terça-feira, 29 de maio de 2007

Uma outra abordagem de Closer

O texto de Contardo Calligaris sobre Closer deve ter sido publicado na Folha de São Paulo na época do lançamento do filme. No pé do texto, reproduzo o comentário que deixei no site onde achei o texto, o Sushi Samba.


"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?

Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.
O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.
Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".

1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?
Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).
O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?
Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.
Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.

2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.
Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.
A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar -não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.
Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.
Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.

3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.
Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.

4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.

5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.
Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?
O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.
Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.

* * *
Meu comentário:

Essencialmente, não vejo o comportamento dos personagens como algo próprio do humano - atemporal, portanto - mas como um "sintoma de época", uma expressão do estado da cultura ocidental neste começo/ fim de século.

Se o que os personagens exibem são "instintos naturais", como pretente o psiquiatra Contardo Calligaris, e se cultura é exatamente a "repressão dos instintos", o filme é então a exata expressão do ponto de decadência a que chegamos.
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Refinadíssimo prazer

Beatriz, do Compulsão Diária, comentando o texto sobre Closer, que ela me ajudou a escrever, comentou: "Afinal, pobres personagens numa cultura do narcisismo que já beira a da perversão... No way out, you know?"

Pois é, não sei se tem volta...
Acho que sim, mas quando - e para quem?
Não para nós, certamente - que por isso, graças a Deus, temos que nos contentar com a única e verdadeira revolução: aquela íntima, pessoal, silenciosa, feita de incontáveis fracassos e insônias, anônimos triunfos, iluminações incomunicáveis, dúvidas cada vez mais apuradas e uma nobre, nobilíssima indiferença a tudo que é mundano e transitório - mas que aos olhos dos que se imaginam vencedores parece ser a única verdade.

Poder rir disso é mais que um consolo, é um refinadíssimo prazer.
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domingo, 27 de maio de 2007

Pra machucar os corações

The Blower's Daughter, tema do filme Closer

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Retrato de época


Finalmente, assisti em DVD "Closer" (Perto demais), de Mike Nichols. Não o tinha visto no cinema e minha primeira surpresa foi descobrir que o diretor ainda está vivo e em forma. Dele vi e gostei "Quem tem medo de Virgínia Wolf?", seu filme de estréia, "Ardil-22" (Catch-22) e "Lobo" (Wolf). Estou até hoje louco para ver "Ânsia de amar" (Carnal Knowledge) e "A primeira noite de um homem" (The Graduate). Todos, exceção talvez de "Ardil-22", poderiam se enquadrar no gênero "crítica de costumes". "Closer" não escapa à classificação.

A compaixão que o diretor demonstra por seus personagens não deixa que eles decaiam na caricatura, épica ou cômica - sim, leitor, a compaixão humaniza. No entanto, Nichols não faz mais nenhuma concessão à geração dos seus netos. Mostra-os prisioneiros de uma anti-educação sentimental, baseada numa espontaneidade neoromântica primária, porque pretensamente natural e destituída de travas e repressões, que os condena a imaturidade afetiva e sexual que beira a perversão, empanturrados de freudismo para as massas.

Sem valores, não há sentido: afunda-se num relativismo onde a vontade caprichosa, travestida de desejo, faz da obsessão um arremedo de norma, único freio para a lassidão sem objeto.

Todos os personagens, literalmente, vivem "do sexo" e "para o sexo": Dan escreve um livro supostamente erótico; Alice é uma stripper; Ann quer estetizar a dor em suas fotos, projeto por definição sadomasoquista; Larry, ao contrário, se autodefine como troglodita e faz questão de enfatizar sua brutalidade e priapismo.

A superficialidade é simbolizada pela profissão escolhida para cada um: o dermatologista e a fotógrafa trabalham obviamente o epidérmico, a superfície. A stripper é uma imagem tridimensional, holográfica, que pode ser vista, mas não tocada. O escritor é um fantasma duplo que se apropria da história alheia, seja como editor de obituários, seja como narrador das aventuras eróticas da namorada.

O outro, aliás, não vale senão como objeto da competição sexual a que se dedicam homens e mulheres, numa mal-disfarçada tensão homossexual não-consumada - a não ser virtualmente, no caso dos homens, numa cena crucial e hilariante. Nada a estranhar, se todos são desesperadamente auto-referentes.

Lembrei de "Ligações Perigosas". "Closer" é um "Ligações Perigosas" proletário, onde a gratuidade de todos os atos é temperada por doses maciças de emocionalismo trash: o sofrimento é necessário para legitimar a falta de sentido.

As tiradinhas espirituosas, no melhor estilo "roteiro americano típico", denotam certa "vivacidade intelectual" que uma formiguinha rodriguiana atravessaria com água pelas canelas. E as coincidências, todas plausíveis, que amarram a história é o que lhes dá substância: claro, personagens vazios e à deriva só podem mesmo ter suas vidas tocadas pelo acaso.

A deliberada mistura de superficialidade e sentimentalismo vulgar que Nichols imprime ao filme constrói um belo quadro da cultura ocidental neste início de século 21, onde opulência econômica contrasta com indigência intelectual e emocional.

Nichols, cujo domínio da narrativa cinematográfica é evidente, faz um clássico filme americano, perfeito em todos os fundamentos: direção, fotografia, montagem, roteiro, cenografia, figurino, trilha.

O casting, no entanto, merece um comentário à parte, pela beleza e o charme dos atores, perfeitos nos papéis. A vaga homossexualidade de Jude Law, ambíguo até no nome, a quase boçalidade de Clive Owen, a exuberância sexual de Natalie Portman e a patetice séria de Julia Roberts se elevam à condição de quase-arquétipos de uma cultura em decadência: o que virá em seguida é uma incógnita.
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domingo, 20 de maio de 2007

Do meio-campo

"Eu nunca fiz um gol, sabia? Acho que eu sou o único brasileiro que nunca fez um gol. Há muito tempo, eu quase fiz um, sim. Foi logo na primeira vez que eu joguei num campo grande, de terra batida. Jogo de campeonato, onze pra cada lado, de camisa e tudo, o sonho de todo moleque.

Eu entrei no meio da partida e logo no primeiro lance recebi a bola no meio-campo, quase na ponta esquerda. Até hoje me lembro da sensação de desamparo que senti com aquela bola nos pés, meus olhos percorrendo rápida e minuciosamente todo o campo, imenso como a solidão que eu sentia sem saber o que fazer com a bola. Os gritos repercutiam cada vez mais longínquos em meus ouvidos, meu coração se contraindo, contraindo e junto com ele o tempo até que só restava uma urgência prestes a implodir o mundo.

Era preciso fazer alguma coisa! Então eu chutei. Chutei do meio-campo em direção ao gol e senti que naquele exato instante o silêncio e a imobilidade baixaram sobre o campo e todos os olhos se grudaram na bola em sua trajetória caprichosa. Ela subiu e foi descrevendo uma curva lenta em direção ao gol - tudo tão lento como se durasse até hoje - descendo, descendo até bater no ângulo onde a trave e o travessão se encontram, rompendo num estrondo o fantasmagórico transe que congelara a todos. Seguiu-se um "uh!" que misturava o alívio de uns e o descontentamento de outros e imediatamente reparei que o técnico do meu time gesticulava com raiva para que eu, que mal acabara de entrar, saísse de campo enquanto alguns companheiros já iam me empurrando para fora.

Levei uns segundos que até hoje me doem para entender o que acontecera: eu quase fizera um belíssimo gol... Contra! Isso mesmo, eu chutei a bola na direção errada do campo! Nunca mais me deixaram jogar e eu acabei virando goleiro.

Até que outro dia, me vi contando cheio de detalhes um gol que acabara de fazer. Eu cortara um passe do time adversário na esquerda, na altura do meio-campo. Driblei o lateral que veio na cobertura, passei a bola para um companheiro e continuei correndo, fechando em diagonal; quase não acreditei quando gritei "Dá!" e recebi de volta no meio de dois zagueiros; protegi a bola, ganhei dos dois na corrida e chutei de canhota, na saída do goleiro. Um golaço! Golaço! Eu gritava e pulava como se tivesse feito o gol mais bonito da história, no último minuto de uma final de Copa.

Sinto o sangue ferver dentro de mim e me dá uma vontade de chorar de alegria só de contar como eu contava "Foi meu primeiro gol!" e então de repente me veio a dúvida se eu tinha mesmo feito aquele gol ou se tudo não passara de um sonho. Enquanto ponderava, me dei conta de que, se o gol fosse um sonho, o mais certo seria que também naquele instante eu estivesse sonhando. Sim, era isso! Tudo não passava de um sonho dentro de um sonho e a dor que senti foi tão forte que acordei no meio da noite fria com uma tristeza tão fundamente enraizada no coração que nem chorar eu chorava.

Sim, eu sonhara aquele gol tão bonito. Eu não fizera, nem faria gol nenhum porque nem futebol eu jogo mais. Eu ainda era e continuaria sendo o único brasileiro que nunca fez um gol na vida. Porque você, claro, você já fez gol, não fez? Claro, todo mundo já fez..."
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domingo, 13 de maio de 2007

Saudação a maio

Enfim, meu maio tão amado está de volta, com suas manhãs luminosas e suas noites límpidas. De manhã, a brisa sopra do sul e um sol que doura sem queimar reina preguiçoso sobre praias vazias, de águas calmas e cálidas. As noites não são menos belas, com seu céu de veludo cintilante de estrelas.

Eis o quadro desses dias que espero o ano todo. Torno-me um turista em minha própria cidade e redescubro a mim e ao mundo como novidade. Se Deus me concedesse, minha eternidade seria em maio. Porque maio é o melhor mês do ano em qualquer lugar do planeta.

Mas, enquanto elaborava a crônica, minha saudação anual a maio, eis que o tempo, mais ágil do que eu, muda de repente e uma frente fria usurpa os céus de maio com suas hostes cinzentas de nuvens carregadas de chuva. Que fazer, leitor, se ainda ontem era maio e hoje me amanhece junho?

Chove. Chove copiosamente, a quase me desmentir a crônica. Chove desde muito cedo sem parar. Chove e faz frio. A previsão é que volte a ser maio amanhã ou depois. Tomara. Esta chuva inesperada é de uma deselegância revoltante.

Neste exato instante, um embate de ventos contrários de sul e norte decide no alto dos céus se haverá maio - e quando. Importa pouco: mesmo quando começa sonsamente em abril ou junho o invade com o inverno antes do tempo contado nos calendários, maio é um estado de espírito, um modo de ser feliz. Calma alegria, discreta exuberância, um tanto de primavera, um tanto de outono, eis a receita de ser maio. E isso, quando se inscreve na alma da gente, não há vento que apague. Por isso, tenho fé: logo será de novo maio.

* * *
Na edição de segunda-feira passada, só a Tribuna saiu com manchete verdadeiramente jornalística: "Juiz ajuda e Fla leva o título" (Eu ainda seria mais enfático: "Juiz erra e dá campeonato ao Flamengo").
Todos os outros jornais cariocas escolheram manchetes óbvias, feitas para agradar à torcida rubro-negra. Escolheram o comércio e não a informação. Uma vergonha. Começa-se acreditando que não existe isenção e a verdade é relativa e se acaba assim, cego como o mais relés torcedor ou mero vendedor travestido de jornalista.

* * *
Foi a segunda vez que vi o Botafogo perder um campeonato aos 44 minutos do segundo tempo por conta de erro do juiz. A primeira foi em 1971... Coincidências assim são das tais coisas que só acontecem com o Botafogo.
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quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mozart reencarnado

Concerto for Piano and Orchestra No. 26 Coronation Mozart

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segunda-feira, 7 de maio de 2007

O tempo passa, o tempo voa...

É a segunda vez na minha vida que eu vejo o Botafogo perder um campeonato aos 45 minutos do segund tempo num erro do juiz. A primeira vez foi em 1971... Coisas que só acontecem com o Botafogo.
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Juiz erra e dá campeonato ao Flamengo

Essa deveria ser a manchete de todos os jornais de hoje, segunda-feira.
Aos 45 minutos do segundo tempo, o juiz anulou um gol legítimo do Botofogo e ainda expulsou Dodô, o artilheiro do time, por ter completado a jogada.
O erro foi clamoroso. O jogador estava a mais ou menos um metro dos dois marcadores quando o lançamento foi feito. Como os dois zagueiros estavam em linha, bastou um pouco de velocidade e sincronia para Dodô ultrapassá-los e ficar de cara para o gol.

Enfim, a decisão errada do juiz decidiu o jogo e o campeonato.

Essa era, portanto, a informação relevante.
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domingo, 6 de maio de 2007

O sonho dos mortos

Contemplava o entardecer em Copacabana do terraço do palácio que herdara, suspenso no topo do prédio mais alto da avenida em frente à praia. Céu e mar pareciam um único ser imenso feito de uma infinidade de partículas de azul, distintas umas das outras por fugazes nuances de tom.

Não havia nuvens, mas a brisa vinda do leste espalhava uma névoa rala que talvez contribuísse para a sutileza dos matizes, antes que o azul mais escuro do mar tragasse o céu e a noite finalmente se fizesse, abrupta e igual.


Preferia a noite. Tamanha beleza o deixava ainda mais triste. Olhou sua pele, muito branca e fina: as mãos macias quase se confundiam com o mármore do parapeito onde se debruçava. Não tinha par no mundo com nada que tivesse vida, porque tudo gozava de uma mobilidade que ele aprendera a temer.

Sentia-se prisioneiro de um sonho que não era seu. "Como se libertar de um sonho alheio?", ele se perguntou enquanto avaliava a profundidade do abismo aberto diante dele, de um azul que se adensava mais e mais. Sabia a resposta, tanta vezes elaborada, minuciosamente, noite após noite. "Não há como se acordar de um sonho que não nos pertence." Mas os que sonhavam esse sonho, ele sabia, jamais despertariam.

Lá embaixo, os faróis dos carros desfiavam o fio de ouro desbotado de seu ir e vir monótono e anônimo. Seria tarde demais para a vida? Sempre lhe pareceu que sim. A solidão o alcançara muito cedo; e com ela, a amargura de não se achar disposto. "Com o tempo acabamos por nos tornar aquilo que mais temíamos ser", pensou para concluir, cheio de ironia, que os mortos não morrem: sonham. E como dos mortos não se espera que despertem, o sonho deles se confunde com a vida daqueles que aprisionam. "Como escapar do sonho de um morto?". Quantas vezes rira, em sua secreta insônia, desses tortuosos raciocínios? Quantas vezes ainda riria?

Nada tinha de seu. Era como um pássaro preso numa gaiola tão grande que talvez nem tivesse grades: se único consolo era que, se saltasse, tinha certeza de que não saberia voar. Havia então ao menos uma resposta.

"O jantar está na mesa." - A governanta anunciou com sua voz metálica carregada de desprezo. Detestava comer àquela hora, pensou, resignado.
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terça-feira, 1 de maio de 2007

Obrigado!

"Se eu pudesse deixar algum presente a você,
deixaria aceso o sentimento de amor à vida dos seres humanos.
A consciência de aprender tudo o que nos foi ensinado pelo tempo afora.
Lembraria os erros que foram cometidos, como sinais para que não mais se repetissem.
A capacidade de escolher novos rumos.
Deixaria para você, se pudesse, o respeito aquilo que é indispensável:
alem do pão, o trabalho e a ação.
E, quando tudo mais faltasse, para você eu deixaria, se pudesse, um segredo.
O de buscar no interior de si mesmo a resposta para encontrar a saída."
Mahatma Ghandi
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