domingo, 25 de março de 2007

Antecipação de maio

"O tormento do corpo é a dor. O tormento da alma é o tempo."

As palavras me ocorrem enquanto medito. Imóvel na manhã silenciosa, sinto que a dor no corpo vai e vem no ritmo da minha ansiedade: "Quanto tempo ainda falta?" é o sentimento que a desperta. Quando aplaco a vontade de partir, a dor cessa de imediato.
Mas logo paradoxalmente a súbita paz torna-se às vezes insuportável. E então a ansiedade e a dor retornam: sou de novo eu, com meus horários e tarefas, irrisórios e inadiáveis.

"O tormento do corpo é a dor. O tormento da alma é o tempo."

Guardo as palavras. São versos que, de tão verdadeiros, me acalmam. Tão verdadeiros e belos como uma equação para o matemático. Saboreio seu ritmo e sonoridade ao mesmo tempo em que experimento diretamente a verdade que traduzem, perfeita síntese tão fácil de lembrar.

Queria fazer deles um poema - eles bem mereciam - e talvez venha a tentá-lo um dia. Mas não quero arriscar que por vaidade acabem esquecidos, não-compartilhados com os outros. Melhor soltá-los no ar, como passarinhos. Certamente irão alegrar a manhã de alguém, tão sonoros são, tão luminosos.

E que um poeta melhor os tome para si e faça deles a semente de onde nascerá o poema tão desejado. Não serão menos meus por isso.

Agora os versos já cumpriram a função mais necessária de me inundar de uma calma cheia de alegria. Não mais me esconder atrás da dor tem sido minha meta principal, ainda que talvez venha com certo atraso. "E daí?", me previno contra mais essa forma que a angústia do tempo aprendeu a tomar.

Paciência tem sido o meu remédio. Seu princípio ativo se resume na palavra "sim". E ainda que às vezes o remédio pareça me faltar, ao menos vou descobrindo que posso fazê-lo eu mesmo em casa, fechando os olhos e respirando com mais atenção e vagar, atento ao corpo, meu presente, o único que tenho e me dou.

"O tormento do corpo é a dor. O tormento da alma é o tempo."

Ter pensado essas palavras, poder prová-las e sabê-las em toda sua delícia, e agora doá-las, salvou meu dia. Faço sol, muito sol, e uma brisa leve: em mim hoje, só por hoje, já é maio.
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Ubuntu


Ubuntu é uma palavra africana que significa "Humanidade para todos" ou "Eu sou o que sou graças ao que todos nós somos". (Ubuntu is an African word meaning 'Humanity to others', or 'I am what I am because of who we all are'.)

Ubuntu é também a melhor e mais bonita distribuição Linux que eu conheço. clique

Para quem não tem o menor interesse em migrar para o Linux, a visita ao site da Fundação Ubuntu pode ser um perigo. Depois de ler sobre o projeto e ver a beleza do programa, a tentação de instalar é imediata.

Uma vez instalado o Ubuntu, a paixão é irremediável. As vantagens são muitas, além da beleza e funcionalidade. O sistema é gratuito, estável, facílimo de usar. A sensação de deixar de ser pirata é ótima! Melhor ainda é se sentir participando de um projeto belíssimo de inclusão digital.

"Uma tentativa de definição mais longa foi feita pelo Arcebispo Desmond Tutu:
Uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível aos outros, não-preocupada em julgar os outros como bons ou maus, e tem consciência de que faz parte de algo maior e que é tão diminuída quanto seus semelhantes que são diminuídos ou humilhados, torturados ou oprimidos."
clique para ler mais

A citação foi tirada do livro No Future Without Forgiveness, do arcebispo Desmond Tutu.

Há também um outro livro que parece bem interessante: Reconciliation: The Ubuntu Theology of Desmond Tutu, de Michael Battle.

É quase uma ironia que o autor de chame Battle, mas não é nada engraçado que no Brasil, um país ainda atormentado pela chaga da escravidão, nenhuma editora tenha se interessado em traduzir os livros.

Aliás, para finalizar, reproduzo uma frase que li no blog do Alon outro dia:

"A escravidão está na raiz da nossa desigualdade crônica, da nossa incapacidade de enxergar valor positivo na cultura do trabalho e da prosperidade, da nossa tendência ao desperdício, da nossa tolerância à brutalidade."
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Um lugar aonde ir

Durante toda a vida, sua beleza fora um fardo.

Um fardo que se tornara mais e mais pesado por sua recusa em usá-la como vantagem. Até tentara. Mas a sedução desde cedo lhe pareceu um recurso de comerciantes, uma inaceitável concessão à mentira, uma espécie de hipocrisia que indicava uma carência que nunca lhe pesara. Não a esse ponto. Agora, mais uma vez, essa recusa fora tomada como afronta, porque interrompia a roda milenar de poder e sofrimento que parecia dar densidade à vida.

O desejo que sua beleza provocava nunca lhe trouxera nada de bom. Podia sentir na boca a amargura que essas palavras lhe produziam. Não precisava se ver no espelho para saber que seus olhos imensos se apagavam só de pensá-las, mas ninguém os veria atrás dos óculos escuros. Eram sua discreta couraça cotidiana. Por isso não se importava de ter pago tão caro por eles: não os perderia nunca, tão necessários haviam se tornado.

A boca amarga e os olhos apagados não lhe diminuíam a vontade de viver que nunca lhe faltara. Eram dados que aceitava como aceitava o sol forte numa rua sem o refúgio de árvores e marquises. Tinha de continuar simplesmente. Havia alunos à espera e era preciso se apressar. Agarrava-se aos fatos com mais vigor e seguia em frente. Fé era a palavra.

Aprendera que quanto maior a dor, menor o vestígio que dela ficava na memória. Claro, ninguém esquece o fato de ter sentido dor, mas da dor propriamente não restava nunca registro - ao contrário do prazer que, se muito intenso, bastava depois apenas entregar-se à escuridão dos olhos fechados para lembrá-lo.

Era então, pensava, como se a dor não fizesse sentido. Como se a dor fosse a encarnação do absurdo. E, ainda que o absurdo espreitasse a existência, era precário como toda ilusão. Se não resistisse, se não julgasse, a dor passaria e dela não ficaria nenhum traço. No entanto, se perguntava, por que escolhiam a dor? "Antes a dor do que nada", ouviu-se pensar com uma voz que não era a sua. Antes o absurdo que nenhum sentido.

Não queria que fosse assim. Acreditava no amor e nos prazeres que dele decorriam. Já amara - perdidamente, mansamente - como todo mundo. E do amor, do amor carnal que une homens e mulheres, desse afinal não tinha queixas. Aprendera a nutrir-se dele e a refugiar-se nele - para criar sentidos? Talvez. Gostou da imagem: o amor era sua oficina. Ou biblioteca.

Agradeceu ter um amor aonde ir e seguiu ao encontro de seus alunos.
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quinta-feira, 15 de março de 2007

Aulas de islamismo para senhoras

Lição de hoje: a infibulação.

OBS: Não tente praticar em casa sem a orientação de especialistas.
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segunda-feira, 12 de março de 2007

Aos apóstolos e crentes do aquecimento global

"A grande fraude do aquecimento global

O Channel 4, do Reino Unido, exibiu, no dia 8 de Março de 2007, o documentário «The Great Global Warming Swindle». "

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domingo, 11 de março de 2007

O perigo de estar certo

No alto, a lua lentamente é engolida pelas sombras e, de branca, púrpura se faz: lua que de mansa torna-se sangrenta.

Também em mim convivem, não sem desalentado espanto, a compaixão e a crueldade. Ainda há pouco, quando a música alta parecia deslizar no ar parado de tão quente, quis matar quem invadia assim tão sem cerimônia a minha calma. Foi um ímpeto, uma sombra. E o calor ou essa lua marcial não serviriam de pretexto: a História e as cadeias estão cheias de assassinos que começaram assim, amparados pela certeza de que agiam com justiça. Depois, nem mais de motivo precisaram para continuar matando.

A lua é afinal mais previsível. Sei dos seus eclipses, das suas fases e efeitos. De mim, sei apenas do meu esforço para conter a fera cuja violência não é menos cruel só porque deixou de ser mortal.

Não basta não matar; é preciso não desejar matar. E só não desejar matar também já não é suficiente; é preciso renunciar a toda forma de arrogância e crueldade. Não por covardia ou complacência; não por algum cálculo jurídico ou moral. Mas para abrir caminho à generosidade e à compaixão.

É difícil, dificílimo. E o maior de todos os perigos é, num confronto, se saber certo, genuinamente certo. "Protegei-me, Senhor, do perigo de estar certo", é o que toda noite peço a Deus - porque a errar eu já aprendi faz algum tempo (o que não é pouco!). Aprendi que o erro às vezes até nos humaniza. Mas a certeza pode desumanizar aquele que a possui.

A lua, que há pouco parecia outra, de novo resplandece imensa. Eles continuam festejando, barulhentos. Nem sequer viram o eclipse.
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sábado, 10 de março de 2007

Tudo o que você precisa saber sobre o conflito entre israelenses e palestinos

"1-Os refugiados árabes, cerca de 725 000 pessoas, fugiram à frente da guerra desencadeada em 1948 pelos Estados Árabes vizinhos. Sem invasão árabe não só não haveria refugiados, como existiria desde 1948 um estado palestiniano na Margem Ocidental e em Gaza.

2- Após a vitória, Israel legislou (Haq el-Auda) no sentido de permitir o regresso dos árabes, desde que assinassem uma declaração de renúncia à violência e de assumpção da cidadania israelita. 150 000 árabes fizeram-no, juntando-se aos 170 000 que tinham ficado e que hoje são cerca de 1,4 milhões de cidadãos israelitas, com deputados, governantes, juízes no Supremo Tribunal, professores, militares,etc.

(...)

-Entre 1949 e 1954, como vingança pela derrota de 1948, 800 000 judeus foram expulsos do Iraque, Marrocos, Tunísia, Jordânia, Irão, etc, tendo sido despojados de tudo o que tinham. Muitos deles foram para Israel e integraram-se na sociedade, sem o apoio da ONU, sem choradinhos vitimizadores e sem exigência de "direito de regresso"
Não constam sequer no horizonte mental dos “apoiantes da causa palestiniana”."

Leia o resumo completo no excelente O Triunfo dos Porcos.
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Obtusidade meridional

"Durante a guerra fria, o antiamericanismo da esquerda latino-americana veiculava apenas a adesão a Moscou e ao "socialismo real". A queda do Muro de Berlim representou a perda de um programa, de uma visão de futuro e de uma referência geopolítica. Socialismo converteu-se em pouco mais que uma expressão vazia: no máximo, como acontece na Venezuela, algo a ser reinventado, uma moldura em busca de uma paisagem."

Demétrio Magnoli, no Jornal de Debates
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Coincidências tamanho G

Num post hilário, Reinaldo Azevedo lembrou a semelhança inegável de Lula com Zé Trindade.

Mas o que ninguém jamais poderia imaginar é que o descobridor do Ponto G, o médico alemão Ernst Gräfenberg, fosse a cara do Zé Trindade também!


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sexta-feira, 9 de março de 2007

De volta ao Fazendão

Por mais tentador que seja o "projeto etanol" é preciso ficar de olho ou voltamos a ser o "Grande Fazendão". A China está destruindo nossa indústria, o governo sangrando a classe média com impostos altíssimos, os banqueiros concentrando cada vez mais renda e a o Estado crescendo assutadoramente.

Seremos um país agrícola, "o celeiro do mundo", e turístico. Um Macunaíma gordo e sem grandes ambições, dividido em quatro classes: o capital monopolista e a burocracia vitalícia, que irão controlar a macroeconomia em moeda forte; a pequena burguesia acuada e os miseráveis profissionais, que farão o arremedo nativo da luta de classes sem fim, remunerados em bolívares ou algo semelhante. O Estado claro será neosocialista, com muito futebol, samba e fuzilamentos públicos.
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Ingenuidade nativa

Acho tola a interpretação que faz de Bush um mero esbirro da indústria do petróleo, defendida, por exemplo, pelo Ricardo Noblat.
Imaginar a complexíssima política externa da maior economia do mundo subordinada aos interesses exclusivos de uma indústria específica é coisa de nativos.
Só pra ser uma idéia, o PIB americano gira em torno de 13 trilhões de dólares, maior que a soma dos PIBs de Japão, Alemanha, China e Inglaterra.

Por outro lado, crer que essa mesma indústria poderosíssima não tem meios e recursos para sobreviver a uma "virada energética" que deve se estender por ao menos duas décadas também não parece razoável.

Na verdade, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é: o ônus de ser a maior economia do mundo não é pequeno. Do comércio com os EUA dependem direta ou indiretamente o resto do planeta, de Bin Laden e Chavez à China e Índia, passando por países tão díspares quanto México, Canadá, Iraque, Arabia Saudita e Israel. Mesmo a maior parte dos movimentos e pessoas que se opõem ao "império americano" vivem nos EUA e dependem dos finaciamentos das fundações e universidades americanas!

Eu acredito que o "projeto etanol" é o plano B americano. O plano A - que seria implantar uma democracia no Iraque e inundar o mercado de petróleo barato - não deu certo. Para azar exatamente dos nativos que gritam "Fora, Bush!" por aí.

O Plano B nos custará, para nós nativos, mais caro.
Mas é sobretudo o que os EUA mais precisavam no momento: uma causa.
1) Unifica o país em torno do "combate ao aquecimento global".
2) Retoca a imagem dos americanos no mundo.
3) Mantém o país na vanguarda tenológica.
4) Esvazia politica e economicamente os "inimigos" mais imediatos dos EUA: Rússia, Irã e Venezuela.
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quinta-feira, 8 de março de 2007

Matemática ideológica

É absurdo que dois veículos do mesmo grupo, G1 e Globo Online, um estime em "mais de dez mil pessoas" e o outro em "pelo menos seis mil pessoas" o número de manifestantes em SP.

O mínimo que espera de um Grupo de Comunicação é coerência de informação e anaálise. Não é possível e chega mesmo a ser ridículo que, por exemplo, a versão online do jornal O Globo seja chavista (a ponto de omitir as críticas de Chavez e Fidel ao uso do etanol), enquanto a versão impressa, que é o veículo principal, aquele que tem de fato assinantes, tenha uma abordagem mais equilibrada.
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Dos perigos do baseball

O Jornal de Debates lançou a seguinte pergunta:
"Visita de Bush: jogo dos americanos interessa?"

Ao que eu prontamente respondi, imbuído do mais profundo espírito nacionalista:

"Claro que não! O baseball é um perigo. Vejam o exemplo de Cuba. Fidel está no poder há 49 anos e até hoje não conseguiu acabar com esse jogo imperialista. E olhem que Fidel conseguiu acabar com tudo em Cuba: acabou com a agricultura, a indústria, a arte, a música, a cultura. Só não conseguiu acabar com baseball.

Pior, segundo a revista Forbes, Fidel já foi flagrado várias vezes praticando baseball às escondidas, vestido igualzinho a um imperialista ianque.


O Celso Amorim não pode de jeito nenhum aceitar o jogo americano. A única coisa, aliás, que o chanceler precisa fazer imediatamente é mudar o penteado."
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segunda-feira, 5 de março de 2007

Pedras, poemas e pardais

De súbito, percebo movimento na janela do quarto: há um pardal pousado no parapeito. Parece aproveitar a sombra da persiana para descansar do calor que faz lá fora.

Fico quieto e em silêncio: na árida geografia desta casa, onde há livros demais e vivos de menos (na verdade,de moradores regulares somos eu e as formigas), todas as visitas são bem-vindas. E em nossa mitologia, pássaros pousados na janela são sinais de fortuna e boa sorte.

Fico vendo: simpatizo com a nervosa perplexidade dos pássaros, sempre prestes a partir, movidos sabe-se lá por que pressas ou que medos.

Penso que uma crônica deveria ser como um pardal pousado na janela: breve, inesperada e desimportante. Bem, se não toda crônica, esta, ao menos, podia ter a leveza de um pardal pousado na janela. Faria o leitor eventual parar um instante, e nem exatamente refletir, mas admirar-se, tomado de uma surpresa alegre e esquecível, como quem acha uma foto desbotada na gaveta ou, vá lá, vê um pardal pousado na janela.

Mas, será o calor ou essa lua quase cheia ou que outra coisa insondável que me andará pela alma, hoje as palavras parecem não ter asas, duras e mudas como pedras.

Ora, pedras! Os japoneses fazem jardins com elas!

Então ficamos assim, leitor: se esta crônica não pode ser um pardal pousado na janela, será um jardim de pedras. Austera e econômica como o célebre poema de Drummond:

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida das minhas retinas tão fatigadas.
Nunca esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."

Bom reler esse poema de Drummond e agora deixá-lo bem aqui, no meio do caminho, como uma pedra - e tão inesperada como um pardal pousado na janela.

Bom saber que mesmo no mais pobre dos dias sempre haverá um pardal, uma pedra ou um poema alheio que me ampare. E a crônica não faltará ao dever de estar aí, pausa e sombra para os olhos cansados.
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sexta-feira, 2 de março de 2007

Fidel, Chavez e o aquecimento global

Matéria publicada em O Globo e estranhamente ignorada em O Globo online:

"O presidente de Cuba, Fidel Castro, endossou as críticas do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao uso do etanol como alternativa aos combustíveis fósseis.

Castro, afastado do poder desde agosto do ano passado, conversou com Chávez, na terça-feira, no programa de rádio do presidente venezuelano.

— A idéia de plantar alimentos para produzir combustível é trágica, é dramática.

Por isso, felicito o presidente Chávez por criticar o etanol como combustível alternativo ao petróleo, principalmente por causa do impacto que isso pode ter sobre o preço dos alimentos — disse Fidel, ao ser indagado por Chávez sobre o que achava do etanol.

A produção do etanol é uma das grandes alternativas apresentadas pelo Brasil para a questão energética e será alvo de acordo de cooperação entre Washington e Brasília. A Venezuela, no entanto, que tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, tem feito campanhas sistemáticas contra o uso do combustível. Os canais de TV controlados pelo governo exibem programas sobre o tema, afirmando que a produção do etanol pode produzir um grande impacto no preço da cana-de-açúcar e do milho, afetando principalmente as classes mais pobres.

— Agradeço a Fidel por dar sua importante opinião sobre o etanol. É preciso esclarecer o quanto a substituição do petróleo por esse combustível pode ser ruim, principalmente para a população mais pobre — disse Chávez."

* * *

Como se vê, a tese do aquecimento global, que agora encontrou seu "paladino americano" na figura oportunista de Al Gore, vai dividir espetacularmente as esquerdas.

Hoje os principais opositores dos EUA e da democracia ocidental estão também entre os maiores produtores de petróleo: Rússia, Irã e Venezuela.

O "plano A" americano, tocado por Bush, tinha um viés francamente popular pois se baseava num raciocínio quase simplório: 1) instalar uma democracia no Iraque, estabilizando a situação política na região; 2) regularizar a oferta de petróleo, barateando os preços (o petróleo iraquiano é de altíssima qualidade e de fácil extração); 3) favorecer uma rápida expansão do industrialismo nos países em desenvolvimento para só então passar à etapa de substituição das fontes de energia.

Como já é sabido, o "plano A" não deu certo. Por inúmeras razões, os países desenvolvidos se recusaram a aderir e os países em desenvolvimento, insuflados por uma esquerda burra e/ou mal-intencionada (a matéria acima o demonstra claramente), se colocaram contra o "Império".

Entrou então no ar o "plano B". Sob o pretexto falacioso do "aquecimento global", os EUA agora já admitem cortar o consumo de petróleo em 30% nos próximos dez anos. Alguém aí duvida que consigam? Tudo que os americanos precisam é de uma causa que 1) unifique o país; 2) o reconcile com o restante do mundo e 3) o mantenha na vanguarda tecnológica.

Como o mundo industrial não pode parar, a alternativa primeira é substituir o petróleo por etanol e biodiesel. O custo dessa troca, por ironia, será mais pesado exatamente para aqueles que mais se opuseram à "solução iraquiana": os mais pobres - pessoas e países.

Porque a primeira consequência e a mais óbvia já começou a se fazer sentir: o preço dos alimentos está subindo vertiginosamente. O milho, de onde os americanos extraem o etanol, já está mais caro tanto nos EUA quanto no México. Resultado: alta no preço das tortillas, no México e crise no mercado aviário americano, porque a troca de soja por milho, fez subir excessivamente o custo da ração.
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quinta-feira, 1 de março de 2007

Revolta fiscal já!

Compare os dois textos extraídos de O Globo, 01/03/07:

"Carga tributária atingiu 38,80% do PIB, diz IBPT

A carga tributária brasileira atingiu 38,80% do PIB em 2006, com crescimento de 0,98 ponto percentual em relação a 2005, quando alcançou 37,82%. Os cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário ((IBPT).

Os dados são baseados no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro que cresceu 2,9% em 2006, segundo o IBGE. De acordo com Gilberto Amaral, presidente do IBPT, cada brasileiro pagou de tributos em média R$ 4.434,68 em 2006, ou seja R$ 447,23 a mais que em 2005.

O total da arrecadação tributária nos três níveis foi de R$ 815,07 bilhões em 2006, ante R$ 732,87 bilhões do ano anterior. Só de tributos federais o valor chegou a R$ 569,78 bilhões em 2006, em comparação aos R$ 514,42 bilhões em 2005. Os tributos estaduais no total foram de R$ 201,69 bilhões em 2006, em relação aos R$ 187,87 bilhões em 2005. Já quanto aos tributos municipais, o valor de arrecadação foi de R$ 33,59 bilhões em 2006, ante R$ 30,57 bilhões em 2005.

"Não há dúvida que o excesso de tributação retira o poder de compra dos salários ao mesmo tempo em que aumenta o preço final das mercadorias e serviços. Isto retrai o consumo, afasta investimentos produtivos e dificulta a geração de empregos formais", diz Amaral em nota."

* * *

"Carta-bomba

A Receita informa: tenho 48 horas para pagar R$ 11.448,22

(...) A Receita Federal me dava 48 horas para pagar R$ 11.448,22. E acrescentava, numa letra minúscula que só consegui ler de puro pavor: "Caso (o débito) não seja pago ou parcelado será ajuizada a competente ação de execução fiscal, o que resultará na penhora de bens e conseqüente alienação em leilão".

Pergunto: quem tem quase 12 mil reais só assim, sobrando, para pagar à Receita? Digo, quem cidadão de bem, não-sanguessuga ou mensaleiro?! Já nem vou entrar pela questão político-filosófica que vem embutida numa cacetada dessas -- por quê tenho que pagar tudo isso, além do que já pago todos os meses?! Por quê tenho que trabalhar a metade do ano para sustentar maracutaias, valeriodutos e corruptos de maior ou menor porte?! Independentemente disso tudo, que não é pouco: de onde se tiram 12 mil reais de um dia para o outro, quando não se tem poupança, investimentos, carro ou amigos generosos como, digamos, um Paulo Okamoto?! (...)"

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