terça-feira, 30 de outubro de 2007

Da série: "Deu em O Globo, mas você não vai achar em O Globo online"

Moradores de favelas não gostam do tráfico

Segundo pesquisa, eles não denunciam os bandidos porque não confiam na polícia e em outros órgãos públicos

Daniel Engelbrecht

 Apesar de não gostarem do convívio forçado com o tráfico de drogas, apontado como arbitrário e brutal, moradores das favelas evitam denunciar os bandidos por não confiarem no poder público. Essa é uma das conclusões de um estudo inédito realizado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), com moradores de comunidades do Rio. Em debate realizado ontem no Clube de Engenharia, no Centro, foi mencionado que a falta de confiança na polícia e em outros órgãos do estado permite até mesmo que pessoas ligadas ao tráfico participem de cursos oferecidos pela prefeitura.

Intitulada “Rompendo o cerceamento da palavra: a voz dos favelados em busca de reconhecimento”, a pesquisa, que ouviu 150 moradores de 45 favelas, mostra que a grande maioria dessa população sofre com a ditadura imposta pelos bandidos.

“O receio de infringir de alguma forma o domínio dos traficantes provoca alta dose de medo e desconfiança entre os próprios moradores”, diz o estudo.

Tráfico abortou o socialismo que havia nas favelas’
Embora a convivência entre bandidos e moradores seja próxima, havendo em muitos casos até relações de parentesco, a pesquisa conclui que a maioria das pessoas tenta manter distância das quadrilhas, por medo de ser vítima de atitudes arbitrárias e pelo desejo de fazer parte da sociedade formal. Segundo o estudo, o tráfico age de forma intempestiva e brutal. Assim, por mais que os moradores tentem criar que seriam regras de convívio, ao final acabam submetidos ao arbítrio dos bandidos.

A pesquisadora Dulce Pandolfi, do Ibase, aponta como uma das conseqüências o enfraquecimento de associações comunitárias e outras entidades representativas, igualmente vítimas da arbitrariedade dos criminosos.

— Pode-se dizer, de forma geral, que o tráfico desorganizou as favelas — afirma ela.

Animador cultural e integrante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, Deley de Acari concorda com ela: — O tráfico abortou o socialismo que havia nas favelas. As associações eram instrumento de resistência e luta e hoje perderam espaço para o tráfico.

Essa conclusão, segundo os pesquisadores, rompe, entre outras coisas, com as idéias amplamente difundidas de que o tráfico substitui o Estado nas favelas e de que os moradores são coniventes. A convivência forçada com os bandidos se perpetua sem maior resistência por parte dos moradores de bem, na verdade, pela falta de confiança no poder público.

Moradora de uma grande favela, uma das debatedoras do evento realizado ontem citou como exemplo a participação de pessoas de confiança dos traficantes em cursos de capacitação oferecidos pela prefeitura.

Segundo a debatedora, elas acabam se qualificando e passando, depois, informações para a quadrilha. A prática acontece sem conhecimento dos responsáveis pelos cursos.

Polícia é vista como corrupta e discriminatória
A desconfiança existe em relação a todas as instituições do poder público, sobretudo a polícia, vista como corrupta, ineficiente e discriminatória pelos moradores das favelas.

— A polícia exerce práticas arbitrárias, que não são fruto de nenhum pacto com a sociedade ou de regulamentações legais — comentou Jacqueline Muniz, do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Candido Mendes.

No segundo e último dia de debates sobre os resultados da pesquisa, hoje, no Clube de Engenharia, serão abordados os temas “É possível um movimento social na favela?” e “A violência na favela”, a partir de 9h.
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domingo, 28 de outubro de 2007

A cidade perplexa

À noite, a calma se abatera sobre a cidade perplexa. Uma calma exausta, pesada como as roupas encharcadas no varal. Fora um dia duro para a cidade: ruas alagadas, vias interditadas, casas destruídas, gente desabrigada e morta. Resultado de uma chuva sem trégua, constante e igual, inesgotável como o dilúvio. "E se não parasse mais?", o coração se aperta só de pensar e os olhos calculistas logo avaliam a dispensa: "Comida para cinco dias, no máximo".

Da janela, não se avistava ninguém. O dia cedo se tornara um feriado decretado de repente: ruas vazias de gente e carros enquanto a TV e as rádios anunciavam engarrafamentos por toda parte, desabamentos, enchentes. Era bom estar em casa.

Sentiu uma imensa compaixão pela cidade, por cada cidadão confinado em seu destino incerto. O próprio ar parecia contrair-se pelas perdas que se davam simultâneas e sucessivas em todos os recantos da cidade: a resignação dos carros avançando lentamente; a dor do pai atônito com a morte do filho tragado por um bueiro; os bens de uma vida arrastados pelas águas barrentas e mal-cheirosas.

Sentiu compaixão por sua cidade, tão frágil ela se mostrava às vezes. A vida era dura para todos na cidade - e muito mais para uns do que para outros, certamente. Mas, ao fim, todos concordariam que, apesar de dura, a vida era boa na cidade, com seus confortos e ilusões. E então, vem um dia como este, súbito, voraz, cruel. E, ao mesmo tempo, tão natural, tão necessário, tão belo. Como chorar a chuva, como maldizê-la?

Era bom estar em casa agora e nem lhe passou pela cabeça rezar, que seria o que, em outras épocas, os homens sensatos fariam numa hora dessas. Deus se tornara uma idéia tão fraca que poucos acreditavam que juntos pudessem mesmo mudar os ventos. "Empobrecemos?" Pensava que sim, às vezes. Outras, se achava rigoroso demais com o presente: o mundo por acaso já fora melhor? Não, nunca. No entanto, havia lá fora quem o quisesse destruir. Para colocar o que no lugar? A lista de bufões que se apresentavam como arautos do futuro nem era grande. Surpresa era que ainda houvesse quem acreditasse em suas promessas gastas.

A cidade perplexa descansava, enfim. Amanhã, a chuva continuaria, vaticinava a meteorologia. Encolhidos em seus cantos, os homens aguardavam. Era bom, muito bom, estar em casa.


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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Sobre a arte

Esse o problema: kant e quem acredita nele empurra o em si para além dos olhos, quando é exatamente ali que ele está. A coisa em si é o que me aparece. Exatamente e nada mais. Então já não aceito essa idéia de em si. A obra de arte ou o objeto totêmico - ele sim objeto-navio, onde coisas se depositam, objeto-farol com quem se relacionam - ele tem uma relação apenas circustancial com o mundo, a história, a cultura que lhe são contemporâneas. Claro, se relaciona com tudo isso - história, mundo, cultura - tudo isso existe de fato, não estou negando isso. ainda q eu não os veja definidas por tensões antagônicas q nunca se resolvem de todo (não que com isso eu negue o binário, a redução final ao binário que é o próprio do finito: ser finito é estar submetido ao jogo binario de ser e deixar de ser todo tempo, saber-se finito e ver-se passando, seguir de si o próprio traço destino e delícia da consciência contemplar-se)

Então quando falo em "obra de arte em si mesma" eu falo do objeto que está bem ali, ao alcance quase das mãos e dos olhos, a desafiar o tempo e a história, mais construindo-os do que sendo deles produto;

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domingo, 21 de outubro de 2007

Edward Hopper

Uma exposição de Edward Hopper com quase 100 quadros reunidos é algo imperdível. Pena que esteja acontecendo em Washington, a pelo menos mil e quinhentos dólares de distância do meu bolso. Tivesse eu a grana, não hesitaria. Minha paixão por Hopper é crescente.

Enfatiza-se muito a solidão em Hopper. Mas quase sempre se toma aí solidão como sinônimo de alienação e isolamento e não como introspecção, exatamente o caso dos personagens dos quadros de Hopper. Eles exibem uma vida interior que é a essência da individualidade. Nesse sentido, seus quadros não seriam uma crítica à sociedade americana, como logo em seguida se tenta concluir, mas a exaltação dela. Só não creio que crítica ou exaltação fosse a intenção do autor.

Tal interpretação resulta do historicismo que reduz a introspecção individualizante a uma espécie de "doença social". Não é. Ao contrário, é a gênese da autoconsciência que, por sua vez, será o fundamento, entre outras coisas, da moral - ou da ética, se preferirem. Numa sociedade onde a ética prevalece, as pessoas não se sentem julgadas pela lei apenas, mas sobretudo por si mesmas. Não é o olho do outro que as acusa - ou sua ausência que as absolve - mas elas próprias em confronto com os padrões de comportamento que adotaram.

Enfim, desprezo qualquer abordagem que tente fazer do artista uma "expressão do seu tempo". Acredito que a arte está fora do tempo e é a expressão mais radical da individualidade.

O que mais surpreende, não é que o próprio site dedicado à exposição (para acessá-lo basta buscar por "National Gallery" e "Hopper" no Google) tenha adotado essa interpretação capenga. O pior de tudo é que deixe de enfatizar a qualidade principal de Hopper, aquela que o iguala aos maiores mestres da pintura de todos os tempos: a luminosidade de seus quadros.

Quem os conhece apenas pelas reproduções facilmente encontradas em toda parte pode deduzir da intensidade das cores a luz que eles emitem. Mas é quase um esforço conceitual se comparado à experiência de estar frente a frente com os quadros.

Já contei aqui o meu encontro com Hopper. Estava no Museu de Arte Moderna de Nova York, o Moma, numa ala em obras quando vi que de uma sala improvisada saía uma luz amarelada, muito clara e intensa. Ao entrar me deparei com um espaço repleto de quadros de Hopper. A luz que vi saindo da sala era refletida pelos quadros. Impressionante.


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domingo, 14 de outubro de 2007

Formigas

Os traços incertos que se moviam nervosos sobre as pedrinhas do calçamento eram formigas, não havia dúvida. Mais difícil era distinguir o que um grupo delas tentava arrastar quase sem sucesso para o formigueiro que só mesmo elas sabiam onde estava na praça imensa. Talvez fosse o corpo desmembrado de algum outro inseto, talvez um pedaço de comida... Artur não conseguia ver. Sentado num banco, a cabeça baixa, o corpo curvado para frente, forçava os olhos para enxergar, mas não conseguia. Sentiu um aperto no coração ao constatar que só os óculos de leitura já não lhe bastavam. Não havia mais como se enganar: precisava também de óculos para longe.

- Você está me ouvindo?
- Estou...
- E não diz nada?

Artur não levantou a cabeça, continuou com os olhos fixos nas formigas. Fazia um tempo que ele se tornara um estorvo na vida de Renata. Ela já o dissera antes e de outros modos. E ele se fingira de surdo. E se fizera turvo e bruto; lacrimoso e dócil. E ela, irresoluta, o aceitara. E assim vinham tentando iludir o tempo, arrastando juntos o fardo que a paixão se tornara.

- O que você quer que eu diga?

Renata não respondeu. Artur continuou olhando as formigas. Mesmo sabendo que seria inútil, colocou os óculos de leitura para tentar focá-las. Com algum esforço e para sua surpresa viu finalmente aquilo que elas carregavam com um empenho ainda quase sem compensação, pois mal tinham saído do lugar desde que começara observá-las. Era o pedaço de uma barata morta, luzente como madeira envernizada. Pode ver também com mais precisão as formigas e sentir no próprio corpo o quase desespero com que se aplicavam na tarefa.

Levantou a cabeça e Renata o encarou. Estava escrito nos olhos dela o que nenhum dos dois ousaria dizer - até quando?

- Preciso ir... Nos falamos depois?

Artur apertou o braço de Renata.

- Eu ligo pra você.

Ele levantou-se e a beijou no rosto, o mais próximo que pode de sua orelha para lhe sentir o perfume e ver os pelos do braço dela se eriçarem sob o calor de sua respiração.
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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Os "especialistas" do Apocalipse e seus porta-vozes

No post "Os 'especialistas' do Apocalipse" comentei uma matéria publicada em O Globo online que anunciava "uma pandemia iminente, mas de data incerta" e deixei no próprio O Globo um comentário equivalente.

A autora da matéria, Maria Vitoria Vélez, me respondeu e trocamos alguns e-mails onde começamos na inconsistência dos dados e acabamos no papel social do jornalista.

Reproduzo abaixo, na íntegra, os e-mails trocados por nós.

O documento citado nos e-mails pode ser baixado aqui.

* * *
Caro autor:

Li seus comentários a respeito da matéria assinada por mim no Globo Online. Em primeiro lugar, agradeço pela leitura e quero ressaltar que compreendo sua discordância com o conteúdo. Lembro que não escrevi um artigo e sim uma reportagem, por isso tive que me ater ao que as fontes informaram, segundo as normas do texto jornalístico. Neste sentido, gostaria de fazer alguns esclarecimentos a respeito da "imprecisão" que o senhor destacou ao comentar a matéria em seu blog.

O primeiro parágrafo, que fala sobre o consenso dos cientistas, foi verificado e confirmado junto à Secretaria de Controle Epidemiológico do Ministério da Saúde. O termo usado pelos especialistas é que a pandemia é eminente, mas realmente não se sabe quando vai acontecer, nem qual vírus irá causá-la, mas sabe-se, ainda segundo os cientistas, que deverá ser provocada por um vírus novo, para o qual ainda não temos anticorpos e daí vem o seu perigo. Devido aos riscos que esta pandemia representa (anexei um documento e um link no fim deste e-mail caso queira consultar), os planos de contingência devem se antecipar à sua emergência. O Brasil lançou o seu em 2005. O principal candidato para causar a pandemia é o H5N1, segundo escrevi, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Ligada à ONU, essa organização é responsável por assumir uma posição de liderança em questões relacionadas à saúde mundial.

Embora estas informações tenham sido confirmadas pelo Ministério da Saúde, o plano de contingência foi elaborado segundo as orientações da própria OMS. Por este motivo e pela importância da organização, lastreei o texto com base em suas orientações.
Enfim, espero ter esclarecido suas dúvidas, mas sinta-se à vontade para retornar este e-mail caso queira algum outro esclarecimento.

Cordialmente,

Maria Vitoria Vélez

http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/avian_faqs/en/index.html#present

* * *
Oi, Vitoria:

Em primeiro lugar, uma informação dessa natureza não pode jamais ser atribuída a algo tão vago como um "consenso de cientistas". Ao contrário, tal notícia precisa ter obrigatoriamente uma fonte muito bem definida e estar apoiada em trabalhos muito bem documentados - públicos e verificáveis.

A Secretaria de Controle Epidemiológico do Ministério da Saúde saberia dizer quem são os cientistas que formam esse consenso? E por que "consenso"? Eles seriam a maioria dos pesquisadores dessa área? Então o númeor deve ser grande...
E em torno de que informação se dá o consenso: da informação de que em algum momento impreciso do futuro uma pandemia pode acontecer? Repare, isso não é sequer uma previsão. Portanto, não tem o menor valor científico. Acredito que exatamente por isso nem nomes aparecem.

Em segundo lugar, algo que não se sabe quando vai acontecer não pode ser considerado iminente.
Da mesma forma, se não se sabe quando, nem qual o vírus que irá causar a pandemia, logo não se sabe rigorosamente nada.
Como é dito no começo do documento, houve, no século 20, três pandemias de influenza, uma em 1918, outra em 1957 e outra em 1968. Desde então já praticamente se passaram 40 anos sem que nenhuma outra pandemia fosse registrada. Portanto, nem sequer uma regularidade se pode apontar aqui.

Dizer que "sabe-se q será provocada por um vírus novo" é um truísmo, pois qq pandemia é provocada por um vírus novo para o qual não há imunidade formada, ou não seria uma pandemia.
Por outro lado, pelo que li no documento que vc me enviou não há, na prática, nada a fazer como ação preventiva - a não ser literalmente uma aposta na estocagem de antivirais que apresentaram resultado satisfatório no combate ao vírus H5N1 que se acredita dará origem ao vírus pandêmico.

Enfim, é tudo de uma inconsistência assustadora.

O mais interessante a pesquisar nesse caso é quanto terá custado tudo isso tanto ao govenro brasileiro quanto à ONU e quem é o responsável nominal - não basta dizer OMS, é preciso que alguém ou um grupo de pessoas responda por isso na OMS e no governo brasileiro.

Por outro lado, experimente perguntar ao Ministério da Saúde qual o percentual de risco que um heterossexual corre de contrair o vírus da Aids ao ter uma relação sexual genital com um heterossexual do sexo oposto que esteja contaminado. Os riscos são os mesmos para homens e mulheres?
Se nos próximos quatro anos vc obtiver alguma resposta, por favor, me informe.

Um grande abraço,

Antonio Caetano
* * *
Oi Antônio:

Lamento não ter respondido suas dúvidas de acordo. Permita-me discordar, mas é difícil citar nomes, porque as avaliações da OMS se baseiam nas pesquisas de centenas de cientistas espalhados pelo mundo. Seria como citar alguém do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), que tem mais de 500 cientistas credenciados, para lastrear uma informação. Além disso, a organização é uma fonte considerada tão respeitada que o próprio Ministério da Saúde se baseia em suas informações. Sugiro que visite o site da organização (www.who.org) para conhecer suas metodologias de pesquisa.

Como diz o documento que te mandei, o consenso sobre a previsão da pandemia se baseia em estimativas feitas por estes cientistas de que este tipo de evento ocorre com uma periodicidade determinada. São estimativas, é claro, mas foram consideradas o suficientemente confiáveis pela Secretaria de Controle Epidemiológico para embasar suas ações.

Um abraço,

Vitoria
* * *
Pois é, Vitória... Centenas de pesquisas e cientistas e nem sequer um nome.

E de que periodicidade vc fala? Das três pandemias do século 20 apontadas no documento que me mandou - uma em 1918, outra em 1957 e outra em 1968? Se vc conseguir enxergar alguma regularidade aí, por favor, me indique. E se é em torno disso que gira o tal consenso de cientistas - o de que qualquer dia desses do futuro incerto uma pandemia provocada por um vírus desconhecido há de pintar por aí - não preciso visitar site nenhum para verificar a inconsistência da método.

Só gostaria que vc me respondesse que relevância cientifica ou jornalística tem a informação de que uma pandemia causada por um vírus desconhecido pode acontecer num futuro incerto? Serve para que ou a quem?

Que a Secretaria de Controle Epidemiológico talvez não me surpreenda. Eu quero se para você, como jornalista, tais informações são de fato consistentes. O que VOCÊ pensa, Vitória?

Um abraço,

Antonio
* * *
Caro Antonio:

Enquanto repórter, não cabe a mim julgar ou emitir opinião acerca das informações que me são transmitidas por autoridades. Poderia fazer isto se o texto fosse um artigo, mas não foi o caso. Quanto à periodicidade, está no texto que te mandei. Sugiro que escreva à OMS sugerindo que refinem seu método de pesquisa.

Um abraço,

Vitoria
* * *
Claro que cabe julgar, filtrar, contestar, esclarecer - esse é o papel do jornalista. Ou vc se torna uma mera porta-voz de autoridades. Por isso não escreverei a OMS, mas sim aos jornais que leio e assino sempre que encontrar matérias inconsistentes ou meros releases de entidades públicas ou privadas.

Um abraço,

Antonio
* * *
Está certíssimo em fazê-lo. A pauta em questão, inclusive, era sobre o manual da fundação Albright sobre a Pandemia de Gripe. Esse era o release. Os dados da OMS e do Ministério - que foram apurados e não mandados por release - só confirmaram as informações do manual. Não me cabe, repito, julgar se os dados são alarmistas, como o senhor julga, uma vez que foram checados e confirmados. Seria arrogante de minha parte fazê-lo, uma vez que não sou médica ou cientista para tal.

O senhor tem todo o direito de criticar e zelar pela qualidade da informação que recebe. Pessoalmente, me dispus a lhe prestar esclarecimentos sobre os pontos que o senhor levantou. Mas perde todo esse direito ao tentar me ofender.
Sendo assim, nossa conversa chega ao fim.

* * *
Não lhe ofendi, apenas reproduzi suas palavras.
A lógica, Vitoria, é um patrimônio de todos e cabe a todos submeter a ela as informações que recebe para verificar sua consistência. Especialmente os jornalistas cujo papel é exatamente esse - e não apenas o de reproduzir acriticamente o palavrório de autoridades e especialistas. A ciência se funda unicamente na consistência dos argumentos se opondo, veja você, aos argumentos de autoridade.

Um abraço,

Antonio

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terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Igreja e a escravidão

Reproduzo abaixo o comentário de um leitor a um post de Reinaldo Azevedo. Infelizmente, ele se identifica apenas como Messias, sem deixar nenhuma outra referência.

"Um certo Eny Seidel disse que a ordem dos jesuítas foi uma instituição maquiavélica, que apoiou a escravidão. Vejam esse excertos do Pe. Antônio Vieira:
"Saibam os pretos, e não duvidem, que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua..., porque num mesmo Espírito fomos batizados todos nós para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus ou gentios, ou servos ou livres" (Sermão XIV em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 243).
Citando no final o trecho de 1Cor 12,12, o Pe. Vieira observa que o Apóstolo assim falou "por que não cuidassem, os que são fiéis e senhores, que os pretos, por terem sido gentios e serem cativos, são de condição inferior" (ib. p. 246).

No sermão XXVII, o Pe. Vieira censura o tráfico de escravos:
"Nas outras terras, do que aram os homens e do que fiam e tecem mulheres se fazem os comércios: naquela (na África) o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e compra. Oh! trato desumano, em que a mercância são homens! Oh! mercância diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias e os ricos são das próprias!" (ib. p. 64).
Considera o pregador a disparidade existente na sociedade escravagista:
"Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo alas, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé, apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos da extrema miséria" (ib. p. 64).
Interroga então Vieira:
"Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?" (ib. p. 64).
Eis o que diz o papa Gregório XVI:
"Pelas passadas de nossos predecessores, admoestamos e conjuramos por Jesus Cristo todos os fiéis, de qualquer estado e condição que sejam, para que, daqui em diante, não continuem a oprimir tão injustamente os índios, negros ou outros quaisquer homens, privando-os de seus bens ou fazendo-os escravos, nem mesmo se atrevam a dar auxílio ou favor àqueles que tal tráfico exercitam, por meio do qual os negros, como se fossem animais bravios, e não homens, são reduzidos à escravidão de qualquer maneira que seja e, sem respeito para as leis da justiça e da humanidade, comprados, vendidos e condenados aos mais duros trabalhos, além do inconveniente de eternizar as guerras, e as discórdias nos países em que se faz o comércio da escravatura, em razão da esperança do ganho com que se animam os que se ocupam na apreensão dos negros. Tudo isto, portanto, Nós reprovamos, como altamente indigno do nome de cristão, em virtude da autoridade apostólica que Nos compete e, com essa mesma autoridade, proibimos que qualquer eclesiástico ou leigo, sob qualquer pretexto que seja, se atreva a favorecer ou proteger o tráfico da escravatura ou pregar e ensinar em público ou em particular; de qualquer maneira que seja, coisa alguma contra o que nestas nossas letras se acha determinado".
Poucos decênios após o Primeiro Sínodo Diocesano do Brasil, o Papa Bento XIV, fazendo eco a predecessores seus, houve por bem profligar a escravatura. A Bula "lmmensa Pastorum" assim redigida foi endereçada aos Bispos do Brasil e de outras partes da América, a fim de que tentassem obter melhores condições de vida para os escravos.

O documento lembra, de início, que "não devemos ter maior caridade do que nos preocuparmos em colocar nossa existência não só a favor dos cristãos, mas também da escravatura e inteiramente a favor de todos os homens". A seguir, expõe o problema: "Por isto recebemos certas notícias não sem gravíssima tristeza de nosso ânimo paterno, depois de tantos conselhos dados pelos mesmos Romanos Pontífices, nossos Predecessores, depois de Constituições publicadas prescrevendo que aos infiéis do melhor modo possível dever-se-ia prestar trabalho, auxílio, amparo, não descarregar injúrias, não flagelos, não ligames, não escravidão, não morte violenta, sob gravíssimas penas e censuras eclesiásticas..."

O Pontífice ainda recorda, renova e confirma as declarações dos Papas Paulo III em 1537 e Urbano VIII em 1639. O primeiro ordenou ao Arcebispo de Toledo que protegesse os índios da América e ameaçou de excomunhão, cuja absolvição ficaria reservada ao Papa, quem os subjugasse. Quanto a Urbano VIII, estipulou severas censuras canônicas para todos os que violentassem o livre arbítrio dos índios, convertidos ou não. Bento XIV chama desumanos os atos de prepotência contra os escravos e estabelece haja excomunhão "latae sententiae ipso facto incurrenda" (isto é, excomunhão infligida desde que cometido o delito) e outras censuras canônicas para os que maltratavam os índios. E por "maus tratos aos índios" explica o Pontífice que entende escravizar, vender, comprar, trocar, dar, separar de suas mulheres e filhos, esbulhar, levar para outros lugares, cercear de qualquer modo a livre ação, deter no cativeiro, como também, por qualquer pretexto, ajudar de qualquer forma os agentes destas iniqüidades. Exorta finalmente os Bispos a que "com diligência, zelo e caridade cumprissem a sua tarefa".

O Marquês de Pombal, por alvará de 8/5/1758, mandou executar esta Bula em todo o Brasil apenas no tocante aos indígenas. Na verdade, o teor do documento refere-se a todos os homens, incluídos os de origem africana trasladados para o Brasil.

A Igreja Católica sempre condenou a escravidão de negros, índios ou quaisquer povos.
(http://www.presbiteros.com.br/Hist%F3ria%20da%20Igreja/A%20IGREJA%20E%20A%20ESCRAVID%C3O%20NO%20BRASIL.htm)

o engraçado (aliás, trágico), é que os que acusam a Igreja de escravocrata ou de que dizia que índios ou negros não tinham alma, não apresentam nenhuma prova, nenhgum documento de nenhum papa para provar essa acusação.
Isso não passa de teoria da conspiração inventada por anticlericais (como Voltaire, que aliás, era traficante de escravos africanos) e esquerdistas em geral (o proprio Marx defendia a escravidão) Veja:
O lado bom da escravidão

Permita-me dar a você um exemplo da dialética do Sr. Proudon.
A liberdade e a escravidão constituem um antagonismo. Não há nenhuma necessidade para mim falar dos aspectos bons ou maus da liberdade. Quanto à escravidão, não há nenhuma necessidade para mim falar de seus aspectos maus. A única coisa que requer explanação é o lado bom da escravidão. Eu não me refiro à escravidão indireta, a escravidão do proletariado; eu refiro-me à escravidão direta, à escravidão dos pretos no Suriname, no Brasil, nas regiões do sul da América do Norte.
A escravidão direta é tanto quanto o pivô em cima do qual nosso industrialismo dos dias de hoje faz girar a maquinaria, o crédito, etc. Sem escravidão não haveria nenhum algodão, sem algodão não haveria nenhuma indústria moderna. É a escravidão que tem dado valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, e o comércio mundial é a condição necessária para a indústria de máquina em grande escala. Conseqüentemente, antes do comércio de escravos, as colônias emitiram muito poucos produtos ao Mundo Velho, e não mudaram visivelmente a cara do mundo. A escravidão é conseqüentemente uma categoria econômica de suprema importância. Sem escravidão, a América do Norte, a nação a mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal. Apenas apague a América do Norte do mapa e você conseguirá anarquia, a deterioração completa do comércio e da civilização moderna. Mas abolir com a escravidão seria varrer a América para fora do mapa. Sendo uma categoria econômica, a escravidão existiu em todas as nações desde o começo do mundo. Tudo que as nações modernas conseguiram foi disfarçar a escravidão em casa e importá-la abertamente no Novo Mundo. Após estas reflexões sobre escravidão, que o bom Sr. Proudhon fará? Procurará a síntese da liberdade e da escravidão, o verdadeiro caminho dourado, em outras palavras o equilíbrio entre a escravidão e a liberdade.
Carta de Karl Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, Paris
Escrita em 28 de dezembro de 1846 Rue d'Orleans, 42, Faubourg Namur.
Fonte: Marx Engels Collected Works, vol. 38, p. 95.
Editor: International Publishers (1975)
(http://br.geocities.com/fusaoracial/)
Poderia citar vários exemplos, mas estou sem tempo. Fica para a próxima.

Um abraço,

Messias

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Os "especialistas" do Apocalipse

Há um esforço permanente, difuso e de origem sempre incerta para frear o industrialismo - seja diretamente, impondo limites à produção; seja indiretamente, provocando o aumento dos custos. Da farsa do aquecimento global às previsões de um apocalipse iminente baseadas em interpretações seja de Nostradamus, seja do calendário maia, a verdade é que não se passa um dia sem que alguma tolice catastrofista seja publicada.

A de hoje é a matéria de O Globo online anunciando para breve uma pandemia de caráter devastador, assinada por Maria Victoria Vélez, sob o título "Guia adverte empresas para a necessidade de se prepararem para a pandemia de gripe".

Ao lermos a matéria, no entanto, percebe-se sua absoluta inconsistência.

A abertura é um primor (os grifos são meus):
"É consenso entre os cientistas que o aparecimento de uma pandemia de gripe é inevitável, embora não se saiba ainda quando vai acontecer. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), ela terá potencial para matar milhões de pessoas e fará adoecer 25% da população mundial, causando importantes impactos sócio-econômicos."

Mais adiante, ficamos sabendo que:

"Segundo a OMS, como a pandemia será causada por um vírus desconhecido, a eficácia de vacinas como das usadas no combate à gripe sazonal estará comprometida em um primeiro momento, já que elas são desenvolvidas a partir de uma cepa viral específica."

Ou seja: o ataque de um vírus desconhecido num futuro incerto virou consenso entre especialistas da OMS! Como tamanha imprecisão passa por informação científica é algo que deve ser perguntado ao editor de O Globo online.

Quase no fim da matéria, somos surpreendidos pelo que parece uma informação, uma ao menos!, mais precisa:

"O principal candidato para causar a nova pandemia de gripe é o vírus H5N1 da gripe aviária".

Mas logo na oração seguinte somos informados que:

"Apesar de se multiplicar no organismo humano através da transmissão entre aves e pessoas, o H5N1 ainda não conseguiu se transformar em uma forma capaz de ser transmitida entre pessoas."

É de supor que exatamente a transmissão do vírus entre pessoas seja a condição mínima necessária para que uma pandemia se produza, não?

Na matéria, além da sigla OMS, nenhm nome é citado, nenhum dado, nada.

Abaixo, a íntegra da matéria e o link:

Guia adverte empresas para a necessidade de se prepararem para a pandemia de gripe

Maria Victoria Vélez, especial para O Globo Online

Rio - É consenso entre os cientistas que o aparecimento de uma pandemia de gripe é inevitável, embora não se saiba ainda quando vai acontecer. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), ela terá potencial para matar milhões de pessoas e fará adoecer 25% da população mundial, causando importantes impactos sócio-econômicos.

Além disso, a pandemia de gripe poderá causar perdas ao PIB mundial calculadas por especialistas da OMS e do Banco Mundial entre US$ 2 e US$ 4 trilhões de dólares. Um de seus principais impactos nas empresas será absenteísmo - ou seja, as faltas de funcionários -, que poderá atingir até 40% da força de trabalho global, comprometendo o funcionamento de vários setores da economia, como transportes e serviços.

Para ajudar as empresas a enfrentarem esta ameaça, duas respeitadas consultorias especializadas em análise de risco - Marsh e Albright Group, da ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright -, desenvolveram o guia Corporate Pandemic Preparedness (Preparação Corporativa para a Pandemia), que destaca os papéis e responsabilidades das empresas diante de uma pandemia de gripe.

Embora reconheça que governos e empresas têm objetivos e papéis diferentes diante de uma pandemia e que caberá ao setor público desenvolver e futuramente aplicar planos de contingência para enfrentá-la, o guia ressalta que seu aparecimento exigirá a cooperação dos setores público e privado 'para elaborar medidas e estabelecer mecanismos' de combate à doença.

Segundo a OMS, como a pandemia será causada por um vírus desconhecido, a eficácia de vacinas como das usadas no combate à gripe sazonal estará comprometida em um primeiro momento, já que elas são desenvolvidas a partir de uma cepa viral específica.

Assim, o documento recomenda às empresas que concentrem suas estratégias na prevenção e na atenuação dos efeitos da doença. O primeiro passo será avaliar o provável impacto da doença nos funcionários, para então identificar, analisar e rever as políticas, procedimentos de RH e de comunicação existentes. Depois, devem ser consideradas medidas que combatam a propagação da doença, como distanciamento social, arranjos alternativos para execução de tarefas, programas de retorno ao trabalho e a revisão das políticas de viagem. As soluções combinadas deverão ser definidas em um plano de prontidão que leve em conta o perfil e a tolerância da empresa aos riscos que se apresentarem.

'Os impactos sociais estão diretamente vinculados à saúde e ao bem-estar dos funcionários, clientes e parceiros de negócios. Compreender como responder aos impactos sociais desta ameaça é fundamental (...). O impacto econômico de uma pandemia pode ser extremamente severo e está diretamente vinculado à habilidade da organização em se recuperar e retomar suas operações normais', destaca o documento.

Segundo especialistas, hoje, o principal candidato para causar a nova pandemia de gripe é o vírus H5N1 da gripe aviária, uma cepa letal que já infectou uma centena de pessoas e matou mais da metade delas na Ásia. Por enquanto, a doença é endêmica, ou seja, se restringe àquela região.

Apesar de se multiplicar no organismo humano através da transmissão entre aves e pessoas, o H5N1 ainda não conseguiu se transformar em uma forma capaz de ser transmitida entre pessoas. Atualmente, a infecção com o vírus é combatida com os antivirais Tamiflu e Relenza.

No Brasil, a Secretaria de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde é a encarregada de controlar e monitorar epidemias e pandemias. É dela a responsabilidade pelo Plano de Preparação para a Pandemia de Influenza, que prevê medidas sanitárias que vão da prontidão hospitalar ao controle de portos e aeroportos. Lançado em 2005, o plano foi o primeiro do tipo desenvolvido na América Latina e será implantado assim que a OMS der o alerta de emergência da pandemia.


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domingo, 7 de outubro de 2007

Crenças e dúvidas

Louis Pauwels é co-autor de "O despertar dos mágicos" e criador da revista Planeta. Jornalista, escritor, polemista, morreu em janeiro de 1997, aos 77 anos. Em 1973, lançou o seu "Ce que je crois", traduzido para o português como "Crenças e dúvidas". É o livro mais importante que li desde as Meditações Metafísicas de Descartes, há quase 20 anos. O livro está esgotadíssimo e é quase impossível de se encontrar em sebos.
Tudo que penso e sinto está dito nesse livro. O trecho abaixo é um pequeno, mas eficiente resumo das atualíssimas e oportunas idéias de Pauwels.

"Eis onde estou. É pouco. Será suficiente, para mim. Não me devem o que quer que seja. Tecerei serenidade com minhas incertezas. Pedirei a mercê de sentir alegria. Contudo, continuarei conservando a esperança de encontrar algo melhor. De ter um encontro decisivo. De receber uma iluminação. Que um gênio desperte em mim. (...)

Creio que a grande manha do Diabo é convencer-nos de que estamos sós. E de que nada somos, num universo mudo. Tenho tendência para acreditar que estamos ligados a outras inteligências que não as humanas, na terra, no tempo e no espaço. Creio que a matéria formiga de inteligências, que há órgãos dos sentidos e da consciência, até mesmo nas partículas. Creio que há um Criador de Estrelas e toda uma hierarquia de espíritos no cosmo. Tronos e Dominações, conforme dizia a antiga teologia. Creio que somos apenas uma variedade de semente da Inteligência universal. Creio numa interdependência infinita e que, neste sentido, o homem é um ser de antes do tempo.

Creio que o homem é um dos resultados da criação universal, a forma estável do espírito encarnado na terra. Que o espírito colocado, no homem é tudo, tudo pode, é extensível à totalidade do universo. Que a condição humana é um infinito e que somente há mal-entendidos sobre o modo de emprego. Creio que há inteligências celestes que agem, observam, esperam. Acredito que nossa história conhecida é apenas a parte visível de uma história imersa no oceano do tempo em que o espírito tenha estado em comunicação com outros modos de conhecimento e, sem dúvida, com Inteligências exteriores.

Assim, creio em tudo isso e, também, em que a questão religiosa não é: conciliar a revelação e o determinismo ou integrar o marxismo nos Evangelhos, mas sim: fortalecer a idéia da interdependência universal; reconhecer o caráter aberto da história humana; adotar outra atitude para com o Tempo; rever completamente as noções de materialismo e de espiritualismo.

Creio em tudo isso. Mas não tenho qualquer espécie de certeza. Além disso, posso perfeitamente viver sem essas crenças. Posso mantê­las à distância, como se olha à distância o flamejar do brilhante que se usa no dedo, admirando, mas sabendo que o brilhante não passa de um investimento e que nos separaremos dele, se a sorte mudar. Não é o brilhante que conta; o que conta é eu ter o dom da admiração. Esse dom de admiração é uma faculdade da alma que sobrevive a qualquer crença, que justifica a existência, bem além da posse de uma pedra ou de algumas idéias. Minha alma diz-me: autorização concedida; acredita no que tu desejares dentro do possível; dou-te razão se escolheres, entre tantas incertezas, a crença que for mais bela a teus olhos. Mas tua arte e tua glória não estão nisso. Tua arte e tua glória estão, simplesmente, em viveres."
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