros planetas é provável, o especialista alemão em astrobiologia (ciência que estuda a chance de haver vida no espaço) Wolfgang Kundt acredita que estamos sós, ao menos nesta galáxia.

Kundt, que faz uma palestra sobre o tema hoje à tarde no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), defende a idéia de que o surgimento da vida na Terra constitui um fato raríssimo, e possivelmente único, propiciado por condições encontradas exclusivamente no planeta.

De uma órbita espacial específica, passando por temperatura e pressão estáveis, até uma lista de 40 elementos químicos na superfície, só a Terra reuniria pressupostos indispensáveis ao surgimento da vida. Em entrevista ao GLOBO, no Rio, onde ministra um curso sobre o assunto, Kundt, que é diretor da Escola Erice de Física Nuclear, na Itália, falou sobre o tema.

 TEMPERATURA CONTROLADA: “Temos uma compreensão crescente da estrutura da vida na Terra e das condições que propiciaram seu surgimento.
Quanto mais exploramos esses temas, parece cada vez mais difícil que haja vida em outros planetas ou luas.
Nos vizinhos certamente não. Até agora não vimos um que tenha uma temperatura controlada como a da Terra. E temos isso há bilhões de anos, o que é necessário para o surgimento da vida.”

 ÁGUA: “A Terra é o único planeta em que sabemos que existe água em estado líquido, não congelada, não em condensação.
Tendemos a achar que um outro planeta em que haja água, poderia ter vida. Mas a verdade é que não sabemos. Marte poderia ter água no subsolo. Titã e Europa têm água congelada na superfície. Ainda assim isso não seria suficiente para termos vida, sobretudo formas superiores.”

 CROSTA TERRESTRE: “Ainda não sabemos exatamente como a vida se formou ou se veio até nós. Eu acredito que ela se formou na Terra, na crosta terrestre. Porque para a formação de vida, era preciso ter um lugar com fontes de combustível em abundância, com energia, como carbono, óleo e gás. Era preciso também ter temperatura e pressão constantes, ter alguma estabilidade.
Acho que no oceano, com as correntes, isso não seria possível. Então acho que a vida se formou na crosta terrestre e depois foi para o mar.”

 ETs: “Acho difícil de acreditar que a vida chegou à Terra do espaço.
Tal viagem espacial não é nada fácil, passaria por um bombardeio pesado, radiação. E de onde viria essa forma de vida? Qualquer outro lugar é muito quente ou muito frio.
A Terra me parece um lugar bem melhor para que a vida tenha se formado, aqui existem todos os elementos químicos necessários.”

 QUARENTA ELEMENTOS: “Quando pensamos em vida, costumamos pensar em carbono e água. Mas não é só isso. São 40 elementos químicos indispensáveis para o surgimento da vida.
Carbono, fósforo, nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e enxofre são os básicos. Mas há os metais, como sódio, potássio, cálcio. E outros, em menor quantidade, mas que exercem um papel importante para as enzimas e as proteínas, como o ferro. A vida surgiu em razão de uma combinação da existência de todos esses elementos na superfície do planeta. Porque também, sem o vulcanismo para ejetar tais elementos, também não estaríamos aqui. Não temos informação de nenhum outro planeta ou lua que tenha os 40 elementos desta forma.”

 BACTÉRIAS ETs: “Sabemos que algumas bactérias vivem em condições extremas. Mas onde elas teriam se formado? São necessários pelo menos 26 desses elementos para uma bactéria se formar. Tais elementos não existem nos cometas, nem nos asteróides. Então teria que ser num outro planeta ou lua desconhecido. Por que não na Terra, onde sabemos que existe tudo isso? Até onde sabemos, a Terra é o único lugar que provê todas essas condições em sua superfície.”

 CONHECIMENTO INCOMPLETO: “Do que conhecemos e do que já exploramos, sabemos que existem elementos de forma similar em outros planetas ou luas. Sabemos que outros sistemas formados de forma similar ao nosso poderiam ter condições para a ocorrência de alguns desses elementos
Mas é difícil saber se eles ocorrem na superfície. De qualquer forma, nenhum desses lugares tem temperatura constante, nem uma órbita estável e de distância razoável em relação à sua estrela. Nosso conhecimento é ainda muito incompleto.”

 OUTRAS FORMAS DE VIDA: “Essa é uma questão recorrente, sobre a existência de outras formas de vida, baseadas em outros elementos. Eu não acredito. Não existe outra combinação química capaz de fazer algo similar.
Se tentarmos substituir alguns desses elementos, falharíamos. E o número de compostos químicos que se consegue formar a partir do carbono é maior do que qualquer outro.
Sem o carbono, não temos muitas possibilidades. É como brincar de lego e ter apenas dois blocos. Não se faz muita coisa.”

 VIDA INTELIGENTE: “Ficaria muito surpreso se encontrássemos algum tipo de vida inteligente, como golfinhos, elefantes e homens, em nossa galáxia.
Estatísticas apontam para apenas um planeta. Mas, claro, temos outras galáxias.
Se existe vida inteligente lá, é pouco provável que consigamos uma resposta.
Tudo o que fizermos não seria reconhecível. Acho complicado receber e decodificar sinais.”

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As lições da crise

Outra coisa que me parece quase uma estupidez é dizerem que o corte dos juros americanos querem incentivar ou mesmo manter o nível de consumo. Isso me parece absurdo. A intenção, me parece, é dar fôlego a credores e endividados, de modo a permitir que dívidas sejam renegociadas, ativos vendidos a preço mais ou menos justo, sem que o pânico paralise a economia.

Imagino que juros mais altos tornariam as dívidas impagáveis e assim muitos bancos quebrariam. Por outro lado, essa injeções de ar no mercado financeiro, de seis em seis meses, vão permitindo que o próprio mercado se realinhe.

Eu tenho a impressão que o episódio do Bear Stearns foi exemplar: se o fed é capaz de jogar o quinto banco americano na bacia das almas, bancos menores que estejam insolventes vão tratar de arranjar compradores pelo "preço de mercado" para evitar um destino semelhante ao do BS.

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O "nervosismo" do mercado

Continuo lendo sobre a crise financeira e discordando de muita coisa. Intuitivamente, claro, porque meu desconhecimento de teoria econômica e dos procedimentos do sistema financeiro americano são totais.

Mas, por exemplo, dizer que a atuação do Fed foi "nervosa" ou que o mercado está "nervoso" ou qualquer uso que se faça do termo "nervoso" me parece um comentário digno do Galvão Bueno. Nervoso, é claro, o mercado sempre está, especialmente numa situação excepcional, quando centenas de bilhões de dólares correm de um lado para outro e instituições quase centenárias mudam de mãos por ninharias. É hora, de grandes negócios. Imagino que os operadores saiam a campo nesses dias como guerreiros pré-históricos, loucos para arrancarem o coração uns dos outros e comê-lo cru e ainda quente. Então "nervoso" coom se se tratasse de um bando de senhoras melindrosas e surpresas com os acontecimentos me parece papo de amador.

Também não me parece "nervosa", no sentido de "precipitada", a decisão do Fed de liquidar o Bear Stearns no fim de semana, inclusive antecipando um corte nos juros interbancários. Devia ser o quê, "fleugmático" para aparentar frieza e indiferença? Ao contrário, acho que o Fed agiu com severidade e precisão. Para que esperar "até terça-feira", hoje, quando haverá a reunião regular da diretoria do banco, para cortar os juros se isos já seria esperado? Imagino que o Fede tenha agido como mediador para evitar uma "carnificina interbancária", com os mais fortes ajudando os mais fracos a... morrer! O Bear Stearns foi reduzido a pó num fim de semana, mas seus correntistas foram poupados. Acho que o recado é óbvio: o Fed não está para brincadeiras especulativas.

Outro papo que não agüento é essa coversa mole de que o Fed está usando 'dinheiro do contribuinte" para salvar banqueiros. É uma verdade parcial, porque o 'dinheiro do contribuinte" está sendo usado sob a forma de empréstimos de curto prazo a juros que nem sequer são baixos. Empréstimos que obviamente terão de ser pagos. Tenho inclusive a impressão que o corte dos juros básicos está também relacionado aos juros cobrados nesses empréstimos. Os juros básicos devem ser a referência para esses juros de curto prazo. Logo, se os juros básicos forem muito altos...

Há uma disputa "eterna" entre liberais e intervencionistas, e o presidente do Fed parece tentar se colocar a meio caminho entre um e outro, o que está lhe valendo críticas dos dois lados.

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Greenspan e a recessão americana

Li a entrevista do Alan Greenspan dada à Veja, em setembro do ano passado e citada por Reinaldo Azevedo ontem. Esclarecedora e eu diria mesmo tranquilizadora. Aparentemente dá a ela até um prazo.

E aí reside minha dúvida quanto à tradução da entrevista. No trecho: "Se os Estados Unidos entrarem em recessão em um ou dois anos, o Brasil sentirá, assim como a China. Não tenham dúvida disso.", Greenspan quis dizer em recessão "por um ou dois anos" ou é isso mesmo "em um ou dois anos"?

Como a entrevista é de setembro, tenho a impressão que nessa época o Fed e os bancos centrais europeus já tinham despejado - ou estavam na iminência de despejar - algo em torno de 800 bilhões de dólares para dar fôlego ao mercado financeiro. Mas eram, claro, empréstimos de curto prazo. Se não me engano, quatro meses. Logo, era fácil prever que por esta época do ano teríamos um "resurgimento" da crise, com os bancos em situação mais frágil desabando, como aconteceu com o Bear Stearns. Detalhe q foi sistematicamente esquecido por todos os jornalistas econômicos, como se esse dinheiro não tivesse de ser pago. Brasileiro até hoje acredita que dinheiro dá em árvore. É o que dá ter por gerações lidado com papel pintado.

Aliás, o próprio Greenspan disse à Veja: "nunca consegui me desvencilhar de uma dúvida persistente sobre o Brasil: como uma economia pode ter sido tão mal gerenciada a ponto de exigir reforma tão drástica como foi a do Plano Real?" A memória disso não se apaga assim, de uma hora para outra, da memória de um país.

Enfim, fico imaginando o que teria sido essa crise se o Fed e os BCs europeus não tivessem agido rápido há seis meses.

Por isso acredito que tenha havido um erro de tradução na entrevista: não faz muito sentido que Greenspan tenha dito do que "em um ou dois anos", se a crise já estava instalada e sua consequência previsível é a recessão. Seria mais coerente ele prever que essa recessão se estenda "por um ou dois anos".

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A crise financeira: os canibais estão à solta

Estava lendo no "Wall Street Journal" a saga do desaparecimento do Bear Stearns, um banco tradicionalíssimo, o quarto ou quinto do mercado americano. Foi literalmente uma batalha, com centenas de pessoas numa movimentação frenética e insone involvendo bilhões de dólares e onde se misturavam e atritavam motivações diversas: do lado do Fed, o sincero desejo de minimizar os custo não só americanos, mas mundiais, da crise; do lado do Bear Stearns, uma luta inútil e por isso desesperada para se manter vivo; e da parte do JP Morgan, o desejo justo de realizar o melhor negócio possível.

Não é a primeira vez que o Morgan é chamado para "salvar" o mercado financeiro americano de uma crise de proporções monumentais. No começo do século 20, J.P. Morgan em pessoa fez o papel de um Banco Central a pedido do governo americano, saneando o mercado financeiro ameaçado de ruptura.

Claro, isso significa lucro e poder - o que, por mais mesquinho que possa parecer, não é de modo algum injusto. Todos querem ser reconhecidos e remunerados pelo que fazem. Quando se trata de banqueiros e governos as cifras alcançam bilhões, essa a diferença.

O que impressiona nesses momentos de crise e quase não é comentado, é que se trata de uma oportunidade única dos banqueiros exercerem entre eles uma das nossas práticas ancestrais mais lamentadamente reprimidas: o canibalismo.

Dizer que crises são também uma oportunidade para bons negócios é um lugar-comum que esconde ações cuja única finalidade é destruir os rivais mais fracos. Nenhuma solidariedade, portanto. Quando o Bear Stearns lutava para tentar se erguer ou simplesmente se arrastar por mais um mês, os fundos com pouco ou nenhum investimento no BS passaram a espalhar boatos ainda mais negativos sobre a situação do banco, conta a matéria do WSJ.

Isso serve para dar só uma tímida noção do que deve estar sendo a guerra subterrânea entre esses bancos neste exato momento. Fico daqui imaginando Tom Wolfe, do imperdível "Fogueira de vaidades", tentand tomar fôlego para um romance sobre esse verdadeiro épico moderno, violentísismo e silencioso onde estão em jogo instituições quase centenárias e sobretudo a poupança - ou melhor, a esperança - de milhões de cidadãos anônimos do mundo inteiro.

Ou seja, nós. O que podemos fazer neste momento? Nada. No nosso caso espécifico de brasileiros em tempos de Lula, ficar ainda mais quietos, de olho em seus bancos, principalmente os internacionais. E manter a calma. O que vai aparecer de notícia desencontrada cujo único fim é produzir pânico e levar as pessoas comuns ao prejuízo, não vai ser brincadeira.

Calma. Um crise dessas pode ser um bom momento para comprar ações de primeira linha e esquecê-las por cinco ou seis anos, por exemplo, acho eu.

Mas acredito que seja principalmente um tempo em que não se deve gastar. Reserva prudente é a palavra-chave. Quanto menos despesas assumidas, mais fácil é suportar um aperto no crédito.

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segunda-feira, 17 de março de 2008

Fora China!


É claro que os beneficiários do Bolsa_Ditadura irão dizer que o Tibet é uma "questão interna da China". Não é. Um mundo global exige princípios globais. A liberdade individual, o respeito à propriedade privada, a auto-determinação dos povos, os direitos humanos são alguns desses pontos inegociáveis.

É preciso que o Brasil se mobilize entre nessa onda: ou a Chnna toma jeito ou os atletas brasileiros não irão às Olimpíadas de Pequim. Aliás, que tal uma Olimpíada alternativa? A Olimpíada dos Direitos do Homem?

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sábado, 15 de março de 2008

Udsh!

O amor é também uma coleção de segredinhos bobos e códigos íntimos, feitos de caras, olhares, palavras e gestos que vão aos poucos demarcando a ilha que de fato todo amor habita, inacessível aos outros e onipresente aos dois. É lá que sempre estamos; é para lá que voltamos a todo instante. Pois, se acaso o cotidiano ameaça nos arrastar para longe, por mais distante que se esteja, a simples lembrança dessas ínfimas feitiçarias é o bastante para nos lançar de volta à ilha. Quem ama nunca está só, é uma verdade óbvia que não perde o gosto de revelação.

Entre tantas outras coisas tolas e secretas, eu e você temos uma palavra; uma palavrinha que não existe, que nunca existiu em nenhuma língua, que, aliás, não é sequer uma palavra e nem foi inventada por nós. É uma simples seqüência de letras aleatórias usada para materializar um signo que em nossa ilha acabou por se tornar expressão da alegria mais insana, inesperada e desmedida: "udsh".

Não vou dizer que ao ouvir essa palavra você sempre vai lembrar de mim porque simplesmente você jamais vai ouvi-la de outra pessoa: ela pertence a nós dois apenas. Mas toda vez que uma alegria dessas espocar de repente em seu coração, ah!, você vai ouvir "udsh!" ressoar em seu espírito - junto, é claro, com uma imagem muita exata - e a alegria então será dobrada. Se, ao contrário, for um desses dias em que a sombra nos alcança e a tristeza abre diante de nós os seus abismos, a palavrinha há de encontrar seu caminho até você e misturar às lágrimas, um sorriso, amenizando o inevitável.

Mas se alguma vez lhe perguntarem a origem dessa palavra, invente. Diga que vem do ídiche - e se encontrar algum a mão, estilhasse um copo no chão com toda força, como uma forma de ênfase.

Sim, vai que "udsh" vire meu "Rosebud"? Porque, claro, se houver tempo para ensaiar, essa será minha última palavra, que depois quero ver gravada em minha lápide. Se for assim, é possível que num futuro que eu espero bem distante, resolvam pesquisar a origem de "udsh" e venham incomodar você com perguntas. Então faça como eu disse e guarde nosso segredo bobo que ele só tem graça porque é nosso... E os leitores hão de me perdoar por isso.

O mais provável é que nada disso aconteça e tudo se resuma a esta crônica, feita com o único intuito de alegrar você e que logo será tragada pelo esquecimento. Só uma coisa é certa: não importa o tempo que a gente fique junto, "udsh" ficará para sempre inscrito em nossa mitologia íntima. Porque a lembrança é umas formas que a justiça toma e esses nossos dias têm sido mesmo inesquecíveis. Udsh!

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sexta-feira, 14 de março de 2008

Novo encontro do BookCrossing do Rio

Amanhã, sábado dia 15, a partir das 13 horas, vai acontecer um novo encontro do pessoal do BookCrossing do Rio, lá no Lunático Café Cultural, na rua Visconde de Carandaí/06, no Jardim Botânico (subindo a Lopes Quintas, é a primeira rua à esquerda).

Eles estão sendo simpaticíssimos com a idéia e já são informalmente a sede dos encontros que agora passarão a acontecer todo segundo sábado do mês.

Pra quem está pegando o bonde andando, é só clicar aqui embaixo em "bookcrossing", nos "marcadores" que irão aparecer todos os posts anteriores onde tenho tudo explicadinho.

Mas se você é um leitor apaixonado por livros, pode ir no escuro que pelo menos uma parte da "sua turma" vai estar lá.

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O fórum do Café

Desde o comecinho do Café, sempre pretendi criar um fórum. E não passei da pretensão até descobrir o Tangler, um site de fórum facílimo de administrar."Acredito que o fórum venha ser um veículo de interação entre os leitores, eu incluído." Bom, mas isso eu já disse lá no fórum do Café
sugestivamente intitulado: "por que um fórum?"

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quinta-feira, 13 de março de 2008

Flock, um navegador para blogueiros

O Flock é uma das alternativas ao Internet Explorer, que melhorou muito na versão 7.0, mas ainda é o mais lento e vulnerável dos navegadores. Há várias opções e eu falarei delas mais detalhadamente em outra ocasião.

O meu preferido é o Opera para navegação diária. É, sem dúvida, o mais rápido e cheio de opções que facilitam a navegação do internauta pesado como eu.

O Firefox eu uso apenas para postar porque ainda existe uma incompatibilidade entre o Opera e o Blogger. É aí que entra o Flock cujo marketing gira em torno do conceito "social browser". Ou seja, ele se apresenta como o navegador ideal para usuários de blogs e serviços afins, tipo Flickr, YouTube e similares.

Este post, por exemplo, está sendo escrito direto do editor do Flock. Veremos se funciona. O editor não chega a ser uma vantagem significativa, mas parece que o Flock oferece outras facilidades do tipo "arrastar e colar" que podem ser úteis na hora de editar um post que faz referência a outras páginas da web.

Um título o Flock já tem: é o navegador mais bonito. Ele usa a estrutura do Firefox, que é opensource, mas o recobre com uma série de funcionalidades muito bem apresentadas. O efeito visual é marcante. Claro, como o próprio Opera, demanda um tempo aprender todos os recursos oferecidos. Mas aparentemente vale a pena.

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Deita-te na cama e cria fama

Como era de se esperar, a prostituta que acabou provocando a renúncia do governador de NY, Eliot Spitzer, virou mesmo uma celebridade. O nome divulgado de "Kristin" parece saído de um desses pulp fictions de amor da Arlequin: Ashley Alexandra Dupré. Mas seu nome de batismo seria mais prosaico: Ashley Youmans.

Desde que o caso estourou, no começo da semana, descobrir quem era a moça que involuntariamente detonou a carreira do governador se tornara um desafio. Quem chegou primeiro foi o PageSix.com, do New York Post, um tablóide novaiorquino, cuja característica que sempre me chamou a atenção é a de ter duas primeiras páginas: a primeira, óbvio, e a última, que é tratada como uma primeira página dedicada ao esporte.

Para conferir as fotos da moça e de suas "colegas de trabalho", dê uma olhada no The Smoking Gun (1 e 2), um site especializado em pegar no pé de celebridades, e no obscuro The Post Chronicle, que exibe com mais detalhes as páginas do Emperors Club VIP que foram retiradas da Internet.

A página dela no My Space está bombando, claro. No seu perfil, ela conta:
"I am all about my music, and my music is all about me… It flows from what I’ve been through, what I’ve seen and how I feel. I live in New York and am on top of the world. Been here since 2004 and I love this city, I love my life here. But, my path has not been easy. When I was 17, I left home. It was my decision and I’ve never looked back. Left my hometown. Left a broken family. Left abuse. Left an older brother who had already split. Left and learned what it was like to have everything, and lose it, again and again. Learned what it was like to wake up one day and have the people you care about most gone. I have been alone. I have abused drugs. I have been broke and homeless. But, I survived, on my own. I am here, in NY because of my music."
Em cidades como Nova York, você tropeça em histórias como essa em cada esquina. O que não significa que sejam falsas ou menos dolorosas. Ashley já conseguiu ao menos inverter o ditado e passar da cama para a fama. O que já lhe valeu uma menção na Rolling Stone.

Se você quiser avaliar os dotes canoros da moça, clique aqui.
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quarta-feira, 12 de março de 2008

Casablanca: "We'll always have Paris"

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A farra dos banqueiros

Joelmir Beting, 04/03/2008

Juros por Deus


Seguinte: a Selic está congelada na base do sistema financeiro em 11,25% ao ano. E emite sinais de que vai ficar por aí, se não subir, em toda esta travessia de 2008. Mas os juros do crédito bancário, na ponta do sistema, voltaram a subir em janeiro, com sobras para fevereiro.

Primeiro, porque a demanda de crédito para produção e consumo continua acesa. Segundo, porque o sistema fatura a sinistrose da crise dos outros. Ou da crise made in USA e abusa.

Se o mundo vai acabar este ano, não dá para baixar nem mesmo manter juros e lucros no alto. Eles voltam a ficar em alta. Com a ressalva do morde-assopra: os juros subiram, mas os prazos espicharam ainda mais.

E para os tomadores de crédito, empresas e famílias, mais vale o prazo esticado que o juro congelado ou rebaixado. Até porque a oferta de cre´dito continua cartelizada entre nós.

Há uma competição entre bancos, até feroz, na promoção da marca, na prestação de serviços bancários e extra-bancários.

O que ainda não temos é competição entre os bancos na oferta de empréstimos, ainda que regiamente lucrativos.

Por uma simples e boa razão.

A autoridade monetária não libera ou não amplia a aplicação livre dos depósitos em banco. Metade ainda fica congelada no BC. E da outra metade, a aplicação livre não passa de R$ 1 para cada R$ 4. Vai daí que os bancos se obrigam, nos juros, a continuar ganhando mais sobre menos, na impossibilidade de ganhar menos sobre cada vez mais. E como ganham.

A oferta bancária para produção, giro, investimento e consumo mal passa hoje de um terço do PIB.

No mundo quase todo, essa mesma oferta cobre o PIB inteiro - o que me leva a concluir que, em matéria de política monetária, um dos dois deve estar errado: ou o Brasil, ou o mundo.

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terça-feira, 11 de março de 2008

Há males que vêm pra bem, capítulo 1

Eu ainda não li nada que me explicasse com clareza a crise imobiliária americana. Tudo me parece tão inconsistente e repetitivo que, mesmo sem entender nada de economia, me sinto à vontade para dar meus palpites.

O que entendi até agora foi que os juros muito baixos levaram os bancos e outras instituições de crédito a oferecer financiamento para compra de casa própria a cidadãos que não tinham as garantias usuais. Ou seja: dinheiro para que precisa de dinheiro. Claro, como sempre, o objetivo não era a caridade, mas o lucro. Mas, se a minha descrição está correta, podemos dizer que tratava-se de financiamento de casa própria para a população de baixa renda. Seria então então um "produto social" privado e, pior, oferecido por banqueiros? É, aparentemente é isso mesmo.

Acredito que em lugar nenhum você tenha lido uma abordagem semelhante porque, na cabeça dos jornalistas brasileiros: 1) só quem oferece "produtos sociais" é o Estado; 2) banqueiros não financiam pessoas a juros baixos (o que é verdade no Brasil!); 3) o capitalismo é mau e os EUA são o Grande Satã.

Pelos mesmos motivos, a inciativa do governo Bush de, entre outras medidas, oferecer empréstimos de emergência para dar liquidez às instituições envolvidas é vista exclusivamente como uma operação para "salvar capitalistas" e não também como um benefício para os compradores inadimplentes que, de outra forma, perderiam suas casas imediatamente. Não se trata, portanto, de meramente "socializar o prejuízo", mas de intervir de modo a minimizar as perdas de todos.

Outra detalhe importante que às vezes parece escapar da compreensão dos jornalistas: o FED, Banco Central americano, não colhe dólares na horta. O dinheiro que ele "injeta" no mercado são, na verdade, empréstimos de curto prazo. E empréstimos com juros - aí não sei se mais altos do que aqueles cobrados pelo mercado. Em uma palavra: o FED não é um BNDES salvador de amigos em apuros.

Essa crise então teria origem no financiamento de cidadãos de baixa renda ou sem garantias formais de crédito. Agora vamos ousar um pouco mais nesse raciocínio e aplicá-lo à macroeconomia: poderíamos dizer que o crescimento da China e da Índia na última década resultou do mesmo princípio? Porque parece indiscutível que, a grosso modo, a ascensão de chineses e indianos ao mercado de consumo global foi financiada pelos americanos.

Meu Deus! Quer dizer então que os sanguessugas da humanidade poderiam ser, sob esse ponto de vista, na verdade, seus benfeitores? Estaria o Grande Satã promovendo a globalização da economia que outra coisa não tem feito senão elevar rapidamente enormes contingentes de miseráveis à condição de consumidores? Assistam aos próximos capítulos da novela "Há males que vêm pra bem".

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As "obrigações familiares" do governador de NY

O NYT denunciou o governador do estado de Nova York, Eliot Spitzer, por usar os serviços de uma casa de prostituição de luxo, a Emperors Club VIP. Não, meninos, não adianta... O site da casa já está fora do ar. Pelo visto, nos EUA, esse tipo de denúncia é considerado propaganda negativa e não marketing gratuito.

Spitzer nem pensou duas vezes: junto a mulher e as três filhas e se desculpou publicamente por "violar minhas obrigações familiares". O problema é que autoridades federais granpearam um telefonema do governador contratando os serviços de uma moça para atendê-lo em Washington. Acontece que esse "tráfico" é crime e agora o governador pode ser obrigado a renunciar.

Será que a moça vai parar nas páginas da Playboy de lá? E por que não na daqui - afinal, é nossa especialidade transformar delinqüentes ou quase isso em celebridades.

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Notetab, o melhor processador de textos em .txt

Outro programa genial e gratuito é o Notetab Light. Há muito tempo, não uso mais processadores de textos pesados, desses que produzem arquivos com a extensão .doc, como o MS Word ou o Open Office. Tenho os dois, claro, para as raríssimas ocasiões em que eles são exigidos em algum trabalho ou, mais frequentemente, como corretores ortográficos. No mais, uso direto o Notetab porque ele é um processador de texto cheio de recursos que trabalha com arquivos .txt, bem menores, mais leves, que os .doc e mais facilmente utilizáveis na internet. Escrevo tudo em txt e depois é só colar aqui no blog, por exemplo.

São muitos os recursos do Notetab, o principal deles é trabalhar com abas: todos os arquivos são abertos dentro de uma mesma janela do programa - como nos navegadores de Internet mais modernos. O programa também memoriza a última posição dos arquivos abertos e sempre que é reiniciado abre tudo de novo no mesmo lugar.

Outro recurso que me foi muito útil quando trabalhava como editor de jornal: os textos das agências vinham com as linhas quebradas e desalinhados. Com dois ou tres cliques de mouse o Notetab junta as linhas e alinha o texto.

Mais um: ele pode transformar um arquivo em branco num clipboard ou área de transferência. Assim, todo texto que você copiar será imadiatamente colado nesse arquivo, dando inclusive um espaço de uma linha entre ele e o próximo. Recurso utilíssimo quando você está fazendo uma pesquisa ou quer criar uma lista a partir de fontes diversas.

Ele tem também recursos de autocorreção, busca&substituição e as barras são personalizáveis. O único defeito, como disse acima, é não ter um corretor ortográfico confiável. Aliás, preciso rever esse ponto, porque é possível que já exista. Outro problema é não haver uma versão em português.

O Notetab tem também versões pagas que eu acho até baratas levando em conta a excelência do programa.

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domingo, 9 de março de 2008

Dia Internacional da Goiabada

Enfeito a casa de flores, faço um almoço diferente e decreto feriado íntimo. Será o dia antecipado da mulher, da minha mulher. Acordei cedo, adiantei tudo que era preciso, fui ao mercado e depois passei o resto da manhã na cozinha, juntando gostos e aromas para seduzir você.

A alface é americana, o macarrão veio da China; as mangas são da Índia, assim como muitos temperos; os tomates são incas, estas azeitonas vieram do Chile; já a goiabada e o queijo são de Minas mesmo. Só não sei de onde vem esse amor que sinto por você. Será que ele existe sem origem? Virá de outras vidas? Ou terá crescido de sementes invisíveis até se tornar essa coisa intensa e vistosa, às vezes tão palpável como se o espírito se tornasse carne e vice-versa? Não sei, mas as conjecturas me divertem mais do que qualquer explicação definitiva. Se houver uma verdade, só uma, que explique todo esse mistério, não quero saber. Só me servem palavras que venham adensá-lo ainda mais, dar-lhe mais cor e volume, mais graça.

Se não for assim, que me deixem encantar você com minhas versões disparatadas, com sabor de improviso como esse molho que fiz, originalíssimo apenas na fantasiosa receita que lhe atribuo, cheia de ingredientes secretos e afrodisíacos.

- Ficou bom o molho...

- É egípicio, respondo com a cara mais séria do mundo e que por isso nada tem de séria. Egípicio porque não me ocorreu palavra mais deliciosa para um molho. "Egípicio?" - e você sorri. Sim, persigo tanto o teu gozo quanto o teu riso, e para isso recorro a todos os artifícios. Sim, bem-aventurados os homens que, sem negligenciar o gozo de suas mulheres, não descuidam do seu riso. Deles será o paraíso na Terra, pois serão como Adão e Eva antes da sobremesa.

- Pra você, quem é o Romeu e quem é a Julieta, a goiabada ou o queijo?

- Ora, é claro que a Julieta é a goiabada.

- Hummm... Só porque goiabada é feminino?

- Não, bobinho. É porque a goiabada é doce...

- Você tem razão... Mas se é assim, acompanhe meu raciocínio...

- Diga...

- Se a Julieta é a goiabada, logo a goiabada é mulher, certo?

- Certo...

- Então podemos dizer que o Dia Internacional da Mulher é também o Dia Internacional da Goiabada, certo?

Você ri. De novo você ri e eu todo me ilumino desse riso, me acendo por dentro, e rivalizo com os girassóis do vaso.

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sábado, 8 de março de 2008

Uma razão para viver

É por vaidade que reproduzo o e-mail que vai abaixo? É, sim. Uma vaidade benigna. Mas também para dividir com vocês a emoção que senti ao recebê-lo. Me comoveu tudo: a emoção do Bruno fazendo a prova, seus alunos estudando redação com os meus textos... Essa emoção me salva, me resgata quando às vezes tudo parece sem sentido, sem rumo. Essa emoção é meu mapa.

"Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;"

E então vem uma mensagem como essa e eu tenho a certeza de que tudo, absolutamente tudo em minha vida era necessário, porque eu escrevo é com a minha vida inteira e o que eu escrevo faz sentido para alguém.

Quero muito conhecer esses meus leitores. Ler para eles minhas crônicas, conversar sobre a arte de escrever. Imagino que são adolescentes ou pré-adolescentes e saber que se emocionam com minhas crônicas me enche de alegria. Segue o e-mail:
"Olá, primeiramente apresentando-me: Bruno Humberto Vontrier. Tenho 21 anos. Bangu. Rio de Janeiro. Quero começar logo ao ponto: sou apaixonado pelas suas crônicas.

Curiosa a história de como eu cheguei até ao seu site. Sabe como começou?
Acho que em 2007 ou 2006 eu fiz uma prova de Controlador de Tráfego Aéreo pela Aeronáutica (não passei), mas ganhei um presente de ouro que nunca me esquecerei: sua crônica naquela prova. "A viagem". Que você se inspirou no que Rubem Braga produziu em ti. O estranho foi que eu chorei durante a prova. Claro que em silêncio! Mas me emocionou muito. Você descreveu a sua emoção pessoal com a escrita de Rubem Braga, sendo que ali morava sua própria emoção, que ao mesmo tempo explodia em mim. E toda hora eu ia lá e lia o texto novamente. Quando percebi, tinha perdido o foco da concentração para a prova.

Antônio Caetano, guardei a prova e a tenho até hoje. É algo fantástico. Gosto demais.
E o lado ridículo foi que eu me encantei com a tua crônica (e pensava: "Poxa, queria tanto ler mais e conhecer melhor as crônicas dele"). O que não pensei foi que a bibliografia estava indicada ao final do texto.

Somente ontem percebi que eu posso acompanhar seus textos através do Café Impresso. Contudo, hoje estou aqui demonstrando-te toda minha admiração, todo meu encantamento, minhas fantasias e minhas respeitosas reverências ao teu trabalho. Sou professor de língua portuguesa e redação. Trabalho sempre que me é possível com suas crônicas. O resultado é surpreendente. Os alunos adoram. E eu mais ainda. E te repasso essas informações todas para que você também tenha ciência do que é produzido nas pessoas, através do teu trabalho. Que palavras macias ao meu ouvido, que lirismo rebuscado... nossa!
Meus encantamentos. Sinceros!"
* * *

A crônica a que o Bruno se refere é Viagem, de fevereiro de 2001.
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sexta-feira, 7 de março de 2008

A questão judaico-palestina

Pouca gente conhece as origens do estado de Israel e da "questão palestina". Eu, por exemplo, era inteiramente pró-palestino até ler um livro que rotulei de "propaganda sionista" e abri com muita má vontade: Mitos e Fatos, de Mitchell G. Bard, da editora Sêfer.

"Editora Sêfer?", torci imediatamente o nariz.

E foi ótimo porque todo esse preconceito e má vontade me obrigaram a uma leitura rigorosa que me fez mudar radicalmente de opinião. O livro é muito bem construído e documentado. Há uma versão disponível para leitura online em inglês.

Uma alternativa para quem não lê inglês nem quer comprar o livro é baixar gratuitamente a versão em espanhol do livro Big Lies que apesar de não ser tão completo, também oferece uma visão bem clara da "questão palestina".

Preferem uma abordagem mais romanceada da questão? Leiam Exodus, de Leon Uris. O livro é thriller político que se lê de uma sentada. A descrição do Gueto de Varsóvia é inesquecível e, para mim, simboliza o espírito que animava os sobreviventes do Holocausto que fundaram Israel, depois de séculos de perseguições e humilhações. Vale lembrar que o livro foi filmado por Otto Preminger, com Paul Newman no papel principal.

O mínimo que se tira dessas leituras é a percepção da artificialidade do "problema palestino", insolúvel enquanto os árabes insistirem na "destruição de Israel".

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quinta-feira, 6 de março de 2008

O Instituto Rio Vermelho e as Farc

Reinaldo Azevedo publicou a tradução de uma entrevista de Marco Aurélio Top Top Garcia ao jornal francês Le Figaro. O que mais me chamou a atenção foi o trecho: "Acusá-las [as Farc] de terrorismo não serve pra nada quando a gente quer negociar." A gente quem?! O que essa gente quer criar é um "fato consumado": existe uma negociação a despeito do governo colombiano. E isso, sim, é inaceitável.

Há um esforço premeditado para desqualificar e isolar o governo eleito da Colômbia em favor das Farc. E o Instituto Rio Vermelho - que, para nossa vergonha, substituiu o Itamaraty na condução da diplomacia brasileira - participa ativamente dessa farsa.

Com as cabecinhas plantadas em 17, essa gente parece esquecer que na era da internet a mentira tem de fato pernas tão curtas quanto as de Lula e Top Top Garcia. E o mesmo mau hálito. Os manuais de desinformação e contrainformação do século passado precisam ser reescritos. Mas falta à guerrilha narco-comunista (adorei essa expressão que aprendi com a Nariz Gelado) aqui e lá inteligência suficiente.

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A farsa do aquecimento global vai se derretendo

Passou em brancas nuvens por aqui a 1ª Conferência Internacional sobre Alterações Climáticas, realizada em Nova York, pelo Heartland Institute, de 2 a 4 de março. Al Gore rebarbou o cachê de 200 mil dólares e outros sacerdotes do aquecimento global também recusaram o convite.

O Rui Moura, do Mitos Climáticos, acompanhou o encontro. "A cortina de silêncio imposta pela maior impostura científica de toda a história da ciência sofreu alguns rasgos. Alguns media denunciam a teia de falsidades com que os envolveram desde longa data.", escreve o Rui logo na abertura do post, seguindo com uma série de links para as matérias em diversos veículos.

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quarta-feira, 5 de março de 2008

Vizinhos aliados com as Farc

Alejandro Reyes Posada, do El Tiempo, em O Globo

As forças colombianas mataram Raúl Reyes num acampamento em território equatoriano. Se as relações entre Colômbia e seus vizinhos fossem normais e eles estivessem dispostos a apoiá-la na recuperação da sua segurança interna, o episódio não teria maiores conseqüências.

Mas a Colômbia não está em situação normal nem seus vizinhos estão dispostos a permitir que ela ganhe a guerra.

A Colômbia não está em situação normal porque trava um conflito com a guerrilha mais antiga e experiente da América e ao mesmo tempo luta para se livrar do tráfico. E a insurgência e o narcotráfico transbordaram para fora das fronteiras e encontram santuário em Venezuela e Equador, onde há governos que se declaram revolucionários, e que, portanto, consideram as Farc como seus aliados.

Chávez e Correa já disseram que seus países não têm fronteiras com a Colômbia, mas com as Farc.

E têm razão, porque as Farc exercem domínio armado e controlam corredores que penetram em seus territórios, protegidos por suas Forças Armadas.

Estabeleceram relações com elas através de Raúl Reyes, e no mais alto nível: na Venezuela, com Chávez e seu ministro Rodríguez Chacín; e no Equador, com Rafael Correa e seu ministro da Defesa, Larrea. Essas relações incluem um pacto de proteção diplomática que parte do reconhecimento da beligerância e termina com a defesa dos guerrilheiros nos seus territórios.

A Colômbia não se limita ao sul com o Equador, mas com as Farc, e por isso a incursão não foi uma violação do Equador, mas do santuário das Farc no território equatoriano. O protesto de Chávez e Correa pela morte de Reyes é a reação de aliados quando cai um amigo por uma falha no compromisso de protegê-los. E explica que a mobilização de tropas de Chávez e Correa não seja dirigida a San Antonio e Tulcán, diante de Cúcuta e Ipiales, as áreas mais povoadas da Colômbia em suas fronteiras, mas a Arauca e Putumayo, regiões mais ocupadas pelas Farc. A mobilização não tem como propósito atacar a Colômbia, mas defender as Farc de futuros ataques das forças colombianas a seus santuários.

A Colômbia deve entender que a internacionalização das Farc mina sua chance de ganhar a guerra interna, pois seu inimigo se aliou a vizinhos que agora consideram as Farc representantes do povo colombiano e desconhecem a legitimidade do governo.

A Colômbia tem direito a que seus vizinhos respeitem o mandato democrático conferido a Uribe, que foi o de ganhar a guerra contra as Farc.

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O Oriente Médio é aqui?

Pedi ao Luis Eduardo Matta, autor dos thrillers políticos Conexão Beirute-Teerã, Ira Implacável e 120 horas, todos ambientados no Oriente Médio, que fizesse uma comparação entre a situação lá e aqui - envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela - tomando como possível ponto comum a tensão entre ilegalidade e legitimidade que pode se resumir na seguinte questão: "um país que abriga terroristas de um país vizinho pode apelar para o princípio da inviolabilidade territorial quando o vizinho ataca bases terroristas em seu território?" A seguir, a resposta do Luis:

"O Hamas é uma organização extremista que não quer acordo algum com Israel. A militância armada palestina, após o acordo de 1993, perdeu o sentido, pois Israel tem-se mostrado, desde então, extremamente aberto a negociações. O que vem atrapalhando a criação de um estado palestino e atiçando os ânimos naquele pedaço do Oriente Médio é justamente essa militância extremista. Os palestinos estão divididos. Se o Hamas, sem qualquer objetivo justificável, lança morteirtos contra a opoulação civil de Israel, o governo de Israel tem de revidar. Isso é uma guerra aberta, embora não oficializada.

Aqui na América do Sul, ainda não chegamos a esse nível de beligerância; é justamente essa declaração de guerra que a diplomacia da região está tentando evitar. Há evidências de que os governos da região alinhados a Hugo Chavez mantêm estreitos laços com as Farc, a ponto de permitir que membros do grupo transitem entre as fronteiras. Particularmente, acredito muito nisso. Inclusive porque se houvesse uma cooperação de fato do Equador com a guerra colombiana contra o narcoterrorismo, Raul Reyes não estaria refugiado em solo equatoriano e Quito teria se empenhado em saber o que se passava em seu território.

De todo modo, apesar de eu abominar as Farc, acho que o governo colombiano cometeu dois atos graves ao: 1) matar o guerrilheiro, em vez de detê-lo e levá-lo aos tribunais. 2) transpor a fronteira equatoriana para realizar a operação. Se aceitarmos isso, estaremos agredindo o direito internacional e abrindo um precedente perigoso nas relações internacionais. Não se pode agredir a soberania de um outro país dessa forma. A Colombia pode alegar legítima defesa e acusar o Equador de abrigar terroristas, mas ainda assim terá ferido o direito internacional. O Equador tem todo o direito de reclamar.


Por outro lado, é igualmente verdade que os governos da Venezuela e do Equador, ao apoiarem e abrigarem as Farc em nome de uma revolução tresloucada com um falso verniz de esquerda, também, de certo modo, se envolveram no conflito e agrediram a soberania colombiana. Pois se um país não quer tomar parte de uma guerra num país vizinho, deve, em primeiro lugar, fechar e vigiar permanentemente as suas fronteiras. E sabemos que não foi o que aconteceu, já que Raul Reyes estava calmamente refugiado no Equador, sem ter, em nenhum momento, sido importunado pela polícia daquele país."

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"Chavez usa crise para fins políticos"

Janaína Figueiredo para O Globo

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, atuou de forma vergonhosa no conflito com a Colômbia, cometendo delitos de traição à pátria e priorizando seu projeto de poder pessoal. A opinião é do general Raúl Baduel, exministro da Defesa e ex-amigo de Chávez (o presidente é padrinho de uma de suas filhas), que, em entrevista ao GLOBO, assegurou já haver “evidências que podem comprovar” as especulações sobre o pagamento, por parte da Venezuela às Farc, de milhões de dólares para libertar reféns.

O presidente Chávez ordenou o envio de tropas para a fronteira com a Colômbia. Qual a sua opinião sobre essa ação?

Este tipo de ação militar não pode ser decidido publicamente, é necessário atuar com cautela e discutir essas questões em âmbitos reservados. O Código Orgânico de Justiça Militar estabelece que ações dessa natureza podem ser consideradas delitos de traição à pátria. Ficou claro que o presidente Chávez usa esse incidente, que todos esperamos seja resolvido pela via diplomática, com fins políticos. Trata-se de uma estratégia política para recuperar o apoio popular perdido. Chávez busca relançar uma política nacionalista, mas o problema é que o nacionalismo, bem entendido, requer dois elementos fundamentais: um líder carismático e com alta popularidade, que não é o caso do presidente venezuelano, e um adversário.

Qual tem sido a reação da população?

Existe preocupação, e por isso aproveito para pedir calma e sensatez aos povos de Venezuela e Colômbia. Não podemos entrar no jogo perverso do presidente Chávez.

O governo colombiano acusou o presidente Chávez de ter dado US$ 300 milhões às Farc. O senhor, que foi ministro da Defesa e amigo do presidente venezuelano, ficou surpreso ao saber desta informação?

Como venezuelano, senti estupor e vergonha. Estas são as coisas que prejudicam o relacionamento entre povos irmãos. Se todas as denúncias forem confirmadas, estamos diante de um assunto muito sério que colocaria em risco a governabilidade de toda a região. O próprio presidente Chávez gosta de falar sobre suas ligações com a guerrilha colombiana, vimos como o ministro (do Interior) Rodríguez Chacín atuou como ligação nas negociações para libertar reféns e teve gestos de solidariedade e compromisso em relação às Farc.

Nos últimos dias circularam versões sobre a possibilidade de que Chávez tenha pago às Farc para conseguir a libertação de reféns...

Estamos em presença de evidências que podem provar as especulações. Nada disso teria sido grátis, e sim em troca de uma expressiva quantidade de dinheiro, que saiu dos recursos do povo venezuelano, com intenção de reforçar o projeto político de Chávez.

O senhor teme um conflito bélico na região?

Temos de analisar cuidadosamente essa situação. Nosso país não tem militância política, nosso partido se chama Venezuela, e nossos militantes são nossos familiares e amigos. O que pretendem não tem nada a ver com nosso povo, que é pacífico e não quer ser levado para extremos de nenhum tipo. Todos, venezuelanos e colombianos, devemos atuar com muito cuidado. Chávez enviou tropas tentando provocar uma reação similar por parte da Colômbia, mas isso não aconteceu nem acontecerá. O presidente tentou criar um inimigo e nos arrastar para um conflito que nenhum de nós deseja. Confio na sensatez de nossos povos.

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A estupidez do Itamaraty

É deprimente o papel a que o governo petista submete o Brasil ao compactuar com a argumentação cínica do presidente equatoriano Rafael Correa. O descaramento desse sujeito dá nojo. De sua fala se deduz que na cabeça desse palhaço só existem três tipos de pessoas: os cúmplices, que sabem que ele mente, mas crêem como ele que a mentira é um instrumento revolucionário; os inimigos, a quem pensa paralisar recorrendo a sofismas jurídicos; e os ingênuos e mal informados a quem pretende seduzir com sua retórica de vítima ultrajada.

Como bem resumiu Reinaldo Azevedo: "... em nome da inviolabilidade do território, um princípio da boa convivência internacional, não se pode permitir que um país abrigue terroristas do país vizinho." Ponto final. Todo resto é esse espetáculo nojento a que o Itamaraty - doravante chamado de Instituto Rio Vermelho - nos submete.

A quem essa gente pensa enganar? Toma o país inteiro por um bando de idiotas? Ou a mentira é já a arrogante exibição do poder conquistado, o gozo do tirano que perversamente desfila nu, mas exige que não lhe enxerguem a nudez?

Desde que Franklin Martins e Teresa Cruvinel saíram da clandestinidade para assumir abertamente seus lugares no governo, temo que essa gente acredite que já tomou o poder.

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terça-feira, 4 de março de 2008

Raul Reyes, narcotraficante e pedófilo

Uma busca casada no Google dos termos "Raul Reyes" e "pedofilia" trará resultados surpreendentes. Entre os muitos textos, destaca-se o do jornalista Gonzalo Guillén, do do "El Nuevo Herald", de Miami - que, aliás, não é um queridinho do presidente da Colômbia Alvaro Uribe, como se pode conferir aqui

Guillén acusa o narcotraficante de esquerda Raúl Reyes de pedófilo: "O porta-voz da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Luis Édgar Devia Silva, conhecido como Raúl Reyes, mantêm a sua disposição grupos de meninas a partir dos nove anos de idade, seqüestradas por ordens suas em bairros pobres de cidades e povoados com o objetivo de escravizá-las e satisfazer seus desejos sexuais, segundo os testemunhos de dezenas das próprias menores que escaparam do domínio da guerrilha." Leia a materia completa

Surpreendente? Talvez. Mas a pedofilia parece ser uma das características comuns aos tiranos. Experimente, por exemplo, casar o termo "pedofilia" com os nomes de Mao Tse Tung e Lavrenti Beria, o chefe da KGB de Stalin.

De qualquer modo, se lhe custa crer que Reyes fosse pedófilo, veja estas fotos.

Não, elas não provam a pedofilia de Reyes. Provam algo muito pior, talvez. Provam que, a despeito dos desvios sexuais de seus membros, a guerrilha colombiana faz uso sistemático de crianças como instrumentos de guerra.

Com a palavra o governo Lula que diz combater, não apenas a pedofilia, mas também a exploração do trabalho infantil. Quando se trata das Farc, pode-se até escolher que crime acusar.

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domingo, 2 de março de 2008

Chavez e as Farcs

Sobre as relações "comerciais" entre Hugo Chavez e as Farcs o The Guardian - que não pode ser acusado de "direitista" - publicou dia desses uma reportagem que não deixa margem de dúvida - a não ser, claro, no Itamaraty. Chavez é hoje uma espécie de megagângster internacional e assim deveria ser tratado pelos países civilizados. Leia a matéria

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O caderno secreto de Descartes

Acabei de ler um livro delicioso, "O caderno secreto de Descartes", de Amir D. Aczel. Sob o pretexto de desvendar o segredo de um caderno de Descartes escrito em linguagem criptografada, que foi copiado por Leibnz antes de desaparecer, Aczel nos oferece uma breve, mas muito bem "montada", biografia de Descartes, que contrasta com as insípidas biografias acadêmicas.

Das biografias de Descartes só a de Samuel S. de Sacy me foi tão saborosa. O Descartes q emerge das duas nada tem a ver com a imagem que se criou de um filósofo desprovido de graça e coragem. Enfim, Descartes não é Kant! Em nenhum sentido, aliás. Ao contrário, é o melhor remédio contra a "doença do kantismo".

Mas, como sempre acontece, quando o autor tenta resumir a metafísica cartesiana, incorre em erros graves que comprometem o entendimento do pensamento do filósofo. Chega a ser irônico que um texto tão claro como o cartesiano (e eu acrescentaria: mesmo em seus momentos mais obscuros") tenha sido vítima de sucessivas interpretações erradas, desde sua publicação. A mais estúpida redundou no hegelianismo. Mas, de modo geral, é impossível encontrar uma interpretação fiel ao texto.

O leitor arguto a essa altura me perguntará: "Você está insinuando ter uma interpretação fiel e, por isso mesmo, original?" Sim, é exatamente. Mas seria preciso escrever para demonstrar o que agora apenas insinuo. "Gênios-para-si-mesmos sonhando" não dá. Como ensina logo a seguir o poeta: "O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão." Portanto, é preciso escrever, encadear em argumentos o que até aqui é apenas intuição. Esse o teste supremo de qualquer a idéia.

Borges dizia que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Era talvez um modo indireto de se apresentar como metafísico, mas certamente a metafísica é o gênero mais nobre da literatura. Por que exige, ao mesmo tempo, precisão argumentativa e a capacidade poética de produzir analogias e metáforas. Foi exatamente o que me surpreendeu e encantou nas "Meditações metafísicas".

Até ali, como todo mundo, eu pensava Descartes um idiota completo. A leitura já da primeira meditação me capturou por completo. E acendeu uma desconfiança, que só fez crescer desde então, quanto a "inteligência" e a "boa intenção" da Academia. Mas isso será tema de outros posts. Voltemos ao livro de Aczel...


Talvez porque tenha partido não das "Meditações metafísicas", mas do "Discurso do método", onde Descartes expõe suas conclusões sem se preocupar em mostrar seu desenvolvimento, Aczel erra feio ao apresentar o resumo da prova da existência de Deus. Diz ele:

"Dúvida implica incerteza, e incerteza implica imperfeição. Os seres humanos e tudo mais em seu ambiente são imperfeitos. Mas a idéia do imperfeito implica a existência de algo que não é imperfeito."

É exatamente o contrário! Essa a sutileza da prova cartesiana. A despeito de toda a imperfeição, persiste na alma humana uma idéia de perfeição que não pode ser deduzida da imperfeição à volta, porque "do menor não se deduz o maior", segundo a boa lógica, isto é, do imperfeito não se pode deduzir o perfeito. Logo, como toda idéia corresponde a algo, essa idéia de perfeição só pode ter sido impressa na alma por um ser que a ela corresponda - ou seja: Deus.

O resumo que Aczel faz do Cogito também é falho - mais parece Santo Agostinho do que Descartes! - mas ele ao menos enfatiza o papel da negação no desenvolvimento da prova, o que é um mérito. Mas quanto à Deus, como se viu, não há salvação - sem trocadilho.

Feita a ressalva, volto a recomendar o livro de Aczel. Compare os preços

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sábado, 1 de março de 2008

A borboleta no shopping

Era uma borboleta amarela. Ou mais exatamente: amarela, preta e branca. Entrou no shopping não sei se impulsionada pelo vento ou pela vontade de suas asas grandes e vistosas. Encontrá-la foi tão inesperado que custei a reconhecê-la: quem pode imaginar uma borboleta num shopping? Até ela se tornar bem nítida aos meus olhos, não soube dizer o que era. Em poucos e intensos segundos, passei da incerteza absoluta - "o que é isso?" - ao mais puro encantamento - "uma borboleta no shopping!".

Tudo bem, é um shopping pequeno, de bairro, com uma entrada principal que dá para a avenida, e outra lateral, menor, que dá para a minha rua. Três andares, ar condicionado, mármore, vidro e aço - enfim, nada que combine com borboletas.

Mas lá estava ela, toda serelepe. Parei para admirá-la e por um instante ela, vaidosa, pairou também, admirada talvez de tamanha admiração. Farfalhou diante de mim, quase imóvel, num flerte de amantes impossíveis e então seguiu seu vôo apressado e indeciso de mulher flanando entre vitrines.

Também eu quis seguir meu caminho e cheguei mesmo a dar dois passos, mas percebi de repente que ela me capturara. Fiz meia volta e segui atrás da borboleta que já se alçara mais alto, longe do olhar humano. De fato, minha expressão maravilhada ainda buscou espelho no rosto dos passantes, mas ninguém parecia se dar conta de que uma borboleta amarela voava pelo shopping, nobilíssima.

Fez que subiria para o segundo andar, mas de súbito cortou em diagonal para a praça de alimentação entre as duas escadas rolantes e sumiu no teto de um quiosque. Sem saber o que fazer, resolvi esperar que ela retomasse o fôlego. Breve e delicada é a vida das borboletas; não convinha apressá-la. Encostei-me ao balcão do café e pedi um expresso. Dali eu poderia vê-la retomar seu vôo e então... Eu não sabia ainda. Talvez apenas lhe lançasse um olhar cúmplice de despedida e fosse pagar minhas contas. Mas iria com o coração aquecido pela secreta loucura de flertar com borboletas.

Então me surgiu um conhecido, desses com quem trocamos palavras cordiais e rasas, reservando outras mais ácidas para falar sobre o que não importa: o futebol, a política, a vida dos outros. Faltava-nos a genuína intimidade dos que partilham o silêncio sem desconforto para que eu pudesse lhe dizer que toda minha atenção aguardava o vôo de uma borboleta amarela. Talvez se explicasse que era esse o título do meu primeiro livro sério, tantas vezes lido e relido e que por causa dele foi que decidi me tornar cronista... Bem, se eu lhe dissesse tudo isso o mais certo é que só alongasse ainda mais nossa conversa... Não tive como saber. Naquela fração de segundos em que os cariocas se atracam em efusivas despedidas, minha borboleta amarela levantou vôo porque quando olhei de novo ela já subia veloz para logo se perder destas vistas cansadas que já reclamam óculos definitivos.

Foi-se embora minha borboleta amarela, mas me deixou esta crônica, que vem a ser modesta sobrinha-neta daquela de Rubem Braga.

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