domingo, 30 de setembro de 2007

A conquista da felicidade

Acordei cedo com uma inesperada vontade de tomar café com leite e pão com manteiga. Um gosto tão comum da infância que se tornou raríssimo com o tempo. Talvez tenha sido algum sonho que se desvaneceu com o despertar, mas deixou lá plantado no fundo do espírito esse desejo nostálgico. Talvez seja essa manhã nublada e fria, ainda silenciosa, com cara de cidade pequena. A infância é uma cidade pequena.

Mas ao desejo importa pouco sua gênese. Caprichoso, aceita apenas satisfação imediata e tenta convencer o corpo rotineiro e ainda preguiçoso da urgência de seu apelo: quer pão com manteiga e café com leite agora!

Convence-o pela emoção ao trazer a lembrança da manteiga se derretendo brilhosa no pão quente que depois quase se desmanchava quando mergulhado no café com leite. Éramos ainda pessoas simples, dessas que não vêm mal nenhum em molhar o pão com manteiga no café com leite. Graças a Deus, foram precisos muitos anos até eu descobrir que era feio molhar o pão no café com leite. Não foi certamente a regra mais estúpida que aprendi na vida - afinal, freqüentei duas universidades! - mas o gesto demorou para recuperar sua inocência.

Sim, talvez seja essa a origem do meu desejo súbito de café com leite e pão com manteiga: recuperar a inocência. Impossível preservá-la. Quem tentou, conseguiu apenas tornar-se estúpido. Mas recuperar essa naturalidade no trato com o mundo - que fazia o menino não precisar que ninguém lhe explicasse que os pães com manteiga nascem para mergulhar em cafés com leite - isso é possível, necessário e urgente.

"Que teu sim seja sim e que o teu não seja não. Tudo mais vem do maligno", eis a fórmula da inocência. Está em Mateus - mas também no coração de cada homem quando nasce. Voltar a esse cerne é a missão de toda vida. Parece tão simples, tão fácil... Quando terá deixado de ser?

Não sei, mas isso em nada altera a urgência da missão: é preciso colocar uma roupa e descer para comprar pão. Pão quentinho - crocante por fora e fofo por dentro, ávido por completar-se com a manteiga que já o aguarda fora da geladeira como uma noiva no altar. O leite e o café na volta serão coisa de minuto.

Heróico e metafísico, visto-me - mais do formal, enclítico; porém possuído de uma alegria genuína. Vou comprar pão!
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sábado, 29 de setembro de 2007

Sobre ter um blog

É interessante que só agora percebo - eu, um sujeito que passa os dias no computador, online - que ter um blog significa simplesmente usá-lo como um editor de textos. Em vez de escrever offline no meu Note Tab - disparado o mais perfeito editor txt criado, um dos programas que faço questão de pagar por ele - devo passar a escrever direto na ferramenta de edição do Blogger.

Havia o Bloggar e outros editores offline. Mas lembro de tê-lo usado no momento em que o Blogger foi comprado pelo Google que discretamente passou a "atrapalhar" o funcionamento dessas ferramentas de postagem offline. Cheguei a tentar usar o excelente Flock - um navegador que se define como the social web browser. Mas ele não funcionava mais no Google Blogger.

Do Bloggar não tenho notícias. Irei conferir os dois programas e darei notícias.
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domingo, 23 de setembro de 2007

A construção do mundo

Ainda a casa. Agora tudo quase pronto: as paredes na cor, as madeiras ganhando verniz, as prateleiras riscadas na parede, as tomadas à espera. Falta pouco. Mas falta - e depois de tantos dias esse pouco pesa. Trabalhou-se mais do que o esperado, o orçamento é curto, algumas coisas sobram, outras ameaçam faltar...

Desisti da idéia de que poderia sair desta empreitada com a casa montada como um set de cinema. Sábio conselho você me deu. "Mastigue devagar", sempre esqueço... A humanização do ambiente, a mútua adequação de mim e a casa, há de demandar tempo. Não só é muito melhor que seja assim; também não poderia ser de outro modo. A casa é uma extensão de mim. Não mera expressão ou representação. Extensão mesmo, prolongamento: é na minha casa que me estico.

A casa sou eu e minhas coisas.

Sinto falta das minhas coisas. As coisas têm vida. Tudo está impregnado de vida. Da vida de quem as faz, da vida que emprestamos a elas. Da vida que elas nos dão. Da vida que tomamos delas. Dar às coisas seu valor não é apego. É ao contrário um gesto de generosidade - com as coisas e consigo mesmo.

Despego não é desprezo. É digamos uma curiosidade sem expectativas que nem por isso dispensa o afeto, o carinho, o amor. Eu há algum tempo tenho pra mim que amor é atenção.


E amor é só isso: atenção. Uma medida facilmente quantificável porque atenção também é tempo. Só compreende de fato que amor é atenção quem conhece a dificuldade de se manter verdadeiramente atento, observando algo sem nenhuma intenção imediata além da satisfação de estar vendo.

É com essa atenção que se decora uma casa. Descobrindo o que falta ou o que excede em cada canto; criando cantos.

Falo isso com certo espanto porque até aqui a minha relação com a casa estava sendo muito funcional. A impressão que tenho é que em algum momento perdi a noção da casa como recanto. Ela era abrigo, sim. Sempre foi (Obrigado, casa!). Mas deixara de ser recanto.

Torná-la um recanto é já um convite a partilhá-la. Uma casa deve ser como um jardim que se cultiva.

Outro dia achei na banca de camelô um livro de Feng Shui. Acabei não comprando. Se ainda estiver lá, sou capaz de comprá-lo. Acabo de ler na internet que o Feng Shui é um ramo da filosofia chinesa, uma fórmula de articular o céu e a terra, a matéria e o espírito, a eternidade e o tempo. Gosto da idéia de uma filosofia que gera práticas, aplicações genuínas no cotidiano, até abarcar a totalidade da vida - para a construção do mundo, do meu mundo.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sobre o voto aberto no Congresso

Meu argumento é simples: voto secreto é para indíviduos.
E congressistas não são indivíduos, são representantes de indivíduos.
Eles não têm vontade própria, ao contrário, representam a vontade de outros indivíduos.
Logo seu voto tem de ser necessariamente aberto para q esses indivíduos o fiscalizem.

Que argumento tenho para reeleger um congressista senão a coerência dos seus votos com o meu juízo dos fatos?

Aliás, nenhuma outra razão seria justa.
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Sobre os livros do MEC

O MEC é piada. Quem conhece aquela fauna é a Flora. Sugiro o critério constitucional como norma do juízo: a constituição brasileira defende a propriedade privada? Rejeita julgamentos sumários e pena de morte? Adota o voto único e direto e a alternância no poder como princípios da democracia? Esse é o critério para se julgar o conteúdo do livro: a constituição do país, aquilo que é a norma admitida por todos. O que sai fora disso é crime, seja para mim, para o distinto leitor, para Mao ou para Fidel.

O artigo do jornalista Ali Kamel, de O Globo:

"O que ensinam às nossas crianças

Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático "Nova História Crítica, 8ª série" distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.

Sobre o que é hoje o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários."

Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores." Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador."

Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes "politicamente esclerosados". (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo."

Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular." Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%." Essas medidas eram justificadas assim: "Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde."

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?"

Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?"

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?

Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém."
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domingo, 16 de setembro de 2007

Notas dispersas entre paredes vazias

Ainda nisso de arrumar a casa. Agora são as madeiras. Lixar para pintar. Gosto dos cheiros: da madeira, dos vernizes, das tintas. Gosto do contraste da aspereza da lixa com a suavidade do pó. Gosto de ver a madeira ir perdendo aquela pátina do tempo até tornar-se de novo lisa e jovem. E nem precisa muito: a lixa pode deslizar com delicadeza para cumprir sua tarefa. Não é preciso força, apenas atenção, cuidado, paciência.

Quando esse espírito nos habita torna-se fácil pensar em outras coisas. A mente devaneia sem perder-se do trabalho que é, em si, muito simples. Quando me canso, paro, lavo as mãos, preparo um café, anoto o que pensei.
São notas brutas que ainda precisarão de muita lixa e verniz para ganhar forma. Mas por hora é o que tenho para dividir. Não é muito, mas dividir é bom e o que ofereço é bruto, mas não é feio. Faça você uma jóia da idéia lapidada. Ou não faça nada, guarde só a pedra. Também enfeita.

* * *

"E então, quando se está sozinho, finalmente percebemos que somos, que sempre fomos, nosso único adversário e que, portanto, para vencê-lo será preciso renunciar a si mesmo."

* * *

A maior prova de vidência não é ver o futuro, mas o passado. Porque o futuro que aparece hoje não é o mesmo que aparecerá amanhã. O futuro é móvel e se move com o presente, dia a dia, alterando também o passado, ao redimi-lo ou condená-lo. Será assim que o espírito vê o tempo?

* * *

Nenhuma grandeza memorável, nenhuma baixeza indesculpável... Apenas uma vida quase vazia de acontecimentos, mas que descreve no ar um nítido caminho que me traz até aqui. Isso me basta para saber o que sou.

* * *

"(...) Mas está sendo muito bom. Estranhamente bom. Nunca nada foi bom assim. É como se de repente eu me visse do alto. E então 50 anos parecem 30 minutos, ou talvez menos. Ou uma estrada que você vê serpentear a montanha. Eis a minha vida, longa e logo. Ali quase ao alcance da mão. E agora, na solidão do alto, percebo com uma clareza comovente que meu adversário sempre fui eu mesmo. E agradeço a cada desafeto a ingrata tarefa de me substituir quando eu ainda não agüentaria enfrentar-me. E agradeço a cada amigo a simples presença quando a solidão me aniquilaria. Agora, só e diante de mim, me resta dar as costas a esse outro e seguir subindo. Renunciar a um pedaço de mim, talvez exatamente aquele que mais me custou trazer até aqui..."
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

À sombra de Collor

É óbvio que Renan Calheiros colocou o governo Lula contra a parede e obrigou o PT a salvá-lo. Renan mostra que tem o governo nas mãos.
Interessante é perceber que, se no primeiro mandato, Lula foi tutelado por Roberto Jefferson, um homem de Collor, no segundo parece q será tutelado por Renan, outro homem de Collor.
Será isso apenas coincidência? Não sei, mas sinaliza a hipótese interessante de uma guerra começada há mais de 20 anos e que diz respeito à organização do poder político no Brasil depois da ditadura.
A ditadura entregou um país econmicamente industrializado e politicamente acéfalo. A sucessão de presidentes pós-Figueiredo o demonstra.

Enfim, Lula, que já teve o seu Jefferson, agora terá o seu Renan.
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terça-feira, 11 de setembro de 2007

Ainda sobre a crise imobilária americana

Quando leio que a crise financeira "pode afetar a economia real",eu, do alto da minha ignorância econômica, fico pasmo. Como "pode" se tem gente perdendo suas casas e tendo que recomeçar do zero? Bancos "torrando" essas casas no mercado à vista para pagar o dinheiro emprestado (sim, emprestado!) pelos BCs? Gente raspando a poupança para comprá-las? Então parece óbvio que a crise (que não é meramente financeira) já afetou e muito a dita "economia real". E vai diminuir no médio prazo a oferta de dinheiro no mercado mundial.

Aliás, essa distinção que opõe "mercado financeiro" e "economia real" me parece falsa e burra. A economia real se move a crédito, ora. O brasileiro só depois do Real descobriu o que é crédito. Mas ainda não aprendemos a "confiar nos bancos", quero dizer, no sistema bancário, ou melhor ainda, no sistema qe oferece e administra o crédito. Gostamos do crédito, mas odiamos as punições previstas aos inadimplentes. "Quem não paga, perde o bem" é uma regra dura, quase monstruosa, mas é ela que garante a segurança do sistema, vale dizer, os juros baixos e os prazos longos.
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sábado, 8 de setembro de 2007

O milagre das tintas

Há dez anos estas paredes não viam tinta. Estão nuas agora, à espera de serem pintadas. Restam apenas as marcas dos móveis e os furos dos parafusos que fixavam as prateleiras. Não há mais livros visíveis, nem quadros, retratos ou qualquer objeto que confira personalidade à casa. Apenas a mesa de trabalho com o essencial flutua na sala quase vazia onde os sons chegam a ecoar em alguns pontos.

Dez anos... Como tanta coisa pode ter acontecido sem que quase nada tenha sequer mudado de lugar? O que é um homem, uma cidade, um país? O que é a vida? Uma forma do tempo? E o tempo o que é?

"E eu o que sou?", me ocorre perguntar a estas paredes sujas e vazias como se interrogasse na penumbra um vasto espelho, um mapa astrológico ou uma coleção de fotos antigas.

Terei alguma vez no passado me sentido tão jovem, tão profundo, tão inacabado? Terei alguma vez antes me dado conta tão nitidamente de quanto mudei, de quanto ainda sou o mesmo, de quanto ainda falta?

Essas impressões contraditórias resultam das muitas pastas e gavetas abertas e reviradas e das incontáveis anotações, fotos, cartões, cartas, pedaços de papel, bilhetes, objetos, negativos, cadernos, páginas datilografadas, impressas e xerocadas, das inúmeras versões de textos já esquecidos, dos livros e de tudo mais que foi me passando pelas mãos nos últimos dias e cujo destino de vida ou morte era decidido com caprichosa seriedade: "É improvável que algo volte a ser relido, mas se ainda há espaço para guardar, que se elimine só o que é redundante ou sem sentido."

Porque nem tudo que eu sou me é visível: não vejo minhas vísceras, nem vejo minha alma. Por que então destruir esses pedaços de mim que ficarão guardados no alto dos armários do quarto de serviços sem incomodar nem mesmo a mim? Um dia acabarão, como eu acabarei e como tudo mais acabará. Agora, ainda há espaço para eles na casa e em mim.
Um dia, eu serei a minha casa e tudo que eu sou estará em mim e em mim apenas. Até lá, irei aos poucos me reduzindo até coincidir comigo mesmo.

Agora, observo calmamente estas paredes como se ouvisse o relato de um soldado que voltasse de uma longa campanha, maltratado e coberto de cicatrizes. Breve será de novo como uma criança, cheia de luz e sem memória, renascida de si mesma.

E eu, sem menosprezo pelo passado, eu me sentirei mais próximo de mim na casa nova. A isso chamo também de felicidade.
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domingo, 2 de setembro de 2007

O silêncio dos domingos

Usa-se muito a expressão ano sabático para designar um ano - ou uma temporada mais longa - que o sujeito tira para descansar. O termo sabático, relativo ao sábado, é uma referência à tradição judaica do sabbath ou dia do descanso, quando os devotos do judaísmo não fazem rigorosamente nada. Como Deus no sétimo dia, eles descansam. Ou melhor, recolhem-se - num estado de austera poesia, presumo.

Na linguagem comum, a expressão ganhou o sentido mais ameno de um dolce far niente, onde todos os dias são sábado. Pois, eu não. Eu, se pudesse, escolheria um ano dominical, onde todos os dias fossem domingo.

Nada contra os sábados. Mas os sábados são dias muito longos e coletivos. Os sábados começam na noite de sexta-feira e se estendem até a manhã de domingo.

O domingo mesmo só começa quando o sol se assenta no céu, lá pelas seis, sete da manhã. Até então ainda é sábado - o feitiço, a ilusão do sábado - que, para muitos, dura até que o cansaço convença o corpo de que não há mais sábado para ser. Só então, quando o sábado, frustrado ou triunfante, consuma sua renúncia, o domingo mansamente inaugura seu vasto e minucioso silêncio quase desabitado de gente.

É esse silêncio que eu quero para mim um ano todo. Ou que durasse só uma semana; ou três dias que fosse de um domingo puro, sem a expectativa da segunda-feira. Porque o único defeito dos domingos é haver segunda-feira.

Fico imaginando um tempo assim não para buscar grandes conclusões definitivas, mas apenas para mergulhar nesse silêncio dos domingos sem esperar nada além de uma paz que fosse se alongando até se tornar uma coisa íntima, sem palavras ou propósitos.

A risada de uma criança, o latido de um cão, o canto dos passarinhos nas gaiolas, a respiração de alguém muito querido, o estalar das madeiras da casa, o jazz ouvido por algum vizinho, o ruído do teclado, a levíssima brisa, o súbito sudoeste, a chuva, o motor potente de um raro caminhão fazendo tremer os vidros, alguém que ensaia os toques do berimbau, um telefone que toca sem que ninguém atenda, a página virada de um livro, o resfolegar das máquinas, o rodar das engrenagens, o andar entre as folhas das amendoeiras, a água correndo na sarjeta... E as palavras, às vezes frases inteiras! - colhidas no ar, ainda úmidas. Enfim, a vigorosa singeleza da música do mundo, só no silêncio de domingo.
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