sábado, 26 de janeiro de 2008

Um silêncio cinza

Um silêncio cinza se apoderou de mim nesse fim de tarde tão incerto que nem as horas coincidem com a luz, efeito do horário de verão e de um não sei o quê a me deixar perplexo sem nada haver que me deixe perplexo.

Na falta do que dizer me lembrei de uma piada, a mais metafísica de todas que conheço e talvez por isso a tenho guardada na memória para repeti-la exatamente nessas horas em que nada me ocorre dizer ou quando numa roda social é minha vez de contar um caso ou uma piada.

É assim: o diretor do hospício chega de manhã e vê um interno com o ouvido colado à parede, a expressão concentradíssima. Não dá muita bola, afinal são todos loucos, mas quando desce para o almoço lá está o homem na mesma posição, a ouvir a parede com toda atenção. Na volta do almoço, ele continua lá e, finalmente, quando à noite o diretor encerra o expediente, o louco ainda está no mesmo lugar, imóvel e atento. O diretor, animado pela curiosidade, não se contém. Aproxima-se dele e com todo cuidado pergunta:

- O que você está ouvindo?

O louco gesticula pedindo silêncio e indica ao diretor que também encoste o ouvido na parede. Coisa que ele faz imediatamente. Ele se concentra, espera um pouco, mas nada.

- Não estou ouvindo nada... Ele cochicha para o louco que lhe responde com a expressão mais perplexa do mundo:

- Pois é, está assim desde de manhã...

Em Tabacaria, Fernando Pessoa tem um verso que bem poderia ser o equivalente dramático-poético da piada:

"Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta".

Uma parede muda e sem porta também me encara. Há um abismo em cada instante, mas basta desviar o olhar e seguir em frente. É o que faço. Escrever às vezes me salva. Sem recusá-lo, vou colorindo esse silêncio cinza de palavras que só em mim ressoam, me fazendo vibrar por dentro. Rio da piada tantas vezes repetida e me repito no mesmo tom perplexo: "Está assim desde de manhã...". E retorno à minha obstinada vocação para o impossível.

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domingo, 20 de janeiro de 2008

Uns brincos

Você esqueceu uns brincos no chuveiro. Deviam estar lá desde ontem, quando nos entregamos a tão intensa investigação de nossa mútua anatomia que exigiu nudez sem adornos. Agora estão aqui os brincos, fixados com durex no monitor, bem ao alcance dos meus olhos e a salvo do esquecimento e da oxidação.

Ah, o que podem uns brincos! Começam por sugerir orelhas, esses pontos tão sensíveis do corpo, poço de segredos, fonte de arrepios. E então, das orelhas desço pelo pescoço, abismo de perfumes onde anoiteço e siderado desço ainda mais, passando célere dos ombros aos seios, onde róseas estrelas despontam túrgidas...

Meu Deus! Veja que palavras me sugerem esses brincos, indianos no desenho que semelha uma minuciosa roda da fortuna, onde fantasio ver nosso destino: os dois juntos para sempre, tão iguais como um par de brincos.

Que graça eles são, de bronze, acho - ou será latão? Não sei e todo dia me surpreendo com a minha ignorância sobre essas pequenas coisas - para não falar das grandes... Mas um homem pode passar pela vida sem compreender o sentido dela. Isso é possível suportar. A grande ignorância tem sido a fatalidade natural de todos os homens (ou de quase todos) desde sempre. Mas não saber se são de bronze ou latão os brincos que você esqueceu no chuveiro acho quase imperdoável.

Eu queria saber o nome de todos os pássaros e de todas as flores. A biografia dessas pessoas que depois de mortas viraram ruas e praças. Queria saber explicar o funcionamento das máquinas e o metabolismo do corpo. Queria encantar você com palavras exatas e precisas para ver brilhar esses olhos e espantar para longe toda tristeza.

Não sei se existe uma comunidade maior no Orkut, mas "Eu quero um amor pra vida toda" tinha 1.779.583 membros da última vez que olhei e não pára de crescer. O quanto brincos esquecidos no chuveiro terão contribuído para essa descoberta na vida dessa gente? Brincos, um anel, uma peça de roupa íntima, uma marca de batom...

Ah, isso de ir se esquecendo em minha casa aos poucos até que um dia toda você esteja aqui, tão natural como se jamais eu ou esta casa tivéssemos vivido sem você... Isso é muito bom! Sim, vá se esquecendo em minha vida, sem susto e sem alarde. Acolho cada pedaço seu. Mas só não me peça para devolvê-los. Porque às vezes também me agrada ver sua nudez ornada de brincos...

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sábado, 12 de janeiro de 2008


Vou meditar. Só volto no domingo, dia 20. Para quem não sabe, o mesmo curso da excelente matéria de Eliane Brum, na Época da semana passada. Será meu quarto curso. Sempre é duro. Desta vez estou preferindo chamar de retiro espiritual mais do que de meditação.

Se me perguntassem sobre o que gostaria de meditar, eu diria sobre a relação entre rigor e compaixão. Em todas as as práticas religiosas esses dois sentimentos (na falta de palavra melhor) sempre se opõem. No entanto, impossível pensar uma religião sem uma ou outra.

O rigor faz pensar em desapego. A compaixão faz pensar em aceitação e acolhimento. O desapego e a aceitação resultam da compreensão da impermanência.

O rigor se volta para mim, a compaixão para o outro. Se o inverso se der, teremos uma boa definição de egoísta: o sujeito que é rigoroso com os outros e compassivo consigo memso.
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A catedral de Fernando Pessoa

No dia 15 de janeiro, Tabacaria fará 80 anos de criação. Há quem considere Fernando Pessoa o maior poeta do século 20 e Tabacaria seu maior poema. Logo, Tabacaria seria o maior poema do século 20. Pode ser e pouca diferença faz. O título - e quem o atribua - precisa mais do poema do que o poema do título.

A mim encanta ter descoberto depois de tantos anos que o poema, escrito às vésperas de Pessoa completar 40 anos, é também um 'balanço da vida' típico de alguém que chega à meia-idade.

Falhei em tudo.
(...)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
(...)
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)

A grandeza do poema reside exatamente na maestria de Pessoa em entrelaçar o cósmico, o singular e o mundano ao longo de todo poema, passando de um plano para o outro em cortes, ao mesmo tempo, bruscos e precisos, de efeito devastador.

Esse "projeto estético-filosófico", digamos assim, se define logo na primeira estrofe do poema

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
A parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo.

"Não sou nada/ Nunca serei nada" é uma constatação de ordem cósmica. No entanto, "Não posso querer ser nada" expõe uma enigmática interdição que repentinamente atira o poeta das alturas cósmicas às profundezas mais íntimas do plano individual: por que Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos está proibido de querer ser algo? No verso seguinte, nova surpresa: o poeta emerge ao plano intermediário e mundano: "A parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo", numa espécie de frágil reconciliação.

É como se uma operação alquímica se realizasse: a interdição de ser - que faz com o que o poeta não ceda à ilusão mundana de "querer ser" e se identifique com a insignificância de todas as coisas em face do Infinito - abre o espaço necessário para abrigar em seu interior "todos os sonhos do mundo", o que identifica o poeta com a humanidade inteira. Por isso, ele pode dizer:

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Porque realizou o sacrifício de si para ser todos os homens. E também:

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Porque ousou ir além de pensar o que para Kant seria impensável: os conceitos de Deus, alma e mundo. Mas isso não se dá sem dor: o aniquilamento tem um preço alto:

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda

A tensão entre alma (consciência de mim), Deus (consciência cósmica) e mundo (consciência da humanidade em mim) é dolorosa e aparentemente insolúvel, ao menos no plano mundano:

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

O entrelaçamento desses planos seguirá assim, monumental, patético e terrível, até o final quando, depois dessa espécie de “iluminação precária”, o universo retomará sua aparência habitual "sem ideal nem esperança".

Enfim, se Joyce teve um dia inteiro, 16 de junho de 1904, e uma cidade inteira, Dublin, para construir sua catedral, a Fernando Pessoa bastou apenas a tarde de 15 de janeiro de 1928 e o exíguo espaço de um quarto entre a mesa e a janela para erguer a sua.

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Los Angeles, cidade proibida

Até hoje eu não entendo como Russell Crowe não ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante. A fúria contida e sempre prestes a explodir que oculta um coração frágil e carente é a perfeita caracterização do Bud White de James Ellroy. Crowe está assustador e rouba todas as cenas de um elenco simplesmente perfeito e brilhante. O filme, claro , é imperdível.
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sábado, 5 de janeiro de 2008

Vadiação

Aproveitei esses dias de férias à brasileira para fazer uma das coisas que mais gosto: vadiar. Os franceses - ou melhor, os parisienses - diriam flanar. Mas eu acho que o termo que melhor se aplica a nós brasileiros - e especialmente aos cariocas - é mesmo vadiar.

Minha vadiação é simples, se resume a estacionar meu carro na primeira vaga que encontro mais ou menos próxima da praia que quero ir e vestido apenas de sunga, camiseta e chinelos ir caminhando lentamente na direção do mar, naquele passo gingado de carioca metido a malandro. Levo apenas a chave do carro e uns trocados acomodados na sunga. Nada de celular, claro, porque uma das graças da vadiação são os encontros casuais. Quando, mais tarde, em minha mente começar a se desenhar a vontade de um mergulho, dinheiro e chaves serão cuidadosamente embrulhados na camiseta e, junto com os chinelos, serão deixados sob a guarda de alguma família acomodada à sombra de uma barraca.

Vou sem nenhuma pressa e sem saber muito bem pra onde. Há algum tempo, o centro do meu mundo praiano é o Posto Seis, de onde posso alcançar a pé um círculo que se estende de Copacabana, na altura do Posto Cinco, até o Posto Nove em Ipanema, passando pelo Arpoador e a Praia do Diabo. Tudo depende dos caprichosos acordos entre o corpo preguiçoso e a alma arguta. Ou será o contrário: o corpo é que é arguto e a alma preguiçosa? Não sei... Vai ver, depende do dia.

Vou gastando os olhos sem a menor intenção de guardar nada. Deixo que eles passeiem sem juízo, não se fixando em nada. Tento simplesmente exercitar a compaixão e o encantamento. Mas, às vezes ocorre de uma cena me chamar mais a atenção.

Num desses dias, na Praia do Diabo lotada, vi passar um homem carregando o que parecia um manequim. Mas era um menino, o corpo retorcido como que congelado de súbito entre um gesto e outro. Com alguma dificuldade, o pai o colocou na beira d'água para que as ondas viessem banhá-lo. A vida é um mistério... A expressão de alegria e prazer do menino incapaz de se mover e falar, era tão intensa, tão genuína, que imediatamente renovou em mim o prazer e a alegria de viver. Também me fez bem o carinho sem comiseração que o pai dedicava ao menino. A aceitação tácita da intensidade brutal da vida era a maneira deles de celebrá-la. E talvez seja mesmo a única.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

O idealismo no cinema

O que filmes como Ardil 22, O show de Truman e Matrix, por exemplo, têm em comum? Uma abordagem idealista do mundo. Cada um a seu modo pretende que aquilo que chamamos de realidade (os objetos imediatamente dados) nada mais é do que o manto que recobre - que, ao mesmo tempo, esconde e revela - a verdade ou o que de fato o mundo é, sua essência, aquilo que chamamos de vida.

No idealismo podemos dizer que realidade e vida não mantém uma relação de imediata correlação verdadeira; que não existe uma relação de correspondência entre realidade e vida. A verdade da vida não está imediatamente dada pela realidade sob o ponto de vista do idealista. Na verdade, ela a oculta. É preciso que um agente mental intervenha para dissolver essa pátina ocultadora. Esse agente mental é toda teoria idealista. O idealismo, como se vê, é uma fórmula messiânica.

Essa relação de ocultamento entre realidade e vida pode se explicar ou justificar de muitos modos. Em Matrix, ela é direta. A vida está inteiramente oculta pela realidade e quase nenhuma brecha existe para que se possa passar de uma a outra. Em Ardil 22, foi a realidade que se corrompeu, falseando completamente a vida até conduzi-la ao absurdo. Em O show de Truman, é a reprodução da realidade que irá indiretamente mostrar a desconexão entre ela e a vida em vez de reforçá-la, como era a intenção original do projeto de reprodução.

Os finais de Ardil 22 e O show de Truman são muito parecidos, por exemplo. Em ambos nos é sugerido que os protagonistas conseguem escapar da realidade para ingressar na vida.

Refletindo agora de improviso, eu diria que a tensão entre realidade e vida é permamente, um dado que talvez seja um dos pontos de partida ou de chegada comum a todas as abordagens filosóficas.

No idealismo
clássico, digamos assim, não existe uma correspondência entre realidade e vida. Há como uma ruptura ontológica, essencial, entre realidade e vida. Ontológica aqui significa também "irremediável".

Formas mais atenuadas do vírus idealista deixma entrever brechas na realidade de onde se poderia acessar a vida; brechas obviamente só identificáveis a quem tenha a posse do instrumental filosófico... idealista, claro! Esse o perigo dos idealismos todos: se transformarem em seitas fanáticas e intolerantes. Matrix é o exemplo. No filme, aqueles que estão adaptados à realidade são considerados pelos idealistas como "cadáveres adiados que procriam" cujo assassinato deve ser considerado um ato de misericórdia.

Dito isso, é fácil perceber que todas as derivações do hegelianismo - marxismo, evolucionismo, positivismo, fenomenologia, existencialismo - são expressões desse idealismo.

De um modo mais radical, eu diria que toda a dita "filosofia alemã" está irremediavelmente condenada por esse rejeição à realidade e à vida que involuntariamente resulta da rejeiçao de uma conexão imediata entre elas.

Teologicamente, a rejeição dessa conexão implica em rejeitar a possibilidade de uma conexão direta com Deus? A princípio, eu diria que sim. mas o que dirá Lutero... ?

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