sábado, 30 de junho de 2007

O Brasil está louco

Os meninos não deram sorte. A jovem mulata no ponto de ônibus não era uma prostituta, mas uma empregada doméstica. Pior, ela resolveu dar queixa, um motorista de táxi anotou a placa do carro, a polícia foi obrigada a agir e a coisa toda se precipitou. Até uma prostituta de verdade tomou coragem e foi dar queixa também. É muita falta de sorte.

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SÃO PAULO - Um bancário e a mulher foram assassinados na frente do filho de sete anos no Morumbi, zona sul da capital paulista. (...) o casal teria reagido a um assalto. O Honda Fit foi abordado por dois bandidos armados no semáforo (...). Os tiros atingiram as costas e o peito do bancário Glauber Alexandre Shiba Paiva, de 37 anos, e a cabeça de sua esposa, a dona-de-casa Marta Maria Sena de Oliveira, de 30 anos. O filho deles, Gabriel de 7 anos, estava no banco de trás do veículo e não foi atingido. Os dois criminosos fugiram sem levar nada.

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RIO - Um casal de oficiais da Aeronáutica, (...) foi baleado na noite de domingo, supostamente porque não atendeu a uma ordem de policiais do Regimento de Polícia Montada de Campo Grande para parar o carro. A major Larissa morreu, mas seu marido, o tenente Douglas, está fora de perigo. Os PMs estavam fora de sua jurisdição.

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RIO - Terminou com 19 mortos e treze pessoas feridas (...) a megaoperação realizada pela polícia quarta-feira, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Treze corpos foram recolhidos pela própria polícia, e outros seis foram deixados à noite numa van em frente à 22ª DP (Penha). Entre os feridos, sete pessoas foram vítimas de balas perdidas, além de um policial e cinco traficantes atingidos.

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É, os meninos não deram mesmo sorte. É até capaz que continuem presos. Uma injustiça, claro. Afinal, eles só espancavam mulheres na rua nos fins de semana. Nunca mataram ninguém. E se roubavam, eram só coisas sem importância, tão sem importância como as mulheres que espancavam: celulares vagabundos, grana miúda, bijuterias. Puxa, com tanto senador solto por aí, tanto deputado, ex-ministro, secretário... Até homicida confesso! Que falta de sorte!

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BRASÍLIA - Dizendo-se constrangido e em meio a várias menções a Deus, o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), acusado de negociar a divisão R$ 2,2 milhões com o ex-presidente do Banco de Brasília Tarcísio Franklin de Moura, subiu à tribuna do Senado na tarde de quinta-feira e negou acordos com dinheiro público na gravação feita pela Polícia Civil do Distrito Federal.

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O país enlouqueceu. A matança é generalizada e a impunidade garantida. Cidadão, polícia, bandido, político, rico, pobre, homem, mulher, criança, idoso - tanto faz: qualquer um pode matar ou morrer. Todos são vítimas e algozes potenciais. Sob ameaça de morte, rouba-se qualquer coisa - celular velho, bicicleta usada, óculos de camelô, tênis falsificado.
O Brasil está louco. Tornou-se uma imensa colônia de psicopatas, catatônicos e idiotas delirantes. É, decididamente, os meninos não deram mesmo sorte.
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terça-feira, 26 de junho de 2007

O debate sobre a censura prévia no Roda Viva

A mim, o que mais irritou foi ver o tal José Gregori repetir - como se isso fosse um argumento!! - que ele, há sete anos!, conversou "pacientemente por um ano e meio" com as emissoras e não obteve os resultados que esperava. ora, e eu com isso? O fato do tal Gregori não ser reconhecido como um argumentador competente nos obriga então a aceitar essa maluquice de censura prévia como uma espécie de castigo? O problema então para o tal Gregori é entre ele e as TVs?

Me impressionou também a dificuldade do menino Romão em ser contrariado. Dificuldade que era evidentemente proporcional a sua dificuldade de verter em palavras seus pensamentos. Ou seja: é mais uma daquelas pessoas que esperam ser entendidas imediatamente por um simples olhar, um gesto ou uma frase mais ou menos vaga e caprichosa.
Não estranha que insista tanto na palavra algo esotérica "indicativo". Ele quer legislar por "indicativos", metáforas, sinais. Aparentemente, o menino Romão é candidato ao lugar do beato homônimo e quer mesmo é fundar uma teocracia.
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domingo, 24 de junho de 2007

Sem despedidas

Eu não perco mais tempo me defendendo, eu simplesmente vou embora. Não é covardia, é estilo. Até porque nunca fui um valente. Só briguei por desespero ou para defender os outros. É raro, mas ainda me acomete a tentação de comprar barulho alheio. Acho que li histórias em quadrinhos demais e vi muita Sessão Coruja. O gesto heróico ainda me tenta. O sacrifício. O amigo do mocinho que morre no final para salvar os outros. Não me tornei insensível à injustiça, mas cansei. Minha vida agora é um filme sem protagonista. Uma seqüência de histórias emendadas por reflexões vagas e genéricas sobre o sentido da vida. "Tout droit, monsieur. Tout droit!", gritava a velhinha parisiense para me indicar onde era a lavanderia - há tanto tempo que até parece uma outra vida...

Não tenho mais nada a defender. Eu? Outros terão motivo de se vangloriar. Para mim, eu é só uma péssima lembrança. Arrependimentos? Isso é para quem tem dúvidas. Eu, de fato, nunca cri. Desde muito cedo, foi sempre tarde demais. Culpa e impotência, crime e castigo - e quase morri disso. O tempo restante foi o caminho inverso. Até que tudo desse "igual a zero" - e aqui estou, redondo e sem arestas por onde me possam pegar. Liso, escorregadio, maleável.

Não, eu não bebo. Não, também não. Não, nem isso... É também parei. Mas não sou um santo e se você baixar essa música eu agradeço; detesto letras lamurientas e melodias repetitivas. "Never complain, never explain" aprendi com Wittgenstein - ou Clint Eastwood? Nem lembro.... É que eles são muito parecidos, descontado, claro, certas irrelevâncias sexuais. Sim, sexo é irrelevante... É bom, mas irrelevante. Você não acha? É a idade! Espere chegar aos 50. Só o amor importa. O que é o amor? Você já tem idade pra saber... Amor é atenção. Atenção e silêncio. O resto são letras lamurientas e melodias repetitivas.

Não se queixe, não se explique. Ao menos tente. Não é fácil, mas também não é tão difícil. A solidão é mais que um remédio, é medicina preventiva e alimento funcional. Olhe à volta: é mais fácil amá-los à distância ou um de cada vez. Para isso, basta ouvi-los - com atenção e silêncio. Serão gratos - por algum tempo, ao menos. Depois, esquecerão. Somos assim, volúveis. Eu também, claro. E você idem.

Saber isso, tão pouco, já me humilhou. Hoje me acalma. Por isso, já nem me defendo. Prefiro sair, furtivamente, sem despedidas. Sempre em frente - é o sentido da vida.
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sábado, 23 de junho de 2007

Futebol dos Filósofos

Genial! Isso é o que a gente pode chamar de "humor sofisticado"!

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domingo, 17 de junho de 2007

De volta à taba

Está um dia lindo lá fora, sem uma nuvem no céu. Um dia quente, bom de se viver; e é o que as pessoas estão fazendo, indo e vindo em seus muitos afazeres. Expectativas, frustrações, tristezas e alegrias se cruzam indiferentes, quase incomunicáveis. É a vida de cada um, enfim. Esse tem sido o tema das minhas crônicas, esse chão comum onde vamos todos tentando erguer isso que chamo de alma, nossa aventura íntima, imune ao tempo e à geografia.

Mas um espectro nos ameaça. Parece que mais uma vez aqueles senhores de Brasília, se aproximam de um consenso. Esquerda, direita, centro; ateus, crentes, agnósticos; pilantras, pilantrinhas e pilantrões - todos encontraram uma causa comum. E nós já aprendemos que quando eles alcançam essa unanimidade algo de muito ruim está para acontecer.

Só que dessa vez é algo ainda pior do que o assalto costumeiro ao nosso bolso. Dessa vez, eles querem roubar algo mais precioso, o último e escasso elo de dependência que ainda os ata a nós, simples cidadãos que caminham nesta manhã de céu límpido.

Eles querem roubar o nosso voto. Querem transformar a eleição numa espécie de assembléia estudantil ou reunião de condomínio. Não escolheremos mais nominalmente nossos eleitos. Com o tal voto em lista será como se votássemos em imensas chapas previamente montadas, e obviamente encabeçadas, pelos caciques dos partidos. Votaremos, como eles já aprenderam a repetir malandramente, "nos partidos" - como se houvesse diferença entre eles! Coisa que o próprio consenso em torno do roubo do nosso voto se encarrega de desmentir.

Até agora nossa única arma contra esses senhores era o voto nominal - o nosso poderzinho de, a cada quatro anos, não renovar o mandato daqueles que se revelam tão obtusamente corruptos e incompetentes a ponto de se sobressair entre seus iguais.

Parece pouco e é pouco, mas não é à toa que a taxa de renovação do Congresso sobe a cada pleito. O que ao menos vinha atrapalhando as intenções dinásticas dessa gente.

Ora, isso tinha que acabar! Já é tempo da corrupção no Brasil alcançar um nível mais estável e profissional. Os caciques da política não podem mais deixar na mão dos escalões mais baixos a complexa arte da corrupção. Eles precisam da tranqüilidade do voto em lista para não serem mais punidos sequer nas urnas - uma vez que a impunidade judicial é garantida.

É urgente que os caciques partidários possam assumir às claras seu papel no comando dessa poderosa máquina de fazer milionários com o trabalho alheio! Para isso é fundamental o voto em lista.

Arrisco dizer, simplórios brasileiros que hora passeiam fechados em si mesmos sob este magnífico sol de outono, que o voto em lista fará a corrupção no Brasil alcançar escalas impensáveis. Em pouco tempo, haverá fazendas de criação de gestantes de uso exclusivo do cacicado e as cuecas serão usadas por cima das calças com o mesmo despudor dos super-heróis!

Nem a ditadura militar ousou tanto! Finalmente, depois de cinco séculos de história, estaremos de volta à taba. Que Tupã tenha piedade de nós!
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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Relaxa e goza

Do leitor de O Globo online Carlos Alberto Carvalho Silva, sobre o conselho da ministra Marta Suplicy aos brasileiros que padecem nos aeroportos:

"É isso que dá em um país de turismo sexual colocar uma sexóloga como ministra."
* * *

Na verdade, cada um recomenda o que sabe e o que gosta. Deve ser assim que a ministra resolve seus problemas.

Seria o caso de perguntar se a ministra recomenda o uso dos banheiros dos aeroportos ou a prática em público mesmo.
Não creio que ela faça muita distinção entre o ato solitário ou a dois, a três - mas seria bom esclarecer também.

Outra pergunta: em caso de atrasos mais longos em aeroportos mais animados, serão distribuídos preservativos?
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domingo, 10 de junho de 2007

Juventude anacrônica

É engraçado que ninguém tenha atentado para um aspecto que me parece evidente da discussão sobre o ensino público superior no Brasil hoje: a caretice.

Caretice é gíria antiga para anacronismo. E nada mais anacrônico no mundo digital do que a obsessão pelo diploma, que é o fundamento comum de todas as questões levantadas.

Entendo diploma como um pedaço de papel que se obtém em certas instituições depois de um período e rendimento intelectual pré-determinados.

Na definição, o que está em descompasso com o presente são as expressões "certas instituições", que denota lugar, e "depois de um período", que denota tempo. Hoje em dia, só a expressão "rendimento intelectual" permanece válida.

Porque no mundo digital, tempo e espaço são do domínio do sujeito: no caso, será ele quem determinará quando, quanto, e onde estudar. Ou seja, cabe ao sujeito escolher se vai estudar em casa, numa biblioteca pública, em hotéis, ou seja, lá onde for. Também será de sua escolha quando estudar, se diariamente ou em dias alternados; e também quantas horas estudará a cada vez.

Só não está sob seu controle aquilo que é de fato do interesse público: a avaliação de sua competência intelectual para uma dada profissão. Isso caberia ao Estado, ou a alguma instituição por ele designada, que o submeteria às provas necessárias. E ponto final. Como ele alcançou aquele conhecimento é uma questão que diz respeito exclusivamente a ele e ninguém mais.

No século 21 digitalizado, o autodidatismo é não só uma possibilidade real como uma meta a ser perseguida. Qualquer um, munido apenas de um computador com acesso à internet em banda larga, já pode estudar quase que qualquer assunto em profundidade suficiente para se tornar um profissional competente.

Isso significa que se o movimento estudantil fosse vanguarda de fato estaria lutando, em primeiro lugar, pelo fim da exigência da frequentação física de determinadas instituições públicas ou privadas para a obtenção de diploma - entendido como permissão de trabalho em áreas específicas. Se não de todos os diplomas, da maior parte deles.

E também por mais créditos para a compra de computadores pessoais por estudantes; por mais cursos virtuais de nível médio e superior; pela universalização da banda larga a preço baixo; por provas públicas e gratuitas de avaliação de conhecimento que conferissem diplomação aos que obtivessem rendimento satisfatório sem outras exigências.

Mas como o movimento estudantil segue uma orientação determinada pelos preconceitos ideológicos dos anos 50 e 60, a pauta de reivindicações é, por conseqüência, anacrônica, careta e partidária.

Em vez, por exemplo, da constrangedora barganha de vagas segundo o tom da pele das pessoas, num país cujo maior patrimônio é justamente a mestiçagem, o que os jovens deveriam trazer para o debate é um conjunto de reivindicações e propostas realmente desafiante e inovador. Porque não há nada mais triste do que uma juventude anacrônica, aquém do seu tempo.
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sábado, 9 de junho de 2007

Tabacaria

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sexta-feira, 8 de junho de 2007

Women In Art

A evidente superioridade do figurativo.

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terça-feira, 5 de junho de 2007

Porque os homens somem

Nunca sumi

"Todos os meus relacionamentos acabaram mesmo, aos poucos, sofridamente, com idas e vindas que anunciavam o fim. Isso não me torna melhor ou pior do que ninguém. Acho igualmente nobre, perverso e fútil tanto aquele que sai para comprar cigarros e não volta mais, quanto quem se agarra a um amor morto, mas ainda morno. Penso que o não gostar é tão insondável quanto o gostar -- só que dói menos. Se o amor fosse sempre intenso e fácil, sequer existiria. Se desse no mesmo fazer sexo com qualquer pessoa, acabaríamos não fazendo sexo com ninguém. Porque o amor é essa busca do raro, do que está além. Sexo ou amor, não os distingo: cada um faz sexo com o amor que tem, não pelo outro, mas dentro de si."
Antonio Caetano, 49 anos, é escritor e tem namorada

* * *
Sim, esse Antonio Caetano aí sou eu!

Como eu fui parar lá na revista Cláudia está contado na crônica de onde o texto foi tirado.
Aliás, "tirado", não! Muito bem editado por minha amiga Deborah de Paula Souza que soube selecionar os trechos e amarrá-los numa sequência perfeita.

Leia também a matéria completa. São três páginas e eu só apareço no fim da última página.

Ah, sim! A brilhante ilustração tem dono: foi criada por Sandro Ricardo, sobre foto de Carlos Cubi.
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Anacronismo ideológico

Acho engraçado que ninguém tenha atentado para um dos aspectos que me parece mais evidente em toda a discussão sobre as cotas raciais no ensino público superior: a caretice da reivindicação.

Caretice é a gíria antiga para anacronismo. E nada mais anacrônico no mundo digital que o culto obsessivo ao diploma - entendido como um pedaço de papel que se obtém em certas instituições depois de tempo e rendimento pré-determinados.

"O meu papel, o meu canudo de papel. O meu papel, o meu canudo de papel", era o refrão de um dos primeiros sucessos do chatíssimo Martinho da Vila, lá pelos idos dos anos 60, canção cuja letra era uma espécie de lamentação irônica que bem poderia servir de tema musical dessa campanha por cotas.

No século 21 digitalizado, o autodidatismo é não só uma possibilidade real como uma meta a ser perseguida. Hoje, qualquer um munido apenas de um computador com acesso à internet - de preferência em banda larga (a largura da banda é hoje muito mais importante do que a velocidade do chip) - já pode estudar praticamente qualquer assunto em profundidade.

Isso significa que, se as forças de oposição ao establishment (literalmente, ao estabelecido) fossem de fato avançadas, vanguardeiras, estariam lutando pelo fim da exigência da frequentação física de determinadas instituições públicas ou privadas para a obtenção de diplomas - ou permissões de trabalho em áreas específicas.

Ao mesmo tempo, estariam lutando por mais créditos para a compra de computadores pessoais por estudantes; por cursos de nível superior virtuais; por provas públicas e gratuitas de avaliação de conhecimento que conferissem diplomação aos que obtivessem rendimento satisfatório.

Mas como essa luta é essencialmente política e segue uma orientação determinada pelos preconceitos ideológicos dos anos 50 e 60, a pauta de reivindicações é, por consequência, anacrônica, careta.
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As indefinições de O Globo

O Globo online insiste na ridícula expressão "líder cubano" para designar Fidel Castro.
Líder de que - do campeonato de baseball local?
Fidel tanto pode ser chamado de presidente quanto de ditador, segundo os critérios que se adotem. O dever de O Globo com seus leitores é definir claramente os critérios que o animam.
Trata-se, enfim, de um jornal liberal ou conservador, como queiram, que adota os princípios e definições da democracia clássica - e então deveria chamar Fidel de ditador - ou um jornal de esquerda ou progressista, como preferirem, que enxerga legitimidade no sistema cubano e por isso deveria chamar Fidel simplesmente de presidente?
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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

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domingo, 3 de junho de 2007

Oração do outono

Ah, que Deus me dê a clareza comovente dessas manhãs de outono para aceitar minha vida tal como ela é, foi, será. Aceitar cada ponto, cada vírgula, cada frase perdida no caminho, cada palavra inadequada. Aceitar, enfim, sua minuciosa pontuação, sua sintaxe às vezes estranha, seus erros inevitáveis de gramática.

Sim, aceitá-la como um longo improviso que não admite correção, mas aprimoramento: farei melhor amanhã! Sim, que não me falte esse entusiasmo modesto e franco que floresce da clareza de saber que sempre haverá manhãs assim de céu azul, azul.

Tudo que peço é que essa clareza me alcance e se estabeleça em mim como o sol presumido por detrás das nuvens, quando se espera que o céu se abra, ou no brilho da lua, quando se espera que amanheça.

E que eu aceite a incerteza do mistério de ser simplesmente um homem (que ninguém sabe exatamente o que é) no mundo (que ninguém sabe exatamente o que é). E que essa incerteza não me oprima a ponto de eu perder a fé - a fé que nasce de manhãs assim, de céu sem nuvens, tão límpidas, tão luminosas.

* * *

Atravesso essa manhã com sacolas carregadas de verduras e legumes, seu viço bom expresso em tons de verdes e vermelhos contrastantes que irão compor a salada que faremos - nós, os amigos - na cozinha repleta de surpresas de Cláudia: sais da Cachemira, arroz negro da China, azeites aromatizados, temperos diversos. Logo, sob o pretexto de comer, teceremos nossa tarde com meticuloso afeto feito de pedaços de histórias, risadas e silêncios.

* * *

No caminho, um cheiro de pão me alcança de súbito, universal e cotidiano, onipresente. É possível atravessar meio mundo ou a vida inteira sentindo esse cheiro tão aconchegante, a desafiar calendários e mapas: onde estou e quando?

"Em mim!", responde em mim a clareza da manhã que avança. E não me faltará nem comida, nem afeto. O que mais posso querer?
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sábado, 2 de junho de 2007

A agonia de uma ilusão


"Seríamos obrigados a reconhecer que [o stalinismo] estava enraizado não no atraso do país nem no meio imperialista, mas na incapacidade inata do proletariado de tornar-se uma classe dominante. Além disso, seria necessário estabelecer em retrospecto que (...) a atual União Soviética foi precursora de um sistema novo e universal de exploração."

As palavras de Trotsky foram tiradas do artigo de Christopher Hitchens sobre ele que aparece no excelente - apesar da tradução às vezes catastrófica! - "Amor, pobreza e guerra", publicado pela Ediouro e facilmente encontrável em qualquer banca de jornal por inacreditáveis R$ 9,90 para um livro desse tamanho e acabamento.

A expressão "incapacidade inata" atribuída a uma entidade abstrata como a "classe proletária" teve em mim o efeito de um iluminação.
Nunca me dera conta da profunda artificialidade do conceito de classe - e ainda mais em face de sua pretensão grandiosa de desvendar e esclarecer todas as relações humanas.

Cento e cinquenta anos de propaganda maciça e o conceito ainda permanece estranho ao ser humano comum, que sistematicamente se recusa a ver nele o elemento definidor seja da sua individualidade, seja do que há de comum em seus afetos. Porque, de fato, o proletariado não é ninguém.

Por outro lado, é chocante a obstinação de Trotsky "no fim da vida, isolado no México e no declínio de sua saúde", às vésperas talvez do seu assassinato pelos sicários de Stalin, em se agarra rao conceito, sua incapacidade de admitir a demonstrada "inconsistência do conceito", para usar uma expressão já quase fora de moda. bastaria olhar na mesma direção, mas com outros olhos.

Com indisfarçável condescendência pelo revolucionário que lhe influenciou a juventude, única alternativa, aliás, à grosseria stalinista para quem pretendesse se manter marxista, Hitchens prefere dizer que "por ser Trotski, ele não poderia aceitar que, caso o socialismo "desaparecesse aos poucos como uma utopia", não sobraria nada pelo qual valesse a pena lutar."

É compreensível que àquela altura da vida Trotsky - e ainda mais ele, tão crente na História! - se visse confundido com sua própria história a ponto de a admissão de um erro teórico ou de avaliação ameaçar não só sua existência, mas sua própria identidade.
Não há porque condená-lo; não há porque admirá-lo por isso. Talvez tenha lhe faltado mais clareza do que diginidade e grandeza.

* * *
A ilustração do post é um achado! Trostsky foi o organizador e comandante-em-chefe do Exército Vermelho, responsável pela resistência e consolidação do governo revolucionário de 1917. Sua fama e popularidade na União Soviética rivalizavam as com Lênin - como essa peça de propaganda expressa á perfeição: um Trotsky São Jorge!

Essa mistura de sagrado e profano numa sociedade que se pretendia atéia e materialista, mas lidava com um povo profundamente religioso, é genial. ^Digna de prêmios em qualquer festival. Na Rússia, no entanto, seu autor deve ter sido logo atingido pela 'institucionalização da inveja" promovida pelo regime sob o pretexto de coibir o individualismo. E certamente, depois, não terá sobrevivido ao rancoroso Stalin e seus puxa-sacos: sou capaz de apostar 10 contra 1 que ele acabou na Sibéria.
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