quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Para ler e guardar: vida de artista

"Pode não sobrar talento, mas falta vergonha

Quase deixo passar uma reportagem muito interessante, de Jotabê Medeiros, que está no Caderno 2 do Estadão de hoje. É a cara do Brasil. Lembram-se outro dia que pedi aqui o fim das leis de incentivo à cultura? Foi quando eu me disse contrário a qualquer tipo de incentivo, seja para produzir feijão, TV digital, teatro ou música. Pois bem... Sabem quem é que conseguiu autorização do governo federal para captar incentivos? Ninguém menos que Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ana Carolina, Beth Carvalho, Daniela Mercury... Isso mesmo, leitor amigo. Se você tiver a “mala” sorte de ir ao show de um desses bacanas, estará pagando por ele duas vezes. Se você, como eu, fica longe desse cálice, paga apenas uma. O que é a Lei Rouanet? É renúncia fiscal. A empresa dá dinheiro a estes pobrezinhos, para que façam suas turnês, e depois descontam o valor correspondente do Imposto de Renda. Em suma: nós pagamos.

Como diria a ministra Dilma Rousseff, trata-se de “dinheiro público na veia”. E os ingressos são mais baratos? Os socialistas morenos conseguem assistir aos shows que patrocinam sem saber? Não. Os ingressos variam de R$ 40 a R$ 140.

Vejam estes números: “Para fazer sua turnê por Rio e São Paulo, Ana Carolina requisitou R$ 843 mil à Lei Rouanet, e conseguiu captar R$ 700 mil. Os ingressos para o seu show custavam em média R$ 120. Ana Carolina não é um caso solitário na MPB. Daniela Mercury levantou R$ 814 mil da Lei Rouanet para fazer 12 apresentações. O show Brasileirinho 2, de Maria Bethânia, pediu R$ 1 milhão, e já conseguiu captar R$ 300 mil. A turnê percorre 27 cidades. Beth Carvalho festejou seus 60 anos com uma festa no Teatro Castro Alves, de Salvador, com diversos artistas convidados e na qual gravou um DVD e um CD comemorativos. Para tanto, pediu R$ 1,6 milhão e conseguiu captar R$ 1,3 milhão pelo sistema de renúncia fiscal.” Fiquei sabendo que Beth Carvalho ainda canta. E encanta doadores de verba... pública!

A cada vez que Ana Carolina manda ver no palco versos como “Eu vou de escada/ para elevar a dor” (não sei se perceberam a picardia vocabular), nós estamos pagando por isso. Sabem aqueles vibratos sensuais de Caetano Veloso, que provam sua sensibilidade além-do-homem? Então, custa-nos algum dinheiro. Se Beth Carvalho ameaça o público com os versinhos de destruição em massa de Andança (“Na mão direita a rooooooooooosa”), nós é que estamos pagando pela lambança sonora.

A reportagem informa: “Todo ano, decai um pouco mais o mercado de música no Brasil. Segundo relatório da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), no primeiro semestre de 2006 as vendas de CDs caíram 6,74% em valores totais (e 52% dos discos vendidos são piratas). Em 2005, 3 milhões de brasileiros baixaram música da internet sem pagar por ela.”
Que coisa, não? Aos destituídos de nosso pobre capitalismo, Bolsa Família. Aos artistas, vítimas da pirataria, Bolsa-Apartamento com vista pro mar. E todos eles, é claro, amam o povo e são contra as injustiças sociais."

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Novelas ou versos

"Eu, que outrora quisera ser tantos,
vejo agora que só poderia ser eu.
Sim, eu sou eu, minuciosamente.
Desde o início, eu.
Em cada hesitação, em cada vileza, em cada valentia, eu.
Em cada raro gesto de grandeza
Ou em cada gesto tão comum de mesquinharia, eu.
Em cada vacilante não e em cada enviesado sim, eu.
Eu: único, universal, ínfimo.
Eu: mera duração cujo sentido ainda me ultrapassa o entendimento:
Por que simplesmente não me esqueço
E amanheço outro?
Por que não desapareço?
Por quê? E, sobretudo, para quê?
Há muito mais mistério em que eu persista,
Insistência essencial que parece ignorar o tempo."

* * *

Lá fora, centenas de outras janelas pulsam iguais, ao ritmo das cenas da novela das nove, enquanto aqui, à meia-luz do monitor, eu, sempre eu, esboço estes versos e me pergunto onde haverá mais ilusão: em novelas ou versos?

A intuição me diz - ou será a vaidade? - que há nos versos mais clareza e que é mais nobre quem se embrenha na solidão de lê-los e fazê-los. Mas, sim, concordaríamos todos - amantes de versos ou novelas, não importa - que a sabedoria está no gesto e não na voz; que o tamanho do pecado se mede pela distância que separa o que se diz e o que se faz.

Então, se é assim, mais perto do mal estará quem se aproxima da luz do que aquele que se deixa acostumar com as sombras.

Versos ou novelas: se algum lugar há para se chegar - e sempre haverá para quem busca - o caminho passa pelo coração mais do que pela mente. Porque a compaixão indica que bem e mal se entrelaçam sempre: aquele que nos rouba, só nos enriquece. Tampouco haverá descanso ou consolo: a morte não existe.
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domingo, 28 de janeiro de 2007

Notas de filosofia: sobre a ética 2

Falava sobre a compaixão como fundamento da moral.
(Repito: neste momento não destingo entre ética e moral, trato-as como sinônimas)

Lembrei do lema da revolução francesa: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
Ou seja: só a fraternidade é capaz de conciliar idéias absolutamente opostas como liberdade e igualdade.
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sábado, 27 de janeiro de 2007

Notas de filosofia: sobre a cognição

Assistindo a um documentário sobre as emoções, feito pela BBC, percebo o que me parece um cacoete intelectual: a redução dos raciocínios a um esquema binário de cuja tensão redunda um terceiro elemento conclusivo. Ou seja: o velho esquema hegeliano tese, antítese e síntese.
No caso do documentário, partia-se da antiquada oposição razão x emoção (abolida por Descartes e retomada por Kant) e se buscava uma causa das emoções.

Romanticamente, a apresentadora julgava que as emoções extremas eram o caminho mais eficaz para se entender as emoções, porque seriam os momentos em que "perdemos a cabeça", em que a razão é sobrepujada pelas emoções.

Mas será isso verdade? Ou ao contrário, o que experimentamos como emoção será uma aceleração da razão, por exemplo?

Neste momento, importa mais "denunciar" o esquema adotado por ela do que propor um novo.
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Notas de filosofia: sobre a ética

O fundamento da ética (ou da moral, não destingo os termos) é a compaixão.
Ou vige a lei do mais forte ou uma "ética de resultados" onde o cálculo de cada ação se baseia na relação entre risco e benefício.

A meditação favorece a compaixão porque permite experimentar diretamente ou constatar a verdade da afirmação "Tudo é um".

Uma definição de compaixão: amor desinteressado.
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

A solidão selvagem

Pingos de chuva estalam esparsos no parapeito da janela: são os passos do animal noturno que às vezes ronda, me ameaçando o sono. Solidão é o nome desse animal terrível.

Não é a solidão do artista, a solidão do homem que lê, que escreve e que pensa. Não é a solidão do homem que medita ou que reza. Não é, enfim, solidão humana e nobre. É solidão mais ancestral e bruta, aquela que ameaça devorar os pés das crianças quando nas noites frias eles escapam das cobertas - e que só a mão dada das mães é capaz de afugentar.

Solidão selvagem, tão antiga quanto o mundo, que se alimenta do silêncio empedrado dos insones, dos que carregam pela vida o medo do escuro, do passado e do futuro.

Meio ave, meio réptil (posso ouvir o som metálico de seus passos no parapeito da janela, do outro lado da persiana fechada) ela se nutre do medo e faz seu ninho embaixo das camas dos adultos e das crianças.

Por isso, não é de estranhar que essa solidão medonha tenha vida mais confortável nas casas de família do que entre aqueles que vivem sozinhos.
Há mais camas nas casas de família. E há mais medo, quase sempre.

Mas, sim, também acontece entre os mais solitários, dessa solidão tão apavorante ser muitas vezes recebida como amiga, uma velha amiga de infância. E se já não lhe podem mais alimentar de medo genuíno, lhe oferecem o pão duro do ressentimento embebido em ironia. E assim a apascentam e engordam, lhe aparam as garras e lhe deixam as penas negras mais macias e reluzentes.

Há mesmo quem depois ganhe dinheiro expondo essa solidão domesticada à apreciação do público curioso de emoções. Quem já lhes testemunhou os recitais, conta que algumas chegam a desenvolver belíssima voz capaz de declamar versos comoventes até as lagrimas.

E como choram os filhos de família (e todos os seus) ao ouvir o canto da solidão domesticada! As almas ressentidas, vivas e mortas, resignadas ou vingativas, se ajuntam para ouvi-la e assim, de tão enternecidas, chegam a se sentirem irmãs.

Mas o que quer de mim essa solidão lá fora, à espreita? Será que sabe que não entrará? Mas talvez presuma que me faltará coragem para enxotá-la da janela com esse tempo chuvoso. Nem eu nem ela sabemos se é por compaixão ou medo que me mantenho imóvel na escuridão, os pés bem guardados debaixo do lençol.

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A democracia totalitária

Denis Lerrer Rosenfield

A América Latina está adotando um rumo que retoma as experiências socialistas do século XX. A única novidade consiste no ressurgimento da tentação totalitária, nada tendo a ver com o que alguns chamam de resgate da utopia. A realização da utopia se consubstanciou no totalitarismo. A diplomacia brasileira, por sua vez, está dando uma importante contribuição à confusão reinante ao velar o que está acontecendo naqueles países, como se, neles, a democracia estivesse sendo respeitada.

A imagem de Evo Morales de mãos dadas com o presidente da teocracia iraniana, Mahmoud Ahmadinejad, mostra o quanto a tentação totalitária está ganhando uma amplitude global. O representante de um regime teocrático, que chega a negar a ocorrência do Holocausto, que exerce um controle absoluto de sua população, se torna um convidado especial e, inclusive, um homem “justo” nas palavras de Chávez. Rafael Correa, do Equador, segue os passos do líder máximo venezuelano. Os vários tipos de tentações autoritárias e totalitárias parecem confluir num mesmo sumidouro que se alça à condição de realização de um sonho. A degradação da esquerda chega a tal ponto que inclusive um regime como o iraniano, de corte fascista, é considerado de esquerda.

Devemos evitar o equívoco de considerar o que está ocorrendo nessas regiões da América Latina como se fosse um mero ressurgimento do populismo.

Notemos que o presidente Kirchner, que adota uma via populista, não compareceu à posse do presidente do Equador, entre outras razões, pela presença do presidente Mahmoud Ahmadinejad, visto a experiência argentina com o terrorismo iraniano. O fenômeno em curso é diferente, pois se trata do projeto marxista de estabelecimento de uma sociedade socialista, dita “socialismo do século XXI”. O que, sim, se pode dizer é que o projeto socialista se utiliza da tradição populista vigente.

A tradição marxista tem dois grandes modelos: a via leninista e a via gramsciana, a primeira também dita oriental e a segunda ocidental. A primeira emprega a violência revolucionária mediante a sublevação popularpartidária, destruindo imediatamente as instituições vigentes, estabelecendo um regime de partido único e abolindo a propriedade privada, o estado de direito e a economia de mercado. A estatização dos meios de produção — e da sociedade — torna-se o seu objetivo primeiro. A segunda se apropria das instituições democráticas e faz aparentemente o jogo do estado de direito, mantendo, num primeiro momento, alguns setores econômicos sob a economia de mercado, embora altamente controlada. Num segundo momento, envereda para a estatização de setores ditos “estratégicos”.

Chávez, por exemplo, está claramente eliminando a democracia por intermédio: a) da submissão do Judiciário; b) do Parlamento que se torna órgão auxiliar do Executivo, pois o ditadorpresidente passará a legislar por decreto; ele é ungido à posição de um senhor que tudo sabe, não precisando consultar ninguém; c) do fechamento de uma rede de televisão, anunciando o que fará com a liberdade de imprensa; d) de assegurar a sua vitaliciedade no poder mediante o mecanismo da reeleição indefinida, assumindo a posição que era a dos secretários dos ex-partidos comunistas, como Stálin, Mao ou Fidel; e) da criação de um partido único de esquerda, prenúncio de um único partido futuro.

Digna de nota é a repetição em todos esses países de criação de Assembléias Constituintes, que têm como objetivo estabelecer uma relação direta do líder máximo com as massas, controlando o que se torna um pseudomecanismo parlamentar.

Em nome de uma suposta “soberania popular”, esses líderes caminham para abolir a representação política e as liberdades democráticas em geral.

Utilizam uma instituição democrática para suprimir a própria democracia.

O governo Lula e o PT não são imunes a essa tentação. Todas as tendências petistas sempre defenderam o governo Chávez e algumas claramente o erigiram em modelo. O assessor especial da Presidência e ex-presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, chegou a declarar que o golpe chavista da reeleição indefinida e outras medidas tomadas naquele país constituíam um “aprofundamento da democracia”.

Faltou acrescentar: “da democracia totalitária”.

Publicado em O Globo, 22/01/ 07
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Singularidade e desordem

Vinha caminhando na estação do metrô reparando nas placas de mármore do chão. Não há uma igual a outra! "São como ideogramas", foi a primeira coisa que pensei. Cada placa é como que um universo à parte, um "infinito fechado" - conceito que uso com sentido pessoal um tanto vago e literal, muito próximo da idéia que intuo no conceito de "sem fundo" de Jacob Boheme.

Uma mente mais "iluminista" (subcartesiana, eu diria) veria nisso desordem. Ou seja: onde eu vejo singularidade, ela veria desordem.

Em contraste, os degraus da escada rolante, todos rigorosamente iguais em aparência, seriam a típica representação de ordem. Ou seja: onde essa outra mente veria ordem, eu vejo apenas repetição.

No entanto, não me iludo: a "repetição" é apenas um desenvolvimento da lei natural da inércia ou leia do menor esforço. Cada ser singular e finito quer apenas uma coisa (exatamente porque é singular e finito) : durar o máximo possível. Para isso é preciso criar uma "economia" baseada no princípio simples: "o máximo rendimento com o mínimo de esforço".

Nesse sentido, portanto, a indústria é perfeitamente natural. Aliás, repete fielmente o modelo platônico do mundo das idéias que servem literamente de fôrma para todos os objetos mundanos. Todos os cavalos reais são simulacros (ou repetições) de uma idéia ideal de cavalo.
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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A origem do Universo

"O universo inteiro foi criado pela Vontade de Deus. Deus cria o universo e o sustenta. No final, o universo funde-se em Deus, a fonte de sua origem. O universo, que se originou da Vontade Divina, é conhecido como Vishwam. O significado correto de Vishwam é aquele que é auto-expansivo e pleno de bem-aventurança.

O universo não é meramente uma manifestação da matéria física; ele é uma manifestação direta de Deus. Ele é a própria encarnação da Personalidade Cósmica, com todos os Seus membros. Deus é a causa primária por trás do universo. O universo é o reflexo de Deus. O universo e Deus não são diferentes um do outro. O universo é a própria forma de Deus. A criação inteira constitui os vários membros de Deus. O universo simboliza a natureza expansiva de Deus, que pode ser entendida somente através da discriminação."

Sathya Sai Baba

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domingo, 14 de janeiro de 2007

Meditação

Meditação é muito mais que um exercício de relaxamento. Neurocientistas constatam que exercícios mentais regulares modificam nossas células cinzentas - e, portanto, também nosso modo de pensar e sentir. ( Ulrich Kraft)

Vermelho, amarelo, verde. Diante das diferentes cores nas imagens de ressonância magnética funcional, Richard Davidson identifica as regiões do cérebro de seu voluntário que apresentam atividade significativa enquanto este tenta conduzir a própria mente ao estado conhecido como "compaixão incondicional". O tubo estreito do barulhento tomógrafo de ressonância magnética está, com certeza, entre os locais mais estranhos nos quais Matthieu Ricard já praticou essa forma de meditação, central na doutrina budista, nos seus mais de 30 anos de experiência.

Para o francês, o papel de cobaia no laboratório de Davidson, na Universidade de Wisconsin, em Madison, é também uma viagem ao passado - a seu passado como cientista. Em 1972, aos 26 anos, Ricard obteve seu doutorado em Biologia Molecular no renomado Instituto Pasteur, de Paris. Pesquisador iniciante, com futuro promissor pela frente, decidiu-se pela "ciência contemplativa". Viajou, então, para o Himalaia e passou a dedicar a vida ao budismo tibetano. Hoje, é monge do mosteiro Schechen, em Katmandu, escritor, fotógrafo e, na condição de tradutor, integrante do círculo mais próximo ao Dalai Lama. Ricard, no entanto, retornou à "ciência racional" porque Davidson queria saber que vestígios a meditação deixa no cérebro.

Sem o Dalai Lama, é provável que a insólita colaboração entre o neuropsicólogo e o monge jamais tivesse acontecido. Há cinco anos, ao lado de outros pesquisadores, Davidson visitou o chefe espiritual do budismo tibetano em Dharmsala, local de seu exílio na Índia. Lá, discutiram animadamente as descobertas neurocientíficas mais recentes e, em particular, como surgem as emoções negativas no cérebro. Raiva, irritação, ódio, inveja, ciúme - para muitos budistas praticantes, essas são palavras desconhecidas. Eles enfrentam com serenidade e satisfação até mesmo o lado ruim da vida. "A meta suprema da meditação consiste em cultivar as qualidades humanas positivas. Então, vimos isso como algo que precisaríamos investigar com o auxílio das ferramentas modernas da ciência", conta Davidson.

Ele foi pioneiro nessa área, mas nomes importantes da pesquisa cerebral seguiram seus passos. Com auxílio da medição das ondas cerebrais e dos procedimentos de diagnóstico por imagem, os cientistas buscam descobrir o que nosso órgão do pensamento faz enquanto mergulhamos em contemplação interior. E os esforços já deram frutos. Os resultados dessa pesquisa high-tech, no entanto, dificilmente surpreenderiam o Dalai Lama, uma vez que não fazem senão comprovar o que os budistas praticantes vêm dizendo há 2.500 anos: a meditação e a disciplina mental conduzem a modificações fundamentais na sede do nosso espírito.

No início da década de 90, seria muito difícil que algum pesquisador sério ousasse fazer tal afirmação publicamente. Afinal, uma das leis fundamentais das neurociências dizia que as conexões entre as células nervosas do cérebro estabelecem-se na infância e mantêm-se inalteradas até o fim da vida. Hoje se sabe que tanto a estrutura quanto o funcionamento de nossa massa cinzenta podem se modificar até a idade avançada. Quando alguém se exercita ao piano, além do fortalecimento dos circuitos neuronais envolvidos, novas conexões são criadas, aumentando a destreza dos dedos. O efeito produzido pelo treinamento é algo que devemos à chamada plasticidade cerebral. Em sua curta história, essa plasticidade já foi examinada sobretudo no contexto dos exercícios físicos e dos sinais provenientes do exterior, como os ruídos, por exemplo.

Campeões da mente

Pesquisador das emoções, porém, Davidson queria saber se atividades puramente mentais também poderiam modificar o cérebro e, em caso afirmativo, de que forma isso atuaria sobre o estado de espírito e a vida emocional de uma pessoa. Os budistas vêem sua doutrina como uma "ciência da mente", e a meditação, como meio de treinar a mente. Para Davidson, era natural buscar respostas com esses "campeões olímpicos do trabalho mental".

Seu primeiro voluntário, um abade de um mosteiro indiano, trazia na bagagem mais de 10 mil horas de meditação e, uma vez no laboratório, logo causou surpresa. Seu córtex frontal esquerdo - porção do córtex cerebral localizada atrás da testa - revelou-se muito mais ativo que o de outras 150 pessoas sem experiência de meditação, estudadas a título de comparação. Como já havia constatado, tal padrão de excitabilidade sinaliza bom estado de espírito - um "estilo emocional positivo", nas palavras de Davidson. Decisiva é aí a relação entre a atividade nos lobos frontais esquerdo e direito.

Nas pessoas mais infelizes e pessimistas, o predomínio é do lado direito - em casos extremos, elas sofrem de depressão. Tipos otimistas, ao contrário, que atravessam a vida com um sorriso nos lábios, têm o córtex frontal esquerdo mais ativo. Experimentos mostraram que essas pessoas superam com mais rapidez emoções negativas, como as que necessariamente resultam, por exemplo, da contemplação das fotos de uma catástrofe. Fica evidente que essa região cerebral mantém sob controle os sentimentos "ruins" e, dessa forma, talvez responda também pelo equilíbrio mais feliz e pela paz de espírito que caracteriza tantos budistas.

A fim de comprovar essa suposição, Davidson continuou testando mais monges e, dentre eles, Matthieu Ricard. Com todos, o resultado foi o mesmo. "A felicidade é uma habilidade que se pode aprender, tanto quanto um esporte ou um instrumento musical", concluiu o pesquisador. "Quem pratica fica cada vez melhor".

De imediato, choveram críticas: como podia ele saber, afinal, se aqueles mestres da meditação já não possuíam cérebro "feliz" antes mesmo de pisar num mosteiro? A objeção não poderia ser descartada assim, sem mais. Por isso mesmo, seu grupo lançou-se a novos estudos. Os pesquisadores recrutaram voluntários entre funcionários de uma empresa de biotecnologia, dividindo-os em dois grupos aleatórios. Metade formou um grupo de controle, enquanto os 23 restantes receberam treinamento em meditação ministrado por Jon Kabat-Zinn, um dos mais conhecidos mestres americanos da chamada mindfulness meditation. Nesse exercício mental, trata-se de contemplar de forma imparcial e isenta de juízo os pensamentos que passam pela cabeça, como se assumíssemos o ponto de vista de outra pessoa. As aulas ocuparam de duas a três horas semanais, complementadas por uma hora diária de treino em casa.

Como se supunha, o treinamento mental deixou vestígios. De acordo com as medições efetuadas por eletroencefalograma (EEG), a atividade no lobo frontal daqueles que participaram do curso de meditação deslocou-se da direita para a esquerda. Isso refletiu em seu bem-estar: os voluntários relataram diminuição dos medos e um estado de espírito mais positivo.

Entre os que não meditaram, nenhum deslocamento se verificou no padrão das ondas cerebrais. Dessa vez, porém, Davidson conteve-se na avaliação de seu estudo, que não autorizaria conclusões definitivas. Mas é provável que, em segredo, tenha se alegrado com a perfeição com que os novos resultados corroboravam sua hipótese inicial: a meditação é capaz de modificar de forma duradoura a atividade cerebral. E, ao que parece, isso funciona não apenas para os mestres da reflexão espiritual, mas também para leigos.

Emoções básicas

Nesse meio tempo, Paul Ekman, uma das estrelas da cena neurocientífica, interessou-se também pela figura do monge. Na verdade, o psicólogo da Universidade da Califórnia, em São Francisco, ocupa-se das emoções básicas, ou seja, daquelas reações emocionais fundamentais que nos são inatas - o susto que nos faz tremer as pernas, por exemplo, quando um rojão explode inesperadamente perto de nós. Respondemos de forma automática a esses ruídos súbitos, graças ao startle reflex, o reflexo de susto. Dois décimos de segundo após a explosão, sempre os mesmos cinco músculos da face se contraem e, passados outros três décimos de segundo, nossa expressão facial se descontrai. Essa reação de susto é sempre idêntica em todas as pessoas, e isso porque, simplificando, assim é o "cabeamento" do cérebro. Como todos os reflexos comandados pelo tronco encefálico, também essa reação escapa ao controle da consciência, isto é, não se deixa reprimir intencionalmente. É, pelo menos, o que reza o estágio atual do nosso conhecimento.

Que, no entanto, nem todos se assustem com a mesma intensidade era uma questão que interessava Ekman havia algum tempo. O motivo é que a intensidade individual da contração muscular permite inferir o estado de espírito de uma pessoa. Quem sente emoções negativas com freqüência - em especial, medo, raiva, pesar e nojo - apresenta um startle reflex bem mais pronunciado que pessoas tranqüilas.

Por essa razão, Ekman estava autorizado a esperar uma reação de susto abaixo da média ao testar um lama budista e solicitar-lhe que buscasse ocultar ao máximo a inevitável contração muscular. Ainda assim, o resultado o deixou perplexo, uma vez que praticamente nada se moveu no rosto do monge. "Quando ele tentou reprimir o susto, a reação quase desapareceu", relatou Ekman, incrédulo. "Nenhum pesquisador jamais encontrou alguém capaz de fazer isso." Nem mesmo um som tão alto como um tiro de revólver assustou o lama. O motivo, na explicação do próprio monge: meditação. "Enquanto eu rumava para o estado aberto, a explosão me pareceu mais suave, como se eu estivesse bem longe." Bastante espantoso, do ponto de vista neurocientífico, é que o monge obviamente conseguiu, por força da vontade, modificar uma reação do cérebro que, na verdade, é automática.

Ao que parece, o órgão do pensamento dos budistas em meditação funciona de modo diferente da massa cinzenta do homem comum - mas como? Em busca de respostas, Olivia Carter e Jack Pettigrew acabaram indo parar na parte indiana do Himalaia, em direção a Zanskar, onde se encontram mosteiros budistas muito antigos. Lá, os pesquisadores da Universidade de Queensland, Austrália, investigaram um fenômeno de que a ciência vem se ocupando desde o século XVI: a chamada rivalidade binocular ou perceptiva.

Em geral, não constitui problema para o cérebro fundir numa única imagem a informação visual recebida pelos olhos. Os "instantâneos" percebidos pelos olhos direito e esquerdo encaixam-se à perfeição, porque ambos os lados contemplam a mesma cena. Mas o que acontece quando, por meio de um aparelho apropriado, cada olho vê uma imagem diferente - digamos, o esquerdo, listras azuis horizontais, e o direito, listras azuis verticais? Não podemos ver as duas coisas ao mesmo tempo, razão pela qual o cérebro resolve a disputa de forma diplomática: primeiro, decide-se por uma das imagens para, então, passados alguns poucos segundos, mudar para a outra. E sai pulando daqui para lá e de lá para cá: nossa percepção consciente alterna sem cessar as imagens percebidas por um olho e pelo outro.

Decerto, se concentrarmos toda a nossa atenção numa das imagens, ela se manterá por mais tempo diante do nosso olho interior, mas essa forma de balizamento é bastante limitada. Algumas características das imagens modulam a rivalidade binocular. Se confrontados a um só tempo com um estímulo visual fraco (finas linhas verticais, por exemplo) e outro forte (um grosso traço horizontal), voluntários vêem o último por mais tempo. Em virtude desses dois efeitos, o fenômeno suscita muita discussão neurocientífica, já que, no fundo, trata-se de como o cérebro regula a percepção visual. A modalidade do estímulo, ou seja, as imagens apresentadas aos olhos, determina para que lado penderá a disputa - ou seria isso algo controlável de forma deliberada?

O controle deliberado é a resposta certa - é o que afirma a descoberta, surpreendente até para especialistas - que o grupo de Olivia Carter trouxe de sua expedição investigativa ao Himalaia. Ao menos, essa é a conclusão que se aplica ao objeto específico de estudo da pesquisadora: 76 monges budistas com intensa prática de meditação, com idade entre 5 e 54 anos. "Na meditação, pessoas experimentadas são capazes de alterar de forma mensurável as flutuações normais do estado de consciência a que a rivalidade binocular induz." Assim resumem os cientistas os resultados obtidos, publicados em junho na revista Current Biology.

Carter solicitou a seus voluntários que praticassem a chamada meditação focada em um só ponto. Eles concentraram-se por inteiro num único objeto ou pensamento. Durante essa prática, ou pouco depois dela, os monges, dotados de óculos especiais, foram obrigados a contemplar ao mesmo tempo dois padrões diferentes - um para cada olho. Com o auxílio do mergulho meditativo, mais da metade conseguiu prolongar nitidamente cada fase das comutações típicas da rivalidade binocular. Alguns foram capazes até mesmo de reter uma imagem por mais de cinco minutos - façanha impensável para os voluntários sem experiência meditativa empregados para comparação, que, em média, limitaram-se a reter cada imagem por 2,6 segundos. O feito, no entanto, revelou-se dependente da técnica de meditação utilizada. Quando, em vez da meditação focada em um só ponto, os monges empregaram outro método - voltado antes a um mergulho interior mais genérico que a um objeto concreto -, a alternância constante das imagens manteve-se a habitual. Decisivo, pois, para a estabilização da percepção visual é não apenas a meditação em si, mas o modo como ela é praticada.

Concentração é tudo

Além da rivalidade binocular, outro fenômeno interessava aos pesquisadores australianos: a "cegueira induzida por movimento". Também ela escapa ao controle consciente - ou, pelo menos, assim se pensava. Nesse tipo de experimento, o voluntário contempla uma grande quantidade de pontos que disparam por uma tela. Entre eles, porém, vêem-se alguns pontos fixos, em geral de outra cor. A requerida concentração nos exemplares em ágil movimento faz com que os imóveis pareçam sumir, como se o cérebro os apagasse. Mas não por muito tempo: volta e meia, eles tornam a se imiscuir por um instante na percepção, e o participante não tem como impedir que o façam.

Um dos monges, no entanto, não teve dificuldade alguma com isso. O eremita, que se dedicava havia décadas e em total solidão ao mergulho interior, pôde perfeitamente eliminar os pontos fixos que em geral afloram cintilantes à consciência. Mais de 12 minutos se passaram até que ele anunciasse o reaparecimento de um deles. A partir das alterações nas funções visuais observadas, a equipe deduziu que, na mente desses mestres da meditação, algumas coisas transcorrem de modo não usual. "Diferentes modalidades de meditação e tempos de treinamento diversos conduzem a modificações de curto e longo prazo no plano neuronal", concluíram os pesquisadores.

Seu colega Richard Davidson vai gostar de ouvir isso, sobretudo porque, em 2004, também ele encontrou outras comprovações dessa tese, graças à ajuda de Matthieu Ricard e de mais sete monges enviados pelo Dalai Lama ao laboratório em Madison. Eram todos mestres da contemplação mental, trazendo na biografia algo entre 10 mil e 50 mil horas de meditação - objetos de estudo ideais para as neurociências, como crê o ex-cientista Ricard: "A fim de verificar que porções do cérebro se ativam em diversos estados emocionais e mentais, são necessárias pessoas capazes de atingir esses estados e permanecer neles com lucidez e intensidade".

No caso dos monges de Davidson, a forma de meditação solicitada foi aquela conhecida como compaixão incondicional: amor e compaixão penetram na mente, fazendo com que o praticante se disponha a ajudar os outros sem qualquer reserva. Os monges deveriam se manter nesse estado por um curto período de tempo e, em seguida, deixá-lo. Enquanto isso, Davidson registraria suas ondas cerebrais com auxílio de 256 sensores distribuídos por toda a cabeça. A comparação com um grupo de novatos na prática da meditação revelou diferenças gritantes. Durante a meditação, a chamada atividade gama sofreu forte aumento no cérebro dos monges, ao passo que mal se alterou nos voluntários inexperientes.

Além disso, essas ondas cerebrais velozes e de alta freqüência esparramaram-se por todo o cérebro dos lamas. Trata-se de um resultado bastante interessante. Em geral, ondas gama só aparecem no cérebro por um breve período de tempo, limitadas não apenas do ponto de vista temporal, mas também em termos espaciais.

Que significado elas têm, os neurocientistas ainda não sabem dizer. Essas ondas cerebrais ritmadas, com freqüências em torno de 40 hz, parecem acompanhar grandes desempenhos cognitivos - momentos de concentração mais intensa, por exemplo. Talvez representem o estado de alerta extremo, descrito por tantos praticantes da meditação, especulam alguns. Portanto, por mais relaxado que um monge budista possa parecer, seu cérebro não se desliga de modo algum enquanto ele medita. Ao contrário: durante o mergulho espiritual, fica evidente que está, na verdade, a toda. "Os valores medidos em Ricard estão de fato acima do bem e do mal", relata o psicobiólogo Ulrich Ott com audível espanto. Mas o que fascina ainda mais o pesquisador é o fato de as estimulações terem atravessado de forma tão coordenada todo o cérebro dos lamas. E a razão do fascínio é que há ainda uma segunda hipótese a respeito do significado e do propósito das ondas gama, hipótese que, aliás, envolve um dos maiores mistérios da pesquisa cerebral: a questão de como surgem os conteúdos da consciência.

Quando tomamos um cafezinho, o que percebemos conscientemente é a impressão geral - os componentes isolados são processados pelo cérebro em diversas regiões. Uma reconhece a cor preta, outra identifica o aroma típico, uma terceira, a forma da xícara e assim por diante. Mas não se descobriu até hoje que área cerebral junta todas as peças desse quebra-cabeça. Por isso, os estudiosos da consciência supõem que os neurônios envolvidos se comuniquem por intermédio de uma espécie de código identificador - a freqüência gama. Quando as células nervosas para "preto", "aroma" e "xícara" vibram juntas a uma freqüência de 40 hz, o cafezinho surge diante do nosso olho interior. De acordo com essa tese - e diversos experimentos parecem confirmá-la -, as ondas gama constituiriam, portanto, um tipo de freqüência superior de controle que sincronizaria e reuniria regiões diversas, espalhadas por diferentes partes do cérebro.

Isso explicaria por que a meditação é tida como um caminho para alcançar outros estados de consciência. Em condições normais, as oscilações gama extremamente coordenadas que Davidson observou nos monges jamais ocorreriam, acredita Ott. "Se todos os neurônios vibram em sincronia, tudo se unifica, já não se distingue nem sujeito nem objeto. E essa é precisamente a característica central da experiência espiritual."

Mesmo antes da meditação, a atividade gama no cérebro dos monges era visivelmente mais intensa que no restante dos voluntários, em especial sobre o córtex frontal esquerdo, tão decisivo para o equilíbrio emocional.

Na opinião de Davidson, essa é mais uma prova de que, pela via da meditação - ou seja, do trabalho puramente mental -, é possível modificar aspectos específicos da consciência e, portanto, da personalidade como um todo. "As conexões no cérebro não são fixas. Isso quer dizer que ninguém precisa ser para sempre o que é hoje." Disso, Ricard não tinha dúvida nenhuma, mesmo antes de sua visita a Madison: "Meditação não significa sentar-se embaixo de uma mangueira e curtir o momento. Ela envolve profundas modificações no ser. A longo prazo, nos tornamos outra pessoa".
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sábado, 13 de janeiro de 2007

Apostas metafísicas

- Você já começou 2007?

Mônica me pergunta de repente, num e-mail. Estamos trabalhando juntos em mais uma edição do newsletter de nosso centro de meditação. Organizada, eficiente e gentil, Mônica é a editora. Eu faço o copidesque das traduções. O copidesque, do inglês "copy desk", é a revisão semântica do texto. No caso de uma tradução, tenta-se alcançar o máximo de clareza e fluidez sem sacrificar o sentido literal do texto. Para quem gosta de palavras, é um trabalho delicioso, quase um jogo.

Mas, como ia dizendo, a pergunta de Mônica me surpreendeu e ainda mais seu desdobramento. Ela passou o Ano Novo servindo em um curso de dez dias de meditação e por isso "nem tive tempo de pensar 2007 ainda". E, logo em seguida, especula: "Talvez isso seja bom. Fica como se fosse um contínuo sem fim ou início."

De cara, concordei com ela. A vida de cada um é mesmo um contínuo, que nada tem a ver com as marcações do calendário, pensei, taxativo. Mas logo me dei conta que não é bem assim. Aliás, é exatamente o contrário!

O calendário pode ser tudo, menos arbitrário: o ano, com suas estações fiéis e precisas, é tão natural como os dias e as noites. Na verdade, o relógio e o calendário fazem belíssima e rigorosa simetria com o mundo.

Por outro lado, o fio da vida não se interrompe simplesmente a cada ano, como se recomeçasse do zero. Claro que não. Mas é inegável também que cada ano é como um ciclo e, se dezembro convida a um balanço, janeiro é tempo de projetos - seja de começo, de fim, ou de simples continuidade.

Fui divagando enquanto escrevia para Mônica uma resposta entusiasmada e um tanto obscura porque feita no improviso da sucessão de idéias nunca antes pensadas. Fui vendo que a vida oscila entre esses dois tempos: um íntimo, contínuo, ainda que sujeito a seus altos e baixos. E outro, comum, mundano, marcado por ciclos e cortes.

O tempo íntimo, que parece correr por uma estrada sem fim e sem volta, é nossa alma, a marca de Deus em nós. O tempo mundano é o tempo do corpo, finito e perecível.

Somos corpo, somos alma. E, por mais dolorosa que essa dupla identidade possa ser às vezes, não há nisso contradição. A finitude é o preço que pagamos pela singularidade. Só Deus é singular e infinito. Ensinar a alma infinita a ser singular é a missão do corpo. O corpo ensina a alma a ser Deus. Ou devia. Que às vezes - ou quase sempre! - pareçamos tão distantes disso é o que nos faz pensar em encarnações sucessivas ou no mais grosseiro materialismo, em que tudo se encerra com a morte.

Para Pascal, tal dilema se reduzia a uma aposta cega. Descartes, seu contemporâneo, acreditou ter demonstrado a imortalidade da alma. Fé, ceticismo e meditação são caminhos. Ou talvez até, estações do caminho. A verdade, no entanto, é inesgotável: quanto mais apuramos nossa atenção, mais fundo penetramos nela.
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Presidência da Câmara

Acho que se deveria aproveitar a ambiguidade da expressão "terceira via" e lançar a candidatura do Clodovil. Ele é a cara do Chinaglia (ou vive-versa) e vai que os deputados menos entendidos se confudem...
Afinal, não se diz que o Chinaglia é "o homem do Zé Dirceu", que o Zé Dirceu é que está por trás dele, etc?
Então, tudo leva a crer que seria uma disputa pau a pau, dura mesmo.
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terça-feira, 9 de janeiro de 2007

The monkeys!

Cicarelli nunca mais! 2

Do Reinaldo Azevedo, que hoje deu um show nos comentários sobre o caso Cicarelli, que tem tudo pra ser um dos mais sérios candidatos ao prêmio "Mico do ano", com o juiz levando um cacho de bananas-ouro para casa:

"A notícia correu o planeta. Por conta de Daniela, Malzoni e do juiz Andrade Moura, somos hoje, como povo, um pouco mais ridículos, um pouco mais patéticos, um pouco mais bocós, um pouco mais fim do mundo."
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Cicarelli nunca mais!


A arrogância dessa gente parece não ter limite. A menina tornou-se uma figura pública, alguém que vive da exposição pública em programas de TV e anúncios. Aí essa figura pública vai para um local público e pratica atos que a própria lei exige que só sejam realizados privadamente. E agora vem alegar invasão de privacidade? É piada!

Pena que tenha encontrado dois juízes que levaram a sério a piada: o juiz Ênio Santarelli Zuliani, da 4ª Câmara de Direito Privado do tribunal de Justiça de São Paulo, que mandou que "apenas" o link para o vídeo fosse bloqueado, e o juiz Lincon Antônio Andrade de Moura, da 23ª Vara de Justiça de São Paulo, que estendeu o bloqueio a todo o You Tube.

O caminho, sem dúvida, é o boicote proposto no site indicado aí em cima: ligar para MTV, para a Hope, divulgar o nome dos juízes que deram essas sentenças que violam o princípio máximo da liberdade de expressão.

O Brasil assim se alinha a países como a China, Cuba, Bielorussia e Irã. Vejam o relatório do Repórteres sem fronteiras clique.

Eles também criaram e disponibilizam para download o manual do cyber-dissidente que ensina como enfrentar a censura na Internet.

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domingo, 7 de janeiro de 2007

Para ler e pensar

"O amor vive de dar e perdoar e o egoísmo vive de tomar e esquecer."

"Só existe uma religião, a religião do Amor."

"O homem exalta Deus como onipresente, onisciente e onipotente, mas, ele ignora Sua Presença nele mesmo! "

"Não existe criatura sem Amor; a mais inferior ama a si mesma, pelo menos. E este 'si mesmo' é Deus."
Sai Baba
Para saber mais sobre a obra e o pensamento de Sai Baba clique aqui
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Meditação

Ouço o silêncio
E sinto o vento
Em meus ouvidos:
O vento é o sussurro do silêncio.

(No vento vem o cheiro da chuva)
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Feliz Ano Novo

Está um dia tão quieto, tão úmido e chuvoso que nem parece que é Ano Novo.
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