segunda-feira, 30 de abril de 2007
domingo, 29 de abril de 2007
A vontade e o caos
A primeira vez que o vi foi há 13 anos, na época em que meu pai morreu e eu passei a ser correntista de um determinado banco. Quando ele entrava na agência sua presença era anunciada por um estardalhaço de metais retinindo ao ritmo marcado de suas passadas lentas e pesadas. O rapaz sofria creio que de pólio e usava para se manter de pé botas ortopédicas de solado alto e intrincadas armações de aço.
Os braços aparentemente tensos da concentração exigida pela marcha às vezes explodiam em movimentos descoordenados e o rosto se contraía em caretas cômicas porque não denotavam dor. Mas em seus olhos ardia uma fúria incompreensível aos que fingiam ignorá-lo para não transmitir a impressão de estranheza e embaraço que de fato sentíamos ao ver a tarefa ordinária de pagar uma conta elevar-se de repente à condição monumental do confronto entre o homem e seu destino.
A alegria e o orgulho que eu via naquele olhar furioso me contagiavam e encontrá-lo passou a me fazer um bem enorme. Porque a cada vez que o via, em ruas ou lojas, ele estava melhor, sempre melhor.
Não sei quanto tempo demorou até o dia que o vi já sem as botas ortopédicas. A movimentação frenética do corpo ainda era assustadora, embaraçosa ou comovente - segundo a generosidade de cada um - mas agora o embate entre a vontade e o caos insubmisso que nos habita acontecia livre, sem contrapesos e amarras metálicas.
Aos poucos, num tempo contado espaçadamente em anos, ele foi ganhando controle sobre o corpo até que os espasmos musculares mais pareciam tiques nervosos. Ele, enfim, dominara o mal, o enjaulara e lhe impusera uma forma humana, previsível.
Enquanto eu às vezes me comprazo entre a revolta e a autopiedade, me eximindo de toda iniciativa que me exponha ao risco, aquele homem aceitara como um dom a solidão que era sua e sobre os escombros de um corpo ergueu uma alma; tão grande, que vê-lo era para mim me nutrir. Não sei o seu nome, nunca nos falamos; mas devo também a ele um tanto do que de bom há em mim.
Fazia tempo que não nos víamos. Semana passada, eu vinha de bicicleta pela praia de Botafogo quando, de repente, cruzo com ele... de bicicleta! Sim, sim! De bicicleta! Isso significa que o domínio que ele alcançou sobre o corpo é agora absoluto!
Foi tudo muito rápido, mas tenho a impressão que ele me reconheceu e que seus olhos, agora despidos de toda fúria, me diziam: "Eu venci."
Os braços aparentemente tensos da concentração exigida pela marcha às vezes explodiam em movimentos descoordenados e o rosto se contraía em caretas cômicas porque não denotavam dor. Mas em seus olhos ardia uma fúria incompreensível aos que fingiam ignorá-lo para não transmitir a impressão de estranheza e embaraço que de fato sentíamos ao ver a tarefa ordinária de pagar uma conta elevar-se de repente à condição monumental do confronto entre o homem e seu destino.
A alegria e o orgulho que eu via naquele olhar furioso me contagiavam e encontrá-lo passou a me fazer um bem enorme. Porque a cada vez que o via, em ruas ou lojas, ele estava melhor, sempre melhor.
Não sei quanto tempo demorou até o dia que o vi já sem as botas ortopédicas. A movimentação frenética do corpo ainda era assustadora, embaraçosa ou comovente - segundo a generosidade de cada um - mas agora o embate entre a vontade e o caos insubmisso que nos habita acontecia livre, sem contrapesos e amarras metálicas.
Aos poucos, num tempo contado espaçadamente em anos, ele foi ganhando controle sobre o corpo até que os espasmos musculares mais pareciam tiques nervosos. Ele, enfim, dominara o mal, o enjaulara e lhe impusera uma forma humana, previsível.
Enquanto eu às vezes me comprazo entre a revolta e a autopiedade, me eximindo de toda iniciativa que me exponha ao risco, aquele homem aceitara como um dom a solidão que era sua e sobre os escombros de um corpo ergueu uma alma; tão grande, que vê-lo era para mim me nutrir. Não sei o seu nome, nunca nos falamos; mas devo também a ele um tanto do que de bom há em mim.
Fazia tempo que não nos víamos. Semana passada, eu vinha de bicicleta pela praia de Botafogo quando, de repente, cruzo com ele... de bicicleta! Sim, sim! De bicicleta! Isso significa que o domínio que ele alcançou sobre o corpo é agora absoluto!
Foi tudo muito rápido, mas tenho a impressão que ele me reconheceu e que seus olhos, agora despidos de toda fúria, me diziam: "Eu venci."
domingo, 22 de abril de 2007
De palavras e flores
Certas combinações de palavras são capazes de materializar rosas no ar, sugere a Cabala. Mas dizê-las teria agora o mesmo efeito de comprar as rosas no florista: tornar evidente um amor que ainda precisa ser discreto. Melhor então fazê-las de letras escritas no papel, crônica-buquê de palavras-rosas que trescalam mudas o que só o perfume-gesto é capaz de expressar de fato. Porque dizer é sempre tão fácil ou tão difícil, em face do gesto, verdadeiro até se involuntário.
Então, entre a fala e o gesto, a escrita se insinua, síntese desejada e possível, miúda eternidade dócil aos sentidos. E se os sentidos se atiçam, memória e imaginação inebriadas, logo se confundem e se descobrem um, como dois amantes. Que importa passado ou futuro se sempre só tivemos o presente? O tempo incerto dos amantes é o nosso tempo. Haverá outro?
Sim, há esse tempo que descobrimos pouco a pouco, presente que se alastra e nos enche de surpresa: rugas se dissipam, músculos se tornam mais elásticos, gozos se recriam mais intensos.
E de nós mesmos nos libertamos.
De "sim" e "mais" são as pétalas que forrarão nossa cama quando as palavras-flores desta crônica-buquê finalmente se desfizerem em gestos de verdadeira festa.
"Tudo é bom", "tudo é possível" serão as rosas-frases que restarão intactas para enfeitar nosso descanso.
Era pra ser a dedicatória em um livro cujo título guardarei segredo. Mas como sempre acontece quando se trata de nós, a coisa tomou um rumo inesperado - modo divertido de aprender a aceitação e a entrega.
Como se trata de nós, "em nenhum lugar se passa tão suavemente da realidade ao sonho". E no sonho tudo se encaixa melhor quando está fora do lugar. A dedicatória pode ser então as rosas que não estão no vaso.
Então, entre a fala e o gesto, a escrita se insinua, síntese desejada e possível, miúda eternidade dócil aos sentidos. E se os sentidos se atiçam, memória e imaginação inebriadas, logo se confundem e se descobrem um, como dois amantes. Que importa passado ou futuro se sempre só tivemos o presente? O tempo incerto dos amantes é o nosso tempo. Haverá outro?
Sim, há esse tempo que descobrimos pouco a pouco, presente que se alastra e nos enche de surpresa: rugas se dissipam, músculos se tornam mais elásticos, gozos se recriam mais intensos.
E de nós mesmos nos libertamos.
De "sim" e "mais" são as pétalas que forrarão nossa cama quando as palavras-flores desta crônica-buquê finalmente se desfizerem em gestos de verdadeira festa.
"Tudo é bom", "tudo é possível" serão as rosas-frases que restarão intactas para enfeitar nosso descanso.
* * *
Era pra ser a dedicatória em um livro cujo título guardarei segredo. Mas como sempre acontece quando se trata de nós, a coisa tomou um rumo inesperado - modo divertido de aprender a aceitação e a entrega.
Como se trata de nós, "em nenhum lugar se passa tão suavemente da realidade ao sonho". E no sonho tudo se encaixa melhor quando está fora do lugar. A dedicatória pode ser então as rosas que não estão no vaso.
sábado, 21 de abril de 2007
Sobre relacionamentos
Uma amiga jornalista me pediu para dar um depoimento numa matéria que está fazendo sobre relacionamentos. Antecipando-se a minha aversão a indiscrições, ela avisou que trocaria o nome e o local de origem para garantir meu anonimato.
Topei - para ajudá-la e por curiosidade também.
"Por que você sumiu de um relacionamento?". Era a pergunta única, seguida de alguns esclarecimentos. "Pode ser de uma ficante ou namorada. O que interessa é explicar o motivo. Por exemplo: "Ela era ruim de cama","Ela fumava", "Ela queria casar", etc."
Revi, como um afogado, rapidamente minha vida toda. Não, nunca sumi de um relacionamento. Todos os meus relacionamentos acabaram mesmo, aos poucos, sofridamente, com idas e vindas que anunciavam um fim que não chegava nunca.
Isso não me torna melhor ou pior do que ninguém. Acho igualmente nobre, perverso e fútil tanto aquele que sai para comprar cigarros e não volta mais, quanto quem se agarra desesperadamente a um amor morto, mas ainda morno.
De certo modo, até invejo os que são capazes de sumir, desaparecer no ar sem dar notícias. Digo "de certo modo" porque é a mesma inveja preguiçosa e sonsa que sinto de quem pega onda ou sabe ganhar dinheiro no mercado financeiro: não moverei uma palha para me tornar um igual.
Também nunca houve uma razão assim tão exata ou tão vulgar para que um relacionamento terminasse. Aliás, nenhum relacionamento acaba, mas vai se acabando pela soma de pequenas razões quase invisíveis, que vão se acumulando, acumulando - como a gordura num coração doente. Uma palavra aqui, outra ali; um gesto, uma ausência, um fato... Só de lembrar pode doer.
Por outro lado, quando se trata de "ex-possíveis relacionamentos", "ficantes" que melhor seriam definidas como "passantes", recorre-se com facilidade a argumentos simplórios para explicar um afastamento. Impossível elevá-los a condição de causa: são mera justificativa retórica, sem nenhuma densidade que se oferece aos outros.
Porque o não gostar é tão insondável quanto o gostar - só dói menos. Não fosse assim, terreno marcado por diferenças e constrastes inexplicáveis e ininteligíveis, se o amor fosse, enfim, sempre igualmente intenso e fácil, nem sequer existiria. Se desse no mesmo fazer sexo com qualquer pessoa, acabaríamos não fazendo sexo com ninguém. Porque o amor é essa busca do raro, do que está além. Sexo ou amor não os distingo: cada um faz sexo com o amor que tem, não pelo outro, mas dentro de si. Exatamente por isso ele é tão vário.
Então, para resumir: um relacionamento longo acaba em geral pelo ácumulo de incontáveis detalhes pequeníssimos ; e um relacionamento não anda por uma profunda antipatia que jamais se conseguirá explicar de fato.
Penso assim não ter respondido com minuciosa precisão a pergunta de minha amiga.
Topei - para ajudá-la e por curiosidade também.
"Por que você sumiu de um relacionamento?". Era a pergunta única, seguida de alguns esclarecimentos. "Pode ser de uma ficante ou namorada. O que interessa é explicar o motivo. Por exemplo: "Ela era ruim de cama","Ela fumava", "Ela queria casar", etc."
Revi, como um afogado, rapidamente minha vida toda. Não, nunca sumi de um relacionamento. Todos os meus relacionamentos acabaram mesmo, aos poucos, sofridamente, com idas e vindas que anunciavam um fim que não chegava nunca.
Isso não me torna melhor ou pior do que ninguém. Acho igualmente nobre, perverso e fútil tanto aquele que sai para comprar cigarros e não volta mais, quanto quem se agarra desesperadamente a um amor morto, mas ainda morno.
De certo modo, até invejo os que são capazes de sumir, desaparecer no ar sem dar notícias. Digo "de certo modo" porque é a mesma inveja preguiçosa e sonsa que sinto de quem pega onda ou sabe ganhar dinheiro no mercado financeiro: não moverei uma palha para me tornar um igual.
Também nunca houve uma razão assim tão exata ou tão vulgar para que um relacionamento terminasse. Aliás, nenhum relacionamento acaba, mas vai se acabando pela soma de pequenas razões quase invisíveis, que vão se acumulando, acumulando - como a gordura num coração doente. Uma palavra aqui, outra ali; um gesto, uma ausência, um fato... Só de lembrar pode doer.
Por outro lado, quando se trata de "ex-possíveis relacionamentos", "ficantes" que melhor seriam definidas como "passantes", recorre-se com facilidade a argumentos simplórios para explicar um afastamento. Impossível elevá-los a condição de causa: são mera justificativa retórica, sem nenhuma densidade que se oferece aos outros.
Porque o não gostar é tão insondável quanto o gostar - só dói menos. Não fosse assim, terreno marcado por diferenças e constrastes inexplicáveis e ininteligíveis, se o amor fosse, enfim, sempre igualmente intenso e fácil, nem sequer existiria. Se desse no mesmo fazer sexo com qualquer pessoa, acabaríamos não fazendo sexo com ninguém. Porque o amor é essa busca do raro, do que está além. Sexo ou amor não os distingo: cada um faz sexo com o amor que tem, não pelo outro, mas dentro de si. Exatamente por isso ele é tão vário.
Então, para resumir: um relacionamento longo acaba em geral pelo ácumulo de incontáveis detalhes pequeníssimos ; e um relacionamento não anda por uma profunda antipatia que jamais se conseguirá explicar de fato.
Penso assim não ter respondido com minuciosa precisão a pergunta de minha amiga.
domingo, 8 de abril de 2007
Utopia de um homem só
Existe uma hora certa para tudo. É simples: a hora certa é sempre agora. Sempre. Guarda bem isso, Antonio, para que não vaciles mais. Ou pior: não te precipites. Pois, se a hora certa é agora, não é preciso ter pressa.
Seja firme e discreto, discretíssimo: "A hora é agora!", você dirá em silêncio para si mesmo. E então terá começado o que um dia talvez aos outros parecerá um milagre. Nesse dia, não revelarás que os milagres acontecem, sim, mas muito, muito devagar (como já reparara Paulo Mendes Campos). E não será por modéstia que guardarás o segredo, mas por respeito à necessidade de ilusão que todos também carregamos enquanto não nos ocorre aprender que a hora certa é sempre agora e que só por isso não é preciso ter medo, nem pressa.
Aprender não como quem lê ou escreve uma crônica, pausa entre os muitos afazeres de um dia repleto de repetições, mas aprender no corpo, esse outro nome, tão esquecido, que a alma tem.
E se fores chão para essa idéia de que a hora é sempre agora, ela há de vicejar e espalhar raízes por todo teu corpo até se tornar uma árvore repleta de frutos e sombra vasta onde o tempo abolido virá descansar seus sonhos de morto.
Livre finalmente, corpo e alma reconciliados (como dois vizinhos que nunca antes haviam trocado mais do que saudações protocolares), à calma atenta que, presumo, te habitará então chamarás de felicidade.
Somente aqueles que te amam genuinamente perceberão a mudança e comungarão do teu corpo e de tua felicidade. Os outros seguirão crendo, quando muito, que, como todos, envelheces. É verdade, só não percebem o quanto de ironia há nisso...
Eis, enfim, a detalhada descrição da utopia que deve animar teus dias doravante, Antonio. Não há necessidade de mais palavras. Logo esta crônica cairá no esquecimento, como tudo mais. Mas se tu mesmo souberes cumprir o que agora escreves, profeta de si mesmo, já terá sido uma vitória: a hora certa é agora para os que aprendem a suportar a lentidão do milagre.
Seja firme e discreto, discretíssimo: "A hora é agora!", você dirá em silêncio para si mesmo. E então terá começado o que um dia talvez aos outros parecerá um milagre. Nesse dia, não revelarás que os milagres acontecem, sim, mas muito, muito devagar (como já reparara Paulo Mendes Campos). E não será por modéstia que guardarás o segredo, mas por respeito à necessidade de ilusão que todos também carregamos enquanto não nos ocorre aprender que a hora certa é sempre agora e que só por isso não é preciso ter medo, nem pressa.
Aprender não como quem lê ou escreve uma crônica, pausa entre os muitos afazeres de um dia repleto de repetições, mas aprender no corpo, esse outro nome, tão esquecido, que a alma tem.
E se fores chão para essa idéia de que a hora é sempre agora, ela há de vicejar e espalhar raízes por todo teu corpo até se tornar uma árvore repleta de frutos e sombra vasta onde o tempo abolido virá descansar seus sonhos de morto.
Livre finalmente, corpo e alma reconciliados (como dois vizinhos que nunca antes haviam trocado mais do que saudações protocolares), à calma atenta que, presumo, te habitará então chamarás de felicidade.
Somente aqueles que te amam genuinamente perceberão a mudança e comungarão do teu corpo e de tua felicidade. Os outros seguirão crendo, quando muito, que, como todos, envelheces. É verdade, só não percebem o quanto de ironia há nisso...
Eis, enfim, a detalhada descrição da utopia que deve animar teus dias doravante, Antonio. Não há necessidade de mais palavras. Logo esta crônica cairá no esquecimento, como tudo mais. Mas se tu mesmo souberes cumprir o que agora escreves, profeta de si mesmo, já terá sido uma vitória: a hora certa é agora para os que aprendem a suportar a lentidão do milagre.
domingo, 1 de abril de 2007
O altruísmo sonso
O tamanho do mundo, a quantidade de gente, a variedade das coisas. Tudo tão singular a ponto de quase exigir um nome. E, no entanto, simplíssimo: a matéria é a mesma e as formas seguem uns poucos padrões. É de abismar a beleza que disso resulta. A beleza e o mistério.
Então como pode a vida às vezes ser tão chata?
A lista de razões é imensa e quase todas são produto dos humores que animam os olhos de quem a vê. Mas é inegável que também ocorre de a razão da chatice ser os outros. E deles, reclamo menos do egoísmo do que do altruísmo sonso.
O egoísta eu posso entender - é meu igual. Seu egoísmo tão miudamente humano chega a ser singelo. Mas a que alturas celestiais se eleva alguém que imagina ter em mente a solução para os problemas do presente, a leitura correta do passado, a visão profética do futuro? O que tem na cabeça o sujeito que se acredita em condições de legislar sobre a vida de milhões de pessoas em nome sabe-se lá de que princípios, quando acontece de existir algum? Enfim, que imagem de si mesmo tem esse bípede, em tudo tão parecido com um homem qualquer, que diz desejar o poder com a única intenção de salvar o mundo, o país, a mim?
Dizem que o poder corrompe. Eu acho que o simples fato do sujeito desejar o poder já é sinal de uma alma corrompida. Machado de Assis, em Esaú e Jacó, um de seus melhores romances, diz que que não é a ocasião que faz o ladrão. A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito. O mesmo raciocínio vale para a corrupção e o poder: o poder oferece a ocasião; o corrupto já nasce feito. No máximo, ao chegar ao poder, se descobre finalmente impune para corromper e ser corrompido sem preocupação.
Chamei seu altruísmo de sonso. Terei sido injusto? Ou será que de fato o poderoso, num delírio de suprema vaidade, crê estar mesmo apto a cumprir as promessas que faz?
Para responder seria preciso esmiuçar a psicologia do poderoso. Ou deveria ter dito "do corrupto"? Afinal, no Brasil, já mal os distinguimos. Tenho mesmo a impressão que se o poderoso não roubar corre o risco de nem ser reeleito. Exemplos não faltam.
Não me ocorre nenhum livro que trate do tema, a psicologia do poderoso corrupto. Talvez porque em nenhum outro lugar o poder tenha roubado tanto. Atingimos no Brasil um patamar de corrupção inédito e originalíssimo; o repertório de meios e a galeria de tipos que podemos oferecer à pesquisa médica certamente nos garantirá um lugar privilegiado entre as nações.
Então como pode a vida às vezes ser tão chata?
A lista de razões é imensa e quase todas são produto dos humores que animam os olhos de quem a vê. Mas é inegável que também ocorre de a razão da chatice ser os outros. E deles, reclamo menos do egoísmo do que do altruísmo sonso.
O egoísta eu posso entender - é meu igual. Seu egoísmo tão miudamente humano chega a ser singelo. Mas a que alturas celestiais se eleva alguém que imagina ter em mente a solução para os problemas do presente, a leitura correta do passado, a visão profética do futuro? O que tem na cabeça o sujeito que se acredita em condições de legislar sobre a vida de milhões de pessoas em nome sabe-se lá de que princípios, quando acontece de existir algum? Enfim, que imagem de si mesmo tem esse bípede, em tudo tão parecido com um homem qualquer, que diz desejar o poder com a única intenção de salvar o mundo, o país, a mim?
Dizem que o poder corrompe. Eu acho que o simples fato do sujeito desejar o poder já é sinal de uma alma corrompida. Machado de Assis, em Esaú e Jacó, um de seus melhores romances, diz que que não é a ocasião que faz o ladrão. A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito. O mesmo raciocínio vale para a corrupção e o poder: o poder oferece a ocasião; o corrupto já nasce feito. No máximo, ao chegar ao poder, se descobre finalmente impune para corromper e ser corrompido sem preocupação.
Chamei seu altruísmo de sonso. Terei sido injusto? Ou será que de fato o poderoso, num delírio de suprema vaidade, crê estar mesmo apto a cumprir as promessas que faz?
Para responder seria preciso esmiuçar a psicologia do poderoso. Ou deveria ter dito "do corrupto"? Afinal, no Brasil, já mal os distinguimos. Tenho mesmo a impressão que se o poderoso não roubar corre o risco de nem ser reeleito. Exemplos não faltam.
Não me ocorre nenhum livro que trate do tema, a psicologia do poderoso corrupto. Talvez porque em nenhum outro lugar o poder tenha roubado tanto. Atingimos no Brasil um patamar de corrupção inédito e originalíssimo; o repertório de meios e a galeria de tipos que podemos oferecer à pesquisa médica certamente nos garantirá um lugar privilegiado entre as nações.
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